O país secreto.

20 A história do Homem da Harpa.


Notas iniciais
Olá galera, não sei se gostarão do capitulo a seguir, mas espero que os agradem. Obrigado mesmo pelos comentários! Eles me deixam tão contente! :D

Caminho com o olhar fixado na nuca do rapaz, que anda apressadamente a minha frente.

Arismir... Que segredos rondam esse velho? O que ele seria ou não capaz de fazer? Bem, ele me mandou para cá, com o intuito de acabar comigo. E quanto aos meus irmãos e primos? Ele faria o mesmo com eles?

Assim que chegamos à entrada da caverna, o Homem da Harpa pula no buraco com uma agilidade admirável e depois eu desço também. Estou sentindo muito frio, talvez pelo fato de estar encharcada, de modo que meus dentes não param de bater. Cruzo os braços, segurando os cotovelos, quando o Homem da Harpa começa a falar com uma voz cansada:

–Doquo, seus netos correm perigo.- Ele diz de uma vez só, o que me faz franzir o cenho. O rei, que estava sentado remexendo em algumas coisas velhas, se levanta abruptamente.

–O que quer dizer?- Ele pergunta, com sua voz áspera.

–A mocinha falou que foi enviada para cá- O rapaz toma fôlego.- Por Arismir.

Ao ouvir esse nome, Doquo desvia o olhar. Está preocupado, posso ver. Mas como poderia? Ele nem mesmo conhece aos outros...

–Eles são meus netos.- Ele diz, baixinho.- Seus poderes devem ser muito fortes. Capaz de...

–Sustentar Vindre no poder.- Completa o rapaz, preocupado.

Um lampejo de fúria cruza os olhos de Doquo. Estou confusa e olho de um ao outro tentando entender. Arismir dissera que Vindre é o vilão. Se é assim, então meus primos e irmãos irão...

–Eles vão morrer?- Pergunto com a voz trêmula devido ao frio e também ao medo.- Vindre vai matá-los.

O Homem da Harpa balança a cabeça apreensivo.

–Pior.- Diz ele.- Serão escravizados.

Escravizados? Então é isso que está acontecendo com meus primos sequestrados...

–E os que se recusarem a utilizar seus poderes dessa forma?- Pergunto, temendo a resposta.

–Serão torturados.- Doquo diz.- E se continuarem a se recusar, terão uma morte dolorosa.

Sinto meus olhos marejarem mas reprimo o choro. Não quero parecer frágil. Doquo é meu avô, mas isso não significa que é de minha inteira confiança. O rapaz até parece legal, mas não posso confiar cegamente nele. Observo-o jogar o coelho morto no chão. olho o bicho mas ao invés de vê-lo, vejo um dos meus entes amados. Ali, estirado no chão. Morto.

Não seria novidade dizer que não pude dormir. Na realidade, cochilei, mas quando um pesadelo- no qual Stive estava sendo atacado por um tigre, que moveu sua pata rapidamente e cortou fora a cabeça de meu irmão- começou a me vir à mente, acordei arfando, e decidi que não dormiria mais essa noite. A caça apanhada pelo Homem da Harpa foi guardada para ser consumida amanhã, o que me deixou até feliz, já que não aguentaria nem mesmo mordiscar a carne.

Levanto e fico ali parada, convencendo a mim mesma que tudo não passara de um pesadelo. Meu vestido ainda está úmido, mas bem mais confortável que antes. Olho para o rei, que dorme silenciosamente, e depois para a entrada da caverna O garoto está ali fora, eu sei.

Meu coração parece querer fugir do peito e estou suada, devido ao susto. Talvez eu devesse sair para pegar um ar puro. Respiro fundo e vou até a entrada da caverna, por onde saio desajeitadamente. Fico sentada, com os pés para dentro da caverna.

Sentado no chão, de costas para mim está o Homem da Harpa. Ele está de cabeça baixa, olhando algo em suas mãos. meu olhar está fixado em seus cabelos lisos, castanhos e bagunçados, mas na realidade meu pensamento está longe, no pesadelo. Será que estão todos mortos? Sacudo a cabeça para me livrar do pensamento.

