O preço da Coroa Amor ,Sedução e ilusão
4 A Teia dos Blackwood
O fogo crepitava com fúria na lareira de pedra do imponente Castelo de Suffolk, projetando sombras alongadas e alaranjadas pelas paredes cobertas de tapeçarias antigas. O vento uivava do lado de fora das pesadas janelas de vidro chumbado, mas no interior da sala de estar privada dos duques, a atmosfera era ainda mais fria e gélida.
Stefan Blackwood, o Duque de Suffolk, caminhava até o aparador de madeira maciça com passos lentos e medidos. Com luvas de pelica ainda cobrindo as mãos pelo recém-chegado da viagem, ele segurou a garrafa de cristal e serviu duas taças de um vinho tinto encorpado. As chamas refletiam no líquido escuro como sangue.
— A situação em Viena não poderia ser mais extraordinária, Bárbara — disse Stefan, a voz baixa, rasgada pelo cansaço da cavalgada, mas vibrante de pura ambição. Ele atravessou o salão e entregou uma das taças à esposa. — O mar fez o trabalho sujo por nós. O Rei Kenan e a Rainha Seyran estão no fundo do oceano. O Príncipe Richard está completamente cego pelo casamento recente e focado na Suécia ao lado de Genevieve. A Áustria... a grandiosa e rica Áustria... está inteiramente desprotegida.
A Duquesa Bárbara recebeu a taça, os olhos amendoados e perspicazes brilhando com uma inteligência perigosa. Ela levou o cristal aos lábios, tomando um gole lento enquanto saboreava tanto o vinho quanto a notícia. Bárbara era a perfeita personificação da nobreza calculista: cada gesto seu era medido, cada palavra um movimento de xadrez.
— Uma rainha de apenas dezoito anos, recém-coroada e afogada no próprio luto... — murmurou Bárbara, um sorriso frio e satisfeito curvando seus lábios impecavelmente pintados. — Ela deve estar aterrorizada. Um reino imenso nas costas de uma menina traumatizada é uma receita para o colapso. É a oportunidade perfeita para a nossa linhagem expandir o domínio para além da Inglaterra.
— Precisamos agir antes que os outros reinos percebam a vulnerabilidade da corte austríaca — continuou Stefan, cruzando os braços atrás das costas. — Se demorarmos, outros nobres tentarão cercá-la.
— Então não perderemos tempo — Bárbara ergueu o queixo, olhando para a porta de carvalho. — Chame o nosso filho. É hora de usar o melhor recurso que esta família já produziu.
Minutos depois, as pesadas portas de carvalho se abriram com um ranger preguiçoso. Sebastian Blackwood entrou na sala, exalando uma aura de desdém descompromissado.
Aos vinte e quatro anos, Sebastian era a imagem viva do perigo velado por um charme estonteante. Possuía ombros largos, postura ereta e cabelos escuros propositalmente desalinhados que caíam sobre a testa. Seus olhos castanhos, intensos e zombeteiros, carregavam a arrogância inabalável de um homem habituado a ter qualquer mulher aos seus pés. Suas roupas de linho fino e veludo escuro estavam levemente amassadas, o colarinho desabotoado revelando parte do peito — marcas evidentes de mais uma noite inteira gasta em tavernas duvidosas e nos braços de cortesãs locais.
— O que é tão terrivelmente urgente para fazerem os guardas baterem à porta do meu quarto a esta hora da manhã? — debochou Sebastian, sem se dar ao trabalho de saudar os pais.
Ele caminhou até uma poltrona de couro surrado, jogou-se nela com os braços abertos e cruzou as pernas de forma terrivelmente folgada.
— Espero do fundo do meu coração que não seja mais uma palestra moralista sobre meus "excessos" ou sobre qual lady de Suffolk chorou esta semana dizendo que estraguei sua reputação.
— Guarde sua arrogância e suas leviandades para os seus aposentos, Sebastian — ordenou o Duque Stefan, dando um passo firme à frente, a voz retumbando com a autoridade de um lorde. — O que estamos discutindo aqui é a grandeza e o futuro desta linhagem. Você vai arrumar suas malas. Irá para a Áustria.
Sebastian ergueu uma das sobrancelhas, soltando uma risada seca e desacreditada.
— Áustria? O que Diabo eu perdi naquele reino monótono de montanhas e protocolos rígidos? Se for para negociar cavalos ou impostos de lã, mandem um dos seus diplomatas idosos.
