O peso de uma escolha.
22 Contendas
Notas iniciais
— A soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. — Ehtan dizia uma teoria a esmo enquanto Elisa a anotava com cuidado. — Fica mais ou menos a²= b²+ c². — Ele continua explicando enquanto Lenny o observa de longe. Todos estão no quarto da garota, sendo que o mais velho está sentado na cama lendo um livro a esmo enquanto os outros dois estão revisando uma matéria do dia sentados no sobre o tapete do quarto da menina.
No fundo o professor não acreditava em nada nessa melhora repentina do rapaz. Mas naquela semana que se passara ele tentou testar o menino de todas as maneiras. Beijava a namorada na frente dele, como fazia elogios ou dava abraços em excesso. Elisa percebia isso e procurava, por diversas vezes, evitar esses carinhos fora de hora.
— Você parece estar feliz. — Leonny pergunta ao mais novo que não tira o olhar do livro ao responder.
— Sim, eu estou.
— Por que essa pergunta Lenny? — Elisa interrompeu o dialogo dos dois.
— Por nada meu amor, apenas é uma observação que eu queria fazer.
Ehtan sorri disfarçadamente.
— Certo então.
— Vou buscar um pouco de suco, vocês querem? — Ehtan diz ao se levantar.
— Eu quero sim. — a irmã do rapaz responde.
Ele assente com a cabeça e sai.
— O que você esta tentando fazer? — Elisa pergunta ao namorado.
— Como assim?
— Meio que essa semana você foi tão indireto. Como se quisesse provocar o meu irmão.
— É impressão sua, tenha certeza. Eu não quero fazer nada em relação a ele. Muito pelo contrário, estou feliz por ele estar se tratando e indo sozinho ao hospital.
— Eu vi você entrando no quarto dele na quinta feira, quando ele foi ao hospital. O que queria lá Lenny?
O jovem deu uma risada sarcástica e depois olhou no fundo dos olhos da menina.
— Eu queria ver se ele estava se mutilando de novo ou escondendo alguma foto.
Ela ficou calada por um tempo e desviou o olhar para o livro que tinha em mãos.
— Obrigada por se preocupar, mas eu acho que ele realmente esta mudando. Ou ao menos querendo algo. Creio que ele não se mutilaria mais.
— Você não acha que está tudo sendo rápido demais? Como se ele nunca estivesse doente, porém sabemos que ele estava muito mal. Eu duvido de que ele realmente esteja curando-se.
— Sabe eu passei por momentos muito ruins e eu tenho esses pensamentos na minha mente dia e noite. Fico tendo pesadelos com o que aconteceu constantemente. E para não ficar louca eu prefiro acreditar no melhor. Já sou negativa em relação a mim mesma. Quero ao menos acreditar que ele pode mudar. Acreditar que está mudando e que voltaremos a ser uma família de novo. — ela hesitou um pouco sob o olhar do rapaz. — Ele não dorme mais comigo a muito tempo.
— Isso não significa nada Elisa. As pessoas mentem, fingem. Quem lhe garante que ele não está mentindo pra você agora?
A menina balançou a cabeça em tom negativo. Parecia que estava falando com em vão.
— Aqui os sucos, aproveitei e trouxe um pouco de bolo pra nós. — Ehtan entrara carregando uma bandeja com os lanches.
— Ah, obrigada. — Lenny respondeu indo pegar um pedaço do alimento.
Elisa estava de cabeça baixa e assim ficou ao ser servida. O rapaz sentou-se novamente ao lado da menina, que sorriu ao ver de volta o irmão.
...
A chuva banhava a noite com sua calmaria eminente. Sarah desceu do carro da namorada.
— Vai logo se não você vai se molhar mais ainda. — Roberta disse puxando a gola da blusa da mulher a fim de depositar um casto beijo sobre seus lábios.
— Sim, mas você tem certeza que é o certo a se fazer?
— Claro meu amor. Por favor, ande logo. Te vejo em mais ou menos uma hora. — Sarah sorri sem jeito e corre até a entrada da sua antiga casa. Olha a porta apreensiva e vira-se para ver o carro partir.
—É agora ou nunca. — ela murmura.
A campainha tocou e Elisa foi abrir. Lenny estava no sofá lendo enquanto Carlos e Ehtan terminavam o jantar.
— Mãe. — a voz da menina ecoou pelo cômodo por ter sido alta e pelo quase total silencio que se instalava.
