O peso que você carrega
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Essa é a segunda Fanfic que eu escrevi na minha vida inteira. Comecei esse texto logo após o capítulo 132 do mangá, como válvula de escape para me sentir melhor depois dos eventos que aconteceram.
Eu planejava fazer uma história NSFW, mas acabei desistindo na metade do caminho. Peço desculpas aos que vieram em busca disso.
Peço desculpas pelos erros gramaticais.
Espero que gostem! Boa leitura.
Hange estava sentada atrás da larga escrivaninha que era parte da mobília do cômodo designado para o comandante da Tropa de Exploração, o quarto que um dia pertenceu a Erwin.
A luz do sol iluminava o escritório através de três grandes janelas, uma delas disposta na retaguarda, de forma que as costas da cientista logo ficaram aquecidas apesar das frias paredes de pedra. Às vezes, ela sentia falta da sua modesta salinha lá nos fundos do Quartel General, onde muitas vezes reuniu-se com Moblit para longas horas de pesquisa sobre titãs; aquele antigo lugar tinha um bom isolamento acústico, de maneira que a cientista podia gritar e rir sem incomodar ninguém.
Lembranças de um tempo onde as coisas já eram difíceis, no entanto mais simples do que são agora
O novo escritório que lhe deram, muito maior e aconchegante, tem paredes de vidro. Hange sabe que tem toda a liberdade para falar o quanto e quando quisesse, mas também tem noção de que não seria adequado – ou melhor: seguro. Antigamente, ninguém tinha ouvidos para toda a sua “falação”, agora, de repente, todos estavam dispostos a ouvi-la. Do contrário do que costumava pensar no passado, essa nova realidade era desconfortável.
Ela se mudou para aquela sala após a cerimônia da batalha em Shiganshina, a vitória mais difícil que já conquistara em toda a sua vida de soldado. Eles selaram a muralha Maria e obtiveram o Titã Colossal, um monstro aterrorizante capaz de destruir cidades inteiras em menos de um minuto e também uma das criaturas mais majestosas que a cientista tinha visto. Essa conquista lhes custou a vida de mais de cem soldados, incluindo a de Moblit e Erwin.
A última lembrança que ela carregava de Moblit era a face assustada sumindo gradualmente enquanto ela caia no poço para onde foi empurrada pelo rapaz. Quando o mundo se tornou quente e vermelho, ela viu um relance de alivio no olhar do amigo cujo objetivo na vida parecia ser o de tomar conta para que a cientista louca não perdesse a sua própria por acidente. Hange foi tomada pela escuridão antes mesmo de cair no poço, de onde até hoje questiona a si mesma se escapou de verdade. Ás vezes, ela pensa que uma parte de sua sanidade continua até hoje naquele buraco escuro, sem chance de ser resgatada.
Quando voltou para a superfície, não encontrou nada além de fogo. Descobriu que a escuridão de antes não foi só culpa do poço, mas também dos óculos destruídos. Uma das lentes se partiu em pedaços que se fincaram em sua pele, ocasionando uma dor latejante que ela só foi sentir mais tarde, e perda total do olho esquerdo. Ela soube que jamais encontraria o que restou do corpo de seu assistente, e nem queria. Seu dever era manter a memória da melhor imagem dele – um homem cuidadoso e cheio de vida.
A morte de Erwin foi mais difícil. Hange chegou a tempo de impedir uma tragédia, entretanto, não foi capaz de reviver o seu antecessor, uma vez que a escolha da seringa fora designada a outro soldado – Levi. A cientista estava ao lado dele enquanto a vida se esvaia em decorrência dos graves ferimentos no estômago, e foi ela quem atestou sua morte.
Hange e Levi carregaram o corpo sem vida de Erwin para uma das casas há muito tempo abandonadas e o puseram numa cama macia. Levi retirou a capa do uniforme e enrolou o rosto do comandante nela, para protege-lo das moscas e dos vermes. As asas da liberdade, emblema da Tropa de Exploração, ficaram voltadas para cima, amassadas e desfiguradas. Naquele momento, ela se permitiu um pouco de fragilidade. Hange sentou no colchão e chorou com as mãos no rosto, enquanto Levi ficou parado perto do rosto coberto do comandante. Ela sabia que Erwin e o capitão eram próximos, e que Levi precisava de um tempo sozinho com ele. Hange deu o que ele queria e foi para fora. Nenhum deles disse nada.
