O portador da lua
1 Serenatas para a lua
Notas iniciais
Naquela noite, Selene afagava distraidamente sua gatinha de estimação enquanto lia um de seus diários antigos, vendo seu mau conhecimento sobre a língua portuguesa, até que se assustou com um barulho que não ouvia desde que... bom, desde que visitou sua querida Avó. Bem lentamente, Selene se esgueirou pela janela e observou, o mais discreta possível, se era o que pensava. O horror foi inevitável. O grande lobo se encontrava ali embaixo de sua janela, uivando como se fosse uma serenata dedicada especialmente a ela. A garota quase teve um enfarte. Ou infarto. De qualquer forma, a garota não estava se sentindo bem. Correu para vomitar no banheiro, suava frio e sentia todo o seu sangue correndo rápido, tanto que podia ouvir seu coração, ou alguma veia dele, em sua cabeça. Não poderia ter surpresa pior. Tentou dormir, tentou mesmo, mas os uivos impossibilitaram qualquer chance de relaxar que a chapeuzinho vermelho tinha.
Selene ouviu sua mãe se levantar da cama. Ela sabia que isso iria acontecer. A mãe a superprotegia tal como uma águia aos seus filhotes, e Selene gostava disso. Ela queria abraçar a mãe e se esconder do lobo que cantava debaixo de sua janela.
Chapeuzinho pegou o cobertor e o enrolou no corpo, tentando se proteger do barulho. A mãe abriu a porta de seu quarto segundos depois, super preocupada.
– Filha, está tudo bem?
– O lobo, mãe... – Foi tudo o que conseguiu responder. Apontou a janela para a mulher, que entendeu perfeitamente e se dirigiu para lá.
Selene pôde ver o rosto da mãe empalidecer ao avistar o monstro lá embaixo. As mãos dela tremiam ligeiramente. O lobo emitiu seu último e cortante uivo, como um som de queixa por ter sido interrompido.
– Sai! Sai daí bicho feio!
O animal lançou um olhar à mulher o qual Selene nunca notaria, então se virou e correu para a floresta.
A mãe estava nervosa.
– Essa maldita criatura, não acredito que voltou para nos atormentar, o diabo. Pra que fomos morar no meio do mato? Isso é uma grande armadilha. Esse bicho desgraçado precisa morrer. Vou pedir ao pai de Stefan para ter mais cuidado daqui pra frente. Vem filha, dorme no meu quarto.
Selene concordou sem pestanejar. Sua mãe tinha razão e, além do mais, ela temia o lobo mais que qualquer outra coisa.
=//=
No dia seguinte, Selene olhava nervosa a sua volta enquanto colhia frutas no pomar. Sua capa vermelha agitava-se com a brisa. Ela esperava que o lobo surgisse de algum lugar, de alguma sombra.
Mas não aconteceu.
– O que houve Lene? – Perguntou sua amiga, Carmem.
Selene apertou uma laranja na mão. Ela temia ouvidos alheios, entretanto, eram as únicas ali naquele lado do pomar. Olhou para os lados e se aproximou de Carmem.
– Noite passada... – Contou, relutante – O lobo apareceu embaixo da minha janela e começou a uivar.
– Um lobo?!
– Não, Carmem. O lobo.
A garota ruiva se assustou. Era uma surpresa tanto para ela quanto para Selene, pois Carmem conhecia a história e sabia no que ela resultara, sabia dos terríveis medos da amiga. Apesar disso, pousou, solícita, a mão no ombro de Selene, um pouco mais baixo.
– Não se preocupe demais. Stefan provavelmente vai caçá-lo, tirar a pele e a cabeça e entregá-las a você como prova do seu amor. – Na última sentença, a raposa fingiu ar sonhador e suspirou dramaticamente, contrária a expressão enojada de Selene e seu estremecer.
– Argh, não quero a cabeça daquele monstro na minha parede, me olhando, nem a pele dele. Ui. Se Stefan fizer isso, não importa o que minha mãe pensar, não vou mais aceitá-lo como pretendente.
Carmem riu, feliz por ter distraído a amiga e com o que falavam.
– E que pretendente. Lindo, forte, machão...
– Tá, certo, certo. Stefan é bonito mesmo, mas eu só quero que aquela desgraça vá embora.
– Ah, vai ficar tudo b...
A ruiva caiu em cima de Selene antes de terminar a frase. Felizmente a chapeuzinho conseguiu segurá-la, e o motivo da queda rosnou no instante seguinte.
