Notas iniciais
Aqui estou eu, sorrindo de orelha a orelha, feliz em dar minha pequena contribuição para espalhar amor por Ron e Hermione neste mês de dezembro de 2020, inteiramente dedicado ao melhor casal da literatura de todos os tempos! Sou apaixonada por histórias de amor, especialmente pelo amor conturbado e, ao mesmo tempo, tão límpido desses dois. Essa singela história é minha contribuição para o fabuloso projeto #dezembromione. Espero que sejam felizes lendo assim como fui feliz ao escrever esta shortfic ❤️

Ela estava mais agitada do que nunca naquela manhã de sábado. Ainda não eram sete horas e já trabalhava na cozinha. Ao descer do quarto, ouvindo o barulho das panelas, ele entendeu que precisava se dedicar à sua especialidade há mais de 43 anos, desde quando haviam se casado: acalmar Hermione.

Talvez fosse difícil para algum dos ex-colegas da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, que presenciaram as constantes brigas dos dois no tempo de estudantes, acreditar nisso. Mas o fato é que, ao longo dos anos, ele havia desenvolvido o dom de deixar a esposa tranquila nos momentos mais tensos, particularmente quando o estresse era desproporcional ao acontecimento.

Sim, eles ainda tinham os seus desentendimentos. Emburravam a cara de vez em quando e até diziam aquela impensada frase: “Não sei por que me casei com você...”. Refletindo melhor, fazia anos, muitos anos, uma década ou mais, que não repetiam tal fala. Estavam praticamente a vida toda juntos e Ronald Billius não existia sem Hermione Jean. E vice-versa.

Após uma carreira de sucesso no Ministério da Magia da Inglaterra, Hermione continuava atuando como consultora na área de Llegislação do Mundo Bruxo. Lecionara como professora convidada em Hogwarts depois da aposentadoria, mas decidira voltar para Londres porque sofria demais passando a semana distante do marido.

Seus dois primeiros livros, “Hogwarts, uma nova história” e “O impacto das novas legislações na libertação dos elfos domésticos”, já eram best-sellers e dedicava-se agora a um novo projeto. Escrevia sobre a Segunda Guerra Bruxa e seus desdobramentos na comunidade mágica internacional.

Ron, por sua vez, tinha atuado de forma brilhante como auror e recebido prêmios e condecorações. A insegurança que tanto o fizera sofrer até o início da vida adulta, agora era coisa do passado. Paralelamente a essa bem-sucedida carreira, havia mantido a sociedade com Jorge nas Gemialidades Weasley. Começara nessa empreitada apenas para dar apoio ao irmão que se encontrava arrasado após a morte de Fred. Mas logo demonstrou ter muito talento administrativo.

Jorge era o sonhador, o gênio criativo, aquele que inventava, patenteava e coordenava a produção das brincadeiras e logros mágicos. Já Ron era o pé no chão, o administrador, aquele que encontrava formas de reduzir gastos e aumentar os lucros. Como resultado, mais de quatro décadas após sua fundação, a Gemialidades Weasley se tornara uma franquia mundial.

Com mais de 60 anos, os sócios-proprietários Jorge e Ron tinham agora a liberdade de fazer os seus horários. A segunda geração, o filho Hugo e os sobrinhos Fred II e Roxanne, havia assumido a gerência da empresa.

— Bom dia, Amor. Quer ajuda para destruir a cozinha? – ele abriu um sorriso ao ver a esposa tirando as panelas do armário e as fazendo voar para o fogão ao comando da varinha.

— Ronald! Bom dia. Você sabe muito bem que hoje temos visita para o almoço. Por que a ironia? – ela colocou as mãos na cintura, repetindo o gesto desafiante que vinha da adolescência.

— Mione, meu Amor, ainda não são sete horas. A comida vai ficar fria até a hora do almoço – ele tentou argumentar.

— Ron, eu sou ansiosa, você sabe. E ainda por cima não cozinho muito bem. Tenho que fazer tudo com antecedência para garantir que não deixe nada queimar e...

— Eu vou cozinhar! E você sabe que sou rápido. Então guarda essas panelas e vem tomar café da manhã comigo. Garanto que ainda não comeu nada – ele a olhou com ternura.

— Vai cozinhar mesmo? O que vai fazer? – a esposa o encarou com desconfiança.