Na rua, Hange refletiu pela primeira de muitas vezes sobre todas as coisas que aconteceram naquelas poucas horas. Ela perdeu todo o seu esquadrão e ainda fora presenteada com o título de nova comandante da Tropa de Exploração, um exército quebrado de nove pessoas. Parecia uma piada de mal gosto. Enquanto esperava por Levi, encontrou algumas flores que, de alguma forma, sobreviveram ao caos da batalha. Hange recolheu as flores, sentindo-se um pouco consolada ao respirar o doce perfume. Quando Levi voltou, Hange entrou na casa novamente e colocou as flores num vaso horroroso que encontrou na cozinha, deixando-o no criado-mudo ao lado de Erwin. Não era uma maneira apropriada de dar adeus a um amigo, mas por ora serviria. Às vezes, ela lembrava disso e ria sozinha.
Agora, com a morte de Erwin e a descoberta de que a humanidade não estava à beira da extinção, Hange sentiu o peso do mundo cair em suas costas. Todas essas cobranças continuavam indo e vindo sem parar. Nem as noites eram tranquilas, pois os sonhos eletrizantes sobre titãs e ciência foram substituídos por pesadelos horríveis onde todos os seus companheiros caídos a observavam em silêncio.
Hange se via em um labirinto complicado onde todos os caminhos levavam para um beco sem saída. A nova realidade fazia a cientista questionar os seus próprios princípios morais e o que as asas da liberdade significavam naquele novo mundo. Os objetivos da Tropa de Exploração sempre foram o de exterminar titãs, proteger a humanidade e entender o mundo do lado de fora das muralhas que os prenderam durante todas aquelas décadas. Só que lidar com monstros gigantes sem o mínimo de intelecto é uma coisa, agora, lidar com seres humanos... é totalmente diferente. Que humanidade é essa, a quem ela devia proteger?
O único erro que Erwin cometeu foi escolher a mim como comandante.
O sol já tinha ido embora há muito tempo, restando a luz gerada pelo cristal brilhante que encontraram na caverna onde Rod Reiss manteve Eren e Historia presos. A pedrinha jazia no interior de uma pequena lamparina, iluminando a pilha de papéis em que vinha trabalhando desde a manhã. Admissão de novos recrutas, contratos de patrocínio, documentos da polícia militar, uma porção de estratégias para analisar e relatórios para escrever. Sua caligrafia, grossa e pequena, fora transcrita na parte inferior da folha: Hange Zoe, Comandante da Tropa de Exploração.
Enquanto separava as pilhas de documentos prontos, Hange escutou três batidas na porta que reconheceu como o toque de Levi.
— Entre.
Levi entrou e Hange sentiu o peso do olhar dele no mesmo segundo. O capitão não era uma pessoa expressiva, mas anos de convivência a fizeram aprender a ler as sutis mudanças em seu pequeno repertório de feições.
— É, eu estou um caco.
A comandante deu uma risada abafada, abaixando os óculos para assinar mais uma estratégia que acabara de avaliar – negada, exigia muitos riscos.
— Já passa da meia-noite, Hange, precisamos sair cedo ama- minha nossa... puta merda!
O capitão, que tinha avançado alguns passos em direção a escrivaninha, parou e levou os dedos ao próprio nariz, tampando-o com força ao que se afastava da comandante, a mão livre aberta em sua direção, como que pedindo para ela não se aproximar.
— Banho. Agora.
Hange assinou mais um papel, sem erguer a cabeça ao capitão. Seus lábios se puxaram em um pequeno sorriso ao que ela colocava o relatório na pilha de documentos para a polícia militar. Ela achou engraçado como algumas coisas mudavam tão bruscamente, ao mesmo tempo que velhos hábitos permanecem. Não era segredo que Hange não era muito fã de banhos, não que fosse porca ou algo do tipo, mas por estar sempre tão ocupada que acabava ficando sem tempo para necessidades básicas. Todo mundo que a conheceu antes — os que permaneciam vivos, no caso — notavam a mudança na postura, no olhar, nas rugas e até na polidez da sua fala, mas não lembrava de nenhum deles reparando se sua higiene melhorou.
— Isso explica porque todas as pessoas que entraram aqui hoje não quiseram ficar para a hora do chá.
— Você sente orgulho disso? — Os olhos de Levi faiscavam, ele odiava sujeira.
— Não muito.
— Então, banho.
