A lua estava alta sobre a fazenda, iluminando os campos imensos que se estendiam entre Seattle e Port Angeles. Da varanda principal, eu podia ver a fileira de cocheiras e, mais adiante, os cavalos inquietos com o barulho da festa. A casa estava cheia — amigos, parentes e peões se misturavam em meio à música, risadas e cheiro de carne assando na brasa.

Era o aniversário de setenta anos do meu pai, Billy Black. E se tinha uma coisa que ele merecia, era comemoração.

Heidi, minha esposa, estava cercada por Leah e Claire, comentando moda e viagens, embora eu soubesse que seu sorriso era mais de obrigação do que de alegria. Minha irmã Rachel dançava com Paul, o marido que não largava dela um segundo, enquanto meu irmão mais novo, Embry, fazia piada com Seth e Quil perto da mesa de bebidas.

Eu estava perto do meu pai quando minha mãe se aproximou. Ela ajeitou o xale sobre os ombros e suspirou fundo, olhando em volta.

— Rebecca ainda não chegou — disse, num tom que carregava mais mágoa do que preocupação.

Meu pai, sentado na cadeira de balanço, resmungou sem cerimônia:

— Claro que não chegou. Para ela, o trabalho é sempre mais importante do que o próprio pai.

Senti o incômodo crescer. O sorriso dele era amargo, e a ferida aberta entre os dois parecia mais profunda a cada ano.

Coloquei a mão em seu ombro e tentei amenizar.

— Pai, a Rebecca tem responsabilidades. Ela é médica, a vida dela gira em torno dos pacientes.

— E eu sou o quê? — ele retrucou, sem me olhar. — Só o velho Billy que pode esperar.

Minha mãe suspirou outra vez, balançando a cabeça.

— Ela podia, pelo menos, dar uma ligação…

Sorri de canto, tentando não deixar a noite desandar.

— Vamos fazer assim: quando ela chegar, eu mesmo puxo a orelha dela. Mas agora é hora de comemorar, não de brigar.

Billy me encarou por um instante e acabou rindo baixinho, rendido ao meu esforço de acalmar as coisas.

— Você sempre foi o mediador dessa família, Jacob.

Olhei ao redor, vendo todos se divertindo, e por um instante pensei que estava tudo bem. Mal sabia eu que, naquela mesma noite, a vida de todos nós estava prestes a se entrelaçar de um jeito que ninguém poderia imaginar.

Peguei uma garrafa de cerveja na mesa, o vidro gelado suando na minha mão, e fui até Sam, que observava dois dos cavalos no pasto ao longe, como se a festa toda não existisse.

— Ainda acha que o Trovão vai dar mais cria que o Apolo? — perguntei, dando um gole.

Sam sorriu de lado.

— Eu não acho, eu tenho certeza. É só olhar a linhagem. O Trovão é pura potência.

Antes que eu pudesse retrucar, Leah apareceu e passou o braço ao redor do pescoço dele, rindo.

— Vocês dois são impossíveis. Estão numa festa e só sabem falar de cavalo!

Sam riu e deu um beijo rápido no topo da cabeça dela, enquanto eu balançava a cabeça, divertido.

Foi então que notei Lucy, irmã mais nova de Leah, parada perto da pista improvisada onde alguns já dançavam ao som de violão e sanfona. Os olhos dela estavam fixos em mim, com aquele brilho que eu conhecia bem.

Antes que eu pudesse reagir, Leah percebeu também e me deu um puxão de orelha, literalmente.

— Ei, Jacob, não alimenta as ilusões da minha irmã. Você sabe que ela vive sonhando com você.

Ri, meio sem graça.

— Eu não fiz nada, Leah. Só tô bebendo minha cerveja.

Mas Lucy já vinha em minha direção. A saia leve dela balançava ao ritmo da música, e ela parecia determinada.

— Jacob — chamou, sorrindo. — Não vai dançar?

Olhei para a pista, depois para ela. Talvez fosse mais fácil ceder do que inventar desculpas. Suspirei, deixando a garrafa sobre a mesa.

— Tá bem, Lucy. Uma dança.

O sorriso dela se alargou, e antes que eu percebesse, já estávamos no meio da roda, com todos batendo palmas no ritmo da música.

Enquanto meus pés seguiam os passos, uma parte de mim aproveitava a festa, mas outra parte estava distante, presa em pensamentos que eu mesmo ainda não entendia.

A música estava animada, e Lucy parecia flutuar ao meu redor. Os olhos dela brilhavam como se nada mais existisse na festa. Eu mantinha minhas mãos em posição correta, sem ultrapassar limites, mas era impossível ignorar a forma como ela me olhava.

— Jacob… — ela começou, a voz baixa, quase tímida. — A festa esta perfeita não esta?

Olhei para ela, e sorri.

— O velho Billy merece, não são todos que chegam aos 70 anos.

Ela sorriu, mas seus olhos diziam mais do que a boca.

— Tenho certeza que você chegará aos 70 — Os olhos dela brilharam — Jake eu....

Engoli em seco, tentando escolher bem as palavras.

— Lucy… você é uma garota doce, mas eu sou casado. Eu respeito sua irmã, respeito você. Sei o que vai dizer, mas não posso alimentar isso.

Ela mordeu o lábio inferior, como se quisesse dizer mais, mas o tempo acabou. Uma voz cortou o ar como um trovão:

— Casado, mas dançando como se fosse solteiro!

Heidi.

Todos os olhares se voltaram. Minha esposa atravessava a roda de dança com o rosto em chamas, os olhos cheios de fúria. Ela parou diante de nós e ergueu a voz para que todos ouvissem:

— É isso que você faz, Jacob? Na frente de todo mundo? Humilhar sua esposa dançando com uma menininha apaixonada?

Lucy corou, envergonhada. Dei um passo à frente, tentando manter a calma.

— Heidi, não é nada disso. Era só uma dança.

— Só uma dança? — ela riu com sarcasmo. — Você acha que eu sou idiota?

Os cochichos já começavam entre os convidados. Minha paciência se esgotou. Segurei firme no braço dela.

— Chega. Vamos pra casa agora.

Ela resistiu, mas a levei para fora sob os olhares pesados de todos. O caminho até a casa foi silencioso, cortado apenas pelos passos rápidos dela ao meu lado. Quando a porta se fechou atrás de nós, a discussão explodiu.

— Você me envergonhou na frente de todo mundo! — gritei. — Sabe muito bem que não fiz nada além de ser educado.

— Educado? — ela rebateu, os olhos cheios de lágrimas e raiva. — Você não vê? Essa garota é louca por você, Jacob. E eu não vou deixar!

— Heidi… — passei a mão pelo rosto, exausto. — Não podemos continuar assim. Esse casamento já tá desmoronando.

Ela me olhou por um instante, respirando fundo, e então soltou a bomba:

— Eu estou grávida, Jacob.

Fiquei em silêncio, paralisado. O peso daquelas palavras caiu sobre mim como um soco no estômago.

Grávida.

De repente, tudo o que era complicado se tornava ainda mais impossível.