O garoto da harpa se vira e me encara inexpressivo. Levanto dali e me aproximo dele, sentando ao seu lado.

Olho para o objeto em sua mão. O que ele estava observando até eu chegar. Antes eu achava que pudesse ser sua harpa, já que ele parece gostar tanto do objeto, mas agora vejo que é uma faca. Muito bonita e de ótimo estado, não acho que ele tenha achado-a por aí. Sua lâmina é tão lustrosa que é possível ver seu reflexo nela, como um espelho. Seu cabo é preto, ilustrado com várias espirais prateadas.

–Bela faca.- Elogio, desviando o olhar do objeto e olhando para frente. Tudo estaria silencioso se não fosse pelos barulhos emitidos por animais que habitam a floresta.-É sua?

–Não.- Ele diz, olhando para frente também.- Pertence a Doquo. Não sei como conseguiu, mas quando o conheci, já a tinha.

Ele faz uma pausa.

–O que está fazendo acordada?- Ele pergunta, sem me olhar.

–Não sei.- Digo.- Tive sonhos perturbadores. Acho que foi por causa daquele assunto sobre Arismir.

Ele suspira.

–Arismir.- Repete passando os dedos pela lâmina da faca.- Adoraria matá-lo.

–Você me intriga.- Digo, voltando meu olhar para ele.-Ama omitir coisas. Dar meias respostas...

Ele olha para mim com aqueles olhos inteiramente pretos. Seus olhos... Nunca os vi tremeluzirem e ficarem normais como faziam os de Myafa, ou de Birc, percebo.

–Eu não costumava ser assim.- Ele diz com a voz cansada.- As circunstâncias me obrigaram.

Noto que não sei absolutamente nada sobre ele. Nem mesmo o básico, que seria seu nome.

–O que aconteceu?- Pergunto.- Por que ainda se recusa a dizer seu nome?

–Sabe, meu amor, coisas aconteceram.- Ele diz, passando uma das mãos no cabelo.- Eu não moro na floresta por que quis que fosse assim. Meu nome... bem, digamos que não gosto de usá-lo.

–Não gosta do seu nome?- Pergunto, erguendo as sobrancelhas.

–Não.-Responde.- Na verdade queria esquecê-lo. E esquecer também a quem o escolheu.

Não estendo. Quem escolhe os nomes, em geral, são os pais. Então ele guarda mágoas de seus próprios pais?

Ele parece perceber que não estou entendendo nada, porque olha para mim e suspira.

–O problema está em Arismir.- Ele diz.- Ele é psicopata.

–Disso sempre suspeitei.- Sorrio, mas ele me lança um olhar acusador e fico séria novamente.

–Acontece que meus pais não me quiseram. Nem sei quem são, para ser sincero.- Ele dá de ombros.- Acho que era um bebê muito feio.

Duvido muito, penso. Ralho comigo mesma mentalmente, por pensar dessa forma.

–Eles me abandonaram.- Ele diz.- Justo na casa de quem?

–Arismir...?- Murmuro.

–Sim, meu amor. Exatamente.- Ele responde.- Mas o velho é o braço direito de Vindre. Ele tinha planos para mim. Achar um hipnotizador não é fácil. Eu era o presente perfeito para o rei fajuto. No começo, Arismir me tratou muito bem e me deu um nome. Eu tinha tudo o que queria e o que pedia. A mulher dele Rasqui era louca e eu a encontrei chorando e se balançando freneticamente para frente e para trás mais vezes do que posso contar. Ela morreu logo depois de dar a luz à Myafa. Bem, enfim, quando fiz nove anos, recebi esta harpa.- Ele apontou o objeto que está jogado sobre a grama úmida.- Mas tudo estava bom demais para ser verdade. Assim que completei dez anos, Arismir começou a me explorar. Ele exigia tanto de mim e meus poderes que meus pensamentos começaram a ficar confusos. Eu estava ciente de que estava começando a enlouquecer. Birc é tão perverso quanto o pai, não se engane. Myafa é exatamente como a mãe: louca. A encontrei chorando, como fazia a mãe, algumas vezes. Mas devo muito a ela, afinal salvou minha vida.

