O país secreto.

18 Converso com o rei.


Notas iniciais
Olá, esse cap tem continuação, é que temi que estivesse grande demais ;) Mas logo sai o próximo, espero que gostem, e dessa vez estive meio que sem ideias para o cap. Desculpe ae ;)

Doquo... Então esse senhor é o rei. O rei que foi jogado para fora de sua própria casa. Que foi obrigado a enviar seus amados filhos para outra dimensão. O rei que foi traído pela própria mulher. O rei que possivelmente é meu avô.

Me aproximo dele, caminhando cuidadosamente para vê-lo melhor. Seu rosto está tão enrugado e sua expressão tão dura... Arismir não deve ter me dito a verdade. Esse homem não é meu avô. Seus olhos estão normais e algo nele me é familiar. Como se já tivesse o visto antes.

Então percebo, com um sobressalto, tamanha semelhança que esse senhor tem com meu irmão mais velho, Stive. É como se estivesse vendo uma versão mais velha dele. E se meu irmão se parece tanto com minha mãe e minha mãe tanto comigo...

–Então é verdade.- Murmuro, desviando o olhar. Aqueles olhos... são idênticos aos meus, castanhos e amendoados, embora estejam tão vazios, tão sofridos...

–Você é filha de um dos meus filhos?- O velho pergunta me olhando de cima a baixo.

–Quem são os seus filhos?- Pergunto, desconfiada.

–Lílifa, Kily e Baelo.- Ele diz.- Um menino e duas meninas.

Não pode ser... Então meus tios e minha mãe podem sim ser filhos desse senhor... de Doquo...

–Eu duvido muito que ainda se chamem assim, uma vez que foram mandados para um outro mundo.- Diz o Homem da Harpa.

–Eles trocaram de nome?- Pergunto.

–É possível.- Diz Doquo.

–Então por que não de sobrenome?- Pergunto, agora olhando para o Homem da Harpa.

–Não sei.- Diz o rapaz.- Acho que foi a única coisa daqui que quiseram guardar.

–Senhor, só pra ter certeza, como eles são?- Digo, voltando a olhar para o velho.

–Quase não lembro mais deles, mas alguns detalhes ainda guardo em minha memória.- Ele diz. Sua voz grave tomando conta da caverna.- Como por exemplo os olhos verdes e intensos de Baelo. Os cabelos ruivos de Lílifa e os cachos dourados de Kily.- Ele se senta no chão e afunda o rosto nas mãos.- Eu sinto falta deles.

Sento-me ao seu lado e apoio minha mão em seu ombro.

–Eu também sinto.

Ele ergue os olhos e me avalia por um instante antes de me abraçar.

–Você é a única família que eu tenho.- Ele murmura.- Você e o rapaz.

Ele se separa de mim e seca algumas lágrimas discretamente.

–Eles estão bem, não estão?- Ele pergunta.

–Sim.- Digo.- Mas acho que os filhos deles não.

–Eu tenho mais netos?- Ele pergunta.

–Ao todo somos oito.- Sorrio e ele faz o mesmo.- Mas... acho que fui a única que escapei.

E é exatamente assim que penso. Se Arismir me mandou para cá para se livrar de mim, sabe-se lá o que fará com os outros... isso se já não fez.

Fico horas conversando com meu avô e esvazio o estoque de água. Não fiz por mal, é que estava muito desidratada. Ouvi muitas histórias de Doquo, enquanto o Homem da Harpa limpava sua harpa com uma folha larga que deve ter retirado de uma daquelas árvores cumpridas.

Na hora de dormir, demoro a pegar no sono. O Homem da Harpa vigia o lado de fora, para que nenhum animal invada a caverna. Será que ele não dorme? Acho que Doquo não está em condições de ficar de vigia. Então ele fica acordado todas as noites e todos os dias? Já deve estar acostumado.

Então adormeço.

Abro os olhos e me deparo com o rosto do Homem da Harpa tão próximo ao meu, com os olhos inteiramente negros, que é inevitável gritar. Eu me afasto e me sento no chão enquanto ele ri.

