O preço da Coroa

15 O Pacto das Sombras


O beijo que selou aquela madrugada não foi apenas um ato de paixão, mas uma declaração de guerra contra tudo o que o castelo representava. Quando se afastaram, ofegantes, os olhos de Dhorwack não buscavam mais o mapa do reino na mesa, mas a profundidade do olhar verde de Malya.

​Ele a segurou pelo rosto, os polegares acariciando as maçãs do rosto coradas.


​— Se o mundo lá fora souber disso agora — sussurrou Dhorwack, a voz ainda rouca —, eles usarão você para me ferir. E usarão a mim para destruir a sua liberdade. Carlos e Urtred estão apenas esperando um deslize para dizerem que o Rei enlouqueceu por uma "feiticeira do oeste".

​Malya sustentou o olhar, a língua afiada dando lugar a uma seriedade cortante.

— Eu não sou de porcelana, Mackenzie. Sei me defender. Mas sei que um rei que perde o respeito do seu povo por causa de uma criada não dura muito tempo no trono. E eu... eu gosto desse castelo um pouco mais agora que você tirou as botas de ferro.

​Dhorwack sorriu e encostou a testa na dela.

— Então, faremos um pacto. À luz do dia, você continuará sendo a criada insolente que reclama da minha sopa e traz o meu chá. Você me tratará com a distância que o protocolo exige perante os olhos dos outros. Mas quando o sol se puser e as tochas se apagarem...

​— ...Eu serei a mulher que te ensina a dançar e te lembra que você é humano — completou ela, selando o acordo com um selinho rápido e audacioso. — Mas aviso: se você olhar para aquela Baronesa de um jeito diferente durante o dia, eu coloco sal no seu chá na frente de todo mundo.

​Dhorwack riu, uma risada que vinha do fundo do peito.

— É um risco que estou disposto a correr.

​O Jogo de Máscaras

​Nas semanas seguintes, o Castelo Mackenzie assistiu a um espetáculo de atuação digno dos melhores teatros. Durante o dia, Malya era a eficiência personificada, embora sua "língua afiada" continuasse sendo a marca registrada que fazia o Rei revirar os olhos — secretamente divertindo-se — na frente dos ministros.

​— Majestade, sua postura hoje está pior que a de um espantalho no campo — dizia ela ao servir o desjejum na frente de dois generais.

​Dhorwack apenas bufava.

— Retire-se, Malya. Suas observações não foram solicitadas.

​Os generais trocavam olhares, rindo da "pobre criada sem modos", sem imaginar que, poucas horas antes, aquelas mesmas mãos que seguravam a bandeja estavam entrelaçadas nas do Rei sob os lençóis de seda negra.

​O pacto funcionava. Dhorwack recuperou o brilho nos olhos e a firmeza no comando. Ele começou a investir em melhorias para os vilarejos do Oeste, usando "conselhos anônimos" que recebia durante as madrugadas. Malya, por sua vez, tornou-se os olhos e ouvidos do Rei entre o povo, filtrando quem era leal e quem estava sendo subornado por Carlos Vanderbit.

​No entanto, o segredo começou a pesar. A Baronesa Genevieve, que não engolira a expulsão, começou a notar que Malya passava tempo demais "limpando" os aposentos reais e que o Rei não parecia mais tão solitário quanto antes.