O pior convite do mundo

3 CAPÍTULO 3: verdades desagradáveis


— Eu senti tanto sua falta, Camille, minha pequena!

O abraço de Adrian sempre foi o melhor abraço do mundo, desses que dá para sentir o carinho passando pele a pele. Ela é uma mãe digna de filme da sessão da tarde, com um total de zero defeitos.

— Eu também, Adrian. Suas comidas maravilhosas me fizeram falta em São Paulo.

— Você nunca devia ter ido embora, minha princesa — choraminga.

Pelo visto, essa é a única coisa em que todos concordamos. Depois de muitos abraços e fofocas, Andrew me leva até meu quarto com a promessa de que voltarei mais tarde para colocar as notícias em dia.

O cômodo, que foi construído muito tempo antes de nossas vidas mudarem tanto, permanece o mesmo com nossas fotos de infância sobre os móveis e lençóis coloridos como se eu tivesse acabado de sair.

Após colocar a mala sobre a cama, sento na beirada, o encarando. Sua beleza me tira o folego por um minuto, com seus cabelos que tenho vontade de tocar o tempo todo, sua pele com brilho próprio e o que tem de mais bonito, seus olhos sempre tão brilhantes e iluminados.

Andrew olha pela janela, perdido em pensamentos. Não preciso de muito esforço para deduzir o que passa por sua mente. Esse é o único quarto com uma visão completa da piscina, o lugar onde demos nosso primeiro beijo, e mais tarde, tivemos nossa primeira vez. Foi um fiasco, mas com certeza, nós jamais esqueceremos.

Nossas lembranças estão entalhadas em cada canto dessa casa, quiçá dessa cidade, nem mesmo ele poderia fingir que não vê. Caminho até ao seu lado, o abraçando em seguida; meus braços não conseguem circulá-lo totalmente, mas é o suficiente.

Logo suas mãos quentes vêm sobre as minhas.

— Nunca imaginei que te veria usar véu e grinalda para casar com outra — comento em voz alta.

Sinto seu corpo chacoalhar, porém, não sei dizer se por uma risada ou um calafrio.

— Chega, Cami, não tem mais graça, não foi para ouvir isso que enviei o maldito convite.

— Então foi para quê? Porque estou bem confusa sobre seus motivos.

Tiro suas mãos de cima das minhas, voltando para o outro extremo do quarto. Do mesmo jeito que nos entendemos com maestria, podemos entrar em brigas épicas na velocidade de uma piscada de olhos, o que acontece com mais frequência do que gostaria de admitir. É bobo e infantil, mas meu instinto de preservação já me pressiona para juntar minhas coisas e voltar para São Paulo só porque ele não foi o príncipe de sempre.

Uma bobagem.

— Você fica fazendo piada como se… — bufa, pensando nas palavras com cuidado. — Eu fosse um grande idiota por considerar a ideia de ser feliz com alguém. Não tem muita graça ser o alvo da sua ironia.

Suspiro, concordando. Ele tem razão, não tem mais a menor graça, ainda assim, não consigo me controlar e parar de fazer piada. Se começar a falar sério, posso colocar para dez anos de sentimentos sufocados fora.

— Eu sei, desculpe, é mas…

Tenho que parar por dois segundos e encontrar minha voz novamente. A essa altura não sei mais nem como ainda estou de pé diante dele.

— Bem, eu nunca pensei que você seria de outra pessoa um dia.

Não é possível que esse passado persiga somente a mim. Passamos por tantas coisas juntos, ele precisa compartilhar comigo o indigesto sentimento de fracasso.

— Não fui eu que desisti de nós.

É um belo gancho de direita e me leva ao chão. É um fato que não posso mudar, tenho que assumir a responsabilidade, uma vez que o não saiu da minha boca. Nas duas vezes que pediu que me casasse com ele, eu, por minha própria vontade, disse que não.

Na primeira vez, aos dezenove anos, neguei em meio a lágrimas. Com a doença da minha mãe, o medo que me fazia tremer e o resto que parecia me esmagar, não havia nenhuma perspectiva de felicidade. Depois do velório, apenas juntei minhas coisas e fui embora, deixando para trás não só minha cidade, mas também Andrew e a certeza de uma vida plena de todas as coisas boas.

Na segunda vez, não havia nada que pudesse explicar minha resposta. Sete anos mais tarde, estabelecida e confortável na minha vida, a proposta de Andrew não me pegou de surpresa. Conhecendo-o como conheço, sabia que uma hora ele me cobraria uma segurança, algo que, àquela altura, eu não era capaz de dar e nem sei se um dia conseguirei.

