O país secreto.

41 Lissian Clinger


Notas iniciais
Olá, meus queridos! Boa leitura, adoro vcs :3

Desperto em um lugar muito familiar, onde a cachoeira chia e os pássaros cantam alegremente. Sei que estou mais uma vez presa no mundo dos sonhos, mas daqueles sonhos tão reais que te fazem duvidar se não passam da mais pura realidade. Parece que estou de volta no tempo, pois conheço esse lugar.

– Lissian.

A palavra surge em meus lábios antes que eu possa processá-la, e me surpreendo com o raciocínio. Aquele lugar é o mesmo de nosso primeiro encontro, quando ela me provou que Dianna está em cativeiro, e não conosco. Sua invasão em minha mente só pode significar uma coisa: algo aconteceu ou está acontecendo com Dianna.

Giro em círculos, o peito subindo e descendo rapidamente com a respiração pesada. Cenas do que pode estar havendo com Dianna atordoam minha mente, e me fazem temer o pior. Cerro os punhos, varrendo o local com os olhos e arriscando alguns passos.

– Lissian! — Chamo. — Lissian, eu estou aqui!

Mas a resposta não vem. Percebo que não posso permanecer parada, então me precipito para a cachoeira. Os pés descalços achatam pedras e outras irregularidades do chão, mas não causam dor. Um dos pontos positivos de se estar sonhando.

Inclino o pescoço para a água borbulhante da cachoeira, e franzo o cenho. Será que Lissian espera que eu pule? Será que só assim ela me revelará o que está havendo?

Sinto uma mão pousar em meu ombro e salto meio metro do chão; o coração erra uma batida, e o susto é tão grande que minha boca muda de sabor.

Ao me virar, encontro Lissian imóvel e inexpressiva, me olhando fixamente. Ainda é a mesma menina raquítica, de olhos cinzentos e grandes, cabelos loiros ondulados e olheiras profundas. Continua pálida feito um fantasma — coisa que ela realmente é.

– Filha, você está querendo me matar do coração? — Indago, com a mão sobre o peito e os olhos arregalados. — Vê se não faz isso de novo não, entendeu?

Ela permanece do mesmo jeito, exceto pelas piscadas de olhos. Respiro fundo e endireito a roupa.

– Pode falar, menina, eu ainda não aprendi a ler mentes.

Mesmo assim, ela não diz nada.

Honestamente? Seu comportamento está me deixando constrangida e assustada. Sem mencionar preocupada, confusa, ansiosa e irritada... Se é que se pode sentir isso tudo ao mesmo tempo.

Ela pisca roboticamente, e um sorriso começa a brotar na sua face. Em seguida, abana a cabeça e leva os dedos às têmporas, soltando um gemido.

– Ah — Resmunga ela, apertando os olhos. — Desculpe, Emma, isso acontece às vezes. Tem a ver com o fato de eu ter morrido há muito tempo. Às vezes fico num estado catatônico, e às vezes só não consigo processar as coisas direito... Eu não sei.

Olho-a de soslaio, desconfiada. No entanto, há coisas mais importantes que minha curiosidade a respeito de sua súbita mudança.

– Me fale — Digo, adiantando-me para ela. — E Dianna? Como ela está? Por que me trouxe dessa vez?

Seus olhos, antes fechados, se abrem lentamente. A julgar pela sua expressão, não é difícil presumir que não aconteceu nada de bom. De novo, sinto um impulso de sacudi-la até que me conte tudo, mas sei que não seria sensato. O melhor é esperar a vontade da menina, e não ficar pressionando-a.

O cenário se desintegra, dando lugar a um outro que eu conheço bem. Trata-se da cabana de palha e bambu onde Drafe costuma manter Dianna em cativeiro.

Só que ela está vazia.

Lissian passa direto por mim, saindo pela pequena porta, e eu não hesito em segui-la. Lá fora, o dia é quente e a paisagem é bem agradável de se ver. Estamos em uma clareira, e pelo barulho de água corrente, não muito longe de um rio ou córrego. As árvores ao redor são as mesmas com as quais estou acostumada — longas e de poucas folhas.

A garota não para de andar, e eu não tenho outra opção além de ir atrás dela. Não demoro a perceber o que há de errado.

– Onde estão Dianna e Drafe?

Lissian diminui o ritmo dos passos até parar, e vira-se para mim. Seu olhar já diz tudo, mesmo antes que ela profira as palavras.

– Esse é o problema: eles sumiram.

É como se eu tivesse levado um choque de verdade, e o mundo parece ruir sob meus pés.

– Sumiram?! — Minha voz tremula. — Você quer dizer... Você não disse que podia localizar seu assassino em qualquer lugar?

Ela retorna, apressada, sua camisola ondulando atrás de si, e só estaca quando está a poucos metros de mim.

– Olha, Emma, você não está entendendo — Ela diz, com as palmas voltadas para cima. — Eu posso localizar Drafe onde quer que ele esteja, mas não enquanto ele muda de lugar a cada segundo.

Abaixo o olhar para o chão, unindo as mãos à frente do corpo.

– Escuta — Ela sussurra, se aproximando ainda mais e tocando meu braço. — Eu acho que Drafe procura algo, ou alguém. Não sabemos. Mas fica calma, tá? Ele não vai machucá-la.

Ergo os olhos para ela e, mesmo que saiba que a culpa disso tudo não é sua, é inevitável sentir raiva. Aperto os dentes, me esforçando para não dizer nada. Contudo, a explosão de emoções ocorre antes que eu consiga me conter.

