O passado é logo ali
4 Um almoço especial
Notas iniciais
Repetiam essa reunião há quase meio século, desde 1999. O primeiro dia do ano era dedicado ao encontro dos seis líderes da Armada de Dumbledore: Harry, Ron, Hermione, Neville, Gina e Luna. Eventualmente, recebiam outros ex-integrantes, como Jorge e Angelina, que eram os mais assíduos. Com a chegada dos filhos e netos, o número de participantes aumentou. Nem sempre todos podiam estar presentes, mas a data era aguardada com expectativa e alegria. Não seria diferente em 1º de janeiro de 2047.
Depois do animado Natal n'Toca, reunindo a numerosa e barulhenta família Weasley, sempre com muita comilança e diversão, Ron e Hermione se preparavam para receber os amigos. Este ano, a tradicional reunião seria na casa deles, com um almoço preparado com muito capricho.
Hermione tinha separado a melhor louça de porcelana e os talheres de prata, presentes da tia Muriel. A toalha de mesa de linho branco com delicados bordados de flores estava impecavelmente limpa e passada, graças às habilidades mágicas de Hermione. Claro que ela tirou da cristaleira também os copos e taças que só usava em ocasiões especiais.
— Não esquece dos copos de plástico para as crianças. Sophie e Nami são comportadas, mas Nell deve possuir um ímã que atrai acidentes e Fran, além de só ter 5 anos, é bem desligado. Sem falar dos netos de Harry e Gina, que são terríveis. Vão quebrar todos os seus cristais – gritou Ron querendo evitar que qualquer incidente afetasse o humor da esposa.
— Os copos de plástico estão separados, Ron. Como está com almoço? Precisa de ajuda? – Hermione falou alto para que, da cozinha, o marido pudesse escutá-la.
— Tudo prontinho, Amor. Até já desliguei o fogo. Um almoço tipicamente inglês, como Luna pediu. Carne assada com batatas coradas, cenoura, brócolis e couve de Bruxelas. E minha especialidade, um yorkshire pudding bem crocante para acompanhar...
— Tínhamos todos os ingredientes para o yorkshire pudding? Farinha de trigo, leite, ovos...? – Hermione apareceu no batente da cozinha.
— Sim, Mione. Pode deixar que não improvisei dessa vez. Se bem que sempre que invento uma receita nova, fica muito boa – ele deu uma piscadela.
— É verdade, Amor. Mas como Luna quer um cardápio inglês, melhor deixar a improvisação para um outro momento. Ih, esqueci da sobremesa! Combinei que o doce ficaria por minha conta desta vez. Estava planejando preparar uma torta de banana – Hermione levou a mão à testa.
— Fica tranquila. Eu fiz duas sobremesas. Não me olha com essa cara de censura. Não desconfiei do seu talento de doceira. Era só para ter mais opções – o sorriso torto era uma característica de Ron que Hermione continuava a achar um charme.
— Não estou zangada. Mas é que você sempre me consulta quando vai preparar uma sobremesa... O que fez, afinal? – ela sorriu.
— Dois doces que você ama. Fiz um mousse de chocolate e um trifle de morango em duas versões. Na dos adultos, usei o vinho do Porto para umedecer a camada de bolo. Na das crianças, claro, nada de bebida alcoólica. Caprichei no chantilly e no creme inglês...
— Ronald! Chantilly e creme inglês são muito calóricos. Se já não bastasse o mousse de chocolate... Deveria ter feito um bolo simples. Neville precisa controlar o colesterol, que vive subindo, e Gina me contou que a taxa de triglicerídeos de Harry está no limite. Não entendo como seu último exame de sangue deu normal se você...
— Eu tenho a saúde de um jovem! Doutor Moore não precisava me pedir para não abusar dos doces. Eu nunca como demais. Apenas o suficiente – foi a vez dele cortar a fala da esposa.
— Espero que tenha autocontrole também hoje. Bem, coloquei a mesa e tudo está ajeitado aqui na sala. Você terminou mesmo na cozinha? – Hermione queria garantir que tudo fosse o mais perfeito possível e por isso sempre ficava tensa no papel de anfitriã.
— Aqui está tudo pronto. Agora é só usar a varinha para aquecer na hora que for levar para mesa. Vem – disse puxando a esposa pelo braço e caminhando com ela até o sofá. — Senta comigo. Estou com saudade de você...
