Notas iniciais
oii, depois de muito tempo voltei a postar uma história aqui ♥

We could've had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand
(You're gonna wish you never had met me)
And you played it to the beat
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)

Rolling in the deep-Adele

Acordo assustada, suada e angustiada mais uma vez. Não há ninguém no quarto, nem mamãe, papai, Daniel ou até mesmo um dos empregados, o que quer dizer que dessa vez não teve gritos. Pego meu celular no criado para conferir as horas, são cinco e meia da manhã. Levanto, escovo os dentes, coloco uma roupa de academia, correr tem sido um escape e esse é um dos melhores horários, sem muitas pessoas pelo caminho. O condomínio é fechado e extenso o que me permite correr nesse horário. Plugo meu fone no celular, coloco na minha playlist, passo na cozinha pego uma maça e saio. O Sol recém começa a dar sinais de vida, uma das vantagens de correr essa hora.

Eu comecei a correr sem querer foi durante uma pequena crise, precisava que a minha mente parasse com aquelas imagens torturantes, precisava que a dor cessasse então eu corri, não sei o que me impulsionou a sair correndo que nem uma maluca, mas funcionou. Não apagou a minha dor para sempre, até mesmo porque isso é uma coisa impossível, porém alivia. E mesmo que não mereça eu faço qualquer coisa por um momento de alivio.

Lembro do sonho de hoje, não foi dos piores. Mesmo os melhores sonhos doem, mesmo quando eles são bonitos acordo querendo mudar o passado, arrependida. A maioria são pesadelos, nem mesmo os remédios são capazes de os afastar. Eu odeio dormir, odeio os pesadelos, mas há uma parte de mim que torce para que o sonho do dia seja aquele que são com a vida que poderia ter, mesmo que nesses dias eu odeie acordar e descobrir que tudo era apenas mais um sonho. Não importa o quanto eu sonhe, quanto esteja acostumada, sempre que acordo e era só um sonho é uma decepção. Estes dias costumam ser os piores, a dor de que poderia ter, a saudade e arrependimento perduram o dia todo. Mesmo os sonhos bonitos doem.

Corro por meia hora. Quando chego em casa mamãe e papai estão tomando café na sala de jantar. Mamãe tem quarenta e cinco anos, papai cinquenta, os dois são lindos. Mamãe é loira, tão loira quanto eu, seus olhos são castanhos, alta. Papai fala que poderia ter sido modelo, mamãe diz que são seus olhos, sim mamãe e papai são dois fofos. Papai tem os olhos verdes, o que eu e Daniel herdamos, alto, bronzeado, seu cabelo é preto. Daniel é uma cópia de papai.

—Bom dia.

Beijo suas bochechas.

—Bom dia, princesa.

Papai beija minha testa.

—Bom dia, querida. Você parece bem hoje.

Mamãe fala, enquanto sento na cadeira ao seu lado.

—Sim, mamãe hoje está tudo OK.

Mamãe olha me aliviada, ela odeia os dias que não estou bem, todos odeiam esses dias. Nesses dias todos ficam tensos e preocupados, nunca fico sozinha, o medo que tudo se repita paira no ar, mesmo eu dizendo que não vá mais se repetir. Eu odeio os ver preocupados, odeio que seja a única causar todo transtorno e só por eles eu continuo tentando.

—Bom dia.

—O que aconteceu para o príncipe acordar esse horário?

Daniel odeia acordar cedo quando acorda, acorda de mau humor e eu amo o irritar. Daniel nunca acorda cedo a não ser que Alyssa ou um de nós precise dele. Senta do lado do papai, a minha frente.

—Bom dia para você também pirralha.

Aponto a língua para ele.

—Juro que meus filhos tinham 22 anos e não 7.

Mamãe sorri, ama nossas implicâncias, pelo menos agora que não vai terminar em brigas de verdade. Na infância nossas implicâncias resultaram em alguns tapas, quedas, roxos, uma vez uma queda da casa de árvore e uma perna quebrada, Daniel ficou de molho quase dois meses.

—Você sabe homens amadurecem mais tarde, mãe.

