O país secreto.
62 No cemitério
Notas iniciais
O céu turvo indica um temporal; algo tão raro nesse mundo, que só me faz pensar que o dia está apenas enfatizando minha tristeza. O vento é tão intenso, que desfaz um dos meus coques enquanto caminho de braços cruzados através da neblina para o cemitério.
Ir até aquele lugar me faz experimentar uma série de emoções. Fico triste por saber que nunca mais os verei, irritada por saber que, se não tivéssimos saído naquela noite, todos estariam vivos e, principalmente... Sinto saudades. Estar perto da lápide de Stive, Luize e Annabely me faz sentir perto deles de verdade. É como se, se eu esticar meus braços um pouquinho... Só um pouquinho... Poderei abraçá-los; poderei tocá-los. Mas é tudo tão abstrato, tão surreal, que logo sou tomada por um vazio enorme que me domina. E então choro; e é no choro onde encontro conforto.
Não demoro a avistar as lápides, e uma silhueta posicionada entre duas delas. Hellena está de preto, e seu vestido e cabelo se agitam como se ela fosse um espírito. Seu penteado é composto por duas tranças que se encontram atrás da cabeça e deixam a vista suas orelhas com um par de brincos compridos. Ela está linda, séria, e não se parece em nada com a frágil menina de doze (ou treze) anos que sua gêmea foi. Ela exala auto-confiança e valentia. Talvez ela seja mais madura do que eu poderei ser.
– Hellena. — Digo, assim que chego.
– Emma.
Nos fitamos. Agora que vejo, as lápides aos seus lados são de Luize e Vedir.
– Pensei que poderíamos conversar — Ela prossegue, secamente. — Venha aqui. Chegue mais perto.
Cerro os punhos, fragilizada. Eu me forço a me aproximar dela, imaginando que talvez ela queira me dar uma bofetada por tudo o que eu fiz; me acusar de ser fraca e de não conseguir proteger a quem eu jurei que protegeria. Me chamar de covarde. Eu me aproximo dela, ciente de que se isso acontecer, ela estará certa. Se ela me bater, suas razões serão realmente boas. Eu fui o começo de tudo, e quando eu deveria lutar, fraquejei. Luize naquela prisão... Stive na aldeia dos lobos... Vedir naquela sacada... Annabely naquele salão. Eu seria capaz de evitar todas essas mortes se... Se...
Mas Hellena não me bate; eu fico surpresa quando ela lança seus braços em meu pescoço, me abraçando e se entregando ao pranto. Não tenho reação, apenas reflito sobre tudo em que pensei até agora; talvez eu não seja a culpada de tudo. Talvez eu esteja sendo tola e jogando todo o peso em cima de mim. Eu fui forte, sim. Fui forte até onde podia. Ser tola é exigir de mim além dos meus limites. Agora que Hellena chora em meu ombro, eu percebo que é impossível, mesmo para as pessoas mais poderosas do mundo, evitar todas as tragédias.
"Tentar alterar o destino é o mesmo que tentar pegar a lua com suas próprias mãos", dizia meu pai. E, pensando bem, ele sempre esteve certo.
Apoio a mão nas costas de Hellena, sorrindo, mas deixando algumas lágrimas rolarem.
– A dor de perder alguém é algo que nunca superamos — Sussurro. — No começo, só queremos esquecer de tudo, mas as lembranças ficam ainda mais intensas, não é?
Ela se separa de mim e olha para meu rosto; seu rosto está riscado de lágrimas, e a maquiagem está toda borrada, fazendo-a parecer um panda.
– Eu sei — Continuo. — Eu sei. Quando Stive morreu, achei que sofreria para sempre. Todas as noites eu repetia para mim mesma que tinha que esquecê-lo, até que uma noite... — Ergo um dedo. — Uma noite eu sequei as lágrimas do rosto e disse: "para quê esquecê-lo? Se em todos os momentos felizes da minha vida ele estava? Se foi o motivo da minha risada tantas vezes? Se todas as vezes em que o abracei, me senti segura? Eu não posso esquecê-lo. Eu devo me lembrar dele."
Os olhos de Hellena cintilam.
– Mas é doloroso — Ela funga. — É doloroso me lembrar deles. Cada vez que penso no sorriso de Luize, eu lembro que nunca mais o verei novamente, e então eu choro.
Afasto uma mecha que caía em sua testa e prendo-a atrás da orelha.
– Não, Hellena. Você está enganada — Sorrio. — Luize sempre estará com você, não importa quanto tempo passe. Ela se foi, mas deixou uma cicatriz enorme em você. Ela vive dentro de você. Nunca se esqueça disso.
Uma brisa gelada serpenteia entre nós, nos fazendo estremecer. Nessa hora, um floco de neve se desprende do céu e cai exatamente sobre a cabeça de Hellena. Olho-a com ar de acusação, e ela abana as mãos à frente do rosto.
– Hey, não fui eu! — Diz, sorrindo. — Está nevando. Está nevando de verdade! Bem, já que no Rio de Janeiro não neva, é fascinante isso aqui!
Ergo o olhar, acompanhando o desprender de outros múltiplos floquinhos de neve. É... Incrível. Eu nunca vi neve em toda a minha vida, não ao vivo. Devo estar com a maior cara de boba, porque Hellena me empurra e gargalha.
– Quem chegar por último é a mulher do padre!
E sai correndo, me deixando parada aqui sem saber o que fazer. Eu sorrio, vendo-a se distanciar, e então corro atrás dela.
– Ei, espere por mim!
Bem, eu nunca fui uma corredora muito eficiente, portanto demoro quase um século para alcançá-la. E ela já está lá, parada diante dos portões do castelo, sem nenhum sinal de cansaço — ao contrário de mim, que arfo como se tivesse corrido uma maratona.
– Ei, Emma — Ela olha para mim, ainda sorrindo. — Obrigada.
Sorrio também, acenando com a cabeça. Pelo menos, alguma vez na vida, fiz algo bom por alguém. Eu consegui dizer a coisa certa, sem estragar tudo. E é surpreendente a sensação de paz que isso me traz.
– Obrigada você, Hellena.
– Eu? — Ela aqueia as sobrancelhas. — Pelo quê?
Penso em lhe dizer a verdade, do porquê de estar agradecendo-a. No entanto, me limito a dizer:
– Por me fazer correr até aqui. Exercícios de vez em quando são bons, né?
Hellena gargalha sonoramente, sem saber o quanto esse som me agrada. Ela me dá um soco no ombro, que dói horrores e me faz arquejar.
– Vamos nessa, bocó.
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