O pai do meu bebê
47 Jacob
Entrei no apartamento como quem pisa num território que já não é seu.
Silêncio.
Só o abajur aceso na sala, projetando sombras longas nas paredes vazias.
Soltei a mochila no chão e me sentei no sofá, respirando fundo.
Eu sabia que ela viria.
Heidi sempre voltava para aquilo que podia controlar.
Minutos depois, a fechadura girou.
A porta abriu devagar… e ela entrou com uma mala na mão.
Parou na hora em que me viu.
Os olhos se arregalaram.
— Jacob? — a voz dela saiu trêmula, entre surpresa e irritação. — O que você está fazendo aqui?
Fiquei em silêncio por um instante.
Depois me levantei, colocando as mãos nos bolsos para não perder a calma.
— Também poderia te perguntar o mesmo — respondi num tom calmo, mas firme. — Você não mora mais aqui. Nem comigo.
Heidi fechou a porta com força, largou a mala no chão e cruzou os braços.
— Vim buscar minhas coisas — ela disse, erguendo o queixo. — E é meu direito. Ainda sou sua esposa.
— Não — cortei, sem levantar a voz. — Não é. O divórcio foi assinado. Você só prolongou o que não existe mais.
Ela riu, uma risada amarga, quase histérica.
— Ah, claro. O perfeito Jacob Black achou que poderia simplesmente se livrar de mim. Mas adivinha? Eu não vou deixar. Você me deve isso, Jacob. Anos da minha vida.
— Heidi… — massageei a nuca, tentando respirar fundo. — Você não está aqui pelos anos que perdeu. Está aqui por causa do bebê. Um bebê que não é seu. Um bebê que não tem nada a ver com a nossa história.
Ela se aproximou, lenta, carregando veneno no olhar.
— Você fala isso com tanta certeza. Mas eu fui lesada, enganada. A troca de fertilização me tirou o direito de ser mãe. Eu vou lutar por essa criança, Jacob. Vou lutar com tudo que tenho.
Meu sangue gelou.
Não de medo.
De indignação.
— Você vai perder — falei firme. — E sabe disso. Mas quer destruir todo mundo no processo. Quer destruir Renesmee. Quer destruir meu filho. Quer me destruir, já que não consegue aceitar que acabou.
Heidi piscou, e por um segundo a máscara dela caiu.
Mas voltou rápido.
— Você está obcecado por essa garota. Obcecado. É por isso que quer tanto esse bebê. Não é porque você é “bom homem” como todo mundo pensa. É porque você quer ela.
Fechei os olhos por um instante.
Sim, eu queria Renesmee.
Mas isso não tinha nada a ver com Heidi.
E ela nunca entenderia.
— Eu estou aqui para deixar uma coisa bem clara — falei, dando um passo à frente. — Se você chegar perto dela de novo… se tentar assustá-la, ameaçá-la ou usar o bebê para me atingir… você vai lidar comigo. E não vai gostar do resultado.
Heidi engoliu seco, mesmo tentando manter a pose.
— Está me ameaçando?
— Estou avisando — respondi. — E esse aviso vale para hoje, para amanhã e para o resto da sua vida.
Ela apertou os lábios, o rosto vermelho de raiva.
— Você vai se arrepender, Jacob. Vai ver que mexeu com a mulher errada.
— Pode tentar o que quiser — respondi sem alterar a voz. — Eu não tenho medo de você, Heidi. O tempo de você mandar na minha vida acabou.
Passei por ela, peguei minha mochila e parei na porta.
— Some da minha vida Heidi— Olhei por cima do ombro. — Esse apartamento é seu. Mas eu não sou mais.
Eu já estava com a mão na maçaneta quando a voz de Heidi me fez parar.
Aquele tom venenoso que eu conhecia bem.
— Jacob… — ela chamou, lenta, como quem saboreia o caos. — Renesmee já sabe quem você é de verdade?
Eu fechei os olhos por meio segundo. Só meio.
Sabia que vinha merda.
— Sabe do seu passado? — ela continuou. — Sabe que você matou sua primeira esposa?
Meu sangue gelou.
