O pai do meu bebê
76 Renesmee
Notas iniciais
A primeira coisa que ouvi foi uma voz baixa.
No início, ainda envolvida pelo efeito da anestesia, não consegui distinguir as palavras. Era apenas uma melodia suave, cantada quase como um sussurro. Permaneci alguns segundos de olhos fechados, deixando aquele som preencher o silêncio do quarto. Aos poucos fui reconhecendo a voz.
Era Jacob.
Abri os olhos devagar, sentindo a luz suave da manhã atravessar a cortina e iluminar parte do quarto. Minha visão ainda demorou alguns instantes para se ajustar, mas logo consegui enxergá-lo.
Ele estava de costas para mim, perto da janela.
Segurava um pequeno embrulho nos braços e o balançava lentamente de um lado para o outro. Enquanto caminhava em passos curtos pelo quarto, continuava cantarolando baixinho uma antiga cantiga que eu nunca o tinha ouvido cantar antes. Achei graça ao perceber que ele provavelmente nem conhecia toda a letra. Inventava algumas palavras no meio da música, repetia outras e sorria sozinho como se nosso filho fosse o único espectador daquela apresentação.
Fiquei observando aquela cena em silêncio.
Nunca imaginei que Jacob pudesse parecer tão... sereno.
O homem que eu conheci sempre foi impulsivo, inquieto, incapaz de permanecer parado por muito tempo. Naquele instante, porém, tudo nele transmitia calma. Cada movimento era cuidadoso, como se tivesse medo de acordar o bebê que dormia aconchegado em seus braços.
Senti um calor agradável invadir meu peito.
Passei tantos meses imaginando como seria vê-lo como pai que, quando aquele momento finalmente chegou, percebi que nenhuma das minhas expectativas havia sido suficiente.
Sorri sem perceber.
— Jake...
Minha voz saiu tão baixa que quase se confundiu com um suspiro.
Mesmo assim ele ouviu.
Virou-se imediatamente.
Assim que nossos olhares se encontraram, um sorriso enorme iluminou seu rosto.
Era um sorriso cansado, denunciando que provavelmente não havia dormido desde a cirurgia, mas carregava uma felicidade tão sincera que meus olhos voltaram a marejar.
— Você acordou.
Ele caminhou até a cama sem tirar os olhos de mim.
— Como está se sentindo?
Passei a mão lentamente pela cabeça, ainda um pouco sonolenta.
— Melhor.
Olhei para o pequeno embrulho em seus braços.
— Ele...
Minha voz falhou antes mesmo de terminar a pergunta.
Jacob sorriu ainda mais.
— Está esperando para conhecer a mãe.
Aproximou-se da cama e inclinou-se cuidadosamente sobre mim.
— Posso?
Assenti várias vezes.
Ele acomodou o bebê nos meus braços com uma delicadeza que me emocionou ainda mais. Instintivamente o aproximei do peito, sustentando sua cabecinha exatamente como Rebecca havia me ensinado durante a gravidez.
Então, pela primeira vez, vi o rosto do meu filho.
O tempo pareceu parar.
Ele dormia profundamente, completamente alheio a tudo o que havia acontecido nas últimas horas. O rostinho era pequeno, delicado, com bochechas levemente coradas e um nariz tão perfeito que me fez rir entre as lágrimas. Um gorro azul escondia parte dos cabelos, mas alguns fios ruivos escapavam pela lateral, suficientes para denunciar que Jacob perdera a disputa muito antes de começar.
Levei a ponta dos dedos até sua mãozinha.
Era tão pequena que mal conseguia envolver meu dedo.
Meu coração pareceu não caber dentro do peito.
— Oi, JJ...
As palavras saíram num sussurro.
— Eu sou a mamãe.
Ele fez um pequeno movimento durante o sono, aproximando ainda mais o rostinho do meu corpo. Sem pensar, beijei demoradamente sua testa, respirando aquele cheirinho de bebê que eu tantas vezes imaginei durante a gestação.
As lágrimas caíram novamente.
Dessa vez não eram de medo.
Nem de angústia.
Eram de uma felicidade tão intensa que eu não encontrava palavras para explicar.
Jacob permaneceu ao meu lado observando tudo em silêncio.
Depois passou a mão pelos meus cabelos e depositou um beijo demorado sobre eles.
— Eu avisei que ele era lindo.
Sorri sem desviar os olhos do nosso filho.
— Você não exagerou.
Ele aproximou uma cadeira da cama e sentou-se ao meu lado.
— Também preciso admitir uma coisa.
Levantei os olhos para ele.