– Abra espaço para eu passar, sua sardenta feiosa. – Maria expeliu veneno – Não quero ter que tocar em você o tempo todo para tirá-la do caminho.
– Claro, vou acabar pegando doenças.
– Haha, feiosa. Quem passa doenças aqui é você. Já falei que apostei com Hanna que qualquer garoto que se apaixone por você se arrependerá em menos de uma semana, mas Hanna contradisse e eu acho que ela tem razão. Ela disse que nenhum garoto gostará de você, eles já fogem logo que veem a sua cara.
– Sua...
Carmem cerrou os punhos e trincou os dentes. Uma vontade louca de bater no rosto perfeito da loira a contagiou, entretanto, Selene a conteve.
– Calma, não vale a pena.
– É, ouça a chapeuzinho. Aliás, Selene, por que não se esconde em casa, rata medrosa? Agora, não tenho tempo para isso. Até mais, perdedoras.
– Eu. Vou. Matar. Aquela. Vaca.
– Aquieta o coração. Ela ladra, mas não morde. Vamos só continuar como se nada houvesse acontecido.
O rosto rubro da ruiva não se estabilizou. As sardas avermelhadas enfatizavam a impressão de que ela estava prestes a explodir e de uma cabeça de fósforo pegando fogo.
Aos poucos, Carmem se acalmou, relaxou as mãos crispadas e respirou fundo. Sua expressão perdeu alguns tons de vermelho e ela olhou Selene com olhos azuis sérios.
– Um dia ainda estrangulo ela, porém, é hora de falar do verdadeiro problema. Eu ia dizer “vai ficar tudo bem” quando a bonequinha interrompeu. Queria perguntar: Quem mais sabe?
Selene não decidia se ficava grata pela retomada do assunto. Suas mãos tremiam com o mera lembrança da noite. Principalmente ali, as duas sozinhas no pomar.
– Acho que apenas a minha mãe. Não sei se ela já contou ao Caçador ou ao Stefan. Provavelmente sim. Eu não quero que a notícia se espalhe. Causará pânico nos aldeões.
– Tem razão – Refletiu Carmem – Se bem que, caso muitos souberem, mais pessoas poderão te proteger.
Chapeuzinho negou, a cabeça baixa. Ela pensara na possibilidade antes.
– Não, só irão ficar com raiva de mim se o lobo matar alguém por minha culpa.
A menina sentia-se extremamente responsável pela besta estar cercando o vilarejo. Carmem pousou as mãos novamente nos ombros dela, sem conseguir admitir o engano que era concebido como verdade no coração de Lene.
– Não é e nunca será, culpa sua.
Impressionante como sua voz soava maternal.
– É, sim. Se eu não tivesse falado com ele naquele dia, de burra e inocentinha que fui, ele não teria devorado a vovó... E regressado agora. Não, a responsabilidade cabe a mim.
Raposa a abraçou. Ela sabia que tirar uma ideia da mente de Selene era quase impossível. Tal qual acabar com seus medos. A ruiva pensava no que a amiga precisava para ser mais corajosa, mais confiante, até. Um bom susto, uma situação de perigo, para enfrentar seus pesadelos. Apesar de existir a possibilidade dela se tornar mais nervosa.
Um grito interrompeu o momento. Os braços de Selene paralisaram, sua capa se agitou ao vento. Ela imaginou a cena: Um lobo grande e marrom invadia a aldeia e corria em direção ao pomar em busca da presa fugitiva, matando qualquer pessoa no caminho.
No entanto, a situação era contrária. Não muito menos trágica, claro. Contrária. Selene conseguiu soltar Carmem e se virar na direção da pessoa que gritava “Meninas! Meninas!” com voz esganiçada e olhos arregalados. Era Elfo, o irmão menor de Carmem. O garoto disparou para elas, ambas o ampararam enquanto ele se apoiava nos joelhos, ofegante.
– Calma, calma, maninho. O que aconteceu para você vir aqui tão agitado?
– É... Sara... Marido... Encontraram a cabeça... Pegadas...
– Espera, começa de novo.
Elfo fitou a irmã, respirou fundo e articulou a frase claramente:
– Encontraram a cabeça e algumas partes do corpo do marido de Sara, tudo estripado, espalhado e coberto de sangue na floresta. Sara está em choque. Junto das partes estavam pegadas grandes de lobo.
Chapeuzinho arfou. Sim, a culpa era toda dela.
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