NARRADO POR JACOB


Dez anos tinham passado desde a formatura de Renesmee, embora eu ainda gostasse de lembrá-la de que seu discurso diante de centenas de pessoas revelou detalhes demais sobre a maneira absurda como nosso primeiro filho veio ao mundo. Ela dizia que ninguém ali se importava mais com aquilo, eu dizia que nosso filho certamente se importaria quando fosse velho o bastante para entender e, aos quinze anos, JJ já entendia muito mais do que eu gostaria. Minha vida tinha mudado tanto naquela década que às vezes eu olhava para uma fotografia antiga e custava a reconhecer o homem que acreditava ter tudo sob controle. Nessie se tornou médica, construiu a carreira que tanto queria e, poucos meses depois da formatura, apareceu diante de mim com aquela mesma expressão suspeita que usara quando contou sobre Jade. Dessa vez nem precisou falar. Perguntei se estava grávida, ela começou a rir e confirmou. Foi assim que Will chegou, nosso terceiro filho, apenas dois anos depois da irmã, acabando de vez com qualquer possibilidade de termos uma casa silenciosa. Hoje JJ tinha quinze anos, Jade dez e Will oito. Eu continuava trabalhando entre Seattle e a fazenda, embora já tivesse diminuído bastante o ritmo, enquanto Renesmee dividia o tempo entre o hospital, as crianças e a tarefa quase impossível de impedir que nossos filhos transformassem qualquer discussão doméstica em um julgamento no qual cada um tentava provar que o outro era culpado.


Naquela temporada, eu estava passando mais tempo na fazenda por causa da chegada de alguns animais e de mudanças que Embry queria fazer nos estábulos. JJ nem perguntou se podia vir comigo. Simplesmente apareceu na garagem com uma mochila e avisou à mãe que passaria alguns dias comigo. Renesmee fingiu que não gostou, reclamou que ele tinha estudos para fazer e acabou colocando comida suficiente na mochila para alimentar o garoto durante um mês. Dos nossos três filhos, JJ era o que mais havia herdado meu apego por aquele lugar. Desde pequeno gostava dos cavalos, dos campos e de acompanhar qualquer trabalho que acontecesse nos estábulos. Aos quinze, já começava a falar sobre o futuro como se fosse óbvio que um dia trabalharia comigo. Eu tentava não interferir. Tinha aprendido com a mãe dele que filhos não nascem para realizar os planos dos pais. Ainda assim, seria mentira dizer que não sentia uma satisfação enorme toda vez que o via caminhando pela fazenda com a mesma familiaridade que eu tinha naquela idade.


A manhã estava começando quando cheguei aos estábulos e encontrei JJ esperando por mim ao lado de Samuel, filho de Sam e Leah. Samuel tinha treze anos e os dois tinham desenvolvido uma amizade que lembrava bastante a minha com Sam, embora eu me recusasse a dizer isso na frente deles porque certamente usariam a comparação para justificar alguma besteira. Quando me aproximei, os dois estavam diante de um dos cavalos discutindo sobre a posição da sela.


— Está errado — JJ dizia.


Samuel cruzou os braços.


— Não está.


— Está sim.


— Meu pai me ensinou assim.


— Então seu pai ensinou errado.


Parei atrás dos dois.


— Você quer repetir isso quando o Sam estiver aqui?


JJ imediatamente começou a rir e Samuel olhou para mim.


— Senhor Black, fala para ele que está certo.


— Primeiro, para de me chamar de senhor Black. Parece que tenho oitenta anos.


Meu filho olhou para mim com um sorriso provocador.


— Está chegando perto.


Apontei para ele.


— Você ainda depende de mim para ter um cavalo. Escolhe bem as próximas palavras.


Samuel riu.


— Ele falou ontem que essa fazenda vai ser dele um dia.


Olhei para JJ.


— Falou?


Meu filho lançou um olhar mortal para o amigo.


— Eu falei que talvez um dia eu cuide daqui.


— Não foi isso que você disse.


— Cala a boca, Samuel.


— Muito bom saber que a amizade de vocês é baseada em confiança — falei enquanto me aproximava do cavalo. — Agora prestem atenção porque nenhum dos dois estava completamente certo.


JJ fez uma careta.


— Eu estava mais certo que ele.


— Isso não existe.


— Existe sim.


Ignorei e passei a mão pela sela.


— Antes de pensar em montar, vocês verificam tudo. Não adianta saber cavalgar se não sabe preparar o animal direito. Primeiro confere a manta. Ela não pode ficar dobrada porque vai machucar o cavalo depois de algum tempo.


Samuel se aproximou.


— Assim?


— Um pouco mais para frente. Isso. Agora coloca a sela.


Ele fez como pedi enquanto JJ observava.


— E a barrigueira? — meu filho perguntou.


— Você vai mostrar.


Ele sorriu imediatamente e assumiu meu lugar. Observei enquanto JJ explicava ao amigo como ajustar a barrigueira sem apertar demais de uma vez. Corrigi alguns detalhes, mas deixei que continuasse. Ele tinha aprendido muito mais do que eu percebia.