— Como assim com saudade? Estamos juntos o tempo todo – Ela deu um meio sorriso e balançou a cabeça.
— Mas você sempre está fazendo alguma coisa. Escreve seu novo livro, esvazia as estantes da biblioteca para limpar, arruma e desarruma, para arrumar de novo, as prateleiras de todos os armários. Sem falar nas suas muitas visitas a Rose e Hugo, passeios com os netos, idas à livraria e ao ministério, para as reuniões do conselho...
— Já entendi, Ron. Você está carente – ela sorriu e se acomodou ao lado do marido que já se encontrava esparramado no sofá.
— Sempre. Ainda sou ciumento. Quero você todinha para mim – ele abraçou a esposa, trazendo-a para bem perto.
— Ron, sou toda sua. Mas também sou dos nossos filhos, dos nossos netos e do mundo bruxo, que ainda conta com a minha colaboração – falou encostada ao peito do marido.
— Também amo nossos filhos e netos. Por eles, sou capaz de fazer qualquer coisa. Mas queria que pudéssemos ser, por mais tempo, apenas um do outro – ele beijou o alto da cabeça de Hermione.
— Mas passo todas as noites com você. Não é suficiente? – ela se desvencilhou do abraço para poder mirar nos olhos de Ron.
— Não quero nem pensar como seria se não dividisse a cama com você. Tremeria de frio. Teria pesadelos terríveis. Com certeza, já estaria morto...
— Você não cansa de ser dramático? Mas tenho que confessar. Eu também sinto um vazio enorme quando você não está na cama ao meu lado. Lembro de quando atuava como auror e precisava viajar em alguma missão. Eu dormia tão mal nessas ocasiões...
— Por que está me contando isso apenas agora? Seria tão bom saber disso naquela época – ele envolveu a esposa pela cintura.
— Eu não queria que você se sentisse culpado ou desistisse de ser auror por causa das minhas noites insones. Não menti. Apenas omiti esse meu sofrimento – ela falou com ternura.
— Meu Amor... – ele a abraçou antes de beijá-la intensamente.
Hermione e Ron confirmavam que chegar à terceira idade não era desculpa para a paixão diminuir. Depois de tantos anos, ainda se sentiam profundamente atraídos um pelo outro.
Quando seus lábios se desprenderam, Ron começou a distribuir beijos pelo rosto e pescoço da esposa. "Chega. Por favor. Vamos receber. Visitas. Daqui a pouco", ela sorria, mas tentava ser firme. Não gostava de ser a racional da relação, mas havia momentos que precisava desempenhar esse papel.
— Ainda bem que as visitas vão embora. E como não estou com sono, teremos a noite todinha para a gente – o sorriso dele falou mais que as palavras e Hermione não pôde deixar de lembrar daquele Ron sedutor do início do casamento.
— Não está com sono agora. Quando chegar à noite, você vai cair na cama e desmaiar – ela deu uma gargalhada.
— Hei, o que está insinuando? – Ron cruzou os braços, parecendo ofendido.
— Na noite passada, por exemplo, eu coloquei o seu perfume preferido, a camisola preta que você diz que fica perfeita em mim... Mas, quando cheguei no quarto, você estava roncando — ela fingiu ficar brava.
— A culpa é sua. Não precisava tomar banhos tão demorados. E também daquele livro que você me deu. Começo a ler para passar o tempo enquanto te espero e, como é muito monótono, acabo caindo no sono – ele respondeu em tom de falsa acusação.
— Espero que isso não aconteça hoje – ela deu um sorrisinho.
— Não, com certeza não vai acontecer hoje — garantiu antes de selar os lábios da esposa com mais um beijo.
— Alguma vez você se arrependeu de ter casado comigo? – a cara de espanto do marido denunciou que o questionamento parecia não fazer sentido, principalmente depois de um beijo tão apaixonado.
— Que loucura é essa agora? Por que está perguntando isso? – ele arregalou os olhos azuis ainda mais luminosos graças a claridade que vinha da janela da sala.
— Estamos há quase 50 anos juntos e comecei a fazer algumas reflexões. Meu maior objetivo foi sempre garantir a sua felicidade. Mas sei que também foi uma escolha egoísta, eu simplesmente não consigo ficar longe de você. Apenas ao seu lado que me sinto protegida, bonita, plena, feliz...
— Você é feliz? Porque eu sou o bruxo mais feliz do universo. E toda minha felicidade vem de você, Mione – aquele sorriso lindo continuava a aquecer o coração de Hermione.
