Os últimos meses passaram rápido demais.

Às vezes eu acordava achando que ainda estava presa naquele dia da descoberta, e em outras… parecia que já fazia anos que Jacob estava na minha vida.

Ele aparecia nos exames.

Me ligava pra saber se eu tinha comido.

Brigava comigo quando eu esquecia a vitamina.

E toda vez que ele estava por perto… meu coração entrava num caos gostoso e perigoso.

Eu não sabia mais se era só por causa do bebê.

Ou por causa dele.

Naquela manhã eu estava na faculdade com Anna e Rafaela, tentando manter a cabeça no seminário que precisávamos entregar. Caminhávamos pelo corredor quando alguém entrou no meu campo de visão.

Riley.

Parou na minha frente como se já estivesse ali me esperando.

— Oi, Nessie — ele disse, um sorriso pequeno no rosto. — Sua barriga já tá aparecendo.

Instintivamente, coloquei a mão sobre o ventre.

— É… um pouquinho.

Ele deu um passo mais próximo.

— Você tá linda — murmurou.

Aquilo mexeu comigo, mas não da forma que mexia antes.

Agora parecia… distante.

— Obrigada, Riley. — tentei manter a cordialidade. — Como estão as coisas no time?

O rosto dele iluminou.

— É outra vida jogar no profissional. Ritmo mais forte, treino dobrado… mas estou conseguindo acompanhar.

Eu sorri de verdade dessa vez.

— Parabéns. Você merece essa chance.

Eu comecei a me afastar, mas antes que eu conseguisse ele segurou meu braço — não com força, mas o suficiente pra me obrigar a ficar.

— Eu sinto sua falta — disse, a voz baixa, quase triste.

Meu peito apertou… não de saudade, mas de lembrança.

Da forma como ele me deixou.

Da forma como ele pediu para eu “me livrar do problema”.

Soltei meu braço devagar, sem dureza, mas firme.

— Cuida da sua carreira, Riley. De verdade. Vai ser bom pra você.

E virei as costas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

Anna e Rafa já estavam me esperando no final do corredor, com caras de quem tinha assistido tudo.

Saímos juntas para o estacionamento e, assim que chegamos perto do carro, Anna me cutucou.

— Você tá bem?

— Tô sim — respondi, mesmo sabendo que ela não acreditava totalmente.

Rafaela cruzou os braços, encarando-me de lado.

— E sobre o trabalho? Vamos fazer juntas ou você vai fugir de mim de novo?

Sorri, meio culpada.

— Desculpa… mas hoje não vou conseguir. O Jacob está na cidade e me chamou pra sair.

Anna arregalou os olhos, mal disfarçando o sorriso malicioso.

— Jake, é? — ela provocou.

Rafaela riu. — Sinceramente… você devia aceitar logo que estão praticamente namorando. Ele é lindo, é fofo e já é pai do seu bebê. Parece destino, prima.

Eu senti o rosto quente.

Ri pra disfarçar.

E afastei o cabelo atrás da orelha, tentando agir normal.

— Ele só quer passar um tempo comigo. Nada demais.

Anna bufou, divertida.

— Aham. E eu só venho pra faculdade pra estudar.

Rafaela abriu a porta do carro e me encarou com carinho.

— Ness… a gente só quer te ver feliz. Só isso.

E, por um segundo, enquanto colocava a mão sobre minha barriga ainda pequena…

eu me perguntei se, talvez, minhas primas estivessem enxergando algo que eu ainda não tinha coragem de admitir.


Eu estava no restaurante com Anna e Rafaela, tentando aproveitar um almoço tranquilo antes da aula da tarde. Escolhemos o Purple Café & Wine Bar, um dos nossos favoritos em Seattle. O ambiente tinha aquele cheiro aconchegante de massa quente, manteiga e temperos. As luzes eram suaves, e as janelas enormes deixavam a luz da cidade entrar num tom dourado.

Eu estava cortando minha lasanha quando Anna comentou:

— As provas finais vão acabar comigo. Se eu passar em anatomia, vou até a igreja acender uma vela.

Rafa riu. — Eu acendo três. Uma por mim, uma por você e outra pela Nessie que agora estuda com enjoo matinal.

Eu fiz careta. — Não precisava lembrar, tá? Hoje mesmo quase desisti de vir.

Anna me olhou por cima do copo de suco.

— E você? Vai conseguir terminar o semestre?

Eu hesitei.

Ficar grávida no meio do segundo ano não estava nos meus planos.

— Eu não sei — respondi, mexendo a comida sem realmente comer. — Talvez eu tranque até o bebê crescer um pouco. Só um semestre… ou dois.

As duas ficaram em silêncio por um momento.