— Depois você confere novamente — expliquei. — O cavalo se movimenta, a sela pode ceder um pouco. Nunca monta e simplesmente sai correndo.


JJ olhou para mim.


— Você fazia isso quando tinha minha idade.


Franzi a testa.


— Quem contou?


— Vovô Billy.


— Seu avô fala demais.


— Ele contou que você caiu dentro de um riacho uma vez.


Samuel começou a gargalhar.


— Isso não tem relação nenhuma com o assunto.


— Então é verdade?


— Seu pai também estava comigo — respondi para Samuel.


A risada dele morreu.


JJ bateu no ombro do amigo.


— Agora ficou melhor.


Balancei a cabeça e terminei de conferir os equipamentos enquanto os dois continuavam discutindo. Não havia muito o que fazer contra dois adolescentes quando Billy e Sam tinham decidido fornecer histórias suficientes sobre minha juventude para destruir qualquer autoridade que eu tentasse manter.


Depois de quase uma hora, deixei que preparassem os próprios cavalos. Fiquei observando de longe, interferindo apenas quando necessário. Samuel terminou primeiro e montou, enquanto JJ demorou um pouco mais porque insistiu em verificar tudo outra vez.


— Pai.


— O quê?


— Está bom?


Aproximei-me, conferi rapidamente e assenti.


— Está.


Ele colocou o pé no estribo e montou com facilidade.


Por um instante, vi meu filho pequeno naquele mesmo lugar.


Lembrei de quando precisei segurá-lo sobre um pônei porque suas pernas mal alcançavam as laterais do animal. Ele tinha rido durante todo o passeio e chorado quando chegou a hora de voltar para casa. Agora eu precisava erguer o rosto para olhar para ele montado.


Quinze anos.


Não sabia quando aquilo tinha acontecido.


— Até onde podemos ir? — Samuel perguntou.


— Cerca norte.


JJ reclamou imediatamente.


— Pai, a gente conhece a fazenda.


— Ótimo. Então sabe exatamente onde fica a cerca norte.


— Podemos ir até o rio.


— Não.


— Por quê?


— Porque eu disse.


Ele soltou um suspiro.


— Esse argumento não funciona mais.


Cruzei os braços.


— Você quer descobrir?


Samuel tentou esconder a risada.


JJ me olhou por alguns segundos e desistiu.


— Cerca norte.


— E sem inventar corrida.


Os dois trocaram um olhar.


Apontei para eles.


— Eu conheço esse olhar.


— Que olhar? — JJ perguntou com uma inocência que definitivamente tinha herdado da mãe.


— Esse mesmo.


Samuel segurou as rédeas.


— Vamos só cavalgar, tio Jake.


— Samuel, conheço seu pai há mais tempo do que você está vivo. Não tenta me enganar.


JJ começou a rir.


— A gente volta antes do almoço.


— É melhor.


Meu filho ajeitou o chapéu e me olhou.


— Valeu, pai.


Assenti.


— Vai.


Eles começaram devagar.


Durante aproximadamente dez segundos.


Então JJ olhou para Samuel.


Samuel olhou para JJ.


— Nem pensem nisso! — gritei.


Os dois dispararam.


— JJ!


A risada deles chegou até mim enquanto os cavalos avançavam pelo campo.


Coloquei as mãos na cintura e balancei a cabeça.


— Quinze anos criando esse garoto para isso.


Um dos peões que passava perto de mim começou a rir.


— Vai atrás deles, patrão?


Observei os dois se afastarem.


— Não.


— Não está preocupado?


— Estou. Sou pai. Faz parte.


JJ virou o cavalo por um instante e levantou o braço na minha direção antes de continuar ao lado de Samuel. Respondi ao gesto e fiquei parado diante do estábulo, acompanhando os dois até se tornarem menores na distância.


Meu filho já não precisava que eu segurasse as rédeas.


Talvez essa fosse uma das partes mais difíceis de ser pai. Passamos anos ensinando os filhos a caminhar, montar, escolher, cair e levantar, até chegar o dia em que eles começam a fazer tudo isso sem nós.


Eu ainda tinha muito a ensinar a JJ. Tinha muito a aprender com ele também. Haveria discussões, escolhas que eu provavelmente não entenderia e caminhos que talvez fossem completamente diferentes daqueles que imaginei para seu futuro.


Mas olhando meu filho cavalgar por aquelas terras que fizeram parte de praticamente toda a minha vida, senti orgulho.


Não porque esperasse que JJ se tornasse outro Jacob Black.


Eu queria justamente o contrário.


Queria que ele tivesse tempo para descobrir quem era, o que queria e onde desejava construir a própria vida. Se no fim escolhesse aquela fazenda, eu estaria aqui para ensiná-lo tudo que ainda soubesse. Se escolhesse qualquer outro lugar, eu aprenderia a deixá-lo ir.


Renesmee tinha me ensinado isso muitos anos antes.

Amar alguém não era decidir seu caminho.

Era continuar por perto enquanto ele encontrava o próprio.

Notas finais
Muito obrigada a todos que acompanharam essa história, a vida é difícil e corrida mas estou cumprindo a promessa de terminar minhas histórias. Beijos e aguardo vocês nas próximas
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.