— Sim, Ron, eu sou imensamente feliz! Não tenho como não ser feliz vivendo com você, que me cerca de tanto amor, cuidado e me faz sentir tão especial... É perfeito como marido, pai e avô. E me pergunto se consigo corresponder, se levo verdadeira felicidade para sua vida...
— Bem, caso ainda não saiba, depois de todos esses anos, você é a minha vida – ele acariciou os cabelos ainda bagunçados, mas menos volumosos da esposa.
O marido encostou a testa na dela e ficaram assim por um longo minuto. Será que ainda precisavam de palavras para confirmar o quanto se amavam e eram felizes juntos? Os momentos de silêncio entre os dois se tornavam cada vez maiores e mais significativos. Mas o bruxo sabia entender que algumas vezes Hermione necessitava conversar sobre o relacionamento dos dois.
— Quando você descobriu que gostava de mim? Foi mesmo no final do quinto ano, como me contou quando começamos a namorar? – Hermione sempre buscava confidências do marido.
— No quinto ano entendi qual era aquele sentimento forte que me ligava a você. Antes pensava que era uma mistura de amizade com rivalidade. Mas, para ser sincero, acho que você me atraiu ainda no final do primeiro ano. Naquele momento que estava tão indefesa, no banheiro, junto com o trasgo. Quando se acusou diante da professora Minerva para defender Harry e eu, vi o quanto era especial e, de certa forma, decidi que sempre protegeria você – Hermione o olhava de um jeito tão doce que ele sorriu feliz.
— Acho que estávamos destinados a ficar juntos desde sempre. E tenho que admitir que você cumpriu seu propósito muito bem. Sempre me protegeu com perfeição – ela devolveu o sorriso.
— Menos quando abandonei a missão...
— Esquece isso, Amor. Já conversamos por demais daquele momento e tudo foi esclarecido. O poder do horcrux foi mais forte que você...
— Mas isso não aconteceria se eu não fosse tão inseguro. Graças a você e ao seu amor, essa insegurança ficou para trás. Acho que hoje sou até convencido – Ron deu uma gargalhada. – Afinal, sou casado com a bruxa mais brilhante de todos os tempos.
— Pode continuar a ser convencido. Você me conquistou definitivamente. Mas eu também não tenho privilégio menor. Você foi um auror fantástico, é um empresário bruxo de sucesso e o mais lindo e incrível marido que existe na face da terra – ela segurou as mãos do marido.
— Uau. Vou acabar acreditando – disse antes de dar mais um beijo na esposa.
— Não vai me perguntar quando me apaixonei por você? – ela falou assim que seus lábios se descolaram.
— Foi desde que me viu pela primeira vez, com certeza – Ron sorriu e deu uma piscadela para Hermione.
— Sim. Foi mesmo assim. Claro que eu demorei um bom tempo para entender isso. Primeiro achei que só olhava muito para você porque o achava diferente. Seus cabelos ruivos brilhantes faziam um contraste forte com os seus olhos muito azuis. Pensei que não era nada demais aquela minha mania de ficar contando mentalmente as sardas em volta da sua boca.... – ela não segurou a gargalhada ao ver a fisionomia surpresa do marido com tal revelação.
— Você contava as sardas em volta da minha boca? – ele arregalou os olhos.
— Na verdade, continuo contando as suas sardas. Mas não vamos falar mais sobre isso – ela ficou levemente constrangida.
— Preciso colocar as sobremesas na geladeira – ele se levantou de um salto.
Os dois foram juntos para cozinha e ela aproveitou para lavar algumas louças que Ron havia deixado para trás. Uma hora antes do horário combinado com as visitas, depois de revisar cada detalhe do almoço, Hermione finalmente voltou a sentar no confortável sofá da sala ao lado de Ron para olhar os álbuns de fotografia, algo que amavam fazer juntos.
Naquele dia haviam liberado a lareira para receber os familiares e amigos pela Rede de Pó de Flu. Nem sempre faziam isso porque gostavam de manter a privacidade. Um trepidar anunciou que o primeiro convidado estava chegando.
— Hugo! Alice! Crianças! – Ron gritou e logo ele e Hermione estavam abraçados aos filhos, nora e netos.