–Não teve graça.- Digo, abraçando as pernas.

–Então por que estou rindo?- Ele pergunta.

–porque você é um idiota.- Digo, emburrada.

A noite parece que foi curtíssima. Como se tivesse acordado assim que fechei os olhos para dormir.

–Não pense que pode esvaziar nosso estoque de água e ficar por isso mesmo.- Ele diz.- Eu vou caçar. E você vai buscar água.

Olho para a garrafa num canto e em seguida para ele.

–Tudo bem.- Digo.- Mas você vai ter que me mostrar onde fica a fonte d'água.

Ele gira os olhos.

–Estava quase me esquecendo de como você é desmiolada.- Ele diz.- É lógico que eu vou te mostrar, meu amor.

–Não me chame assim.- Digo me levantando.- E eu só estava te explicando, por que você parece meio...

–Burro?- Ele levanta e dá uma gargalhada.

–Isso.- Cruzo os braços, carrancuda. O humor dele já está me incomodando.

–Vamos logo.- Ele diz.

Olho de relance para meu avô- é realmente muito estranho para mim chamá-lo assim- que dorme como um bebê. Depois, vou até o buraco de saída e estico minhas mãos para fora dele. Elas atingem o solo do exterior da caverna e, com um impulso, consigo sair dali, sentando-me do lado de fora. Me levanto e afasto-me do buraco para que o garoto saia. Antes dele aparecer, a garrafa sai voando de dentro da caverna e cai ao meu lado, por pouco não me atingindo e depois ele sai. Sobe com muita agilidade, e logo está de pé. Ele se aproxima de mim, harpa na cintura, olhos inteiramente negros, cabelos bagunçados e coisas típicas dele.

Mas uma coisa ainda não está clara: Como ele vai caçar se não tem nenhuma arma?

–Como você caça?- Pergunto.

–Caçando.- Ele diz.- Com as mãos.

Giro os olhos.

–Eu estou falando sério.- Digo.

–Eu também.

Ele está me irritando, sério. Nunca responde corretamente às minhas perguntas, tanto que ainda nem sei o seu nome!

Ele pega a garrafa no chão e a entrega para mim. Começamos a caminhada. Andamos silenciosamente até que uma coisa começa a me incomodar. Devem ser mosquitos. Não, não são. São ferroadas duas vezes mais doloridas, que ardem e pinicam. Eles começam ferroando meu braço, mas depois mais aparecem e ferroam várias partes do meu corpo. Distraída, coço-me com a mão direita enquanto seguro a garrafa com a esquerda. Estou tão desnorteada que giro em círculos.

Quando me dou conta, o Homem da Harpa já está bem longe de mim. Corro para alcançá-lo.

–Eu não aguento mais.- Choramingo. Ele para e bufa.

–O que é?- Ele pergunta olhando para mim.

–Mosquitos.- Digo, coçando o joelho.- Estão por toda a parte.

Ele ergue as sobrancelhas.

–É o que?- Ele pergunta, confuso.

–Mosquitos.- Repito.- Essas criaturinhas que estão me picando, me ajuda!

–Você quer dizer os Buzzes?- Ele diz. Paro de me coçar e franzo as sobrancelhas.

–Esse negócio aí é o que?- Pergunto.

Ele suspira, entediado e com um movimento muito ágil, esmaga um desses bichinhos com os dedos indicador e polegar. Ele estende para mim o inseto esmagado. A diferença é mínima, apenas pela cor vermelha do bicho e o ferrão prateado. Mosquitos não têm ferrão, eu acho.

–Eles são muito impertinentes. Mas odeiam fogo.- Ele me lança uma piscadela divertida e retoma a caminhada.

Fogo. Eu sou feita de fogo. Com um esforço, consigo fazer com que o fogo guardado em meu interior transborde por minha pele, que adquire um tom avermelhado. Meus cabelos, imagino, estão vermelhos berrante. Agora caminho tranquilamente sem nenhum inseto estúpido para me incomodar.

Notas finais
Se houver erros, me alertem ;)