A comandante encarou a face do capitão por um tempo, mordendo o lábio inferior ao mirar a papelada pendente, estudando a quantidade e calculando quando tempo demoraria para termina-la caso fizesse aquela pausa. Levi, provavelmente percebendo que Hange iria recusar, tomou a iniciativa de falar primeiro.
— Vou aquecer a água para você lá no banheiro de cima. Se você for boazinha, pode ser que eu lave o seu cabelo. Ugh, dá para fazer graxa de tão oleoso que está.
— Levi...
O capitão saiu do escritório sem dar a Hange uma chance de resposta.
A comandante retirou os óculos e deu um longo suspiro. Usou as duas mãos para massagear as têmporas, sentindo a cabeça doer só com o prospecto de deixar todo aquele serviço para depois, quando tinha tanto para fazer no dia seguinte. Isso a fez pensar em todas as vezes que Erwin ficou noites e noites preso naquele mesmo escritório, elaborando estratégias e preenchendo relatórios muito parecidos com os que ela devia terminar. Sempre soube que o companheiro era um homem dedicado e responsável, mas a real noção só veio quando foi colocada em sua farda.
Agarrou institivamente o medalhão esverdeado que pendia em seu pescoço, cuja única função era mostrar para todos o quão alta era a patente da pessoa que o utilizava. Um pingentinho de significado pesado que forçava a cabeça do usuário para baixo, enquanto este tentava mantê-la erguida.
— Tem sorte de ter chegado agora, se você demorasse mais trinta segundos, eu ia te buscar na base da pancada.
— Bem, parece que você ia inundar o Quartel General no caminho.
Ela se referia ao fato de Levi estar dentro da larga banheira, com água até o pescoço. Banho aquecido a gás era um luxo há alguns anos, agora, se tornara comum graças aos créditos que a Tropa de Exploração conquistou com a vitória em Shiganshina.
— Você sabe que posso me vestir rápido.
— E você sabe que eu posso correr mais rápido ainda.
Os óculos de Hange rapidamente ficaram embaçados por causa do vapor, então ela os colocou sobre a pia. A muda de roupa que trouxera foi depositada sobre a privada, ao lado das roupas do capitão.
A comandante começou a se despir na frente do espelho, primeiro livrando-se do peso que era aquele medalhão verde, colocando-o ao lado dos óculos e sentindo-se leve imediatamente. Tirou o blazer preto e o atirou no chão, em seguida retirando a camisa num único movimento, puxando-a por cima da cabeça sem se importar com os botões. Hange tinha uma porção de cicatrizes de batalha pelos braços, peito e costas, a grande maioria fruto de pequenos acidentes com o equipamento, embora os mais destacados fossem as queimaduras da primeira batalha contra o titã colossal, que formaram pequenas manchas escuras na pele. A calça desceu lentamente, expondo as pernas longas e torneadas por causa do exercício físico. Ela deixou as peças íntimas por último.
Ela não tinha nenhum pudor em ficar nua na frente de Levi. Não era a primeira vez que tomavam banho juntos.
A comandante suspirou quando o seu corpo afundou na água quente, espalhando aquele agradável tremor pela espinha ao que sua pele ficava arrepiada até que seu corpo estivesse inteiro coberto na água. Sendo mais alta que Levi, Hange precisava inclinar-se mais para trás para a água ficar na altura da clavícula, de forma que não demorou para suas pernas encostassem nas do capitão.
Suas bochechas ficaram coradas conforme suas costas relaxavam contra a borda da banheira, o estresse lentamente se esvaindo pelos poros abertos.
— Ah... que ideia boa você teve, Levi, um banho quente relaxa a gente.
— Que tal você começar a tomar banhos por conta própria, então?
Hange não respondeu, limitando-se a fechar o olho e suspirar com um sorriso no rosto.
— Você sempre toma banho usando isso, quatro-olhos?
As palavras do capitão fizeram Hange abrir seu único olho e ela encarou Levi com uma feição interrogativa, inicialmente não entendendo o que ele queria dizer; então, lembrou-se do tapa-olho, acessório que ela adotou no momento em que o médico a dispensou de usar bandagens.
— Eu uso tanto esse negócio que sempre acabo esquecendo dele.
Aquilo era uma meia verdade. Apesar de apertado, quente e desconfortável, ela acostumara-se a usar aquilo todos os dias, retirando-o apenas para dormir ou quando estava completamente sozinha. Hange nunca se preocupara muito com cicatrizes – ela tinha tantas que enlouqueceria – mas seu novo posto exigia uma cara bonita, de forma que não era nem um pouco adequado andar por aí com uma marca enorme no meio da cara e um olho faltando. Se Moblit estivesse aqui, ele diria “isso assusta as crianças”.