— Eu sei disso — confesso, de cabeça baixa.

Ele vira-se para mim, me olhando no fundo dos olhos. Perco o foco encarando aquele par de olhos de um castanho único, meio amarelo. Há mais coisa do que deveria nesse olhar, sentimentos que não fazem bem para nenhum de nós.

— Você ainda me ama?

Minha voz não sai firme como eu pretendia, as lágrimas estão presas na garganta, formando um nó que duvido que possa ser dissolvido. Não sei de onde diabos saiu essa pergunta, mas mesmo assim, ela escapole da minha boca.

De repente, me sinto uma adolescente novamente, esperando pela confirmação de algo que já ficou claro muito tempo antes, mas ainda é necessária para que impeça os comentários ácidos sobre o casamento e o resto. No minuto seguinte, me pego pensando no que isso significará.

Não me ajoelharei diante dele nem tirarei um anel do bolso para pedi-lo em casamento, ele continuará sem poder ter o peru no Natal e o almoço de domingo. Todas as certezas que exijo não mudará nada na nossa vida.

— Por favor, responda, é importante.

Não é, eu sei.

— Não é, Camille, não mais. Vou me casar em quatro dias e não há nada que mude isso.

Odeio o som do meu nome inteiro em sua voz com raiva. A sensação pesada revira meu estômago, estrangulando as lágrimas. Porque isso importa? Esse lugar faz de mim uma boba novamente.

— Você não a ama, posso ver nos seus olhos.

— Mas pelo menos quando a pedi em casamento, ela aceitou. Ela nem sequer pensou antes de dizer que sim — as veias de seu pescoço saltam visivelmente e, então, ficamos os dois quietos. É o momento que não sabemos mais o que dizer, e muito menos, se devemos.

Ele suspira.

— Qualquer coisa é só descer, você é de casa.

Andrew sai e bate a porta sem olhar para trás, me deixando confortável para deitar na cama e chorar até dormir.

No final da tarde, quando Max liga para saber se estou bem, não lhe conto sobre minha conversa recente com Andy porque só renderá um sonoro “eu te avisei” e, nesse momento, não estou bem o suficiente para esse tipo de sermão. Ficará para outro dia.

Após tomar um banho morno, visto uma roupa qualquer sem me ater aos detalhes que, normalmente, tomariam um pouco do meu tempo. Aqui não preciso impressionar ninguém, as pessoas gostam de mim pelo que sou e não pelo tanto que posso gastar com coisas supérfluas. Quando chego ao térreo, não há ninguém na sala, o que me consola um pouco, então sigo para cozinha.

Estou arrumando um sanduíche, quando ouço a voz da Matriarca Lima:

— Se quiser, eu preparo algo para você comer.

Nego da maneira mais educada que consigo, na tentativa que ela não me leve a mal. Minha madrinha me observava sorrindo, e então, engata num assunto qualquer. O tempo que levamos sem nos vermos olho no olho, sem uma conversa sincera tornou o acúmulo de assuntos bem extenso.

Adrian me conta o quanto estavam tristes e desesperados, como a gravidez surpresa de Ellen salvou seu casamento. Depois de onze anos de relacionamento, é normal que meus melhores amigos quisessem aumentar a família. O caminho foi longo e árduo, mas quando menos esperavam, a benção veio.

Bem que tento, mas a essa altura não é mais possível evitar o tema. Adrian quer saber, por direito de ser quem é, o motivo de eu ter colocado um muro entre nós, me desligando da família de forma tão abrupta e insensível. Tantos anos depois e ainda não há boas respostas.

— Ele quis ir atrás de você — diz baixinho, depois de alguns minutos de silêncio.

Nesse momento meu coração para de bater, nem sei como não morro. Como a mamãe Lima diz algo assim sem fazer uma preparação apropriada?

De mãos trêmulas, largo a faca em cima da pia, sentindo o desespero tirar todo ar dos meus pulmões, me proibindo de dizer qualquer coisa minimamente racional.

Só pode ser um pesadelo.

— Como assim? — Arfo. — Quando?

— Ele ficou louco, querida. Nunca vi Andrew daquele jeito.

Engulo em seco pensando como deve ter sido assustador para ele, talvez, até mais do que foi para mim. Acordar um dia e não encontrar a pessoa que acredita que passará a vida junto, mesmo após ter recebido uma negativa após um pedido pouco organizado.

Pisco para limpar as lágrimas que começam a acumular em minha visão, encarar a janela é a melhor saída que encontro para pensar antes de falar. Será mesmo que tenho o direito de mexer nessa ferida depois de tantos anos? Não se trata apenas dos meus sentimentos.