Não porque eu tinha medo dela.
Mas porque ela cutucou a única coisa que ainda me tirava o ar.
Heidi deu dois passos, aproximando-se como uma cobra que achou um ponto fraco.
— Eu posso contar pra ela, Jacob.
Posso contar pra todo mundo.
Imagina só… a doce Renesmee Cullen descobrindo que o pai do bebê dela é um assassino.
Eu virei devagar.
Olhei direto nos olhos dela.
E o que eu senti naquele segundo… ninguém tinha o direito de arrancar de mim.
— Heidi… — minha voz saiu baixa, firme. — Se você se aproximar da Renesmee… se tentar encostar um único dedo nela, ou no nosso filho…
Dei mais um passo, até ela perder o sorriso.
— …essa acusação que você tanto gosta de repetir vai virar verdade.
Mas você vai ser a vítima.
Ela empalideceu.
Finalmente.
Ficamos ali, num silêncio pesado.
Eu respirava fundo, tentando controlar tudo o que subia dentro de mim.
Heidi engoliu em seco, mas tentou manter a pose.
— Você está ameaçando a mãe da sua futura criança? — provocou.
— A mãe do meu filho é Renesmee — respondi, sem piscar. — Você não tem lugar nessa história. Não tem lugar na minha vida. E não vai destruir a dela.
Heidi desviou o olhar.
Pela primeira vez, parecia sem resposta.
Eu abri a porta.
— Último aviso, Heidi.
Se ficar no seu canto, vive em paz.
Se mexer com ela, eu mesmo coloco um fim nisso.
Saí sem olhar pra trás.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu senti que não estava lutando só por mim.
Estava lutando por ela.
E pelo nosso filho.
Dirigir de volta para a fazenda nunca pareceu tão pesado.
A estrada estava vazia, só o som do motor e o farol cortando a noite. Mas minha cabeça… essa não ficava quieta.
As palavras de Heidi vinham como um veneno doce.
Ela sabe quem você é de verdade? Sabe do seu passado sombrio? Da primeira mulher que você matou?
Meu peito travou. Uma fisgada quente subiu pela nuca. Era incrível como ela sempre sabia onde atacar. O ponto exato. A ferida que nunca fechou.
Apertei o volante até os dedos ficarem brancos.
— Maldita… — murmurei, com a voz rouca.
Era impressionante… anos depois… ainda doía.
E mesmo assim, bem no fundo, eu sabia: o que Heidi queria não era revelar a verdade. Era destruir Renesmee. Me destruir através dela.
Mas aquilo não mudava o fato de que Mary existiu.
E que eu falhei com ela.
O som da estrada virou um zumbido enquanto minha mente voltava para aquele dia. Aquele maldito dia que eu tentei enterrar… mas que nunca foi embora.
Era final de tarde em La Push. O céu tinha aquele tom alaranjado que Mary adorava. Ela ria enquanto ajustava o capacete, apertando o meu queixo como fazia quando queria me provocar.
— Você dirige bem, cowboy, mas continua sendo teimoso — ela dizia sempre.
Eu ria. Ela ria. Era fácil amar Mary. Ela iluminava tudo.
Subimos na moto. Eu na frente. Ela atrás. Abraço firme na minha cintura.
A marina estava linda aquela noite… eu devia ter ido devagar. Devia ter esperado o asfalto secar. Devia ter…
Mas não esperei.
Quil tinha acabado de falar que estava chovendo na costa, mas eu ignorei. Eu queria impressionar. Queria mostrar pra Mary um trecho novo da estrada. Queria fazê-la sorrir daquele jeito que me desmontava.
Quando a curva chegou… ela estava mais fechada do que eu lembrava.
A roda traseira deslizou no chão molhado.
Mary apertou minha cintura.
Eu ainda consigo ouvir o som.
O grito dela.
O arrastar da moto.
O impacto.
E depois… o silêncio.
O maldito silêncio.
Eu acordei de bruços na terra úmida, com o gosto de sangue na boca. Minha perna ardia. Meus braços tremiam. Mas nada disso importava.