— Minha especialidade. Lasanha de queijo! – Ron sempre sorria quando falava de comida.

— Não é um prato muito saudável... – ele não entendia por que Hermione se preocupava mais com isso do que com o sabor dos alimentos.

— Mas vai ter uma salada bem colorida para acompanhar, é claro – tratou de completar. – Ou você prefere um rosbife com batatas souté?

— Hum, tudo que você faz é delicioso. Só fico pensando que...

— Faço também um ratatouille! Que tal? – propôs ao ver a esposa hesitante.

— Rosbife com batatas souté e salada colorida é um ótimo cardápio. Podemos deixar o ratatouille, que é mais leve, para o jantar – ela disse aquilo com a firmeza de quem profere um veredito.

— Faltou a sobremesa. Você pode escolher entre duas opções: merengue de morango ou mousse de chocolate – os olhos dele brilharam ao falar das guloseimas.

— Não pode fazer as duas? Combinam tão bem... – Hermione se deixou trair na sua opção fitness diante daquelas saborosas sobremesas.

— Tudo que você, quiser, Amor. Mas não vamos exagerar. Não temos mais idade para isso – ele franziu as sobrancelhas, fingindo seriedade.

— Olha quem está falando! Até parece que consegue comer apenas o suficiente. Você...

— Mione! Eu já perdi o apetite da adolescência. Mas ainda me alimento bem, é verdade. E por falar em comer, vamos tomar café? Minha barriga está roncando – ela balançou a cabeça e sorriu; havia certas coisas que nunca mudavam.

Os dois terminaram de preparar juntos o café da manhã. Hermione, sempre muito organizada, deixava a mesa posta com as xícaras, pires, pratinhos, copos, talheres, a cestinha de pão, a manteiga e o açúcar orgânico. Ron, usando magia, fez o suco de abóbora e a salada de frutas, enquanto a esposa pegava na geladeira o queijo magro e o blanquet de peru.

Conversaram pouco enquanto comiam. Os longos silêncios já não incomodavam. Sentiam-se tão bem um na companhia do outro que não precisavam mais de tantas palavras. Conseguiam se entender com um sorriso, um suspiro, um muxoxo e, principalmente, com um olhar.

Como haviam mudado com o passar do tempo, não apenas na aparência física, mas, de modo particular, na forma de encarar a vida. Ron, para Hermione, continuava irresistivelmente lindo. As rugas pareciam tão suaves em seu rosto sardento e os cabelos ruivos, agora, grisalhos, permaneciam brilhantes e macios. Seu sorriso não perdera o encanto. Mas eram os olhos – ah, aqueles maravilhosos olhos! – que não a deixavam esquecer do seu amor adolescente.

Quanto orgulho tinha de Ronald Billius Weasley! Não apenas das suas conquistas profissionais. Mas, de forma especial, do marido maravilhoso que ele se tornara. Ainda quando namoravam, havia se dado conta do pouco talento dela com a cozinha. Ron tratou de colar na mãe, cozinheira de mão cheia, para aprender as suas deliciosas receitas. Logo estaria inovando, criando os próprios pratos.

O marido assumira também as compras do mês, o pagamento das contas, os consertos e reformas da casa na qual moravam desde quando casaram. Hermione cuidava da manutenção do carro, da decoração e arrumação do lar – ele deixava a cozinha impecável, mas era capaz de largar as botas no meio da sala!

Carinhoso, protetor, romântico, embora um pouco desligado de datas e acontecimentos, Ron a cercava de presentes, gestos de paixão e pequenos mimos. Já perdera as contas das vezes que ele chegara em casa trazendo uma flor recolhida pelo caminho ou um buquê de rosas. Para ser sincera, ela sempre preferia a simplicidade da primeira.

Sem falar que era um pai fabuloso. Apaixonado pelos filhos, amigo, sabia dialogar e, em meio a gargalhadas e brincadeiras, arrancar confidências de Rose e Hugo. Transmitiu aos dois o amor que sentia por quadribol e o seu time, Chudley Cannons, pelo xadrez bruxo e uma boa comida. Demonstrava o mesmo carisma como avô e se derretia pelos netos. “São os bruxinhos mais lindos e inteligentes do mundo”, não cansava de dizer.

