O pai do meu bebê
89 Renesmee
Jacob não soltou minha mão. Pelo contrário, senti seus dedos apertarem os meus no instante em que Lucy voltou a me acusar pela perda do bebê. Durante meses eu tinha tentado não pensar naquela queda, principalmente porque ainda conseguia lembrar com detalhes do momento em que ela perdeu o equilíbrio e eu estendi a mão para segurá-la. Não consegui. Aquilo já era difícil o bastante sem precisar carregar uma culpa que não era minha, mas Lucy parecia decidida a repetir sua versão até que todos acreditassem nela. Alguns funcionários que recolhiam as coisas da festa diminuíram o ritmo do trabalho e começaram a olhar em nossa direção, e aquilo tornou tudo ainda pior. Eu não queria estar ali discutindo. Não queria aquelas pessoas ouvindo novamente que eu era uma criminosa, muito menos depois da manhã que acabara de passar com Jacob.
— Eu mandei você parar — Jacob falou, e dessa vez sua voz saiu mais dura. Ele se colocou um pouco mais à minha frente, como se quisesse impedir até que Lucy olhasse diretamente para mim. — Você sabe muito bem que não tem prova alguma do que está dizendo. Renesmee contou desde o começo que você tropeçou naquela escada e tentou segurar você. Havia funcionários dentro da casa, ela pediu ajuda assim que você caiu e foi ela quem mandou avisar sua família enquanto eu levava você para o hospital. Então chega dessa história.
Lucy soltou uma risada nervosa e balançou a cabeça.
— É claro que você acredita nela. Ela é sua esposa.
— Eu acredito nela porque conheço a mulher com quem me casei.
— E não me conhece?
— Conheço o suficiente para saber que você está usando a morte daquela criança para atacar uma pessoa que não fez nada contra você.
Lucy empalideceu, mas não recuou.
— Você não tem o direito de falar assim comigo. Eu perdi meu filho naquela casa.
— E eu sinto muito pelo que aconteceu. Já disse isso para você no hospital e continuo sentindo. Aquela criança não tinha culpa de nada, fosse ou não meu filho. Mas uma tragédia não dá a você o direito de inventar outra coisa para encontrar alguém em quem colocar a culpa.
Ela apontou para mim novamente.
— Ela estava com ciúmes.
Jacob deu um passo à frente.
— Abaixa essa mão.
A voz dele fez Lucy obedecer.
— Renesmee não tinha motivo para fazer o que você está dizendo. E, mesmo que tivesse passado a vida inteira odiando você, ela jamais jogaria uma mulher grávida de uma escada. Você pode contar essa história quantas vezes quiser, mas não vai me fazer duvidar dela.
Lucy ficou alguns segundos em silêncio e depois olhou para as caixas próximas à caminhonete.
— Então é isso? Você me tira da fazenda, da minha casa, do meu trabalho e fica com ela?
— Eu não estou ficando com ninguém. Renesmee é minha esposa e essa também é a casa dela. Quem está saindo é você porque ultrapassou todos os limites que eu poderia tolerar.
— Você só está fazendo isso porque ela voltou.
— Não. Estou fazendo porque deveria ter feito meses atrás.
Senti os olhos de alguns funcionários sobre nós e baixei o rosto. Eu queria ir embora dali, mas Jacob ainda segurava minha mão e alguma coisa me impedia de simplesmente entrar na casa enquanto aquela discussão acontecia. Lucy parecia cada vez mais alterada.
— Você acha que pode me tratar como lixo depois de tudo o que aconteceu?
— Não estou tratando você como lixo. Dei tempo para retirar suas coisas, paguei tudo o que tinha direito e ofereci ajuda para organizar a mudança. Foi você quem escolheu transformar isso em outra discussão.
— Porque você está me expulsando!
— Estou mandando você sair da minha propriedade porque não vou mais permitir que use a proximidade comigo para atacar minha família.
Lucy soltou uma risada amarga.
— Sua família. Agora ela é sua família e eu sou o problema.
Jacob respirou fundo e percebi que sua paciência estava chegando ao fim.
— Ela não é minha família agora, Lucy. Renesmee é minha esposa. É a mãe do meu filho. Você não precisa gostar dela, não precisa falar com ela e nem precisa aceitar que eu escolhi ficar com ela, mas vai respeitá-la enquanto estiver dentro das minhas terras. Se não consegue fazer isso, termina de colocar suas coisas nessa caminhonete e vai embora.
— Jake...
— Não me chama assim.
Lucy ficou imóvel.
Até eu olhei para Jacob.
— Não existe mais conversa entre nós. Você teve meses para entender isso. Eu tentei preservar sua situação porque sabia que você tinha acabado de perder uma criança, tentei evitar que tudo piorasse e, em troca, você continuou atacando minha esposa, envolveu nossas famílias e ontem ainda resolveu contar ao Embry uma coisa que não cabia a você contar. Acabou. Eu quero você fora daqui.
