O perigo mora ao lado
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Eu e Dante decidimos ir morar juntos, um grande passo não acham? Mas acho que esse é o passo correto antes de um casamento.
Não voltamos a falar sobre esse assunto, mas eu sempre usava a aliança. Eu estava sendo boba em usa-la, mas eu tinha medo do que Dante poderia dizer se não me visse com ela. Entendam, eu tecnicamente não aceitei a proposta dele e qualquer homem em sã consciência ficaria ofendido, humilhado e eu gosto dele, não quero terminar com ele. Mas casar conhecendo uma pessoa há alguns meses é loucura!
(N/A: Concordo plenamente com você, garanto por experiência familiar que não dá certo).
Acabamos por decidir construir uma casa... E nossa como isso foi complicado! Obra é coisa do demônio só pode. Construir uma casa do zero é loucura, mas nós tínhamos ideias bem especificas de como queríamos a casa de nossos sonhos, então o melhor era construir uma.
Eu investi todas minhas economias na construção e com Dante foi à mesma coisa. Todo final do mês nós estávamos quebrados, mas quando íamos ver como estava o andamento da obra tudo valia a pena.
E um ano se passou...
***
–AHHHHHHH! Dante chegou a minha vez! – Disse gritando entrando no meu apartamento.
–O que houve? O que é sua vez? – Perguntou Dante agitado.
–A última coisa que eles têm para fazer da obra termina amanhã! Ou seja, essa diva aqui vai começar as compras para a casa! AHHHHHHH! Chega dessa vida de apartamento! – E vou correndo até o quarto e só escuto a risada de Dante.
Nós ainda não havíamos nos desfeito de nossos apartamentos, estávamos morando no meu e usando o de Dante para guardar os móveis e as coisas da obra, ou seja, um deposito.
Tirei a roupa do trabalho correndo e pus um vestido.
–Aqui... Eu peguei algumas revistas de decoração. Eu já tenho em mente o estilo que quero para os cômodos, você tem alguma escolha ou preferência? – Digo me sentando na frente dele e espalho as revistas pelo chão.
–Não... Sei que você não vai encher a casa de coisas rosa então... – E rir – Só quero que você coloque os quadros da minha mãe pela casa, tudo bem para você?
–Ah, claro! Depois você passa na sua antiga casa e traz todos os quadros, assim eu já escolho onde vou coloca-los – Digo sorrindo.
–Fico feliz que você esteja animada com tudo mesmo depois de tanto tempo – Comenta Dante.
–Obra é assim mesmo, demora e também choveu muito, isso atrasou demais o andamento – Murmuro passando as folhas até achar o lustre que queria para por em cima da mesa de jantar.
Passamos boa parte da noite opinando sobre os móveis e suas cores, antes de acabarmos na cama.
***
–Deus! Não acho nada nesse apartamento! – Murmuro sozinha irritada.
Estava no apartamento de Dante procurando os quadros da mãe dele, mas pelo visto ele ainda não havia os tragos para cá.
Peguei algumas caixas e saí do apartamento, iria leva-las para a casa logo.
Não pude deixar de suspirar assim que cheguei a casa, estava tudo exuberante, ainda não podia acreditar que essa seria minha casa.

Enquanto caminhava até a porta principal deixei alguns jarros de plantas pelo caminho e depois corri de volta até o carro para pegar algumas coisas.
Ajeitei tudo que havia trago na casa e ainda era cedo então decidi ir até a casa antiga de Dante pegar os quadros da mãe dele, eu queria ajeitar tudo o mais depressa possível, os gastos eram excruciantes.
Mandei uma mensagem de texto para Dante avisando que passaria na casa e saí, ele ainda estava no trabalho então não vi nada demais ir até lá.
***
Assim que cheguei à antiga casa de Dante as lembranças daquela velhinha voltaram, antes de sair do carro olhei para ver algum sinal dela, mas não havia nada. Saí do carro com tranquilidade e fui até a porta, havia visto Dante guardar a chave reserva dentro de um jarro de planta e foi com essa chave que entrei.
Peguei logo os quadros que estavam na pequena sala e decidi andar pela casa atrás de mais. Já estava com seis quadros debaixo do braço quando entrei no antigo quarto dos pais de Dante.