Não preciso de Max ao meu lado para saber a resposta.

— Adrian… não acho que posso mexer nisso de novo, é que… Não quero saber o dano que causei nele, isso seria demais para mim.

Ela suspira antes de me responder:

— Entendo… Foi demais para ele também.

Depois dessa conversa tão esclarecedora e desconfortável ao mesmo tempo, não sou capaz de comer nada, muito menos de encontrar alguém da família. Tenho medo de falar algo que não devo e piorar ainda mais as coisas.

Volto ao quarto e ligo o computador antigo que ainda repousa sobre a escrivaninha, como se alguém fosse fazer o dever de casa a qualquer momento. Uma conversa sincera e idiota com Max é tudo que preciso para deixar de me sentir inútil desse jeito, ver sua cara de cafajeste sempre torna tudo melhor.

Tento ligá-lo na videochamada, mas depois de algum tempo, desisto. Talvez ele não esteja em casa e para o bem dos meus ouvidos será melhor assim. Resolvo ficar presa no quarto pelo resto da noite como a Rapunzel e evitar qualquer novo mal-estar, as coisas já estão ruins o suficiente.

Depois de um cochilo, me apoio na sacada, acendendo um cigarro. Já faz um tempo que estou tentando largar o cigarro de vez, no entanto, para ficar aqui sem surtar, eu precisarei de mais de um maço por dia. Essa casa tem tanta história, grande parte da minha vida foi entre essas paredes, com essas pessoas. Entre uma tragada e outra, reconheço o erro que cometi ao tentar esquecer meu passado.

Olho para o céu, observando o anoitecer no horizonte de Petrópolis, a neblina se tornando mais densa conforme as horas passam. Um vislumbre triste de sorriso passa por meu rosto — lembro de minha mãe que amava ver as cores do céu mudar a essa hora. Talvez, ela esteja em algum lugar onde não posso ver e esteja zelando por mim.

É um bom pensamento para ter.

Já é madrugada quando julgo seguro o suficiente para descer as escadas e ir até à cozinha novamente, depois de tanto isolamento, estou morrendo de fome. Com cuidado para não fazer nenhum barulho, esquento a água na chaleira de Adrian e espero apitar. Abro todos os armários até encontrar o potinho com uma variedade impressionante de chás.

Procuro, indecisa sobre qual será melhor para essa noite e acabo escolhendo o chá de hortelã. Coloco o sache numa xícara grande de cerâmica, enchendo com água quente logo após. O aroma no ar é a melhor coisa que sinto nesse dia de merda.

Pego minha caneca e caminho para a varanda dos fundos. Sento-me na escada de madeira na soleira da porta e sinto a brisa do vento soprar, enquanto saboreio meu chá. Um hábito adquirido por parte da minha mãe que tomava chá para qualquer coisa.

Suspiro aliviada quando noto que se sentou ao meu lado foi Henri com sua xícara de café. Eu estava tão absorta em pensamentos que nem ouvi sua movimentação na cozinha.

— Algumas coisas não mudam, não é?

Sorrio, levantando minha xícara antes de tomar outro gole.

—Acho que não — respondo vendo as fumaças de nossas xícaras subirem e se misturarem.

Ficamos em silêncio, saboreando nossos vícios, e então, me permito olhar para frente mesmo que por um segundo. Uma casa de dois andares, completamente no escuro, com janelas e portas fechadas.

Minha casa.

A casa onde minha mãe padeceu por tempo demais. O simples ato de olhar esse lugar, uma dor aperta meu coração.

— Não tem vontade de ir lá?

Meu padrinho pergunta no tom sereno de sempre. Preciso pensar antes de responder. Vontade ou curiosidade?

Engulo em seco:

— Não. Aquele lugar tem muita dor.

— Tem muito amor também. Você cresceu ali, subiu muito naquela árvore e foi feliz por muito tempo — ele bebe o café antes de continuar. — Vou lá vez ou outra. Você sabe, abrir as portas, deixar o ar entrar.

Não respondo.

Não há nada para falar.

Henri respeita meu silêncio e continuamos apenas bebendo o que há em nossas xícaras, olhando o vazio da noite. Muitas vezes enquanto crescia, ele fez o papel de pai para mim também, o meu próprio, aquele que contribuiu com cinquenta por cento do meu DNA, nunca foi presente nem mesmo o conheci. Minha mãe e os Lima são a única família que tenho.

— É bom te ter de volta, Cami. Aqui sempre será sua casa também.

Sorrio.

— Senti saudades, Henri.

— De casa?

— Não — pisco. — De mim.

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.