— Mary… — chamei. — Mary, fala comigo…
Ela estava caída alguns metros atrás. O capacete partido. Os olhos semicerrados.
Eu rastejei até ela. Cada movimento uma dor. Cada respiração um pedido.
— Fica comigo… por favor, amor… fica comigo…
Ela tentou sorrir.
TENTOU.
— Jake… não chora…
E foi a última coisa que ela disse.
A última.
Parei o carro no acostamento, respirando como se tivesse corrido uma maratona. Passei as duas mãos no rosto, tentando afastar a imagem dela… mas não dava.
Nunca deu.
— Eu não matei você… — sussurrei, como fazia sempre que a culpa voltava. — Mas eu devia ter te protegido… eu devia ter sido melhor…
Fechei os olhos.
E então a imagem de Renesmee apareceu na minha mente. O cabelo ruivo. A voz suave. A força que ela tenta esconder. A maneira como encosta a testa na minha quando está com medo.
E a ideia de Heidi tocando nela…
Apertando o queixo dela…
Ou sussurrando veneno no ouvido dela…
Meu sangue ferveu.
Liguei o carro de novo.
— Por você, Mary. E por ela. — falei firme, ajeitando as mãos no volante. — Eu não vou falhar de novo.
Acelerei, sentindo o motor vibrar.
A fazenda me esperava.
A luta pela minha família também.
E dessa vez… eu não ia perder.
Assim que entrei em casa senti aquele cheiro familiar de café recém-passado e madeira úmida. Era tarde e eu ainda estava com a cabeça bagunçada pela conversa com Heidi e pelas lembranças que ela cutucou. Mas a voz da minha mãe sempre tinha um jeito de me trazer para o chão.
Sarah apareceu na sala com o robe azul amarrado na cintura, os cabelos soltos nos ombros. Ela colocou a mão no peito quando me viu.
— Ainda bem que chegou. Sabe que fico aflita quando você pega estrada de noite.
Eu dei um sorriso cansado e a puxei para um abraço.
— Eu tô bem, mãe. Só cansado.
Ela se afastou um pouco, me analisando como se pudesse ler minha alma.
— E a Renesmee? Como ela está? Rebecca me ligou dizendo que ela passou mal. Fiquei assustada.
Suspirei fundo. Essa parte eu sabia que minha mãe queria ouvir.
— Ela tá bem. Foi um susto grande, mas tá estável. Só precisa de calma… e descanso.
Sarah assentiu devagar, aliviada.
— Ainda bem. Essa menina já passou por tanta coisa em tão pouco tempo… — Ela me puxou pelo braço. — Agora me diga… que notícia é essa que você disse que tinha?
Eu respirei, ajeitei o chapéu na mão e sentei perto dela. Meu peito chegou a expandir só de pensar naquilo.
— A Renesmee vai vir pra fazenda na semana que vem. Vai ficar aqui comigo. E… — dei um sorriso meio bobo — nós vamos casar.
Minha mãe arregalou os olhos e a boca se abriu num sorriso tão grande que parecia iluminar a sala inteira.
— Meu filho… meu Deus… — Ela me abraçou apertado, como se tivesse esperado anos por aquilo. — Eu sabia. Eu sempre soube. A forma como você fala dessa menina… ah, Jacob…
Eu ri, abraçando ela de volta, sentindo aquela paz boa de casa.
Mas então o barulho seco de uma bandeja batendo no chão cortou o momento ao meio.
Mãe e eu olhamos ao mesmo tempo.
Lucy estava parada na porta, os olhos fixos em mim. A bandeja rolou até parar perto da mesa de centro. O rosto dela estava pálido… e machucado de um jeito que só quem já esperou mais do que devia fica.
Ela demorou alguns segundos para conseguir falar, a voz presa na garganta.
— Me desculpem...
O silêncio ficou pesado. Um daqueles silêncios que diz mais do que qualquer palavra.
Eu senti meu estômago afundar.
E ali, parado entre minha mãe e Lucy, eu percebi que aquele anúncio — que para mim era alegria — tinha sido um golpe direto nela.
E não havia como desfazer. Não havia como aliviar.
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