As horas seguintes pareceram durar uma eternidade. Depois do meu depoimento, a audiência entrou em sua fase final. Os argumentos já haviam sido apresentados, as testemunhas ouvidas e as tentativas da acusação de transformar aquela situação em algo maior do que realmente era começavam a ruir diante dos fatos.

Pouco antes das alegações finais, Rebecca retornou com Renesmee e Bella. Assim que a vi entrar novamente na sala, senti um alívio que não soube explicar. Talvez fosse apenas a necessidade de tê-la perto depois de tantas horas ouvindo pessoas discutirem o futuro do nosso filho como se ele fosse um processo qualquer.

Puxei uma cadeira para ela ao meu lado.

Nessie sentou-se devagar e imediatamente procurei sua mão.

Ela sorriu de leve.

Apesar do cansaço visível, seus olhos pareciam mais tranquilos do que antes.

Passei o braço ao redor de seus ombros e a trouxe para perto. Ela apoiou a cabeça em meu ombro por alguns instantes enquanto aguardávamos o reinício da sessão.

Quando o juiz retornou ao plenário, Alec foi o primeiro a se levantar.

Eu já tinha visto Alec vencer negociações milionárias sem alterar a voz uma única vez. Mas naquele dia ele parecia particularmente determinado.

— Meritíssimo, durante toda esta audiência ouvimos inúmeras teorias, acusações e tentativas de atribuir responsabilidades à senhora Renesmee Black por uma situação da qual ela própria foi vítima.

Ele caminhou lentamente diante do tribunal.

— Entretanto, os fatos permanecem inalterados.

Alec voltou-se para o juiz.

— A criança em questão possui vínculo biológico direto com a senhora Renesmee Black. Ela é a mãe da criança.

Sua voz permaneceu firme.

— O pai da criança está presente nesta sala, legalmente casado com a senhora Black, participando ativamente da gestação e plenamente comprometido com a criação do filho.

Olhei para Nessie.

Ela apertou minha mão.

— Ambos possuem estabilidade emocional, estabilidade financeira e uma rede familiar sólida para receber esta criança.

Alec fez uma breve pausa.

— Não existe qualquer fundamento jurídico que permita retirar este bebê dos pais.

O silêncio que tomou conta da sala dizia muito.

Porque todos sabiam que ele estava certo.

Até mesmo o advogado de Heidi parecia saber.

Quando chegou sua vez de falar, já não havia a mesma confiança de antes.

Ele permaneceu alguns segundos organizando os documentos sobre a mesa antes de finalmente se levantar.

— Considerando os elementos apresentados...

Aquilo não soava como alguém que estava vencendo.

— A autora reconhece que a questão relacionada à guarda da criança talvez não seja o principal objeto passível de reparação nesta ação.

Observei Heidi pela primeira vez em vários minutos. Ela estava sentada ao lado do advogado.

Derrotada.

Não havia raiva em sua expressão. Nem arrogância.

Apenas cansaço.

Como alguém que finalmente percebeu que estava lutando uma batalha impossível.

O advogado continuou.

— Diante disso, requeremos que esta corte considere uma compensação financeira compatível com os danos sofridos pela senhora Heidi Vance Black

Ou seja...

Eles tinham desistido.

Puxei Renesmee para meus braços e depositei um beijo em seus cabelos.

Pela primeira vez naquele dia, senti que realmente iríamos sair dali com nosso filho protegido.

Nessie fechou os olhos por um instante.

E eu soube que ela também havia percebido.

O juiz passou vários minutos analisando os documentos e fazendo anotações.

Quando finalmente começou a falar, a sala inteira silenciou.

— Após analisar os depoimentos, provas e laudos apresentados, esta corte conclui que não existe qualquer fundamento legal para afastar a criança de seus pais biológicos.

Meu peito pareceu ficar mais leve.

Ao meu lado, senti Nessie prender a respiração.

— A senhora Renesmee Black é a mãe biológica da criança. O senhor Jacob Black é o pai biológico da criança. Ambos demonstram capacidade plena para exercer a guarda e a criação do menor.

Alec permaneceu completamente imóvel.

Mas eu conhecia aquele olhar. Ele sabia que havia vencido.

— Portanto, ficam rejeitados todos os pedidos relacionados à guarda da criança.

O advogado de Heidi baixou a cabeça. Ui8A derrota estava oficialmente registrada.

O juiz então continuou.

— Contudo, esta corte reconhece que houve falha grave durante os procedimentos realizados pelo Hospital Cullen Medical.

Carlisle assentiu discretamente.