Carlos soltou o pano que tinha em mão e Ehtan desligou o fogo do que estava cozinhando. Ambos se encaminharam a sala. A mulher estava apreensiva. Tinha muito o que dizer e não sabia nem por onde começar. Quando viu o filho ela se emocionou e antes que pudesse evitar lágrimas lhe escorriam pela face.
— Eu tenho tanto a dizer. — ela sussurrou como que para não ser ouvida.
— Eu vou pro meu quarto. — Lenny disse se levantando.
— Não, por favor, fique. Se eu não estou enganada você é o namorado da minha filha e eu quero que você participe dessa conversa.
O rapaz fez que sim com a cabeça e se sentaram no sofá. Elisa e Leonny de um lado e Carlos e Ehtan do outro e na única poltrona da sala Sarah ficou.
— Primeiramente eu queria me desculpar com vocês dois. Por eu ter fugido.
O rapaz era raiva por dentro e não queria ouvir as explicações da mãe. Mas sabia que a sua encenação não poderia ser revelada, assim se manteve firme e quieto.
— Eu não sabia o que fazer, quando eu percebi virei o pior tipo de mãe que alguém poderia ter e descontei a minha frustação nos meus filhos. — ela parecia visivelmente abalada, torcia a barra do casaco e estava ofegante.
— Tudo bem mãe. — Elisa se pronunciou. — Só que eu não consigo mais confiar em você. — a menina baixou a cabeça ao falar. Lenny tocou seu ante braço como quem a encorajava a prosseguir. — Eu entendo o que você estava passando e vejo que era uma situação difícil. Mas papai está tentando. E eu percebi que ele queria mudar, que ficou do nosso lado. Que não abandonou meu irmão e nem a mim. Mas você...
— Você fugiu como se fosse fácil assim voltar e ter tudo como era antes. — Ehtan interrompeu o dialogo da irmã. Sua raiva transbordava. — Concordo com a minha irmã. Quem você achava que era quando descontava toda sua raiva nela? Quem você pensa que é ao bater até cansar em uma filha que queria só um pouco da sua atenção. Que mãe você é? Ele pode te perdoar. — ele apontou para o pai. — Ela pode te entender. — agora indicou Elisa. — Mas eu Sarah, eu estou cansado das suas desculpas. Não é assim que funciona. — lágrimas involuntárias estavam escorrendo pelo seu rosto. — Você não pode simplesmente esquecer que nós existimos quando está se sentindo mal e do nada aparecer como se isso fosse fácil.
Carlos colocou a mão no ombro do filho, tentando esconder o choro que queria vir.
— Diga a eles Sarah. Conte a eles. — o homem balbuciou.
— Dizer o que? O que mais falta para sabermos? — Ehtan perguntou.
— Você quase estuprou a sua irmã e você Carlos, vivia como um parasita me causando problemas. Como podem os dois, me julgar dessa maneira. — A mulher não se abalou e argumentou.
— Desculpa mãe, mas meu irmão me protegeu dia e noite. Cuidou de mim, ficou do meu lado, foi o único que nunca me deixou cair. Acredito que ele também estava passando por dificuldades e esse amor que ele desenvolveu foi um reflexo disso, uma maneira de fugir desses problemas. Já meu pai está lutando dia e noite para melhorar. Está querendo sempre dar o seu melhor, mesmo quando ele sabe que é um humano falho e que está suscetível a cair a qualquer momento.
Carlos e o filho olharam para a menina cheios de orgulho, enquanto a mulher ficou sem palavras.
— Já chega, eu vim me desculpar e não ser julgada. Se me perdoam ou não é uma escolha de vocês. — ela se levantou e quis caminhar até a porta quando foi impedida pelo marido.
— Você ainda está namorando aquela mulher?
O questionamento do homem foi como uma bomba sobre a cabeça de todos.
— O que porra é essa mãe? — o garoto gritou se levantando. — Eu sei que ele não foi o melhor homem do mundo, mas não merecia ser traído. Ainda mais ser trocado por uma mulher.
A menina estava estática. Lenny não sabia o que dizer, se sentia frustrado, ainda mais por conhecer Sarah desde sempre.
— Que bela maneira de agir. — o rapaz não quis mais participar daquela conversa e saiu da sala indo pro seu quarto. Elisa acordou do seu breve transe e olhou para o irmão que estava irritado.
— Tudo bem, pode ir. — Lenny disse ao ver o olhar da menina em sua direção. Ela fez que sim com a cabeça e seguiu o rapaz.