— Você vai decidir o que for melhor — Rafaela disse, tocando meu braço. — E vamos te apoiar em tudo.

Eu sorri, emocionada.

Mas, antes que eu pudesse responder, ouvi um salto alto parar ao lado da nossa mesa.

Uma mulher — alta, magra, linda, com um blazer bege impecável — se aproximou com um sorriso frio no rosto. O tipo de sorriso que não alcança os olhos.

— Renesmee Cullen? — ela perguntou, olhando direto pra mim.

Eu franzi a testa.

— Sim…?

Ela estendeu a mão com elegância ensaiada.

— Sou Heidi Black.

Pausa dramática.

— Esposa do Jacob.

Meu coração desceu até o chão.

A taça de suco quase escorregou da minha mão.

Anna e Rafaela se entreolharam como dois gatos arqueando o lombo ao mesmo tempo.

Eu engoli seco.

— Oi… — consegui dizer, com a voz baixa. — Eu… não estou entendendo o que esta tentando dizer.

Ela sorriu de novo. Um sorriso que parecia lâmina.

— Ah, querida. Não se preocupe eu posso explicar.

Meu estômago embrulhou.

As mãos dela estavam cruzadas à frente do corpo. Parecia tranquila.

Mas eu sentia o veneno só pela forma como ela me observava — como se eu tivesse invadido a vida dela. Como se fosse um erro que ela tivesse vindo corrigir.

— Será que podemos conversar? — ela disse, num tom que não era bem um convite… era uma ordem.

Minhas primas se endireitaram na cadeira.

— Ela não está sozinha — Anna avisou, encarando Heidi como quem encara um predador.

Heidi nem piscou.

— Eu percebi.

Depois voltou o olhar pra mim.

— Mas o assunto é… exclusivamente nosso.

Meu coração batia tão forte que eu quase podia ver meu vestido tremer.

E tudo o que eu conseguia pensar era:

Por que ela está aqui?

O que ela quer comigo?

Esposa dele?

Eu respirei fundo e me preparei.

Porque pelo jeito daquela mulher…

Nada de bom vinha dali.


Eu não queria.

Mas parte de mim sentia que, se eu não ouvisse, aquilo só viraria uma bomba maior depois.

— Tudo bem — respondi, levantando. — Cinco minutos.

Ela sorriu satisfeita demais e caminhou para uma mesa vazia no canto do restaurante.

Eu sentei de frente para ela, cruzando as mãos para não demonstrar tremor.

Sem perder tempo, Heidi abriu a bolsa e tirou algumas fotos impressas.

As jogou na mesa como se fosse um interrogatório.

Eram fotos minhas com Jacob.

No estacionamento da faculdade.

Entrando no carro dele.

No jardim da festa do meu avô.

E até uma foto — tirada de longe — de quando ele me abraçou após eu passar mal.

Meu coração congelou.

— Agora tudo faz sentido — Heidi disse, arrastando uma das fotos com a ponta do dedo. — Não foi acidente, né?

— O quê? — eu arregalei os olhos, confusa.

— Você armou tudo — ela continuou, com a voz baixa e venenosa. — A troca da fertilização. A aproximação com meu marido. Jacob era o alvo perfeito. Um pai milionário para garantir conforto pro seu bebê.

Meu queixo caiu.

Um misto de choque e indignação subiu pelo meu peito.

— Você… você está louca — consegui dizer, finalmente. — Isso é absurdo.

— Ah, por favor — ela deu um sorriso amargo. — Jacob só está se aproximando porque quer a criança. Ele não quer você.

Ela inclinou a cabeça.

— Aliás… ele passou a noite comigo. Então não se iluda.

Meu coração bateu forte e doeu.

Do jeito que só a mentira mais cruel consegue doer.

— Você não tem nenhum direito sobre esse bebê — falei, controlando a tremedeira na voz. — E não faz ideia do que está dizendo.

— Tenho todo direito — Heidi rebateu. — E vou lutar na justiça.

Ela juntou as fotos de volta.

— Você não tem chance, querida. Jacob só quer seu filho. E quando conseguir… você vai ver quem ele realmente é.

Eu senti a náusea subir.

Minha pele ardeu.

A dor se espalhou como se alguém tivesse apertado meu peito por dentro.

Heidi sorriu, satisfeita.

— Até breve, Renesmee.

Ela levantou e saiu como se tivesse acabado de vencer alguma disputa que só existia na cabeça dela.

E eu fiquei ali…

Sozinha.

Tonta.

Tentando entender como uma pessoa pode ser tão cruel…

E por que uma parte de mim — a parte machucada, frágil — estava com medo de que tudo aquilo fosse verdade.