O preço da Coroa
14 O Ritmo do Coração
A atmosfera nos aposentos reais mudou. O som dos talheres de prata parou, substituído pelo estalar reconfortante da lenha na lareira de pedra. Dhorwack observava Malya terminar sua sopa, a luz do fogo dançando em sua trança ruiva. Ela parecia pertencer ali, com suas roupas de linho gasto, mais do que qualquer dama de seda que já pisara naquele tapete.
Dhorwack levantou-se lentamente, contornando a mesa. Ele não era mais o monarca distante; era um homem hipnotizado por uma força da natureza que se recusava a ser domada.
— Você disse que eu sou apenas um homem com fome, Malya do Oeste — começou ele, parando a poucos centímetros dela. — E você está certa. Mas a fome que sinto agora não é de sopa ou vinho. É da vida que vi você exalar ontem à noite, sob a luz da fogueira.
Malya levantou o olhar. Não havia medo em seus olhos verdes, apenas uma curiosidade faísca.
— O senhor quer o quê? Que eu traga o Liam e o alaúde para cá? Acho que a etiqueta do castelo não aguentaria.
Dhorwack soltou uma risada curta, o som mais genuíno que saíra de seu peito em meses.
— Não. Eu quero que você me ensine. Me ensine a dançar como o seu povo. Me ensine a esquecer que estas paredes são feitas de gelo e que eu carrego o peso de um reino nas costas.
Malya sorriu, um sorriso largo e desafiador. Ela se levantou, a saia de camponesa balançando levemente.
— O senhor quer dançar a "Dança da Terra"? Com essas botas pesadas de rei e esse veludo todo? — ela tocou o peito dele, sentindo o bater acelerado do coração sob o tecido caro. — O senhor vai tropeçar na própria arrogância antes do primeiro compasso.
— Eu arrisco — disse ele, a voz baixando. — Se a professora for paciente.
Malya deu um passo para trás, criando espaço no centro do quarto, onde a luz da lareira era mais forte.
— Paciente eu não sou, Majestade. Mas sou boa no que faço. Primeiro: tire essa túnica de veludo. Ela prende os movimentos e cheira a formalidade. E as botas. A "Dança da Terra" precisa sentir o chão, mesmo que seja esse tapete persa ridículo.
Dhorwack obedeceu sem questionar. Ele despiu a túnica pesada, ficando apenas com a camisa de linho preto com os primeiros botões abertos, e chutou as botas para o lado. Seus pés descalços tocaram o tapete, e ele sentiu uma liberdade que não experimentava desde a infância.
— Agora — Malya aproximou-se, pegando as mãos dele. As mãos dela eram firmes, calejadas pelo trabalho, e quentes. — Não há música. O som é o estalar da lenha e o bater dos nossos pés. O ritmo... o ritmo é o seu coração. Escute-o. Ele está batendo rápido.
Ela começou a mover os pés em um passo rítmico, batendo o calcanhar no chão. Dhorwack tentou acompanhar, desajeitado no início, os movimentos rígidos pela etiqueta da corte.
— Mais solto! — comandou ela, rindo. — O senhor não está inspecionando tropas, está celebrando a vida! Solte os ombros. Deixe o ritmo subir pelas pernas.
Ela começou a girar ao redor dele, a saia verde criando um turbilhão de movimento. Dhorwack, contagiado pela energia dela, começou a relaxar. Seus passos tornaram-se mais fluidos, seus giros mais seguros. Ele não estava mais pensando em decretos ou guerras; estava focado no sorriso de Malya e na maneira como ela se movia, como se fosse parte da própria fogueira que ele vira no vilarejo.
— Viu? O senhor não é tão duro quanto parece — disse ela, girando para os braços dele.
Eles pararam, ofegantes, no centro do quarto. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som de suas respirações apressadas e pelo estalar da lenha. Dhorwack segurava Malya pela cintura, e ela mantinha as mãos nos ombros dele. O rosto dela estava corado pelo esforço, e o perfume de sabão de ervas e ar fresco estava mais intenso do que nunca.
O clima esquentou. Não era apenas o calor da lareira ou da dança. Era a eletricidade entre duas almas que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado um ritmo comum.
Dhorwack aproximou o rosto do dela, o olhar fixo nos lábios entreabertos de Malya. Ele podia sentir o calor emanando dela, a força da vida que ele tanto desejava.
— Você é perigosa, Malya do Oeste — sussurrou ele, a voz rouca de desejo.
— O senhor também não é um cordeiro, Rei Mackenzie — respondeu ela, sem recuar, os olhos verdes brilhando com uma mistura de audácia e convite.
Ele não resistiu. Dhorwack inclinou a cabeça e selou seus lábios nos dela. Não foi um beijo de etiqueta ou protocolo. Foi um beijo de fogo e gelo, de terra e trono. Foi o encontro da força de um rei com a liberdade de uma camponesa. As mãos de Malya se enredaram no cabelo dele, enquanto ele a puxava para mais perto, como se quisesse absorver toda a vida que ela exalava.
Naquela madrugada, no silêncio dos aposentos reais, o gelo do Castelo Mackenzie finalmente começou a derreter.
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