Enquanto Rose sempre fora decidida, o segundo filho demorou a fazer suas escolhas. A primogênita era parecida fisicamente com o pai e tinha a inteligência de Hermione para os estudos e uma leve insegurança, herança dos dois, que não a impediu de fazer muitos amigos. Quando tomava uma decisão, no entanto, ela dificilmente voltava atrás. Já Hugo estudava por obrigação, detestava ler, era introspectivo sem ser tímido, um pouco mau humorado e doce ao mesmo tempo. Era quase impossível não gostar daquele garoto. Sabia ser tão gentil, elogiar, não era competitivo como a irmã. Talvez por isso tenha se sentido tão perdido quando terminou Hogwarts.
— Mãe, eu sei que sempre decepcionei você com minhas notas medianas. Também desapontei papai. Ele esperava que eu terminasse a escola com uma profissão definida. Eu amo vocês dois. Mas não é fácil ser filho de Hermione Granger e Ronald Weasley. As expectativas que todos depositaram sobre mim foram muito altas. Preciso me afastar de Londres e da família para descobrir meu lugar no mundo bruxo – Hugo falou quando decidiu sair de casa.
Havia concluído Hogwarts há um mês e tinha sido convidado para estagiar no Departamento de Aurores. Ele recusou. Não pretendia seguir a profissão do pai, do tio Harry e da irmã. Aliás, só sabia quais caminhos não desejava percorrer. Não tinha certeza de mais nada. Resolveu aceitar a proposta de tio Carlinhos e foi para Romênia trabalhar com os dragões. Ficou lá durante 10 meses e não parou mais de um ano nos lugares que morou em seguida: Nova Zelândia, Canadá, México, Egito, Quênia, África do Sul, Brasil, Groelândia, Rússia, China, Filipinas e Índia.
Foram oito anos no exterior, atuando em diferentes áreas como aprendiz de um fabricante de varinhas, vendedor de livros, artesão de vassouras, ajudante de cozinha, preparador de poções, locutor de uma rádio bruxa, entre outras. Retornou para Londres com 25 anos, sem profissão certa ou planos, mas com muita experiência e conhecimento do mundo na bagagem. Não quis voltar para casa paterna. Alugou um pequeno apartamento nos arredores do Beco Diagonal. Precisava continuar seguindo o próprio caminho.
— Pai, vou ficar um tempo trabalhando com você e tio Jorge nas Gemialidades Weasley porque preciso me sustentar. Mas não sei se levo muito jeito para o comércio. Espero não atrapalhar – ele falou sem imaginar que, em poucos meses, demonstraria ser um excelente administrador.
Ruiva e com sardas como o pai, Rose possuía muitos traços da personalidade da mãe, além das madeixas volumosas e os olhos castanhos como os dela. O irmão, além dos cabelos castanhos, tinha outras semelhanças com Hermione como o sorriso e os formatos do nariz e rosto. Os olhos, no entanto, eram azuis como os de Ron.
Alto, de porte atlético, Hugo era um rapaz bonito, mas não tinha muita sorte com as garotas. Iniciara vários relacionamentos, todos de curta duração. "Nesse aspecto, nosso filho não se parece nada comigo. Encontrei o amor da minha vida com 11 anos", Ron sorriu para Hermione.
— Curiosamente, eu também. Fomos privilegiados. Mas ele vai encontrar a pessoa certa, uma bruxa que o ame de verdade e o faça feliz – a mãe e o filho possuíam uma forte conexão.
Foi trabalhando no balcão das Gemialidades que Hugo a encontrou. A garota era filha de Neville, seu querido ex-professor de Herbologia, e Hannah Abbott. Pouco antes de casar-se, Hannah havia usado o dinheiro recebido como herança para comprar o Caldeirão Furado. O jovem casal Longbottom morava no segundo andar do pub e hospedaria, famoso por ser a porta de entrada para o Beco Diagonal.
Como trabalhavam muito no início do casamento e Hannah ainda estudava nas poucas horas vagas para realizar o projeto de ser medibruxa, o sonho de ter filhos foi adiado. Comemoravam uma década de matrimônio quando a filha, sete anos mais jovem que Hugo, finalmente nasceu.
Com cabelos louros claros, como a mãe, e os olhos verdes que herdara do pai, recebeu nome duplo em homenagem às avós Alice Longbottom e Elizabeth Abbott, a primeira torturada até a loucura junto com o marido Frank e a segunda assassinada por Comensais da Morte. A trágica história do casal não os impediu de formar uma linda família, construída com amor verdadeiro, e esse afeto foi o alicerce para filha ter uma personalidade alegre e decidida.