—Você é a pirralha aqui, maninha.

—Por segundos querido maninho.

—Minutos.

—Dona Gabi fale para ele que foi segundos.

Mamãe nos olha com aquele olhar de quem manda na porra toda e revira os olhos.

—Sessenta segundos.

—Poxa mamãe, eu sou o filho querido. Eu que vou manter a tradição da família no direito e é assim que me agradece?

Meu pai nos olha com carinho e sorri. Nem há uma tradição, porém Daniel adora falar que manterá a tradição da família seguindo na área jurídica. Tanto na família de papai quanto na de mamãe são os primeiros que optaram por direito.

—Desculpe querido, mas você sabe sempre devemos privilégios aos mais novos. Já que quer ser o mais velho...

Mamãe diz sendo irônica, vira se e pisca para mim. Mamãe é a melhor.

—Hahaha, chupa essa babaca.

—Pirralha nojenta.

Faço coraçãozinho para ele. Ele aponta o dedo do meio.

—Daniel, olha os modos.

Mamãe o repreende, olho para papai que continua sorrindo.

—Por que acordou cedo hoje, Daniel?

Papai pergunta acabando com nosso momento vamos ser crianças.

—Preciso buscar uns convidados no aeroporto.

—Que lindinho meu irmão todo empenhado no noivado.

Amanhã era o noivado do meu irmão com a minha melhor amiga.

—Alyssa está muito nervosa?

—Muito, mãe não quero ver aquela mulher no casamento, irá arrancar todos meus cabelos. Vou adiar o máximo.

—Ela irá amar saber disso.

Meu irmão me fuzila. Sorrio.

—Pirralha irritante, vou te tirar do posto de madrinha.

—Já vou ser madrinha da Ally, não posso ser sua.

Meu irmão abre a boca e faz cara de indignado.

—Vai trocar seu irmão?

—Você sabe que está escrito no caderno da amizade, vou ter que cumprir.

—Ainda vou por fogo nesse caderno. Não antes claro de ler, boatos que há declarações de Alyssa por mim.

Eu, Allyssa e Belle temos um caderno, aonde tem fotos nossas, segredos, e promessas, uma promessa feita no caderno da amizade e assinada pelas três tem que ser cumprida. Alyssa e eu somos amigas desde dos dez, quando veio morar no condomínio, Belle veio para completar o trio na nossa quinta série.

—Se fizer isso será morto, torturado. Ninguém pode ler o caderno da amizade, é confidencial.

A verdade é que tem muitas declarações de Ally no caderno, quando uma queria contar algo e ficava com vergonha em falar em voz alta era escrito. O dia que precisei enfim contar o que havia feito foi escrito, mesmo que naquela época eu acreditasse que tinha feito o certo.

—Veremos, maninha.

Depois do café subo para o meu quarto, o dia está bonito, está agradável e sinto-me bem, o melhor que consigo me sentir. Abro a porta de vidro da sacada e deixo o vento bater no meu rosto, tento não pensar, não lembrar do sonho, mas é impossível. Os dois sorrisos mais lindos invadem minha mente, fecho os olhos, eu apaguei esses sorrisos. Sou tirada dos meus pensamentos quando ouço minha porta ser escancarada, viro me.

—Só podia ser vocês duas.

Belle e Ally.

—Preciso de vocês duas, estou morrendo de nervoso.

Ally diz enquanto joga se na minha cama.

—É precisava ser ás sete horas.

Belle fala e pula na cama, deitando também. Fica as duas deitadas na minha cama.

—Estou nervosa e preciso das minhas melhores amigas, como madrinhas é dever de vocês.

Belle puxa um travesseiro e põe no rosto.

—Por que eu assinei aquele bendito caderno? Deve ter uma cláusula que proibi qualquer documento ser assinado por uma criança.

—Belle o nosso caderno nem tem valor legal.

A lembro, aproveito e me jogo em cima das duas. As duas protestam.

—Então tchau, arrume outra madrinha Ally.

Belle levanta e Ally joga o travesseiro nela.

—Vamos para um spa, Emy.