Lucy abriu a boca para responder, mas outra voz surgiu atrás dela.
— Lucy!
Nós três olhamos ao mesmo tempo.
Leah vinha apressada pelo caminho que levava à entrada da propriedade. Seu rosto estava pálido e ela segurava o celular com tanta força que percebi imediatamente que alguma coisa tinha acontecido. Lucy pareceu esquecer a discussão por um instante e foi ao encontro da irmã.
— O que foi?
Leah segurou seu braço.
— É o papai.
A expressão de Lucy mudou.
— O que aconteceu com ele?
— Ele passou mal em casa. A mamãe chamou ajuda e levaram ele para o hospital do povoado vizinho. Ela acabou de me ligar de lá.
Lucy arregalou os olhos.
— Como assim passou mal? O que ele teve?
— Eu não sei ainda. A mamãe disse que ele começou a sentir uma dor forte e ficou muito pálido. Eles estão examinando ele agora. Eu vim te buscar porque precisamos ir.
Toda a raiva que havia no rosto de Lucy desapareceu. Ela olhou para as caixas, depois para Leah.
— Eu vou com você.
— Deixa isso para depois.
Leah lançou um olhar rápido para Jacob e depois para mim. Percebeu o clima sem precisar perguntar o que tinha acontecido e puxou a irmã pelo braço antes que ela recomeçasse.
— Lucy, agora não. Nosso pai está no hospital.
Lucy respirou fundo, ainda visivelmente abalada, e deixou que Leah a conduzisse até o carro. Antes de entrar, porém, olhou para trás. Seus olhos encontraram os meus e, por um instante, tive medo de que dissesse mais alguma coisa. Ela não disse. Entrou no veículo e Leah assumiu o volante. Poucos segundos depois as duas deixaram a propriedade.
Eu permaneci parada.
Jacob ainda segurava minha mão, mas agora eu sentia os olhares ao redor com muito mais intensidade. Um dos peões voltou depressa ao trabalho quando percebeu que eu tinha olhado para ele, duas funcionárias começaram a recolher as toalhas das mesas e todos fingiram que não tinham ouvido absolutamente nada. Aquilo deveria ter me tranquilizado, mas aconteceu o contrário. Eu me senti exposta de uma maneira que não experimentava havia meses.
Soltei devagar minha mão da de Jacob.
— Nessie...
— Eu preciso ver o JJ.
Entrei na casa antes que ele pudesse responder. Atravessei a sala rapidamente e ouvi seus passos logo atrás de mim.
— Renesmee, espera.
Continuei andando.
— Eu estou bem.
— Não está.
Parei perto da escada e me virei para ele.
— Tinha um monte de gente ouvindo, Jacob.
Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.
— Funcionários, convidados que ainda nem foram embora direito. Todo mundo ouviu aquela mulher me chamar de criminosa e dizer que eu matei o filho dela.
— E todo mundo me ouviu dizer que é mentira.
— Isso não apaga o que ela falou.
Jacob ficou em silêncio.
Passei as mãos pelos cabelos, sentindo o constrangimento se misturar à raiva.
— Eu voltei para cá achando que finalmente conseguiria passar um dia sem pensar nisso. Ontem eu estava com ciúmes da Mary feito uma adolescente idiota, hoje acordei feliz, você me contou sobre Seattle, nós passamos a manhã fazendo planos para nossa casa... e bastou colocar os pés aqui para eu ser aquela mulher que empurrou uma grávida da escada de novo.
— Você não é essa mulher.
— Eu sei que não sou!
Minha voz aumentou e precisei respirar antes de continuar.
— Mas ela fala com tanta certeza que às vezes parece que eu tenho que ficar me defendendo de uma coisa que eu sei que não fiz. Eu tentei segurar Lucy, Jake. Eu tentei impedir que ela caísse.
Ele se aproximou.
— Eu sei.
— E ela perdeu o bebê.
— A culpa não foi sua.
Balancei a cabeça e senti meus olhos arderem, mais de raiva e humilhação do que de vontade de chorar.
— Eu não quero falar sobre isso agora. Só quero pegar meu filho no colo.
Passei por ele e coloquei o pé no primeiro degrau, mas Jacob veio atrás de mim.
Dessa vez não tentou me impedir, apenas me acompanhou escada acima.
O restante daquele dia acabou sendo muito mais tranquilo do que a manhã fazia parecer. Depois que subi, encontrei JJ acordado no berço, cercado por Rachel e Sarah, que discutiam baixinho sobre qual das duas tinha conseguido fazê-lo dormir na noite anterior. Peguei meu filho no colo e fiquei com ele por um bom tempo, aproveitando aquela rotina simples de mamadeira, banho e troca de roupa para afastar da cabeça a discussão com Lucy. Jacob ainda passou algum tempo comigo antes de receber notícias de que Harry continuava no hospital. Por mais irritado que estivesse com Lucy e Sue, ele não hesitou em ir até lá. Harry fazia parte da vida dos Black havia muitos anos e nunca tivera qualquer participação nas brigas das últimas semanas. Antes de sair, Jacob me perguntou duas vezes se eu ficaria bem e prometeu voltar assim que soubesse alguma coisa. Eu disse que fosse tranquilo. Não queria que os problemas entre Lucy e mim interferissem em uma situação que não tinha nada a ver conosco.