Aos 18 anos, Alice Elizabeth trabalhava em uma creche bruxa, cuidando de bebês e crianças até 3 anos incompletos. Foi até a matriz da Gemialidades Weasley, no Beco Diagonal, interessada em comprar alguns brinquedos mágicos seguros para essa faixa etária. Hugo não tinha muito jeito com atendimento ao público e dificilmente ficava no balcão da loja. Naquela manhã de sábado, porém, precisou ocupar esse posto e foi a ele que a jovem se dirigiu.
O diálogo havia sido narrado tantas vezes por Hugo e, principalmente, por Alice, que Hermione e Ron tinham a impressão de haver presenciado aquele momento. O rapaz prestou pouca atenção na garota enquanto escutava os seus pedidos e alcançava os itens nas prateleiras. Foi quando a compra estava concluída que ela o interpelou.
— Acho que você não está lembrando de mim – comentou com simplicidade.
— Desculpa. Sou um pouco distraído. Já te atendi antes aqui na loja? – o olhar dele era interrogativo.
— Não, aqui não. Nem sabia que estava trabalhando na Gemialidades Weasley. Achei que ainda morava na China – ela sorriu.
O enigma se tornara ainda maior. Como aquela linda garota, com o sorriso mais encantador do mundo e um olhar tão transparente e iluminado, sabia que havia morado na China? Ah, sim, claro. Devia ter sido atendida pelo pai, que gostava de jogar conversa fora com os clientes. E provavelmente achou que possuía alguma semelhança com ele. Todos diziam que seus olhos e a altura não negavam que era filho de Ronald Weasley.
— Depois da China, morei nas Filipinas e na Índia. Voltei há cinco meses para Inglaterra. Mas alguém da minha família deve ter falado para você sobre mim, imagino...– ele quis confirmar, embora tivesse certeza dessa hipótese.
— Fui algumas vezes na casa dos seus pais depois que foi morar no Exterior. Você aparece em vários porta-retratos espalhados na sala. Foi lá que vi uma fotografia sua na Grande Muralha da China – o sorriso dela era realmente encantador.
— Ah, você é amiga dos meus pais. Muito prazer em te conhecer... Qual é seu nome mesmo? – por mais que se esforçasse, não lembrava da garota.
— Já nos conhecemos. Estivemos juntos muitas vezes no Dia da Armada de Dumbledore. Sou Alice. Filha do Neville e Hannah – sorriu um tanto decepcionada.
— Alice, claro. Lembro de você. Mas mudou muito. A última vez que te vi era bem pequena e magra, tinha os cabelos tão louros que pareciam brancos...
— Uma garota bem sem graça, você quis dizer – ela o cortou.
— De jeito algum. Eu não disse isso. Só estava lembrando mentalmente de você naquela época. Era uma criança e agora...você está...
— Pense bem em suas palavras. Se insinuar que sou feia, não será difícil para mim te azarar –Hugo lembrou da mãe quando Alice cruzou os braços e ele não conseguiu evitar um sorriso.
— Feia? Como assim? Você é muito bonita. Eu... Bem, podemos fechar a compra? – Hugo se sentiu constrangido com aquela conversa e, especialmente, com o olhar que a garota dirigia para ele.
— Escolhi tudo que queria. A gente se vê no Dia da Armada de Dumbledore? – Alice voltou a sorrir.
— Não sei se vou. Fico sempre deslocado nessas confraternizações – não era comum para Hugo falar abertamente assim dos próprios sentimentos.
— Eu também não fico muito à vontade. Mas as reuniões na casa dos seus pais são as melhores. A comida é uma delícia. Fora que tem campo de quadribol, xadrez bruxo e aquele aparelho trouxa... A teveli... Não! Tele...
— Televisão? – ele sorriu ao ver a menina se atrapalhar com o nome.
— Isso! Televisão. Eu acho muito divertido – ela mordeu os lábios antes de voltar a sorrir.
— Pensando melhor, vou estar lá em casa nesse dia, quer dizer, na casa dos meus pais. Acho que eles não me perdoariam se eu faltasse – Hugo tinha um outro motivo para participar daquela confraternização e ele estava bem em sua frente e sorria.
— Então a gente se vê lá? – Hugo se perguntava qual magia tinha aquele sorriso que fazia o seu coração bater mais forte.
— Sim, com certeza – ele se surpreendeu com o próprio entusiasmo.