O ambiente era tão frio e neutro que eu entrei devagar, nunca havia entrado ali. No quarto só havia uma cama coberta por um lençol branco e uma cômoda. Peguei os dois quadros que estavam na parede, conferi a assinatura da mãe de Dante e iria sair... Mas não consegui, alguma coisa naquele quarto estava me incomodando.
Curiosa do jeito que sou mordi os lábios e decidi dar uma olhada dentro da cômoda, ela tinha marcas de dedo e parecia ser recente...
...
...
...
Muitas fotos.
Havia milhares de fotos minhas.
Deixei os quadros caírem no chão e comecei a olhar loucamente as fotos... Eram todas minhas! No trabalho, em casa, dormindo, dentro do carro... Havia pilhas de fotos minhas! Todas estavam separadas por compartimentos. Eu não conseguia respirar direito...
Minhas mãos começaram a tremer e eu abri a segunda gaveta...
A terceira gaveta...
A quarta gaveta...
Minha bile subiu, eu estava com tanto nojo de tudo aquilo, com tanta raiva!
Havia uma gaveta com várias roupas minhas, inclusive calcinhas rasgadas, calcinhas que Dante havia rasgado! Havia frascos dos perfumes e hidratantes que eu usava... Outra gaveta... Todos os meus dados estavam ali, meu seguro social, nome completo, nomes das instituições que estudei, nome dos meus pais, foto da minha casa em Montreal, havia os dados da Julie, extratos das minhas movimentações no banco!
Coloque tudo aquilo no chão e vi um envelope escrito “Pais biológicos” então o ar saiu dos meus pulmões e eu caí de joelho.
Ele não havia feito isso... Ele não fez nada disso... Repetia sem parar em minha mente, mas ele fez.
Ele é um perturbado.
Um doente.
Eu estava convivendo com um doente, um lunático, um perseguidor.
Eu olhei para tudo aquilo no chão, milhares de fotos minhas, meu nome em todos os lugares, meu cheiro impregnado em tudo... Aquilo era o fim, um horror, uma visão macabra, parecia um altar.
Respirei fundo novamente e me sentei na beira da cama, não conseguia parar de tremer, aquele envelope e minhas fotos me aterrorizavam.
Eu não sabia o que fazer, não tinha coragem de olhar as outras gavetas, tinha vontade de queimar a casa e sair correndo gritando feito uma louca.
Passei a mão pelo cabelo e saí da casa atordoada, só parei de andar quando ouvi a voz atrás de mim.
–Você está igualzinha a Cecília... Também está ficando maluca – Suspirou com pesar.
Quando me virei vi aquela mesma senhora que vi com... Dante.
Senhora Rey.
“Você vai ter o mesmo destino que Cecília” foi o que ela disse.
–O que aconteceu com Cecília? – Perguntei com a voz tresloucada, talvez eu estivesse ficando louca...
–Você não sabe de nada, não é menina? – Disse irritada e cuspiu no chão antes de me puxar com as mãos tremulas até o jardim dos fundos da casa.
–Você está vendo aquela árvore? – Disse irritada, quase gritando.
–Estou – Respondi.
–Então, foi ali que a mãe de Dante se matou, ela se enforcou.
Meu queixo caiu e o ar saiu estranho de minha garganta.
–O QUE?! –Gritei – Como assim ela se matou? Por quê? – Gritei furiosa.
–Não grite comigo menina! Tenho idade para ser sua mãe! – Resmungou com falsa tristeza e tirou um lenço de dentro do vestido, passando pelo rosto e seu olhar voltou para árvore – A menina Cecília se matou a pobrezinha... Coitada, ela não aguentou viver na pressão desta família.
–Explique do inicio velha! – Disse sem paciência e o olhar acusatório dela voltou.
–Você não é igual à Cecília, ela nunca daria uma resposta assim, Pedro sempre mantia sua boca controlada – Disse ácida – A pobre Cecília teve o infeliz destino de se casar com o De La Torre, aquele monstro... Aquele marido dela a prendia dentro de casa, abusava dela todos os dias... A levava para o quintal como um animal, nós podíamos ouvir os gritos quando ele brincava de bater nela... A senhora Barney do 312 sempre me disse que via ele levando potes de veneno para dentro de casa e eu acreditava nela, quando via Cecília na rua ela sempre estava abatida e um pouco cinza.
–Por que nunca fizeram nada? – Foi à única coisa que consegui dizer com a voz rouca.