Não era diferente para Ron. A sua paixão por Hermione Jean Granger-Weasley só havia aumentado ao longo do tempo. Sempre achara a amiga, que se tornou seu primeiro e verdadeiro amor, uma pessoa muito complexa, difícil de entender, cercada de segredos. Ainda assim, ninguém, nem mesmo Harry — o irmão que ela não teve — a compreendera, desde o primeiro ano em Hogwarts, tão bem como Ron.

Assim como quem estuda estrategicamente as peças de um tabuleiro de xadrez para fazer o movimento certo, ele havia se dedicado a decifrar o enigma Hermione. Não para ganhar o jogo, mas porque era apaixonado por ela e queria fazê-la feliz. Logo entendeu que por trás daquela carapaça de melhor aluna, de bruxa brilhante, havia uma menina insegura quanto a sua aparência e capacidade de conquistar amigos.

Primeiro, tentou apontar as contradições de Hermione, gerando muitas brigas. Depois, percebeu que não queria confrontá-la, mas apenas amar aquela garota e contribuir com sua felicidade. Quando voltou ao acampamento, depois de ter abandonado a missão em busca das horcruxes, a cercou de elogios, afeto, cuidados. E o amor que recebeu em troca foi tão puro, verdadeiro, intenso, que sarou todas as cicatrizes que trazia da Guerra e de antes dela.

Hermione era simplesmente perfeita. A perfeita estudante, a perfeita bruxa, a perfeita funcionária do Ministério da Magia, a perfeita pesquisadora e escritora. Uma mãe fantástica, que soube dar os limites que ele tinha dificuldade de impor, educar, orientar, transmitir valores. E sempre fazia isso com firmeza e amor. Um provérbio trouxa diz que que “avó é mãe com açúcar”. E Hermione, com os netos, pelos quais quebrava todas as regras, era exatamente assim.

Mas o melhor papel dela para Ron, é claro, era o de esposa. Hermione o fizera e o fazia feliz em todos os aspectos. Não importava que não soubesse cozinhar, fosse obcecada com a arrumação da casa e chamasse a atenção dele até quando deixava o travesseiro um pouco torto na cama. Não sabia exatamente quando aconteceu, mas ela passou a reclamar menos. Ou teria sido ele que se tornara mais organizado?

Tinha impressão que ficava mais linda à medida que envelhecia. Os cabelos menos volumosos e agora grisalhos ainda tinham os cachos que sempre o atraíram. O olhar mantivera o mesmo brilho de inteligência e ternura. O sorriso, por vezes levemente tímido, dava lugar a gargalhadas que enchiam a casa de alegria. Não conseguia imaginar sua vida sem o amor de Hermione.

— Agora que a comida está pronta e a cozinha já foi arrumada, senta aqui do meu lado – Ron, esparramado no sofá e com um álbum de fotografias no colo, convidou.

— Preciso subir para ver se está tudo em ordem no quarto da Rose – ela começava a demonstrar a já conhecida ansiedade dos perfeccionistas.

— No quarto de hóspedes, você quer dizer – Ron a corrigiu.

— Não tem jeito. Mesmo se nossa filha já está casada há 16 anos, aquele quarto vai ser sempre dela – o marido a olhou com carinho.

— Seja de quem for aquele quarto, o fato é que ontem você conferiu dezenas de vezes se tudo estava em ordem. Não vai se desorganizar sozinho. Se não deixou a porta aberta para Pudim, Cookie e Mousse entrarem lá, tudo está do mesmo jeito – Ron lembrou dos três gatinhos.

Nem é preciso dizer que os nomes haviam sido escolhidos por ele, que amava sobremesas. A família Granger-Weasley jamais seria completa sem gatos. O primeiro foi Bichento que, ainda antes do casamento, conquistou Ron e morou com eles até o segundo filho, Hugo, ir para Hogwarts. Ao que parece, o velho felino só esperava por isso.

Foi na sexta-feira, um mês depois do menino entrar na escola. Bichento miou a noite toda no quarto de Hugo, recebendo afagos intercalados de pedidos suplicantes de silêncio do casal. Ao amanhecer, não estava mais lá. A janela se encontrava aberta, o que levou Ron a imaginar que tinha escapado para os arredores. Ele procurou pelo gato o fim de semana inteiro. Segunda-feira, pela manhã, Hermione precisou dizer o que já sabia.

