Notas iniciais
Oiieer ♥

Nesse momento, eu não sei como reagir. Poderia gritar; poderia chorar até a cabeça doer; poderia simplesmente desmontar, ou até mesmo segurar Hellena em um abraço... Mas eu não tenho forças para nada disso.

Às vezes pensamos que a vida é algo completamente sem sentido, e que o que nos traz ao mundo é um motivo totalmente fútil. A gente passa uma boa parte da vida procurando um objetivo, e a outra metade tentando alcançá-lo... Algumas vezes, não temos tempo para alcançar. E, noutras, percebemos o quão estúpido esse objetivo é. Para mim, tudo está muito claro agora. Meu objetivo na vida sempre foi proteger a quem eu amo, e, de alguma forma, eu falhei. Falhei porque não consegui ser forte. Falhei porque não soube lutar e defendê-los. Luize... Stive... Vedir. Todos morreram porque eu fui burra e lenta demais.

Meus olhos inundam, mas as lágrimas não descem. Elas turvam minha visão, embaçando o rosto de meu principal inimigo: Arismir. Se eu pensar, Arismir sempre foi o ponto principal — ele nos enganou. Nos fez viver meses na floresta. E, agora que conseguiu nos trazer para onde queria, só quer nos destruir. Nem mesmo Vindre chega a ser tão cruel.

Os berros de Hellena parecem vir de outra dimensão, filtrados através de camadas e camadas sônicas. Ela está debruçada no parapeito da sacada, chamando por Vedir e se esguelando por não receber resposta. Eu só sou capaz de encarar Arismir e seu sorriso macabro, atônita.

Cerro os punhos, e meus dedos estão gelados como os de um defunto. Assim como Hellena, eu já não estou realizando meu dom, e temo não conseguir fazê-lo tão cedo.

– Ah — Faz Birc, soltando o corpo de Giroy e esfregando as unhas no macacão cor de marfim manchado de sangue (sangue que, naturalmente, não é seu) — É tão reconfortante o som da dor. Me faz pensar no quão vulneráveis as pessoas são.

Quando olho para Birc e seu sorriso satisfeito, sou tomada por um ódio que não é meu. Minhas unhas apertam as palmas das mãos a um ponto que eu sei que brevemente as cortarão. Eu avanço para Birc, que recua e tropeça no corpo de Giroy, no entanto se mantém de pé. Num segundo, estou me aproximando dele a passos duros e, no seguinte, meu punho está acertando-lhe o nariz e a boca. Birc cambaleia.

Engulo longas golfadas de ar, absorvendo o choque do momento. Meus dedos doem pelo impacto, e meus pulmões parecem cheios d'água. Birc permanece parado, olhos fechados, cabeça baixa. Eu, ainda tomada de adrenalina, preparo o punho para outro soco, mas, quando estou para atingí-lo, ele segura minha mão.

– Minha mãe me dizia — Diz Birc, levantando o rosto e abrindo um sorriso. Seus dentes estão cobertos de sangue, assim como suas narinas. — Que bater em garotas é um crime maior que mentir — Ele vira para o lado, cospe o sangue de sua boca e aperta ainda mais minha mão. Arquejo, quando ele começa a torcê-la. — Eu, particularmente, não penso assim.

Birc gira minha mão, e a dor é tremenda. Berro, com dor e ódio misturado e, nesse momento, sabe-se lá de onde eu tiro essa força, me desvencilho e pego fogo. Abaixo-me, dando-lhe uma rasteira rápida, e então subo em cima dele, imobilizando com os joelhos em seus braços e as mãos em torno do seu pescoço.

– Fo-fogo — Ele murmura, seu corpo inteiro estremecendo. — S-s-saia de cima de mim!

Aperto ainda mais sua garganta.

– Você é o culpado. Você torturou meu irmão. Por sua culpa, Hellena sofreu. Eu sofri. — Sibilo. — Você vai morrer.

Mal acabo de proferir essas palavras e algo me acerta na cabeça. Ouço Annabely me chamar, mas o mundo parece rodar a minha volta. Caio de cima de Birc, ao seu lado, e ele se levanta apressadamente. Seu macacão chamuscado, e algumas partes da pele em carne viva. Eu sei que qualquer outra pessoa nessa situação estaria louca de dor, mas Birc, aparentemente, desconhece a sensação.

Ele segura meus ombros e me força a ficar de pé. Eu percebo quem me derrubou quando vejo Arismir logo atrás, segurando seu machado. Ele poderia ter me matado mas, cartamente, ainda não queria isso.

– Birc Clevius — Rosna Arismir. — Solte-a.

Birc resmunga uma coisa e outra, mas então me larga. Eu e ele nos entreolhamos como dois cães raivosos, parados lado a lado de frente para o restante das pessoas. Hellena está sentada no chão, com os braços derramados pelo piso como quem está exausto. Os olhos vazios nos fitam, contudo parecem não ver. Anabelly, ao seu lado, cobre a boca com as duas mãos. Seu rosto moreno riscado de lágrimas. O cabelo, antes tão perfeitamente arrumado, agora está todo esfiapado. Vindre, caído no chão a poucos passos de mim, parece um boneco de pano. Seria ótimo se ele continuasse assim, mas eu posso jurar que vi ele se mexer.

