O poder do perdão
14 capítulo 13
EDUARDO
Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros
Meu corpo viraria sol
Minha mente viraria ar
Mas só chove, chove
Chove, chove
Chego no consultório, fica em um prédio comercial bonito, no segundo andar. Após falar com a recepcionista espero até que um senhor com cabelos brancos chama me. Entro na sua sala, aconchegante.
—Olá Eduardo, sinta se a vontade.
O psicólogo passa uma tranquilidade. Sento em um sofá a frente aonde ele senta.
—Oi Doutor Joseph.
—Sem doutor, por favor. O que te traz aqui, Eduardo?
—Minha namorada trata se com o senhor. Emili Lacerda. Preciso entendê-la melhor para a ajudar.
—Não posso falar sobre o que falo com ela com você, sigilo. Mas podemos falar sobre o trauma para que você talvez possa compreendê-la. Traumas psicológicos ou evento Traumático são sequelas emocionais deixadas por uma experiência que causou imenso dor e sofrimento ao traumatizado, tal experiência afetam profundamente o comportamento, pensamento e sentimentos do indivíduo que fará de tudo para evitar reviver ou relembrar qualquer fato ligado ao que lhe traumatizou. É normal o paciente se sentir culpado e impotente, a mágoa e o rancor tornam as pessoas reféns do passado, fazendo com que algo que aconteceu há muito tempo seja eternizado. Quando se fala para o paciente sobre a questão do perdão ele se opõe como se a mágoa forma de vingança, de revanche. Na verdade, o único prejudicado com as mágoas é ele próprio mesmo. É importante a pessoa libere perdão e se livre dos fantasmas do seu passado, esse não é um processo fácil e tem muita coisa em jogo, mas é necessário compreender a importância que esse passo tem. As revivências costumam carregar consigo sentimentos confusos e conflitantes, aliás são esses sentimentos somados a incapacidade de compreender o que se passou os responsáveis pelo traumatizado torna-se um prisioneiro do passado. Consegue entender, Eduardo?
—Sim.
-Entre os médicos, psicólogos, psiquiatras e inclusive sacerdotes, é bem conhecida a chamada "Síndrome pós-aborto". Designa o quadro patológico que compreende um complexo de sintomas fisiológicos, psicológicos e espirituais, desencadeados depois da realização de um aborto procurado, voluntário. Afeta fundamentalmente às mulheres que abortaram, mas também pode verificar-se em distintos graus em outros que intervieram no fato: o pai da criança, os médicos e o pessoal abortista.
Os sintomas que se manifestam estão em relação direta com as razões pelas quais se abortou, o tempo da gravidez, a relação entre os pais da criança, os passos que se deram na decisão e as influências que se sofreram durante o período traumático da decisão. Apesar de muitos médicos e psicólogos assinalarem que os transtornos que apresentam as mulheres depois do aborto são algo meramente "emocional e psicológico", uma sã psiquiatria demonstra que se trata de algo muito mais sério, de ordem patológica que pode agrupar-se em alguns tipos de problemas.
Joseph faz uma pausa.
—Como pesar e dor: Toda perda gera um estado de duelo; e é muito mais difícil superar a dor de um aborto provocado que a de um aborto espontâneo produzido pela natureza mesma, e isto por várias razões: a pessoa sabe que é culpada da perda, não tem possibilidades de visitar o corpo morto da criança, houve um trabalho de autoconvencimento de que não se tratava de um ser humano, curiosamente este trabalho de autoconvencer-se deixa na pessoa um maior sentimento de culpa porque sabe que teve que procurar argumentos para justificar um ato ao que não a inclinava espontaneamente sua consciência. Quando as dores não são superadas conduzem à depressão. A depressão pode alterar o sistema imunológico e com isto se aumenta o risco de contrair infecções e inclusive, em casos extremos, constatou-se o início de processos cancerígenos. Também ocorreu que pessoas que têm caído em estados depressivos agudos, transformaram-se logo em personalidades psicopáticas.
