O peso de uma escolha.
6 Prisões sem muro.
Notas iniciais
Então sempre trancava bem a porta. Tinha um receio enorme. Ela não conhecia mais o irmão que tinha de uns meses para trás. Por diversas noites ela ficava acordada, não conseguia dormir. Ele ficava cheirando seu cabelo. Às vezes acariciava seu joelho. Era um homem irreconhecível. E era mais uma coisa com que ela tinha de lidar. Além do seu peso que crescia a cada dia.
Após o banho a cama já estava preparada. Ela olhou para o local, enquanto o irmão estava sentado na janela, observando o cair da noite. O vento frio invadia o quarto e causava pequenos arrepios na garota que sairá a pouco tempo do banho fresco. Ela costumava dormir com um camisola frouxo preto, hoje em dia somente com um pijama composto de uma calça folgada e uma blusa de mangas.
De longe quem via dizia que Ehtan era o típico cara perfeito, tirados dos filmes, mas ela sabia mais do que ninguém que aquilo não era o que o irmão realmente era.
— Você me conhece bem, não é Elisa? — ele questionou como se lesse os pensamentos dela. — Sabe que por trás desse homem perfeito, existe um garoto assustado. Entende que eu não sou aquilo que todos tarjam que eu fosse. Por isso meu mundo é você. — ele levantou-se e caminhou até ela que deu alguns passos para trás, esbarrando na cômoda que ficava ao lado da cama. — Só você que esta aqui por mim, para me entender, para me tirar dessa aparente agonia em que me vejo. Um sorriso foi esboçado.
— Vamos deitar?
Eles se encaminharam a cama, deitaram-se como de costume e ela sabia que o irmão estava cheirando seu cabelo.
— Gosta do cheiro do shampoo? — ela perguntou como para distrair.
— Também, gosto mais do cheiro do seu corpo inteiro.
O toque dele era preciso e de longe aquilo podia ser classificado como amor fraterno. Quis acreditar que era o seu irmão e que não faria nenhum mal a ela. Quis colocar aquelas palavras dentro de si, intensamente.
— O seu cheiro também é muito bom. — ela balbuciou.
De súbito ele encostou o nariz em seu pescoço e aspirou aquele cheiro que ela tinha. Elisa se encolheu um pouco, ele percebeu a reação que provocava nela. Só por aquele dia, Ehtan quis esquecer que eram irmãos. Elisa querendo fugir daquele toque se virou encarando-o. Não conseguia entender como ele era tão bonito. Estava soando, sabia que seu peso não ajudava muito a se mover e a cama não era exatamente grande o suficiente.
As mãos do mais velho deslizaram pela face da menina que institivamente fechou os olhos. Aquele pequeno gesto fora sua ruina. Os pensamentos do irmão estavam focados nos lábios dela. Para ele havia a necessidade de toma-los urgentemente. E assim o fez.
Lentamente ele aproximou-se mais da irmã e depositou em seus lábios um beijo pequeno e estalado. Fazendo a abrir os olhos e se assustar.
— Ehtan... — ela quis dizer algo, mas antes que pudesse falar as mãos do mais velho tocaram seu rosto. E mais uma vez seus lábios se tocaram. Elisa sabia o peso daquele pecado e não quis continuar com aquilo. O beijo dele não estava sendo correspondido. Mas para ele, ela queria tanto quanto. Estava doente e não percebia. Aquele amor que nutria dia após dia nada mais era do que uma obsessão que mascarava um mal maior.
— Eu... — ela quis falar.
— Não diz nada Elisa, apesar de sermos irmãos não tem problema. — seus olhos estavam estáticos nos dela. Não havia aquele brilho comum e habitual, ao invés disso um tom que ela nunca conheceu. Pela primeira vez em anos ela sentiu medo do irmão. Ele tinha muita força e manteve-a junto em um abraço bem sufocante.
— Ehtan, está apertado. — ela disse por fim.
Ele apenas riu disso, como se fosse uma brincadeira e afrouxou o abraço. Olhou mais uma vez no rosto dela.
— Não me canso de te olhar sabia? Você é muito linda.
Qualquer palavra que ela dissesse seria usada contra ela ou mal interpretada. Optou por ficar calada.
Mais uma vez o irmão quis tomar os lábios da mais nova. Dessa vez Elisa tomada pelo pavor correspondeu. Seu corpo estava rígido e tenso, enquanto o do irmão estava leve. Nesse momento ele estava se sentindo nas nuvens. Achava que seu amor estava sendo correspondido. O beijo não durou muito, cerca de um minuto apenas. Ela não conseguia encarar o rapaz, que trazia um sorriso doentio no rosto.
— Eu queria dormir sozinha hoje. — ela balbuciou timidamente.
Nesse instante, aquelas palavras pareceram um soco no estômago do rapaz, que se levantou sobressaltado. Aproveitando a deixa a menina também se levantou fitando a porta, que ainda não estava trancada. Mania essa que o irmão não deixava passar.
— Como assim Elisa? Dormir sozinha. — ele riu, como se aquilo fosse uma piada.
— Eu estou soando muito, isso não te incomoda?
— Nenhum pouco. — ele rapidamente foi até a janela e lá se sentou. Aquele não era seu irmão. Ela sabia muito bem disso.
Ele parecia alterado e socou o vão da janela. Isso assustou Elisa que baixou a cabeça.
— Não seja boba. — ele continuou. — Eu sou seu irmão. E amo você. Agora mais do que nunca. Não iria me incomodar com algo assim. Logo, você vai emagrecer e ficar mais linda do que já é. Vamos poder morar apenas nós dois. Em outro lugar e...
Mesmo que os pais não fossem os melhores, a menina não queria ir morar com o irmão. Não aquele rapaz que mostrara o que realmente era.
— Eu não quero me mudar agora. — ela procurou as palavras para usar. — Não temos dinheiro o suficiente para nos manter...
— Não se preocupa com isso, meu amor. — ele se aproximou dela e sentou ao seu lado. O vento frio a fazia tremer assim como a sensação que o irmão passava. Quando ele quis tocar seu rosto ela levantou e foi até a porta.
— Pra onde você pensa que vai? — ele disse em tom seco, se levantando.
— Vamos dormir no seu quarto? Sei que tem uma cama de casal e...
— Não. — ele interrompeu. — Eu já disse que não. — ele agora segurava forte no pulso da garota. A dor começara a fazer efeito.
— Me solta Ehtan. — ela pediu baixando a voz.
— Não até você entender que o nosso lugar é aqui. Juntos! — ele estava transtornado. Arrastou a menina e a fez sentar na cama. Seus pulmões não estavam prontos para isso e podia-se ouvir o som ofegante de sua respiração de longe.
Ele foi até aporta e a trancou. Em seguida, ficou escorado nela olhando para a irmã que nem se atrevia a se mexer. Parecia uma prisão. Mais uma. Além do seu próprio corpo.
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