Resumidamente, o tapa-olho tornara-se tão essencial quanto seus óculos, ao ponto de Hange se sentir desconfortável de aparecer em público sem ele.
— Bem, você não precisa usar isso quando estiver sozinha comigo. Eu conheço a sua cara feia, sabe?
Levi deu sua típica pigarreada quando alguma coisa o deixava aborrecido. A comandante desviou o olhar para a água, sentindo-se vulnerável de repente. O capitão percebeu aquilo e suspirou, sentando-se na banheira ao inclinar as costas para frente, passando as pernas uma de cada lado dos quadris da comandante ao chegar mais perto dela.
— Venha aqui.
Hange acabou obedecendo. Os seios ficaram expostos quando ela sentou na banheira e rapidamente sentiu a pele quente sensível ao ar frio. As mãos de Levi foram para a fivela que mantinha o tapa-olho preso, liberando o cinto e vagarosamente o puxando para cima, com cuidado para não enrolar no cabelo castanho. Quando terminou, a parte esquerda do rosto da amiga ficou totalmente exposta. O lugar onde existiu o olho esquerdo não passava de uma pequena cratera vazia e molenga, sem nenhum pelo na região dos cílios. Riscos vermelhos e protuberantes denunciavam os lugares onde o vidro fincou quando a lente explodiu.
Aquela era a primeira vez que outras pessoas além dos médicos olhavam para a sua cicatriz e Hange surpreendeu-se com o quão desconfortável se sentiu em relação a isso, pois nunca passara por esse tipo de constrangimento antes, principalmente quando a outra pessoa era alguém íntimo e querido.
Contudo, já que tinha começado, não podia parar agora, portanto, permitiu que Levi examinasse a marca. Foi uma decisão boa, pois os toques macios do capitão lentamente afastaram aquele desconforto, e o fato do capitão não mostrar repulsa foi o fator mais importante para que Hange ficasse confortável. Ela se perguntou se Erwin sentiu a mesma coisa quando perdeu o braço. Levi dedilhava cada lesão com cuidado e paciência. O lábio superior de Hange tremeu quando ela tentou conter o riso.
— Faz cócegas.
— Não é tão ruim... se quer saber minha opinião, até que dá um charme.
— Ah é? Eu pareço radical?
Mostrou os caninos ao esboçar um sorriso descontraído, a primeira risada verdadeira do dia. No segundo seguinte, imitou uma expressão séria, por um momento esforçando-se para exibir a melhor “cara de importante” que conseguia. O único olho mirou um ponto invisível acima da cabeça do capitão, como se observasse um horizonte distante e desconhecido. Em resposta, recebeu um fraco tapa na bochecha, sem força suficiente para causar dor.
— Que crueldade! — Ela fez beiço de coitadinha. — Por que você fez isso?
— Pra você parar de fingir o que não é.
A expressão descontraída deu lugar a um olho arregalado e lábios separados em forma de “O”. Não sabia se estava mais chocada pelo súbito sermão ou pela constatação que o capitão acabara de fazer. Hange sabia exatamente do que ele estava falando, mas é diferente quando as palavras são verbalizadas através da boca de outra pessoa que convive com você diariamente, em vez de simplesmente ricochetear dentro da sua própria cabeça sem nunca serem ditas por você nem por ninguém.
A boca da comandante desenhou um sorriso apesar do resto da fisionomia denotar cansaço. Hange baixou a cabeça e seus ombros tremeram um pouco ao que ela riu através do peito, com os lábios cerrados.
— Você me pegou, Levi.
Suceder um líder incrível, criador de estratégias que são estudadas até hoje por comandantes e líderes de esquadrão de outras divisões, e que é referência em todas as pesquisas e livros sobre como agir numa guerra, não é uma tarefa fácil. Como chegar aos pés de um homem como Erwin? Hange era uma cientista e inventora, amante de aventuras e ciência, não uma estrategista fria e ambiciosa como o falecido chefe – qualidades que o momento atual mais demandava, pois somente uma pessoa assim saberia lidar com os problemas que não paravam de chegar.