—Sentimento de culpabilidade: Em muitos estudos se observou que quando não há sentimento de culpa costuma dar-se uma tendência ao álcool ou a dependência de drogas; por outro lado, quando há sentimento de culpabilidade costuma cair-se em estados depressivos, que se manifestam em grandes tristezas, prantos, visão negativa e pessimista do mundo circundante. Quando o sentimento de culpa é muito grande leva a sentimentos de pânico e autodestruição.
— A agressividade: Um efeito do conflito desatado pelo aborto é a agressividade da mulher para os que intervieram no aborto: o médico, o noivo ou marido, os parentes ou amigos que a empurraram ao ato e inclusive contra si mesmo. De algum jeito descarrega assim o sentimento de culpabilidade contra si mesmo e o sentimento de vítima em relação a outros.
—Incerteza afetiva: Parte das dubitações na decisão abortista gira em torno do amor ou desejo natural da criança de que está grávida a mulher. Sabe intuitivamente, embora não o queira fazer reflexo, que seu ato abortivo contradiz seu amor natural: seu filho exige ser amado principalmente por sua mãe e a natureza a predispõe para amá-lo e protegê-lo inclusive com risco de sua própria vida, mas para abortá-lo deve rejeitá-lo. O mesmo sentimento de desamor e desamparo que a mulher supõe que padeceu seu filho por parte dela, começa a atormentá-la: sente-se não querida, rejeitada e abandonada afetivamente pelos outros. É um dos efeitos "bumerangue" do aborto.
—A interrupção abrupta do ciclo hormonal: Nas mulheres há ciclos e ritmos naturais relacionados com a gravidez e caracterizados por modificações nos processos hormonais que terminam de modo natural ao culminar todo o processo da maternidade; quer dizer, que vão do momento da ovulação até a finalização do tempo de amamentação do bebê. As mudanças hormonais ditam alterações de ordem física, psicológica e emotiva. Quando se interrompe o processo de modo abrupto, como ocorre no aborto, tem lugar na mulher um transtorno notável com efeitos em todas essas ordens: física, afetiva, psicológica e relacional; estas perturbações podem ir das depressões na ordem emotiva, até a constatação médica de maiores tendências a adquirir câncer de mama, passando por problemas de integração social e familiar.
—A "consciência biológica": É uma constatação feita por muitos psiquiatras. Cito o testemunho do psiquiatra Karl Stern: "Não poucas vezes vemos que nos casos em que uma mulher comete um aborto artificial, digamos no terceiro mês da gestação, este ato parece não ter consequências psicológicas. Entretanto, seis meses depois, precisamente quando o bebê deveria vir ao mundo, a pessoa cai vítima de grave depressão ou, inclusive, de psicose. Agora bem, a respeito disto se observam duas circunstâncias curiosas. A depressão se produz até sem que a mulher se dê conta conscientemente de que 'agora é o momento em que teria de nascer meu bebê'. Além disso, a filosofia da paciente não é necessariamente tal que ela desaprove o ato de interrupção da gravidez. Entretanto, sua profunda reação de perda, que não vai necessariamente unida com uma preocupação consciente pelo parto fracassado, coincide com o tempo em que este tivesse tido lugar... A mulher, em seu íntimo ser, está profundamente vinculada ao bios, à natureza mesma".
—O sentimento de fracasso como mãe: Às vezes, para encher o vazio, tem lugar um desejo veemente de querer substituir a criança perdida; mas este desejo se mescla com a suspeita e o temor de não saber desempenhar-se como mãe, ou de não poder relacionar-se com o bebê de maneira correta ou de não saber criá-lo. Também ocasiona medo em relação aos filhos futuros por exemplo, medo a maltratá-los; às vezes isto ocasiona a decisão de não ter mais filhos. Alguns estudos mostram também que algumas mulheres que abortaram têm problemas reais para levar adiante posteriores maternidades: têm problemas para amamentar a seus filhos, reagem com medo ou agressividade diante do pranto de seus bebês e inclusive uma espécie de rejeição ocasionada pelo medo, e como este é percebido instintivamente pelo bebê, gera-lhe sentimentos de abandono. Às vezes como não querem danificar a criança e têm consciência de não saber tratá-lo, terminam mandando-o desde muito pequeno, e sem nenhuma necessidade, a creches.