"Em uma noite, quando vagava pela casa, encontrei Myafa encolhida debaixo da mesa. Chorando. Quando me viu, não hesitou. Ela saiu dali e me agarrou pelos ombros. Ela tinha apenas cinco anos."

–Myafa... te salvou?- Pergunto, perplexa.

Ele balança a cabeça em concordância.

–Acho que ainda me lembro mais ou menos do que me disse: “Meu pai é louco. Ele vai matar você. Você tem que fugir. Tem que se proteger. Por favor, vai embora.” Me lembro que fiquei boquiaberto com a confissão. Eu disse que precisava pegar minhas coisas, mas ela brigou comigo. Mandou eu sumir. Peguei minha harpa que estava sobre a mesa.

"Fugir não foi uma tarefa fácil mas Myafa me ajudou a escapar. A noite, Arismir força Myafa a produzir uma parede invisível, já que esse é seu poder, que não permite fugas. De dia a vigilância é dobrada, mas não há parede."

–Bizarro.- Murmuro.

–Ela sabe onde sua magia vacila, então me mandou por uma brecha. Eu fugi. Sumi. Corri mais que meus pés aguentaram, até que caí desmaiado. Doquo me achou e juntos caçamos abrigo e comida. Devo viver aqui há pelo menos dez anos.- Ele olha seu reflexo na lâmina da faca.- Acredite, nem mesmo Doquo sabe dessa história. Nem sei porque contei-a para você.

–Porque confia em mim.- Digo.

Ele me olha.

–Devo confiar.- Diz voltando a olhar para seu reflexo.- Agora entende, não é? O porquê de não usar meu nome.

–Então criaremos outro.- Sugiro.- Olhe para mim.

Ele me olha novamente, e arqueia uma sobrancelha.

–Você tem cara de Miguel.

Ele abafa o riso.

–Que espécie de nome é esse?

Quase me esqueci que estou em outro país. Inventar um nome, juntar várias letras e formar uma palavra sem sentido algum, é isso que devo fazer. S, de Stive. A de Annabely. H de Hellena. E de Emma. L de Luize. Agora é só embaralhar.

–Shale?

Ele ri.

–Credo.- Ele diz.- Você é horrível com essas coisas.

Rio também.

–Eu sei.- Digo.- Então tenta aí.

–Eu?- Dez ele, sorrindo.- Melhor não. Sugere duas letras que eu sugiro duas, certo?

Penso um pouco. Em homenagem as sequestradas- se bem que todos os outros estão também- Decido sugerir a letra inicial do nome de minhas pequenas protegidas. Como sinto falta delas...

–L e A.- Digo.

–Fico com M e R.- Ele diz.

–Por que escolheu essas letras?- Pergunto.

–Não sei.- Ele dá de ombros.- Então acho que me chamarei... Larm.

–Gosto de Larm.

–Perfeito.- Ele sorri. Estou olhando para seu sorriso quando ele percebe e o desfaz lentamente.- Um dia eu me apaixonei. A via sempre pela janela do meu quarto na casa de Arismir. A observava ir e voltar da escola todos os dias. Nunca mais a vi. A esqueci. Acho que não quero me apaixonar nunca mais.

O que será que ele quis dizer? Ele acha que posso estar me apaixonando por ele? Não, eu não estou. Nunca estarei. Se bem que “nunca” é tempo demais.

–Eu não...

–Percebo que ainda não sei seu nome.- Ele diz, olhando para frente, seriamente.

–É Emma.- Digo.- E acho que vou dormir agora.

Levanto e entro na caverna novamente, deixando-o sozinho. Quando me deito, todos os pensamentos ruins se esvaíram parcialmente de minha mente e pego no sono pensando em minha conversa com o garoto da harpa. Com Larm.

Notas finais
Desculpem qualquer coisa e se houver erros, me avisem por favor ;)