Era uma conclusão esperada.

— Sendo assim, entende-se cabível a discussão de indenização pelos danos causados à autora.

Foi então que Alec voltou a se levantar.

— Meritíssimo, antes do encerramento, a defesa possui um pedido adicional.

O juiz assentiu.

— Prossiga.

Alec organizou alguns documentos.

— Durante meses, a senhora Renesmee Black foi exposta publicamente através de um processo sem fundamento jurídico plausível quanto à guarda da criança.

O advogado de Heidi imediatamente se levantou.

— Objeção.

— Negada — respondeu o juiz antes mesmo que ele terminasse.

Alec prosseguiu.

— Minha cliente sofreu ataques à sua reputação, exposição indevida e intenso desgaste emocional durante uma gravidez considerada de risco. Também solicito que a senhora Heidi Vlance não utilize mais o sobrenome Black tendo em vista que meu cliente e a senhora Vlance são divorciados.

O magistrado permaneceu alguns segundos em silêncio.

Então assentiu.

— O pedido será acolhido para análise de compensação proporcional.

O advogado de Heidi fechou os olhos por um instante.

E naquele momento percebi que ele entendia exatamente o que havia acontecido. Sua cliente não apenas perdera a ação.

Ela acabava de se tornar alvo de uma possível condenação financeira também.

Foi então que ele se voltou para Alec.

— Talvez seja do interesse de todas as partes evitar novos litígios.

Alec arqueou uma sobrancelha.

— Está propondo um acordo?

— Sim.

O advogado parecia disposto a negociar.

E pela expressão de Heidi...ela também.



Assim que saímos da sala de audiências, fomos imediatamente cercados pelo movimento típico de um tribunal que acabara de encerrar um caso de grande repercussão. Advogados caminhavam apressados pelos corredores, jornalistas aguardavam próximos às saídas e alguns fotógrafos já tentavam localizar qualquer pessoa envolvida no processo.

Segurei a mão de Renesmee com firmeza.

Depois de tudo o que ela havia passado durante aqueles meses, a última coisa que eu queria era vê-la cercada por câmeras e perguntas invasivas.

— Por aqui — disse Alec, indicando um corredor lateral.

Seguimos por uma rota menos movimentada do prédio. Emmett caminhava logo atrás de nós como uma espécie de segurança improvisado, enquanto Bella, Edward, Carlisle e Rebecca nos acompanhavam.

Conforme nos afastávamos do tumulto, percebi uma mudança em Renesmee.

Pela primeira vez em muito tempo, ela parecia realmente tranquila.

Os ombros estavam relaxados.

O sorriso havia voltado ao seu rosto.

E seus dedos já não apertavam os meus com nervosismo.

Quando paramos próximos a uma das saídas reservadas do fórum, Bella foi a primeira a falar.

— Eu estava pensando em uma coisa.

Renesmee voltou-se para a mãe.

— O quê?

Bella trocou um olhar rápido com Edward.

— Talvez vocês dois devessem passar um tempo longe daqui.

Edward assentiu.

— Não é uma má ideia.

Ele colocou as mãos nos bolsos do casaco.

— Todo esse processo gerou muita exposição. Talvez seja bom se afastarem um pouco de Washington até a situação esfriar.

Renesmee apoiou uma das mãos sobre a barriga.

— Eu não tinha pensado nisso.

— Eu pensei — respondi.

Ela imediatamente voltou o olhar para mim.

— Pensou?

Sorri.

— Na verdade, vocês dois acabaram de estragar uma surpresa.

Bella arqueou uma sobrancelha.

— Surpresa?

Agora toda a atenção estava voltada para mim.

Inclusive a de Renesmee. Principalmente a de Renesmee.

Aquele olhar curioso que ela fazia sempre que tentava descobrir alguma coisa me arrancou um sorriso.

— Jacob Black...

Ela cruzou os braços.

— O que você fez?

— Nada demais.

— Jacob.

— Talvez eu tenha comprado algumas passagens.

Os olhos dela se estreitaram.

— Algumas?

— Duas.

— Para onde?

Demorei alguns segundos apenas para vê-la ficar ainda mais ansiosa.

— França.

O silêncio durou apenas um instante e então os olhos dela se arregalaram.

— França?

Assenti.

— França.

— Você está brincando.

Balancei a cabeça.

— Não.

A expressão dela foi mudando aos poucos, da surpresa para a incredulidade e finalmente para a felicidade.

— Jacob...

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela me abraçou. Os braços envolveram meu pescoço enquanto eu a segurava pela cintura com cuidado.