—Agora sim, Ally do meu coração.

Belle senta na cama.

—Ah não, são só para as futuras madrinhas.

—Estou me recolocando no posto.

—Agora quem não quer sou eu, vou chamar Bianca.

Belle e eu rimos alto, Bianca era a vaca prima da Ally, ela é uma vadia má. Nem a malévola chamaria ela para madrinha.

—Ela vai te dar uma boneca inflável de presente.

Belle fala enquanto ri.

—Por que uma boneca inflável?

—Porque é melhor uma boneca que você. Pelo menos o que a Bianca pensa de você. Sabe para Daniel se divertir com a boneca, se ela mesmo não se oferecer para ir no seu lugar na lua de mel.

Alyssa faz uma careta, ela deve estar lembrando do tempo que Bianca deu em cima de Daniel. Bianca realmente é uma baranga.

—Ok, aceito suas desculpas, o posto de madrinha é seu novamente.

—Sou a melhor.

—Belle nem comemore, só quer dizer que você é melhor que Bianca e até uma vaca é melhor que aquela lá.

—Saí, deixe eu me sentir importante Emili.

—Vamos logo, quero ficar linda para o meu noivo.

Passamos o dia todo no spa, foi uma ótima e divertida tarde. Fizemos unha, cabelo, massagem, limpeza de pele sinto-me como se tivesse passado pela equipe da capital*, se bem que eu iria adorar um vestido feito pelo Cinna. Ally insiste para irmos com ela encontrar Daniel em um bar.

—Não quero ficar de vela hoje.

—Por favor Belle, depois podemos ir para uma balada. Lá você encontra um boy. Além do mais você e Emy estão lindas demais para desperdiçar na cama de vocês.

Belle parece tentada, ela não perde a chance de uma balada.

—Você vai pagar três rodadas de tequila.

Acabamos indo para o bar, está lotado como um bom bar está em um sábado, tem música ao vivo. Assim que entramos e começamos a ir em direção aonde Daniel está um arrepio passa pelo meu corpo, passo a mão nos meus braços. Viro o rosto a procura do que pode ter causado os arrepios, quando viro me encontro um olhar, o seu olhar. Seus olhos encontram os meus e nesse momento tudo para, todo mundo some, somos só eu e ele. Nada de dor, arrependimentos, mágoa tudo parece como se estivesse no seu devido lugar.

*Referência a Jogos Vorazes

Seu cabelo está maior que dá última vez que nós vimos, confesso, ficou ainda mais lindo. Faz mais de um ano que não o via, ele teve aqui esse ano, mas fugi, enquanto estava na cidade eu estava em Angra. Seus olhos azuis parecem tão profundos quanto antes, tão hipnotizante como a cinco anos atrás.

—Desculpa Emy, eu não sabia que ele vinha.

Ally sussurra para mim.

—Tudo bem.

Nossa separação não tinha apenas atingido a nós mesmo, tínhamos amigos em comum, ele é o melhor amigo do meu irmão. Nós aproximamos deles, com eles tem uma mulher e mais um cara. Eles estão no bar.

—Oii Emy.

Sua voz é distante, não com aquele calor, não mais com amor.

—Oi Edu, tudo bom?

—Sim e você?

—Também.

Somos dois desconhecidos, dois estranhos. Ele não é mais o meu Edu.

—Essa é Mary amiga de Edu e esse é um primo distante Ally, Luis.

Daniel apresenta.

Amiga? Ela sorri para mim, eu tenho vontade de bater nela.

—Oi, Emili, ouço muito sobre você. Prazer.

—Prazer Mary.

Forço um sorriso, meu piriguetrômetro apita altamente.

Escolhemos uma mesa de frente para o palco onde a banda, que no momento canta Brasil mostra sua cara, se apresenta. A mesa é quadrada, sentamos eu e Belle uma do lado da outra, Ally e Daniel na nossa frente, Luis e Edu um em cada ponta, Mary puxa uma cadeira e senta perto de Edu, pertíssimo.

Após sentar, pego meu celular e digito uma mensagem no grupo das ridículas (eu, Belle, Ally).