– É fácil para você falar, já que sua única família é o maluco do seu irmão e nada pode atingí-lo. — Me desvencilho de sua mão, recuando. — Já pensou em como eu estou me sentindo? Quase minha família inteira está sofrendo, correndo riscos de vida. Dianna está sumida. Meu irmão está preso. Meus primos... Olha, eu nem mesmo sei se estão vivos. Então faça o favor de polpar sua solidariedade porque você não entende nada! Você está...

Hesito, calando-me bem a tempo. Lágrimas quentes descem por meu rosto, e este é o momento ideal para me entregar ao choro.

– ... Morta — Ela completa, rindo torto e me encarando profundamente antes de me dar as costas. Surpreendentemente, seu tom é brando e quase divertido. — Pois é, Emma, talvez tenha razão. Minha vida foi mesmo uma maravilha, enquanto a sua... — Ela gargalha. — Foi você quem foi maltratada durante a infância. Foi você quem foi assassinada por causa de um acesso de raiva de quem você sempre achou que deveria te proteger... O seu irmão. Foi você quem virou um fantasma, uma alma perturbada, vinculada a quem interrompeu sua vida quando ela mal começava. Foi você quem não teve chance alguma de crescer e se tornar uma mulher. É claro que foi você. Enquanto que eu, na minha doce infância, fazia o quê? Brincava de esconde-esconde, quem sabe?

Sinto como se tivesse levado a maior surra da minha vida, e logo estou chorando descontroladamente. Ela sorri apesar de tudo, e vira-se para ir embora.

Um segundo depois, eu acordo. Sento-me arfando, com o corpo suado e os olhos ardendo. Sei que tudo o que vi foi mais real do que eu gostaria, que Dianna de fato desapareceu. As palavras da menina fantasma continuam a martelar na minha mente, me fazendo sentir cada vez mais estúpida e egoísta. Para mim é muito simples julgá-la, já que fora ela quem vivenciara tudo aquilo, e não eu. Eu só desejo, desesperadamente, poder reverter tudo o que foi dito naquele sonho; e que eu possa me desculpar com ela algum dia, demonstrar que o que eu falei foi da boca para fora. O problema é que eu estava tão estarrecida, tão arrasada com o sumiço de Dianna que acabara magoando os sentimentos de Lissian, mesmo que não intencionalmente. Agora, duvido que ela volte e duvido que fale comigo outra vez.

Passo as mãos pelos cabelos, finalmente percebendo que ainda é noite. Uma noite fria e não muito escura, afinal a lua nesse mundo é sempre cheia. Os únicos sons são os dos roncos de Doquo e dos farfalhares do vento arrastando as folhas do chão e agitando as das árvores. Viro o pescoço para ver como dormem meus companheiros, mas me assusto com o que vejo.

É um vulto azul sob a penumbra, e sem dúvidas carrega nas mãos uma faca. Sei disso pelo reflexo do luar na lâmina. Ela está debruçada sobre o corpo de alguém que não consigo distinguir quem.

– Ei! — Grito, arfando.

Os olhos da falsa Dianna voltam-se para mim, mas não estão escuros como o habitual; estão cinzentos, tomados de maldade. Pela distração que causei, ela erra o golpe, descendo a faca e acertando o pescoço da pessoa que queria sacrificar de raspão. Ele acorda sobressaltado, cobrindo o ferimento com os dedos.

– Ai! Mas que...?

Meu sangue gela. É Stive. O coração está aos pulos quando noto que quase perdi meu irmão. Dianna se põe de pé, recuando com a faca na mão direita. Nota-se o medo e o pavor em seu rosto, todavia não é apenas isso. É quase uma expressão psicótica, enlouquecida. Me levanto, bem no instante em que os outros começam a despertar.

– Dianna! — Diz Stive, num fio de voz. — Você tentou me... Me matar?

Hellena corre para perto de mim, estreitando os olhos para Dianna, cuja mão que segura a faca treme descontroladamente.

– Os olhos dela — Sussurra Hellena para mim. — Você acha que algo a possuiu?

– Não seja boba, Hellena — Pestanejo, carregada de ódio. — Ela não é a Dianna! Nunca foi!

Sob a menção dessas palavras, a farsante arregala os olhos e abana a cabeça em descrença. Stive se levanta e também cambaleia até mim, pressionando lateral do pescoço com a mão.

– Vocês não perceberam? — Aponto para ela. — Isso aqui é um metamorfo! Ela queria nos enganar para depois nos matar, um por um!

Uma gargalhada corta o ar, e vem diretamente de Dianna. Vejo os olhares minuciosos que Stive e Hellena lançam em sua direção, bem no instante em que seu rosto tremeluz e ela se matamorfoseia em uma criatura horrenda. É verde e escamosa, com um cabelo branco que desce até a panturrilha, caindo sobre os ombros e cobrindo os seios nus. Os olhos amarelos são felinos, e a boca não passa de um corte no rosto, sem quaisquer lábios. Espalham-se por seu rosto feridas sanguinolentas e cicatrizes de batalha, mas a que mais chama minha atenção é a que parte de sua testa, atravessando a sobrancelha e o olho esquerdos, e desce até o queixo. Quando ela fala, sua voz parece duplicada, afiada feito navalha.

– Há dias que estou entre vocês e só me percebem agora?

E, em seguida, ela estende a mão para nós e suas unhas pontudas soltam-se dos dedos e disparam em nossa direção, feito lâminas.

Notas finais
Beijiiinhos :3 espero que tenham gostado e, caso encontrem qualquer errinho ortográfico, por favor, me avisem :)