Acabei rindo.

— Acho que isso significa que gostou da ideia.

— Você comprou passagens para a França, eu amei.

Ela afastou o rosto apenas o suficiente para me encarar. — Quando?

— Há algumas semanas.

— E não me contou?

— Era uma surpresa.

Renesmee balançou a cabeça.

— Eu não acredito.

— Acredite.

Aproximei-me e beijei sua testa.

— Nós vamos no final de semana.

Os olhos dela voltaram a brilhar.

— Sério?

— Muito sério.

Passei uma das mãos por seu rosto.

— Tivemos um casamento cercado de problemas.

Desci o olhar para a barriga dela. — Tivemos um processo absurdo. Voltei a encará-la. — E tivemos pouquíssimo tempo para simplesmente sermos nós.

O sorriso dela suavizou.

— Então achei que estava na hora da nossa lua de mel.

Renesmee levou uma das mãos ao meu rosto, durante alguns segundos ela apenas me observou, como se estivesse tentando gravar aquele momento na memória.

Então me beijou.

Foi um beijo suave, demorado, carregado de carinho.

Quando nos afastamos, encostei minha testa na dela. — Paris? — ela perguntou baixinho.

— Paris.

— A Torre Eiffel, cafés franceses, passeios pelo Sena.

— Sim.

Ela sorriu.

— Você é impossível.

— Eu prefiro romântico.

Atrás de nós, ouvi Emmett soltar uma gargalhada.

— Ele está se exibindo porque ganhou o processo.

Bella riu.

Edward apenas balançou a cabeça.


Ainda estávamos próximos à saída reservada do fórum quando Renesmee continuava me fazendo perguntas sobre a viagem. Ela queria saber onde ficaríamos hospedados, quantos dias passaríamos na França e, principalmente, como eu tinha conseguido esconder aquilo dela por tanto tempo. A expressão animada em seu rosto fazia todo o estresse do julgamento parecer distante.

Foi nesse momento que uma voz interrompeu nossa conversa.

— Senhor Black?

Todos se voltaram na direção do homem que se aproximava.

Era o advogado de Heidi.

A animação desapareceu do rosto de Emmett imediatamente. Alec também ficou atento.

— Posso ajudá-lo? — perguntei.

O advogado manteve uma postura respeitosa.

— Gostaria de conversar com o senhor por alguns minutos, se possível.

Emmett cruzou os braços.

— Qualquer conversa pode acontecer na nossa presença.

— Concordo — acrescentou Alec. — Meu cliente não tem obrigação de conversar sozinho.

O homem assentiu como se esperasse aquela reação.

— Entendo a preocupação de vocês, mas não se trata de nenhuma questão jurídica.

Ele respirou fundo antes de continuar.

— Minha cliente apenas deseja encerrar esse ciclo de uma forma adequada.

Observei seu semblante por alguns segundos.

Não parecia haver hostilidade.

Nem armadilha.

Apenas cansaço.

O mesmo cansaço que eu tinha visto no rosto de Heidi dentro do tribunal.

Voltei-me para Alec.

— Está tudo bem.

— Jacob...

— Eu vou ficar bem.

Emmett claramente não gostou da ideia.

— Se ele começar com alguma conversa estranha...

— Eu sobrevivo.

Aquilo arrancou uma pequena risada de Bella.

Antes de sair, procurei Renesmee com o olhar.

Ela me observava em silêncio. Aproximei-me dela e toquei seu rosto com carinho.

— Me espera no carro?

— Claro.

— Não vou demorar.

Ela assentiu.

Então ficou na ponta dos pés e depositou um beijo suave em meus lábios.

— Não arrume problemas.

Sorri.

— Hoje não.

Edward passou um braço pelos ombros da filha.

— Vamos deixar os dois resolverem isso.

Observei enquanto ela seguia pelo corredor ao lado dos pais. Por um instante, seus olhos voltaram para mim e ela sorriu. Apenas depois que desapareceu na curva do corredor foi que voltei minha atenção ao advogado.

— Certo. Onde ela está?

O homem indicou uma porta no fim do corredor.

— Nesta sala.

Caminhamos em silêncio.

O movimento do fórum diminuía conforme avançávamos para uma área mais reservada do prédio. Os sons das conversas e dos fotógrafos ficaram para trás até restarem apenas nossos passos ecoando pelo corredor.

Quando chegamos à porta, o advogado parou.

— Ela está sozinha.

Assenti.

Ele abriu a porta e deu um passo para o lado.

Respirei fundo antes de entrar.