“Bichento não vai voltar. Completou o tempo dele. Chegou o momento de ultrapassar o véu e ir para a outra dimensão, onde estão os gatos de almas boas”, mesmo se não acreditava em profecias, ela sabia adivinhar acontecimentos. Fazia questão de dizer que isso era intuição.

Os dois choraram abraçados. Ron, que era só coração, conseguiu derramar ainda mais lágrimas que ela. Apesar de sofrer muito com a partida do grande companheiro de jornada, presente do seu aniversário de 14 anos, Hermione era racional a ponto de saber que havia sido o melhor para ele. “Bichento já tinha pelo menos 30 anos. Viveu muito para um gato. Estava cansado”, ponderou.

— Ah, não, Ron! Se aqueles três pestinhas tiverem entrado no quarto de Rose já bagunçaram tudo. Da última vez, derrubaram o porta-retrato com a foto dos meus pais. Precisei usar a varinha com rapidez para evitar que quebrasse – ela girou sobre os calcanhares para subir a escada.

— Deixa que vou lá, Hermione. Você tinha tanta paciência com Bichento, também foi uma ótima mãe de felino para Morgan e Greta. Mas se estressa por nada com os três – Ron levantou da poltrona e começou a subir os degraus, ouvindo a mulher, que elevou a voz, apresentar seu argumento.

— Bichento, Morgan e Greta caçavam e corriam fora de casa e não dentro dela. Aliás, esses três só podem ser SEUS gatos. Deixam tudo fora do lugar e vivem quebrando objetos. Tenho que fazer sempre o feitiço reparo para consertar o que estragam – Hermione, definitivamente, não tinha paciência com os três filhotes.

— Tudo em ordem, Mione. A porta estava fechada e o quarto permanece impecável. Os três anjinhos dormem em cima da nossa cama – ele sorriu.

A esposa havia sentado no sofá e Ron tratou logo de ocupar o lugar ao lado dela. Pegou o álbum de fotografias que tinha deixado em cima da mesa de centro.

— Você não cansa de ver essas fotos antigas de quando estudávamos em Hogwarts? — ela sorriu.

— Não. Cada vez que revejo uma fotografia, descubro um novo detalhe. Essa aqui, por exemplo.... Reparou que na maioria das fotos estamos muito próximos? Geralmente, Harry ficava num dos cantos e a gente ao lado um do outro. Mas nessa ele está no meio e nós dois, cada um de um lado, bem emburrados. Foi logo depois do Baile de Inverno – Hermione olhava atentamente da imagem para o marido.

Ron se enganara. Hermione não estava chateada e, sim, triste. Bastava ver o movimento da foto. Harry, sempre sem paciência para posar, erguia a cabeça num sorriso forçado. Ron tentava sorrir, mas parecia zangado demais para conseguir. Ela sorria, mas havia tanta tristeza naquele sorriso! Seu coração se encontrava desolado. O baile até estava divertido. Mas o ruivo pelo qual já era apaixonada, ao invés de simplesmente a convidar para uma dança, depois de olhá-la com assombramento, a tratara com raiva e desprezo.

— Tenho uma outra interpretação para essa foto. Mas melhor deixar para depois. Ela já está chegando! – Hermione se levantou.

— Como você sabe? – era aquele dom que a esposa chamava de intuição.

— Ouvi um barulho na varanda – respondeu um pouco antes da campainha soar.

Foi a vez de Ron fechar o álbum e se levantar também. “Ela chegou”, abriu um sorriso iluminado e recebeu um sorriso de volta da esposa. Os dois se dirigiram juntos para a porta.

Lá estava ela. Mais linda do que da última vez que a viram. Os sedosos cabelos ondulados e louros escuros com mechas douradas haviam crescido até a cintura. Com a pele clara, algumas sardas espalhadas entre as maçãs do rosto e o nariz, era magra, alta, com expressivos olhos cor de mel. A garota, que trazia um largo sorriso no rosto, foi abraçada ao mesmo tempo por Ron e Hermione.

Claire Granger-Weasley Malfoy sentia-se imensamente feliz na casa dos avós maternos.

Notas finais
Todo ficwriter espera ansiosamente por comentários (hehehe)! Eu não sou diferente. Escritores profissionais lucram com suas histórias. Para os amadores, como eu, bastam as palavras dos leitores ❤️❤️❤️