A cada dia se via mais e mais convencida de que não nasceu para aquele trabalho. Ela não tinha a mínima ideia do que fazer com Marley, Eren e as múltiplas ameaças que precisavam enfrentar. Num tempo não muito distante, ela gastava o tempo bolando planos para expandir o território da humanidade, armas para abater titãs, outras formas de posicionamento em campo..., no entanto, em todos esses casos, Erwin e Moblit estavam lá para melhorar suas ideias ou ajudar a organiza-las.
Agora, nenhum dos dois estava aqui para ela. Hange estava sozinha na posição mais alta da Tropa de Exploração, parada sob o cadáver de Erwin com todos os outros soldados – vivos e mortos – vigiando. Todos esperavam dela o mesmo rendimento do antigo comandante, e isso só evidenciava mais sua impotência.
— O que aconteceu, Hange?
Levi era o único soldado da velha guarda que sobrevivera à última batalha. Ela não tinha ninguém e a mesma regra se aplicava ao capitão. Ambos sentiam que não podiam confiar totalmente em nenhuma outra pessoa além deles mesmos, e esse era um dos motivos para estarem mais próximos do que nunca. Levi havia praticamente virado o seu porto seguro. Não faz sentido mentir para ele.
As mãos do capitão seguravam o rosto úmido da comandante, de forma que ela era obrigada a encará-lo ainda que ela não tentasse fugir de seu olhar.
— Você lembra de como as coisas eram simples, Levi?
As coisas nunca foram simples. Mesmo assim, Levi entendeu de imediato o que a comandante queria dizer. Hange segurou os pulsos do amigo, baixando as mãos dele lentamente para a água.
— Capturar titãs... estudar os titãs... tentar não ser morta pelos titãs...
— Você nunca tentou “não ser morta” por um titã, Hange.
Hange achou graça do comentário do capitão e não tentou contestar aquela observação. Ela apertou o nariz do outro soldado e voltou a falar em seguida.
— Deixa eu falar. Sabe, Levi, sinto falta de quando o nosso único problema fora das muralhas, era os titãs. Pessoas são muito mais complicadas.
Hange sabia que ele estava prestando atenção mesmo que o capitão estivesse com sua fatídica cara de entediado. Eles ficaram em silêncio por uns segundos antes da mulher retomar a conversa.
— Quando o Erwin contou pra gente sobre a teoria do pai dele, eu não achei um absurdo, muito pelo contrário, me pareceu plausível. Erwin e eu conversávamos sobre isso, sabe? Acho que ele queria me deixar preparada para o baque, caso a teoria dele se provasse correta.
O braço de Hange se esticou até o suporte da banheira, de onde apanhou um sabonete branco e uma esponja vegetal. Ela falou enquanto esfregava o pescoço e clavículas.
— Todo esse preparo mental não serviu pra muita coisa. Bem, você viu como eu fiquei quando descobrimos sobre o pai do Eren, foi um choque.
A esponja era áspera e deixava sua pele vermelha. Hange levantou o braço e esfregou a axila, passando para o peito em seguida; o sabão escorria para a água, onde formava bolhas.
— Todos nós ficamos chocados, nem o garoto sabia da vida dupla do pai. É normal não saber o que fazer numa situação dessas.
— Sim, mas na posição em que estou, eu devia no mínimo fingir que sei o que estou fazendo.
A expressão entediada deu lugar a uma feição interrogativa. Levi arqueou uma das sobrancelhas e seu rosto pendeu para o lado, ele apoiara os braços nas bordas da banheira e sua postura antes relaxada endureceu ligeiramente.
— O que você quer dizer?
— Não finja que você não sabe. Quando o Erwin era comandante, só o olhar dele já era o suficiente para transmitir segurança. Ele sempre tinha uma solução. Eu não sou capaz de fazer a mesma coisa.
Hange havia virado o rosto para esfregar os antebraços e a cintura, de maneira que o vazio do olho faltante estava voltado para o capitão. Ao fim daquela sentença, ela parou por um segundo. Quando Hange girou o pescoço para o soldado entrar em seu campo de visão, um único olho castanho o encarou duramente. A tensão aumentou ao que a comandante transmitia aquele sentimento pesado ao capitão, e ele previu imediatamente quais seriam as próximas palavras da mulher, e elas soaram severas e acusadoras.
— O Erwin era o único que saberia lidar com essa situação, Levi. Ele devia estar aqui com a gente.