Não sabia exatamente o que Heidi tinha para me dizer.

Mas pela expressão derrotada que vi durante a audiência, tive a sensação de que aquela seria uma conversa muito diferente de todas as que tivemos nos últimos meses.

Entrei na sala esperando encontrar a mesma Heidi que havia enfrentado durante todo o processo, mas a mulher sentada diante da janela parecia diferente. Ela mantinha os olhos voltados para a cidade e sequer se levantou imediatamente quando percebeu minha presença. Havia algo em sua expressão que eu não via há muito tempo. Cansaço. Não o cansaço físico de quem teve um dia difícil, mas o de alguém que finalmente percebeu que está lutando uma batalha que não pode vencer.

Sentei-me na cadeira à sua frente e permaneci em silêncio por alguns instantes. Heidi foi a primeira a falar.

— Obrigada por ter vindo.

— Seu advogado disse que você queria conversar.

Ela assentiu lentamente.

— Quero encerrar isso da forma certa. Acho que já causamos problemas demais um ao outro.

Observei seu rosto por alguns segundos. Pela primeira vez em muito tempo ela não parecia procurar uma forma de me atingir.

— O que você quer dizer?

Heidi soltou um pequeno suspiro.

— Que eu não vou aceitar indenização nenhuma.

Franzi a testa.

— Tem certeza?

— Tenho. Passei meses convencida de que precisava vencer alguma coisa. No começo eu dizia para mim mesma que era pelo que aconteceu no hospital, mas a verdade é que não era só isso. Eu estava magoada, frustrada e procurando alguém para culpar pela vida que não saiu como imaginei.

Ela apoiou os braços sobre a mesa e desviou o olhar por um momento antes de continuar.

— Durante muito tempo eu culpei você.

A sinceridade daquela afirmação me surpreendeu mais do que qualquer acusação que ela tivesse feito durante o processo.

— E agora?

— Agora eu acho que estava apenas tentando me agarrar a algo que já tinha acabado.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era apenas o silêncio de duas pessoas encarando uma verdade que demoraram anos para aceitar.

— Vou embora para a Itália — disse ela depois de alguns segundos. — Tenho família lá. Pretendo passar um tempo longe daqui, longe dos tribunais, longe dos advogados e principalmente longe dessa história toda.

— Parece uma boa decisão.

Heidi sorriu de leve.

— Eu também acho. Talvez seja a primeira boa decisão que tomo em muito tempo.

Acabei sorrindo também.

Apesar de tudo que havia acontecido entre nós, eu não conseguia sentir raiva naquele momento. Apenas a sensação de que finalmente estávamos chegando ao fim de um capítulo que já deveria ter sido encerrado há muito tempo.

— Então é isso? — perguntei.

— É isso.

Ela me encarou por alguns segundos antes de continuar.

— Você venceu, Jacob.

Balancei a cabeça.

— Não acho que exista vencedor aqui.

— Talvez não. Mas você conseguiu seguir em frente e construir uma família. Eu fiquei parada olhando para o passado.

Suas palavras me fizeram pensar em Renesmee, que provavelmente me esperava no carro com Bella e Edward naquele exato momento.

— Eu espero que você também consiga seguir em frente.

Heidi sorriu de forma sincera.

— Acho que vou conseguir.

Levantei-me da cadeira e ela fez o mesmo.

— Nosso ciclo terminou faz tempo, Heidi. Nós só demoramos para admitir isso.

Ela assentiu.

— Eu sei.

Caminhei até a porta, mas antes de sair ouvi sua voz novamente.

— Cuide dela.

Voltei-me para encará-la.

— Da Renesmee.

Sorri sem conseguir evitar.

— Vou cuidar dela pelo resto da minha vida.

Um sorriso apareceu em seus lábios.

— Eu imaginei que diria isso.

Assenti.

— E você cuide de si mesma.

Ela respirou fundo e, pela primeira vez desde que entrei naquela sala, pareceu realmente em paz.

— Vou tentar.

— Não tente. Faça.

Heidi soltou uma pequena risada.

— Ainda dando ordens.

— Alguém precisa.

Ela balançou a cabeça divertida.

— Adeus, Jacob.

— Adeus, Heidi.

Saí da sala sentindo um peso desaparecer dos meus ombros. Não porque eu tivesse vencido um processo, mas porque finalmente podia deixar aquela parte da minha vida para trás. Do outro lado daquele corredor estavam Renesmee e nosso filho esperando por mim, e naquele momento tive certeza de que era exatamente para lá que eu queria voltar.