O preço da Coroa

30 ​O Despertar do Lobo


O silêncio que se abateu sobre o pátio do castelo após a partida de Malya foi mais ensurdecedor do que qualquer explosão. Dhorwack ficou estático, com as mãos vazias que segundos antes seguravam as rédeas do cavalo da esposa. Ele olhou para as muralhas e viu os rostos dos soldados ingleses e dos poucos nobres restantes: todos testemunharam a queda do Rei que, por um momento de fraqueza nostálgica, expulsou a alma do seu reino.


​Dhorwack voltou para a biblioteca a passos largos. Hadassa estava lá, sentada em uma poltrona, retocando o cabelo com um olhar de falsa complacência.

​— Ela sempre foi temperamental, Dhorwack — disse Hadassa, a voz suave como veneno. — Deixe-a ir. O Oeste logo esquecerá essa rebeldia quando perceberem que o ouro de Mackenzie ainda...

​— CALADA! — O rugido de Dhorwack fez os vidros das janelas vibrarem. Ele avançou como um animal ferido, parando a centímetros dela. — Você não é uma conselheira. Você é uma sombra que tenta apagar o sol. Eu destruí alianças de séculos por ela. Eu desafiei o Papa por ela. E você achou que poderia se sentar no lugar que ela conquistou com sangue e fogo?

​Ele apontou para a porta com o dedo trêmulo de fúria.

— Guardas! Levem-na para as masmorras da ala leste. Ela não verá a luz do dia até que eu decida se a entrego de volta a Urtred ou se a mando para o exílio em uma ilha deserta. Se ela abrir a boca para um único criado, cortem-lhe a língua!

​Hadassa empalideceu, o rosto de porcelana trincando de pavor enquanto era arrastada pelos guardas que, leais à "Rainha das Cinzas", não tiveram delicadeza alguma.

​A Perseguição Sob a Tempestade

​Sem coroa, sem escolta e sem aviso, Dhorwack correu para os estábulos. Ele selou seu próprio cavalo negro, o animal bufando sob a chuva que começava a cair torrencialmente, como se os céus chorassem a partida de Malya.

​— Majestade! — gritou um oficial de Henrique Tudor. — É perigoso ir sozinho! A estrada para o Oeste está cheia de batedores de Urtred!

​— Eu já perdi o meu reino hoje — gritou Dhorwack, montando no cavalo. — Se eu não recuperar a minha mulher, não haverá trono para defender amanhã!

​Ele partiu como um raio, cruzando os portões sob a chuva fustigante. Ele cavalgou por horas, seguindo os rastros de lama deixados pelo contingente do Oeste. Seu coração batia no ritmo dos cascos: Malya... Malya...

​Ele a avistou quando a lua já estava alta, escondida entre as nuvens negras. Malya e Liam estavam acampados em uma clareira protegida por rochas. Os arqueiros do Oeste retesaram os arcos assim que viram o cavaleiro solitário, mas Malya levantou a mão, reconhecendo a silhueta do homem que ela jurara esquecer.

​Dhorwack desmontou antes mesmo do cavalo parar totalmente, caindo de joelhos na lama diante dela, encharcado, exausto e sem qualquer vestígio de realeza.

​— Malya... — ele ofegou, a voz falhando. — Ela se foi. Eu a joguei nas masmorras. Não há conselho, não há passado, não há nada além de você. Eu fui um tolo, um homem cego pela poeira de uma história que já morreu.

​Ele estendeu as mãos, sujas de terra.

— Não volte pelo Rei. Volte pelo homem que não consegue respirar neste castelo se o ar não tiver o seu cheiro de lenha e liberdade. Se você não voltar, eu ficarei aqui, nesta lama, até que o inverno me leve.

​Malya olhou para ele de cima do seu cavalo, a chuva escorrendo pelo seu rosto, misturando-se às lágrimas que ela se recusava a mostrar.