Levi não disse nada. Ele sustentou o olhar de Hange, mantendo uma expressão sombria enquanto a encarava e seus dedos apertaram as bordas da banheira. Nos mais de dez anos em que estiveram juntos, os dois soldados brigaram muitas e muitas vezes, mas até onde conseguia lembrar, aquela era a primeira vez em que chegavam perto de entrar em uma luta de verdade, onde o perdedor acabaria afogado.
Hange largou a esponja no fundo da banheira sem desviar a atenção do capitão e ele permaneceu imóvel, sequer piscando. Por longos minutos, ambos conversaram sem dizer uma única palavra. No fim, foi a comandante quem cedeu. Os músculos de suas costas e quadril, que estiveram preparados para uma investida, relaxaram e ela, derrotada, abaixou o rosto para a água, onde um pequeno monte de sabão havia se formado. Levi suspirou e suavizou o olhar, descontraindo os membros ao mesmo tempo e acomodando as costas melhor no encosto da banheira.
— Nossa... olha só o que acabei de falar.
— Venha aqui, vou lavar o seu cabelo.
A mulher deu as costas para o subordinado e se arrastou até ficar próxima dele. O capitão tinha cruzado as pernas perto do quadril, no que muitos chamam de “posição do índio” – será que ainda existem índios por aí, por falar nisso? Não é impossível – e Hange só parou quando o fim de suas costas encostou nos joelhos de Levi. Ouviu ele pegar o tubo de shampoo e fechou o olho instintivamente quando o creme foi colocado em seu cabelo.
— Desculpa. — A voz de Hange soava baixa e cansada. — Isso foi uma tremenda babaquice com você e com o Erwin. É errado eu querer que ele esteja vivo só porque não consigo pensar em nenhuma solução para os nossos problemas.
Levi puxou o ar longamente, os dedos do capitão trabalhavam no cabelo castanho com agilidade e os fios ficaram ensaboados em pouco tempo. A cabeleira de Hange era uma coisa volumosa e bagunçada, entupida de nós e sujeira, e mesmo assim Levi conseguia ser cuidadoso.
— Tudo bem, não estou irritado. Você está com medo, Hange, eu também estou.
— Sério?
— Claro que sim, você não percebeu?
Ela deu uma risada nasal e não acreditou que o subordinado estava perguntando uma coisa daquelas. Ele não tem espelho?
— Você está sempre com a mesma cara.
Hange sentiu uma pequenina rajada de ar quente quando Levi riu e ela pôde senti-lo sorrindo atrás de si – não era a primeira vez que o capitão sorria em sua presença, mas ela não podia evitar sentir-se lisonjeada toda vez que presenciava um daqueles raros momentos.
— Se serve de consolação, o mesmo se aplica a você. As pessoas comentam por aí sobre como você mudou. Você falou sobre como o Erwin transmitia segurança, contigo não é diferente, você também tem “cara de comandante”, Hange.
— Cara de comandante?
Ela jogou o pescoço para trás e encarou Levi de cabeça para baixo, sorrindo, achando graça do que ele acabara de falar apesar de entender o que ele quis dizer. Levi apenas assentiu silenciosamente e aproveitou que ela estava naquela posição para despejar uma caneca d’água sobre a testa da comandante, que escorreu para o cabelo escuro.
— Eu nunca tinha pensado por esse lado. As pessoas falam que eu mudei, que pareço mais velha, mas não imaginei que fosse uma coisa positiva.
Hange havia retomado a postura anterior, com a cabeça ereta. Outra caneca d’água foi esparramada sobre si e o cabelo castanho caiu liso e molhado sobre sua face. O banheiro tornou-se turvo e ela não se importou com isso, não fazendo menção de afastar as mechas. Ela virou-se para Levi, o encarando entre os fios castanhos.
— Mas... você acha que as pessoas podem contar comigo, Levi? É tão difícil ter que carregar esse fardo. Ainda não sei como vamos receber os Marleyanos.
Levi afastou o cabelo da comandante, puxando-o para trás. A visão de Hange ficou livre e ela aproximou mais o rosto do capitão, um gesto que ela fazia inconscientemente desde criança quando conversava um assunto sério com alguém. A maior parte das pessoas achava isso desconfortável.
— Quando o Erwin comentou comigo que ia te nomear como sucessora dele, eu não contestei. Eu confio em você, Hange, mesmo com toda essa sua loucura, suas estratégias e liderança sempre foram boas. Além disso, se você acha que o Erwin sempre estava certo, então não deveria duvidar da escolha que ele fez.