– Eu tenho certeza — Continua Arismir. — Que ela vai pensar melhor e se juntará à nós.

– Mas nem morta! — Trovejo, correndo até ele e lançando uma gigantesca bola de fogo na sua direção, a qual ele desvia com extrema facilidade. A bola de fogo acerta o parapeito da sacada e quase desmorona tudo. — Eu quero que você e toda a sua corja vão se...

Não consigo terminar, lançando uma bola atrás da outra. Arismir desvia de todas, com uma gargalhada seca.

– Annabelyyy! — Grito a plenos pulmões, enquanto jogo meu poder, tentando a todo custo acertá-lo.

Annabely recua, atônita, sem saber o que fazer. Seria muito conveniente se ela fizesse algo de últil além de me olhar! Hellena se levanta, trêmula, achando difícil se manter sobre duas pernas.

Eu gostaria de não estar olhando-as, porque, nessa mesma hora, Arismir abre seus braços e sorri, me lançando o melhor olhar triunfal.

– Agora é minha vez.

Eu fico embasbacada, e esqueço-me de atacar. Barulhos interditam o local, vindos de todas as direções atrás de mim. Giro nos calcanhares, pestanejando ao ver a quantidade de livros, estacas, jarros de vidro e outros objetos que vêm em minha direção. Eles voam tão rapido, que eu só tenho tempo de defender o rosto e esperar a morte.

Mas ela não vem.

Estou bem viva para respirar, e para sentir o coração acelerado. Houve um estampido, e houve uma risada, mas eu estou viva. Abaixo o braço que protege meu rosto e abro os olhos, surpresa com o que há a minha frente.

É uma gigantesca parede de gelo fosca, com pedaços de coisas pontiagudas grudados à ela. Arfo, preservando o silêncio, e olho em volta, entorpecida. Ao meu lado está Hellena. As mãos estendidas diante do rosto, a aparência pálida e os olhos pesados. Ela vai desmaiar...

– Sua garotinha insolente... — Urra Arismir, atrás de mim. — Aaaaahhh!

Com esse último berro, as coisas que antes acertaram a parede, dessa vez a rompem, com um som estridente de vidro se partindo. Milhares de livros nos acertam em cheio, e eu perco a consciência.

Bem, digamos que seria mais útil se eu não desmaiasse tanto em uma batalha, mas é inevitável. Quando torno a acordar, meu corpo inteiro está dolorido e há alguns livros sobre mim. Arismir e Birc estão debruçados sobre Vindre, trocando algumas palavras confusas. Tropeço em meus próprios pés ao me levantar, e já não vejo Annabely, ou Hellena, apenas livros. Muitos e muitos livros embolados e amontoados.

– Seu... Porco... Nojento... Fedorento! — Esbravejo, deixando meu dom me dominar e atacando Arismir. Ele, pêgo de surpresa, não é capaz de desviar e é engolido pela chama mágica, se desintegrando em um monte de pó, como os lobos.

Meu alívio dura pouco, pois logo me lembro de Hellena.

Corro para os livros, e começo a cavá-los em busca de Hellena, jogando-os sobre o ombro.

– Lena — Choramingo. — Lena, por favor. Por favor, esteja viva.

– Você... Matou... Meu pai! — Troveja Birc. Espreito por cima do ombro, por onde terminara de jogar o livro, e vejo o que não esperava: um sorriso em seu rosto. — Tudo bem, ele era horrível.

– Birc, seu desgraçado, desumano, imundo! — Cuspo cada palavra, tirando os olhos dele e voltando a caçar Hellena. — Por quê? Por quê? Pooor quêêê?

Sinto ele me empurrando para o lado, e só tenho tempo para defender o rosto de bater de encontro a outros livros.

– Saia daí, deixa que eu procuro.

Me sento sobre os livros, fragilizada. Fico observando Birc afastar os livros em busca de Hellena, me sentindo ligeiramente confusa em relação a ele. Por que age como se pudesse estar dos dois lados da moeda ao mesmo tempo? Ora é o vilão, ora é o bom moço... Isso me dá nos nervos.

– Desapareça! — Grito para ele, engatinhando até onde ele está e lhe dando um soco muito leve no braço. — Some da minha vida! Nos deixe em paz. Nos deixe em paz para sempre! He... Hellena?

Nesse instante, Birc terminara de tirar um livro, revelando uma madeicha de cabelo azul. Empurro-o com o ombro, cavando em desespero.

– Hellena? Hellena!

– É. De nada. — Ele dá de ombros, levantando-se e afundando as mãos nos bolsos.

Agora posso ver o rosto de minha amada prima. Ela está com vários hematomas no rosto, os cílios emaranhados, os cabelos espalhados em todas as direções.

– Eu quero é que você vá tomar...

– E-Emma... — Resmunga Hellena, e eu olho-a no exato momento em que seus olhos negros se abrem, brilhando de lágrimas.

– Hellena!

– Bem... — Birc bufa. — Meu trabalho por aqui está concluído. Até mais ver.

E então ele vai embora, deixando nós duas sozinhas com os corpos desfalecidos de Giroy e Vindre.

– Onde... Anna...? — Ela sussurra, muito fraquinha.

Um arrepio percorre minha espinha.

– Eu não faço a menor ideia.

Notas finais
Beiijos! Obrigada por ler!