Era início de dezembro. Teriam que esperar ainda um mês para se encontrar. Isso se Alice também não tivesse se apaixonado pela nova versão de Hugo. Não era mais o adolescente magro e um tanto desajeitado que crescera rápido demais e parecia não conseguir coordenar muito bem os movimentos. O garoto que mal a encarava nos olhos quando visitava os Granger-Weasley. Ainda assim, a tratava com gentileza, ligava a TV para ela assistir desenhos animados trouxas e a ensinara algumas jogadas de xadrez bruxo.
Alice era daquelas que acreditam que devemos lutar para alcançar nossos desejos. Na quarta-feira seguinte, estava de volta à loja Gemialidades Weasley. O motivo era trocar alguns brinquedos que não despertaram o interesse das crianças. Sabia que outro funcionário poderia ajudá-la, mas fez questão da presença de Hugo. O destino conspirou a favor dos dois. Ele, que normalmente almoçava naquele horário, havia se atrasado e ainda estava no escritório. Desceu para o térreo um tanto intrigado. Que cliente era aquela que insistia em ser atendida por ele?
O sempre atento tio Jorge já estava desconfiado e confirmou o que suspeitava quando presenciou o sorriso trocado entre Alice e Hugo. Foi ele que insistiu com o rapaz para acompanhar Alice até a creche levando alguns brinquedos. Segundo Jorge, essa seria a melhor forma de testar os que realmente interessavam a elas.
Não precisou insistir. Hugo, normalmente esfomeado, esqueceu do almoço e foi até a creche bruxa com Alice. No dia seguinte, entrou em contato com ela para saber se as crianças estavam felizes com os brinquedos. Após responder afirmativamente, ela avisou que iria na loja, por volta das 17 horas, para devolver os jogos que ele tinha deixado a mais para experimentar com os bebês de até 2 anos. Dessa vez o rapaz não estava escondido no escritório e, depois de atender a garota, a convidou para tomar um cappuccino na cafeteria vizinha.
Nas semanas seguintes, continuaram a fazer programas a dois. Começaram com um almoço, depois foram juntos ao cinema trouxa, ao parque de diversões, ao show da banda preferida da garota, da qual ele também gostava. O primeiro beijo, tão desejado por eles, aconteceu naturalmente e foi maravilhoso. Quando chegou 1º de janeiro, o Dia da Armada de Dumbledore, Hugo e Alice eram praticamente namorados.
Em dois anos, aconteceu o casamento. Uma solenidade simples e preparada com muito amor. Hugo estava com 27 anos e Alice tinha 20. Depois da chegada do primeiro filho, ela decidiu deixar de trabalhar na creche para se dedicar a uma outra paixão. Começou a vender livros, inicialmente em um cantinho da loja Gemialidades do Beco Diagonal, com a autorização de Jorge e do sogro. Não se passou um ano e ela abriu a sua pequena livraria com o nome Lua Azul, que logo conquistou a clientela.
— Achei que chegaria mais cedo – Ron falou para o filho que tinha muito jeito para a cozinha e ficara de ajudá-lo com o almoço.
— Desculpa, pai. Fran teve febre. Hannah, quando soube, aparatou lá em casa para cuidar dele. – ser genro de uma medibruxa tinha suas vantagens. — Era inflamação na garganta e, com a poção certa, nosso caçula já está ótimo. Mas eu fiz uma sobremesa.
O bolo de nozes preparado por Hugo estava com um aroma saboroso. Pai e filho foram juntos para cozinha. Hermione se sentou com Alice para conversar sobre a nova filial da livraria, que ficaria em Hogesmead e seria aberta no próximo mês.
— Podemos ver Pudim, Cookie e Mousse? – Nami, a mais velha das crianças, perguntou.
Logo os três irmãos subiam, com grande alvoroço, as escadas para ir até o quarto dos avós, refúgio preferido dos gatos. Hermione observou os netos com orgulho. Nami, que tinha os cabelos castanhos cacheados e olhos azuis, parecia muito com Hugo. Nell, louro e de olhos verdes, lembrava Alice. Fran, sardento e de curiosos olhos azuis, mesmo se tinha madeixas cor de mel, era uma pequena cópia de Ron.
Não demorou muito e um novo estampido na lareira despertou a atenção dos adultos na casa. Era a família Potter que acabava de chegar. A confraternização da Armada de Dumbledore estava apenas começando e prometia ser inesquecível.
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