—Outros problemas: Os estudos aos quais fazemos referência indicam também outros sintomas próprios desta "síndrome", como por exemplo: alterações de diversas índoles no sonho, pesadelos persistentes, crise de identidade, desconfiança, sentimento de cinismo, consciência da inocência perdida, e inclusive enfermidades psicossomáticas como anorexia e bulimia. Como deixou dito uma mulher que abortou a seu filho: "Depois do aborto se instalaram em mim a vergonha, o arrependimento e a culpa".
—Como Emili é minha paciente não posso aprofundar mais o assunto com você, a não ser com a presença dela, no caso as sessões em conjuntas que irão realizar juntos. Mas creio que isso já o ajude a começar a compreender melhor.
Tento absorver as palavras de Joseph e tudo muito mais complexo que pudesse imaginar. Algumas coisas começam a fazer sentido, infelizmente. Penso em Emy, seus pesadelos, crises, depressão.
—Sim, Joseph ajudou muito.
—Espero que as sessões em conjunto com Emili possa o ajudar mais. E a ajuda-la, Emili merece.
—Vou fazer de tudo para a ajudá-la.
—Imagino.
Despeço-me de Joseph, pago a consulta com a recepcionista. É meu horário de almoço, tenho que voltar para a construtora. Infelizmente, tudo que eu queria agora era poder segurar minha garotinha. A envio uma mensagem.
Eu: Te amo ♥
Não demora muito e recebo sua mensagem.
Garotinha: Te amo mais ♥
De repente eu sabia exatamente o que tinha que fazer, ideais começaram a surgir. Sabia que Emy iria adorar. Ligo para o único que poderia me ajudar. Quando chego na empresa encontro com Mary na recepção.
—Hey.
Abraça me.
—Oi Mary.
—Sumido, estava com saudades.
Mary foi uma boa amiga, mas um erro.
—Estive bastante ocupado.
—Podemos conversar?
Eu devia uma conversa a ela.
—Se for rápida. Tenho uma reunião às quatro.
Horário do almoço era antes, mas o adiei pela consulta. Como estava ainda sem secretária meu horário não atrapalhava ninguém. Só precisava estar na reunião às quatro com os diretores. Mary sobe comigo até a minha sala.
—Bonita sala, combina com você. Fica lindo de terno e gravata.
—Obrigada, Mary.
—Edu, sabe que sou direta vou logo ao assunto. Você sabe que sempre gostei de você e eu te amo, me dá uma chance. Deixa te fazer feliz, sei que posso.
Porra. Ela está parada na minha frente.
—Mary sempre vou ser grato pela aquela noite, pela sua ajuda. Sempre foi uma boa amiga, apenas isso. Eu só posso amar e ser feliz com uma pessoa. Sinto muito se entendeu que poderíamos ser mais que amigos.
—Como? É a assassina né? Deus, perdi o para uma assassina. Eu que fiquei com você naquela noite em que bebeu todas e chorava pelo filho em que ela matou e agora a escolhe.
—Mary não é uma escolha. Nunca foi você. E não fale assim da Emili.
Mary caminha de um lado para o outro.
—OK, seja feliz.
Seus olhos não diziam a mesma coisa. Vira se e sai batendo a porta com força. Mary sempre foi desequilibrada, mas aquele dia do porre ela foi a principal por não ter morrido de overdose ou batido o carro, cuidou de mim. Estava indo para São Paulo também, saímos juntos algumas vezes tentei não ter nada com elas em alguma bebedeira não resisti, foram no máximo três vezes.
A reunião com Leonardo, Gabriel e uns diretores chega. Todos parecem surpresos com os relatórios que os apresento. As fraude e desvio estão comprovadas. Juram não saber. Leonardo afirma que não ajudava vovô nesses documentos e investimentos, o que não bate com sua condição de braço direito. Gabriel parece nervoso. A bomba esta preste a explodir e eu tenho que a deter, tenho que impedir que exploda e acabe com tudo que vovô construiu.
Após a reunião, no final do expediente Daniel liga confirmando tudo. Deixo todos os problemas para depois, nada importa no momento a não ser surpreender minha garotinha.
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