–Menina... Aqueles eram outros tempos, uma mulher não tinha tanta liberdade quanto vocês tem agora, principalmente em Washington com tantos homens conservadores. Algumas vezes chamaram a policia, mas Cecília sempre dizia que nada estava acontecendo ou simplesmente nem viam rastros dela pela casa – Comentou com falsa tristeza, fungando.
Como ela conseguia se divertir com aquilo? Não se importar?
–Continue! – Disse grosseiramente.
–Quando o menino Dante estava a caminho tudo mudou drasticamente, Cecília saia de casa sem o marido, podia conversar comigo e com as outras senhoras... Ah, como ela era uma latina tão bonita! Tão doce como esse povo é... Não você! Você é uma canadense grossa! Mas enfim, se o menino Dante te escolheu...
–O que aconteceu com Cecília depois que Dante nasceu? – Disse exasperada.
–Ah, eu acho que ele parou de bater nela por causa do menino, ele nunca fazia isso na frente de alguém. Acho que ele gostava de como ela cuidava do filho dele, aquele diabo... – Ela disse e não escondeu o nojo e o horror ao falar sobre o pai de Dante – Mesmo assim ele sufocou a mulher de cuidados, ela e o menino sempre ficavam presos dentro de casa... Mas a Cecília conseguia viver, nunca entendi o porquê... Ela continuou anos com ele, nunca se separou ou fugiu... – E pela primeira vez notei o tom de arrependimento e confusão em sua voz – Pela primeira vez que o menino Dante saiu de casa para ir para um acampamento as gritaria na casa voltaram... Aquele demônio acusando Cecília de olhar para os vizinhos, de ficar conversando com homens! Aquilo era um absurdo! Eles não tinham telefone! Era a única casa da vila que não tinham! E ele sempre a trancava antes de sair! Sempre! Só Deus sabe o que aconteceu naquela noite nessa casa... – Murmurou e fez o sinal da cruz olhando para a casa.
A senhora Rey se voltou para mim pela primeira vez desde que começou a falar e me olhou sombriamente.
–Meu segundo marido Harry nunca havia visto Pedro agindo assim e na manhã seguinte me obrigou a acompanha-lo até aqui... Nós batemos na porta e nada, nós vimos o sr.De La Torre saindo mais cedo, então Cecília estava em casa. Nós batemos, chamamos e nada, então fomos ao jardim dos fundos... E ela estava lá... – Seus olhos se encheram d’água – Aquele rosto tão puro estava todo roxo! Roxo! Ela estava pendurada como um animal naquela árvore! Ainda estava de camisola... Eu fiquei lá com ela tentando levantar seu corpo... Mas ela estava ficando fria, eu não conseguia parar de chorar, meu marido me deixou sozinha e saiu correndo atrás de ajuda...
Sr.Rey começou a andar pelo jardim com o olhar alucinado, falando para os céus.
–Todo mundo chegou, todos gritavam e eu ainda estava segurando Cecília, não queria que ela morresse assim, ela não merecia... Alguém ligou para Pedro, Deus... Nunca vou esquecer dessa cena – E voltou a olhar para mim – Quando ele viu a mulher pendurada na árvore começou a gritar com um animal... Ele me empurrou e tirou a mulher dali, sacudiu seu corpo, gritou com ela, chorou, pediu a Deus para que a ajudasse, depois começou a praguejar o nome do Senhor quando não foi atendido, quando ele a beijou e sinto que ela estava fria começou a gritar “Não!” sem parar... – E voltou a olhar para a casa – Ele a arrastou até em casa, nós tentamos entrar dizendo que os bombeiros estavam a caminho, mas só o vimos quando ele saiu de casa arrastando a mulher, ele trocou as roupas dela, pôs o melhor vestido nela, sapatos... E a levou para o carro – E cuspiu no chão e voltou a falar olhando para mim – O que todos nós sabemos a partir dai é o que estava no jornal... Um homem de meia idade lançou seu carro no rio com o corpo da mulher junto, para que morressem juntos.
Eu não tinha palavras, mas ela não tinha terminado.
–Cecília não merecia ter sido enterrada junto daquele demônio, a alma dela nunca estará em paz junto ao Senhor, é tudo culpo daquele menino... Do menino Dante! Mesmo sabendo de tudo preferiu fazer a vontade do pai, ele é doente como ele! E vai ser com você! Você vai ter o mesmo fim! O mesmo fim! – Começou a gritar vindo para cima de mim.
