O pai do meu bebê
1 Prólogo
Os corredores do hospital sempre me pareceram frios, mas naquela manhã o frio vinha mais de dentro do que de fora. Eu equilibrava um bolo de chocolate com cobertura brilhante nas mãos, tentando não deixar as velas caírem. Ao meu lado, minha mãe, Isabella, andava animada demais para quem estava prestes a invadir o consultório do próprio marido. Antony, meu irmão mais velho, carregava uma sacola com refrigerante e copos, sorrindo como se estivesse prestes a aprontar.
— Vai dar certo, mãe — cochichei, meio nervosa. — O papai vai adorar.
— Ele não tem escolha, querida. Hoje ele vai parar de trabalhar — respondeu, rindo.
— Cinquenta anos não se fazem todo dia — Antony completou, cheio de si.
Parados diante da porta do consultório do meu pai, trocamos olhares cúmplices. Eu abri devagar e, assim que a porta se abriu, dissemos em coro:
— Surpresa!
O rosto do meu pai, sério como sempre, se desarmou no mesmo instante. Ele fechou a pasta que lia e riu, surpreso.
— Mas o que é isso? — perguntou, tirando os óculos. — Vocês conspiraram contra mim?
— Conspiramos, sim — minha mãe respondeu, puxando-o pela mão. — Ninguém trabalha no próprio aniversário.
Coloquei o bolo sobre a mesa e Antony acendeu as velas. Cantamos parabéns, todos juntos, e por alguns segundos o consultório cheirava a doçura, a riso e a família. Meu pai soprou as velas, os olhos brilhando, e eu senti um calor bom no peito.
Mas esse calor virou náusea. Primeiro um aperto no estômago, depois um enjoo tão forte que minhas pernas fraquejaram.
— Nessie? — ouvi a voz preocupada do meu pai.
— Ei, tá tudo bem? — Antony me segurou pelo braço.
Tentei dizer que sim, mas a visão ficou turva. O bolo, as velas, tudo sumiu, e só ouvi o som do meu corpo caindo e o grito do meu pai chamando meu nome.
Quando acordei, estava em um quarto branco demais. As luzes me incomodavam, o coração batia acelerado e senti a mão da minha mãe apertando a minha.
— Filha… você tem me preocupado tanto ultimamente — disse ela, com os olhos marejados. — Esses enjoos, esse cansaço… Você tem algo a me contar?
Fiquei parada, sem saber o que responder. Algo a contar? Eu não tinha segredos. Pelo menos era o que eu acreditava.
— Mãe… eu não entendo. Do que você está falando? — perguntei, confusa, olhando para o rosto aflito dela
Minha mãe não soltava minha mão. Ela a apertava como se quisesse arrancar uma verdade de mim só com o toque. Sua voz saiu baixa, doce, mas carregada de expectativa.
— Nessie, você sabe que pode me contar qualquer coisa, não é? — ela disse, olhando bem dentro dos meus olhos.
— Contar o quê, mãe? — perguntei, confusa. — Eu não estou escondendo nada.
O silêncio dela me deixou inquieta. Por um instante pensei que talvez estivesse mesmo doente, que fosse algo grave. Senti o peito apertar.
— Então eu… eu estou doente? — arrisquei, a voz falhando.
Ela suspirou, soltando minha mão e andando de um lado para o outro no quarto. Seus passos ecoavam impacientes no chão liso.
— Você tem passado mal com frequência — disse, virando-se de repente. — Enjoos, cansaço, e agora esse desmaio. Alguma coisa está acontecendo.
Levei a mão ao rosto, assustada. O medo me percorreu inteira.
— Então eu realmente posso estar doente? — insisti, a garganta seca.
Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu. Antony entrou vestindo o jaleco branco que ainda parecia novo em seus ombros. Mas não era o jaleco que me assustava. Era a expressão dele. Séria, tensa. Ele não parecia trazer boas notícias.
— Tenho os resultados dos exames — disse, segurando uma pasta contra o peito.
Minha mãe congelou no lugar. Eu me endireitei na cama, tentando decifrar o que ele escondia.
— Antony… eu estou doente? — perguntei, sentindo o coração disparar.
Ele me olhou nos olhos, respirou fundo e disse com firmeza:
— Não, Nessie. Você não está doente. — Pausou, e então completou. — Você está grávida.
O mundo pareceu girar ao meu redor. Minha mãe levou a mão à boca, como se quisesse conter um grito. Eu fiquei imóvel, a palavra ecoando na minha cabeça como uma sentença impossível.
Grávida.
Fale com o autor