Eu: Amiga? Desde quando? Meu periguetrômetro está explodindo, sinto cheiro de cadela.

Ally confere o celular e ri alto, Dan encara ela.

—Rindo do que morena?

Ally tem os cabelos negros, ela é toda branquinha o que a dá uma aparência de bonequinha.

—Ela mostra o celular para ele.

Ele ri e balança a cabeça.

As ridículas- o grupo:

Eu: Sua cadela, não era para mostrar, aliás você mostra as nossas mensagens para meu irmão? Cadela suprema.

Ally (cadela 1): Para meu noivo, não sou culpada dele ser seu gêmeo. É esse seu ciúmes, hein? Ela parece uma pessoa bem bacana.

Belle (cadela 2): Olha quem está chamando os outros de piriguete, a rainha delas.

Ally (cadela 1): Uma piriguete sabe reconhecer a outra.

Eu: (emoljin do revirar os olhos e dedo do meio.)

Belle (cadela 2): Vamos guardar esse celular, meninos vão reclamar e a pobre da garota está excluída enquanto eles falam de futebol. E gente que cara gostoso esse seu primo, Ally. Por que nunca apresentou?

Ally (cadela 1): Nem lembrava dele, é tipo filho perdido lá da biblía, rebelde, mas voltou agora pouco, não sei a história direito, bad boy. Mamãe mandou o convidar, fiz esse sacrifício.

Eu: Por mim, podemos continuar aqui. Essa Mary...sei não. Não gosto dela.

Belle (cadela 2): Para de ciúmes Emy, ele só olhou para você, olhou para você com quer tirar as roupas e foder. E Ally adoro bad boys (emojin da lua).

Ally (cadela 1): Vamos parar agora.

Guardamos o celular.

—Então, Mary conhece Edu de onde?

Belle pergunta e olha para mim, ela vai começar as perguntas.

—Nós estudamos juntos.

Ela sorri e passa a mão na dele. Amiga, sei... Olho para minhas amigas, sorriem. Vacas.

—Vamos logo pedir, cerveja?

Concordamos.

—Não bebo cerveja, só tomo destilada.

Quero revirar meus olhos, patricinha chata do caralho. Olho para o Edu, como ele está com alguém assim? Minha consciência grita que sou patricinha, mimada e só bebo, porque no resultado do vestibular tomamos um porre com cerveja.

—Peça uma caipirinha, Mary.

—Claro, querido. — Posso vomitar já — Uma, capiroska Dan, por favor.

Dan, olho para Ally e ela mato Maryvaca com olhar. Eu avisei, meu piriguetrômetro não erra. Daniel chama o garçom e pede as bebidas e petiscos. A noite está melhor que imaginei e eu Edu conseguimos agir civilizadamente, a verdade é que mal nós falamos, mas poderia ser pior. Cada vez que eu o olho meu coração ainda dispara, a dor e arrependimento ainda está aqui, ele é ainda é a pessoa dos meus sonhos, a personificação do que perdi. Tomo em um gole só o resto da cerveja que está no meu copo para afastar os pensamentos. Os músicos começam a tocar uma música e meu coração para.

"Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir"

Respiro fundo, coloco mais cerveja no copo, bebo. Não adianta nada, meu coração acelera, parece pular do peito.

"Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir"

E nossa música, a música que ele aprendeu a tocar para cantar para mim. A música que tocou quando pediu em namoro, quando nos entregamos um ao outro.

"Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar"

O olho e ele está olhando fixo para tudo e para nada, seus olhos tem uma intensidade, a intensidade que sei que tem nos meus.

"Guardei
Sem ter porquê
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar"

Estou sufocada, peito parece apertado, levanto e caminho para o corredor aonde fica os banheiros. As lágrimas descem pelo meu rosto. Antes de abrir a porta do banheiro uma mão segura meu braço, mesmo antes de virar sei que é, meu corpo só responde uma pessoa desse jeito. Viro-me seus olhos azuis têm a mais linda intensidade, perco me neles. Então beija-me.

Notas finais
Bjs ♥