–NÃO! NÃO! – Gritei enlouquecida e a empurrei, a fazendo cair no chão.
–Você vai ter o mesmo fim! O mesmo fim! O mesmo fim! – Gritava sem parar ajeitando a dentadura.
Eu corri de volta para dentro da casa, joguei todos os pertences de uma caixa no chão e peguei a caixa, a levando para o quarto.
Comecei a despejar todos os conteúdos das gavetas na caixa, eu não queria que ele ficasse com nada, não queria que ele tivesse memórias minhas, que se lembrasse de mim, não queria nada meu com ele.
Quando peguei a quinta gaveta havia várias fitas e mapas circulados. Ainda com as mãos trêmulas eu peguei o mapa e tentei ver o que eles estavam mostrando, foi quando notei o número da placa do meu carro imprimido junto à folha, os círculos eram lugares que eu havia ido de carro! Ele estava me rastreando esse tempo todo!
Rasguei aqueles mapas e vários outros e joguei dentro da caixa. Quando foi a vez das fitas eu precisa ouvir, peguei o aparelho e coloquei uma fita.
“Oi Clair, como você está? Você não sabe quem eu vi hoje! Lembra-se daquela nossa professora de artes que tinha uma verruga?!” Disse Julie.
“É claro que lembro! Rosalie, era o nome dela! Nunca mais esqueço daquela mulher...”.
Minhas ligações.
Estava tudo gravado.
Minhas ligações!
Isso era o fim! Como uma pessoa podia chegar a esse ponto?! O que é isso Deus?
Despejei tudo que havia nas gavetas na caixa, mas minha raiva só crescia, peguei as gavetas e as lancei longe, gritando de puro ódio e foi quando eu parei.
Tinha alguém atrás de mim.
Nunca pensei em que diria a ele depois de ver tudo isso, mas não havia palavras ou ofensas suficientes para tirar toda minha raiva, todo meu asno, meu nojo por aquela criatura doente.
Ajeitei minha postura e respirei profundamente, não lhe daria este prazer de me ver chorar ou parecer abalada.
Virei-me bruscamente e vi seus olhos em mim, ele estava com o celular nas mãos! O filho da puta estava me rastreando! Peguei meu celular e tirei o chip, o quebrando ao meio e lancei meu celular com tudo contra a parede, os pedaços dele se espalharam por todo o cômodo.
–Mas isso que vou ter que me livrar! Ah! Não vamos nos esquecer do meu carro! – Disse falsamente.
Dante continuou a me olhar sem dizer nada. Aquele mesmo olhar que via quando algo o incomodava ou quando estava com ciúmes estava ali, aquele era o verdadeiro olhar dele.
–Grave bem minhas palavras aqui hoje! Delas você nunca mais pode esquecer! Nunca mais me procure! Esqueça minha existência! Acabou! Eu nunca mais quero ver você na minha frente! Nem falar! N-A-D-A!
Ele continuou sem dizer nada, seus olhos não se desprendiam de mim, mas eu ainda não havia terminado.
–Está vendo está caixa? Dentro dela está toda sua loucura, sua doença pervertida! Todo lixo que você é! – Digo com tanto nojo e Dante fica furioso e vêm para cima de mim, parando na minha frente, bem próximo do meu rosto, mas nada me abalava agora, se fosse morrer eu diria tudo que pensava agora, eu não tinha nada a perder.
–Você nunca vai me dar medo, por que sempre vou lembrar disso – E aponto para a caixa — E lembrar do quanto você é fraco, um doente, uma pessoa que precisa controlar outra para viver sua vida, você é um parasita! Um homem fraco! – Digo com toda raiva e nojo que tinha, eu sabia que minhas palavras havia o ferido e isso já era algo.
Passei por ele o empurrando e saí marchando casa a fora. Quando passei por meu carro joguei a chave no chão, eu não sabia como ele estava rastreando, mas deixei tudo de lado... Meus cartões, tudo ele poderia rastrear... Eu só queria sumir.
Então comecei a andar.
Aquela velha começou a gritar de algum lugar.
–Você vai ter o mesmo destino! O mesmo destino! – Era como uma voz do inferno.
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