— O rei e a rainha da Áustria morreram em um naufrágio devastador há dois dias — explicou Bárbara, aproximando-se do filho com passos felinos e um tom suave, quase venenoso de tão persuasivo. — O trono agora pertence à única herdeira direta presente em Viena: Claire Mackenzie. Uma menina de dezoito anos, ingênua, completamente sem experiência política e despedaçada pela perda dorida dos pais.
Sebastian franziu o cenho por um instante, o sorriso debochado vacilando levemente antes de voltar com ainda mais sarcasmo.
— E os senhores querem que eu viaje milhares de milhas para bancar o conselheiro caridoso? O cavalheiro de luto que segura a mão da orfãzinha? Por favor, mãe. Sabem muito bem que reuniões de corte me dão náuseas e que dramas femininos me aborrecem em cinco minutos.
— Não queremos um diplomata ou um consolador, Sebastian! — esbravejou Stefan, impaciente, batendo a taça de vinho na mesa lateral de madeira com tanta força que o líquido espirrou pelas bordas. O duque inclinou-se sobre a poltrona do filho, os olhos cravados nos dele. — Queremos o canalha sedutor que você é! Você vai se infiltrar no Palácio de Viena, vai usar cada truque, cada olhar e cada palavra mansa que usou com as mulheres de Suffolk e fará aquela garota se apaixonar desesperadamente por você. Você vai se casar com a rainha da Áustria!
As palavras ecoaram no salão. Sebastian parou de balançar o pé. A expressão divertida desapareceu de seu rosto de forma abrupta, substituída por um franzir de testa carregado de contrariedade e irritação.
— Casamento? — Sebastian levantou-se da poltrona de um pulo, a postura ereta e confrontadora. — Ficaram loucos? Vocês me conhecem! Sabem perfeitamente que eu não nasci para me prender a uma única mulher, muito menos a uma aliança sagrada no altar. Eu aprecio a minha liberdade, as noites sem compromisso, a variedade, o prazer sem amarras... Querem que eu me acorrente a uma garotinha chorosa, virgem e cheia de escrúpulos pelo resto da minha vida?
— Deixe de ser fútil e tolo! — bradou o duque, encarando o filho olhos nos olhos. — Não estamos falando de um matrimônio medíocre de província! Estamos falando de tomar o controle de um dos impérios mais ricos da Europa! Com a rainha sob o seu domínio psicológico e emocional, você será o verdadeiro rei de facto da Áustria! As riquezas do tesouro, a força das tropas, os territórios... tudo passará pelas nossas mãos!
Bárbara colocou-se calmamente entre o marido e o filho. Ela ergueu a mão delicada, pousando as pontas dos dedos no peito de Sebastian, sentindo o ritmo acelerado de sua indignação.
— Pense além do contrato, meu filho — sussurrou a duquesa, a voz aveludada carregada de fascínio. — Não veja isso como uma prisão. Veja como o jogo mais fascinante e perigoso que você já jogou. Uma garota pura, ruiva, marcada pela dor e que nunca conheceu o toque ou as mentiras de um homem... Será realmente tão difícil para o grande Sebastian Blackwood fazer com que ela caia de joelhos aos seus pés? Encare isso como o seu maior troféu de sedução.
Sebastian manteve o olhar fixo no fogo que estalava na lareira.
A ideia de abrir mão de sua vida desregrada e de suas noites de libertinagem na Inglaterra o causava repulsa imediata. No entanto, à medida que as palavras da mãe ecoavam, a semente da ambição e do orgulho ferido começou a brotar em seu peito. Ele era um caçador por natureza. A perspectiva de dominar não apenas uma mulher, mas uma rainha inteira — de dobrar a vontade de uma jovem intocada e governar um império a partir da cama dela — começou a acender um brilho sombrio e estimulante em seus olhos.
Um sorriso lento, perigoso e carregado de malícia começou a desdobrar-se em seus lábios. Ele ergueu a mão, girando devagar o pesado anel de selo de ouro em seu dedo mindinho.
— Uma jovem rainha ruiva, indefesa e cheia de ilusões... — murmurou Sebastian, a voz descendo para um tom grave e calculista. — Muito bem. Se o preço para ter um reino aos meus pés é representar o papel do homem perfeito, eu farei o espetáculo da vida dela. Farei com que a linda Claire acredite que encontrou o salvador da sua alma e o amor da sua vida... antes que ela perceba a gaiola de ouro em que se trancou.
O Duque de Suffolk sorriu com aprovação, dando um tapinha firme e pesado no ombro do filho.
— Esse é o meu rapaz. O navio e a escolta estarão prontos ao amanhecer. Prepare suas malas, Sebastian. A sua caçada em Viena começa amanhã.
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