O movimento na fazenda diminuiu conforme a tarde avançava. Os últimos funcionários terminaram de desmontar a estrutura da festa, Mary havoa saido com Embry depois do almoço e Rachel passou boa parte do tempo comigo e com JJ, embora tivesse se divertido bastante quando contei que Jacob havia revelado tudo sobre a casa em Seattle. Sarah ficou emocionada com a notícia, depois reclamou que perderia o neto e, cinco minutos mais tarde, já estava planejando quantas vezes por mês iria nos visitar. No fim da tarde, quando a casa finalmente ficou silenciosa, levei JJ para o quarto, dei sua última mamadeira e fiquei sentada na poltrona até ele adormecer. Observei meu filho por alguns minutos antes de colocá-lo no berço. Ele dormiu quase imediatamente, com uma das mãozinhas fechadas perto do rosto, completamente alheio aos problemas dos adultos ao redor dele.
Saí do quarto deixando a porta entreaberta e estava voltando para o meu quando vi Jacob no fim do corredor.
Parei.
Bastou olhar para ele para perceber que alguma coisa estava errada.
Jacob caminhava devagar, os ombros um pouco caídos e o rosto muito diferente daquele homem que havia saído de casa algumas horas antes. Não havia raiva nele. Era tristeza. Quando se aproximou, procurei seus olhos e senti meu peito apertar.
— Jake, o que aconteceu?
Ele parou diante de mim e respirou fundo antes de responder.
— Harry morreu.
Fiquei sem reação por alguns segundos.
— Meu Deus...
Jacob baixou os olhos.
— Ele teve uma parada cardíaca. Os médicos tentaram reanimá-lo, mas não conseguiram.
Levei a mão à boca, lembrando imediatamente de Leah chegando desesperada à fazenda naquela manhã. Naquele momento ninguém imaginava que seria tão grave.
— E a família?
— Destruída.
A voz de Jacob saiu baixa.
— Sue está fora de si. Leah está tentando cuidar de tudo e Lucy...
Ele interrompeu a frase e passou a mão pelo rosto.
Não perguntei mais nada.
Aproximei-me e passei os braços ao redor dele.
Jacob demorou apenas um instante para corresponder. Seus braços envolveram minha cintura e ele me apertou contra o peito, apoiando o rosto em meus cabelos. Permaneci ali sem tentar encontrar alguma frase que pudesse melhorar o que não tinha como ser melhorado. Apenas acariciei suas costas devagar e deixei que ele ficasse comigo pelo tempo que precisasse.
— Sinto muito, amor.
Ele soltou o ar pesadamente.
— Harry era um bom homem, Nessie.
— Eu sei.
— Nunca se meteu nas brigas de ninguém. Até hoje de manhã, depois de tudo que aconteceu, ele me recebeu na casa dele, me chamou para entrar e me tratou com respeito. Eu fui lá mandar a filha dele embora das minhas terras e mesmo assim aquele homem não levantou a voz para mim.
Afastei-me apenas o suficiente para olhar seu rosto.
— Você não sabia que isso aconteceria.
— Eu sei. Não estou dizendo que foi por minha causa.
Jacob passou a mão pela minha cintura e voltou a olhar para o chão.
— Só fico pensando que falei com ele hoje cedo. Algumas horas depois entrei naquele hospital e ele estava morto. Conheço Harry desde que era garoto. Meu pai conhecia ele muito antes disso. Nós crescemos vendo aquele homem entrar e sair desta casa.
Acariciei seu rosto.
— Então guarda isso. Guarda o homem que você conheceu durante todos esses anos, não a discussão que aconteceu hoje.
Jacob levantou os olhos para mim.
— Você ainda consegue falar assim depois do que a filha dele fez com você.
— Harry não fez nada comigo.
Ele ficou em silêncio e eu voltei a abraçá-lo.
Dessa vez Jacob me apertou ainda mais.
— Eu amo você — ele murmurou perto dos meus cabelos.
Fechei os olhos e acariciei sua nuca.
— Eu também amo você.
Ficamos alguns minutos naquele corredor, sem pressa para entrar no quarto. Eu sabia que a morte de Harry não apagaria os problemas com Lucy, assim como não apagaria tudo o que havia acontecido entre nossas famílias, mas naquele momento nada disso importava. Jacob tinha acabado de perder alguém que conhecia desde a infância e eu só queria que ele soubesse que não precisava carregar aquela tristeza sozinho.
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