O olho da cientista se arregalou e os lábios se separaram numa expressão surpresa. Ela se afastou de Levi e olhou para os próprios joelhos afundados na água, sem ter uma resposta para dar a ele. Droga, aquilo fazia sentido.
— Você sabe quais são as competências para ser um comandante, não sabe?
Colocar a humanidade em primeiro lugar, amá-la e protege-la. Estar disposto a compreender e respeitar os mistérios do mundo e, principalmente, nunca desistir.
Os lábios da comandante desenharam um sorriso que iluminou o rosto úmido outrora exausto. A cicatriz em seu rosto ficou deformada quando as bochechas foram comprimidas contra as maçãs do rosto. Recordou-se do seu antigo eu, aquela pessoa cheia de energia e eufórica para desvendar as coisas maravilhosas que o mundo guardava lá fora, sem nunca considerar que sua vida tivesse outro objetivo. Ela não disse nada, não era necessário.
Levi também sorriu, embora fosse um riso pequeno e quase imperceptível. Todo o seu ser expressava amor por aquela mulher que era sua única e melhor amiga, sua protegida e também seu amparo, a corda que o prendia ao mundo real e lhe dava forças para continuar lutando.
As testas de ambos se encontraram ao mesmo tempo. Hange segurou os ombros de Levi e os dois encararam a água antes de seus olhos ficarem alinhados. Quando o capitão voltou a falar, sua voz soava baixa e cheia de confiança. A respiração do subordinado bateu no rosto da cientista e lhe fez cócegas.
— Não existe pessoa mais capacitada para esse posto do que você. Não subestime a escolha de Erwin.
Hange não manifestava nada além de gratidão e esperança. Os lábios se encontraram em um beijo curto e carinhoso, que transmitia toda a afabilidade que um tinha pelo outro. A comandante empurrou o rosto contra Levi, roçando o lado direito da face na bochecha alheia de maneira gentil.
— Levi, obrigada.
O capitão tremeu com as palavras que Hange acabara de falar, mas a mulher estava tão entusiasmada que não reparou na reação do subordinado. Ela levantou da banheira com afobação e Levi permaneceu, assistindo sua chefe secar o corpo superficialmente, prender o cabelo ainda molhado e vestir a camisa por cima da cabeleira selvagem. As mechas castanhas começaram a pingar água nas costas da blusa, mas a comandante não deu a mínima para aquele detalhe.
— Onde você vai?
— Voltar para o escritório, acabei de ter uma ideia. Vamos esperar os Marleyanos no mar e pegá-los de surpresa e aí então- ah, depois te conto, preciso ir.
Colocou os óculos e saiu sem olhar para trás, abandonando Levi e ganhando o corredor, por onde seguiu em passos largos, a cabeça erguida e o cérebro funcionando como um furacão. O capitão revirou os olhos, sorrindo; aquela era a Hange de verdade.
O medalhão esquecido na pia foi encontrado por Levi. O capitão levou o pingente aos lábios, beijando as asas da liberdade desenhadas no interior do objeto. Não era fácil estar ao lado de pessoas tão incríveis. No fundo, ele sabe que, se um dia Hange precisar sacrificar a própria vida pela humanidade, ela o fará sem olhar para trás. Sempre que se pega pensando nesse cenário, ele promete que estará lá para ela, como esteve por Erwin. O soldado sabe que a mulher fará a mesma coisa por ele, caso sua hora venha antes. E, se a ordem partir dela, Levi obedecerá sem questionar.
Hange voltou para o escritório e trabalhou a noite toda. No dia seguinte, ela e Levi foram à capital resolver assuntos pendentes e aproveitaram para apresentar as propostas em que Hange passou a noite trabalhando. A comandante da Tropa de Exploração falou com segurança, devagar e claramente, sem apresentar brechas e respondeu todas as dúvidas e críticas de forma implacável.
Todos os presentes estavam tão fascinados por sua competência que não repararam na olheira funda presente no rosto de Hange, fruto de mais uma noite de sono que ela sacrificou em prol da humanidade.
Notas finais
Acho válido apontar que usei de inspiração uma história do Smartpass de Attack on Titan, onde a Hange e o Levi vão visitar a Historia na fazenda e ela repara como a Hange mudou em tão pouco tempo. Também usei o canon de que o Levi banhou ela em algumas ocasiões, e utilizei elementos dos capítulos 84 e 85 do mangá.
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