Sarah apenas baixou a cabeça, enquanto Carlos soltou seu braço. Por fim ela olhou nos olhos dele e o puxou para um abraço.
— Cuide deles por favor. — Carlos fez que sim com a cabeça e a deixou ir. Quando a porta se fechou ele desabou, ficando de joelhos no chão. Lenny rapidamente foi até o homem e o abraçou deixando que ele chorasse o quanto quisesse. Não adiantaria insistir muito. Ele sabia que à havia perdido.
Ehtan deitou-se na sua cama e abraçou o travesseiro. Elisa entrou devagar no cômodo e ficou olhando o irmão. Tomou coragem e sentou-se ao lado dele, que sorriu timidamente enquanto olhava de soslaio pra irmã.
— Que bela mãe nós temos eim?
— É Ehtan, realmente ela é uma bela mãe. — a menina tentou sorrir e começou a acariciar os cabelos do rapaz que fechou os olhos.
— Por favor, não me deixe, certo? Eu te amo mais que tudo no mundo Elisa.
— Eu nunca vou deixar você. — ele se levantou e sentou-se na cama. De leve e aproximou-se do rosto da irmã. Ela não conseguiu desviar o olhar do dele e por um momento pensou que o seu namorado teve razão. Que o irmão não estava curado, que estava apenas fingindo. Seus coração estava acelerado.Mas para sua surpresa ela se enganou. Ele fechou os olhos e deu um leve beijo no rosto da irmã. Que não estava acreditando no que acontecera. Eles estavam
sozinhos, a porta estava trancada e se fosse antes ele poderia ter beijado a boca dela como sempre fazia. Mas não o fez.
— Eu vou cuidar sempre de você assim como você cuidou de mim. — a garota disse por fim olhando fixamente nos olhos do mais velho que sorria timidamente enquanto uma fina lágrima lhe escorria do rosto.
...
Duas semanas se passaram desde aquele incidente. Carlos não teve mais noticias da mulher, muito menos os filhos. Lenny estava incomodado com a amizade crescente entre os irmãos. Ehtan sempre o tratava bem e era atencioso com o cunhado. Isso o deixava sempre com um pé atrás. Elisa por outro lado estava perdendo peso, conseguindo chegar já aos seus oitenta quilos. Isso a animava e lhe dava um ar melhor. O garoto voltou a estudar e foi bastante aclamado na escola.
— Por um momento eu esqueci de que você era bem popular aqui. — Elisa comentou na hora do intervalo das aulas.
— Ah sim, mas eu não ligo pra isso. — disse ele limpando o rosto da irmã que havia se sujado um pouco.
— Ei Elisa, Ehtan. — Lewis chegara de súbito e sentara-se à mesa ao lado deles.
— Oi Lewis. — o menino cumprimentou seco enquanto a irmã apenas acenou.
— Bem eu terminei com a minha namorada. E estava pensando se, — ele hesitou. — Elisa, você quer namorar comigo?
A moça ficou surpresa e arregalou os olhos e olhou para o irmão que estava tranquilo.
— Olha Lewis, a Elisa já tem um namorado, é um cara legal e que eu aprovo, então sinto muito. — o garoto disse e depois tomou um gole de refrigerante.
— Isso é serio Elisa? — o ruivo perguntou apreensivo.
— Sim é verdade.
— Eu conheço ele?
— Não, ele não é daqui.
— Certo desculpa incomodar. — ele disse se levantando e indo embora.
— Vamos? — Ehtan perguntou terminando de comer. — A aula já vai começar.
...
Dois dias depois Lewis não conseguia tirar da mente a informação do namoro de Elisa. Ele se sentia mais do que traído. Acreditou fielmente que a garota estava esperando por ele. Inconformado com tudo ele foi à casa da menina. Eram mais ou menos umas quinze horas. Nesse dia o professor estava em casa aos beijos no sofá com sua namorada, enquanto o cunhado lavava roupa e lia um livro a esmo enquanto esperava o ciclo da máquina de lavar terminar.
O velho barulho avisava que um visitante esperava a porta. O rapaz correu para abri-la ignorando a cena que se seguia na sala. Quando para sua alegria Lewis adentrou a casa sem cerimonia e passando por Ehtan abruptamente presenciando os beijos do casal.
— Elisa, você está namorando o professor de física! — o rapaz disse impressionado enquanto o irmão da garota sorria maliciosamente.
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