Jacob fez um gesto discreto na direção do bebê.
— Eu perdi completamente a aposta.
Ri pela primeira vez desde que acordei.
— Qual aposta?
— Passei a gravidez inteira dizendo que ele teria os meus cabelos.
Olhou para o pequeno gorro azul.
— Bastou nascer para deixar claro que eu estava errado.
Acabei rindo outra vez.
— Você realmente acreditou que venceria essa?
Ele fingiu pensar por alguns segundos.
— Achei que tinha alguma chance.
Voltei minha atenção para JJ.
Era impossível parar de observá-lo.
Cada detalhe parecia precioso demais para ser desperdiçado.
Jacob apoiou uma das mãos sobre a minha, que acariciava delicadamente o rostinho do bebê.
— Sabe qual foi a primeira coisa que pensei quando o vi?
Balancei a cabeça.
Ele sorriu.
— Que ele é a sua cara.
Olhei novamente para nosso filho e depois para Jacob.
— Ainda bem.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ainda bem?
Sorri entre as lágrimas.
— Porque eu sempre achei você bonito demais. Se ele puxasse completamente o pai, ia dar muito trabalho quando crescesse.
Jacob riu e balançou a cabeça.
— Nosso filho acabou de nascer e você já está preocupada com as meninas.
— Claro.
Ajustei JJ com cuidado em meus braços.
— Eu conheço o pai dele.
Jacob aproximou-se mais uma vez e beijou minha testa.
Depois acariciou delicadamente a mãozinha do filho.
Ficamos os três em silêncio por um longo tempo. Eu observava JJ dormir tranquilo, enquanto Jacob permanecia ao nosso lado com a mesma expressão serena que encontrei quando despertei. Pela primeira vez desde que toda aquela tempestade começou, tive a sensação de que o quarto do hospital era o lugar mais seguro do mundo. Tudo o que existia além daquela porta parecia distante. Naquele momento, bastava olhar para o nosso filho para lembrar por que valia a pena enfrentar qualquer dificuldade juntos.
Os dias seguintes passaram de uma maneira diferente de tudo o que eu já havia vivido. O relógio parecia correr e, ao mesmo tempo, cada pequeno momento se tornava inesquecível. Eu ainda me recuperava da cirurgia, caminhava devagar pelos corredores do hospital e precisava da ajuda de Jacob até para me levantar da cama nos primeiros dias. A dor da incisão aparecia sempre que fazia algum movimento mais brusco, mas desaparecia completamente quando JJ era colocado em meus braços.
Descobri rapidamente que cuidar de um recém-nascido era muito diferente de tudo o que imaginei durante a gravidez. As enfermeiras ensinavam como segurá-lo da forma mais confortável, como fazê-lo arrotar depois de mamar e como reconhecer quando o choro significava fome, frio ou apenas vontade de colo. Eu prestava atenção em cada orientação, mas bastava ficarmos sozinhos para perceber que aprenderíamos muito mais errando juntos do que assistindo qualquer demonstração.
Jacob também estava descobrindo aquele universo pela primeira vez.
Na primeira troca de fraldas, ele demonstrou uma confiança invejável. Dobrou as mangas da camisa, disse que administrar uma fazenda inteira certamente era mais difícil do que trocar a fralda de um bebê e pediu que eu apenas observasse. Cinco minutos depois, olhou para mim completamente perdido, com um pacote de lenços umedecidos aberto, a fralda colocada do lado contrário e JJ reclamando da demora como se já tivesse opinião formada sobre a competência do pai.
Não consegui conter o riso.
— Achei que você fosse especialista.
Ele continuou tentando fechar a fralda enquanto respondia sem levantar a cabeça.
— Eu continuo sendo.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Naquele exato instante, JJ resolveu mostrar que discordava completamente da afirmação do pai.
Jacob me olhou resignado.
— Acho que ele está tentando me humilhar.
Ri tanto que precisei levar a mão à barriga por causa da cirurgia.
Uma enfermeira entrou no quarto atraída pelas nossas risadas e encontrou Jacob completamente atrapalhado. Aproximou-se, reorganizou tudo em poucos segundos e saiu sorrindo depois de dizer que aquilo acontecia com praticamente todos os pais de primeira viagem.
Durante os dias em que permanecemos internados, passei a observar Jacob em momentos que talvez nunca esquecesse. À noite, quando imaginava que ele estivesse dormindo, acordava e o encontrava sentado na poltrona ao lado do berço apenas olhando JJ dormir. Outras vezes ele caminhava lentamente pelo quarto com nosso filho nos braços, repetindo a mesma cantiga desafinada que ouvi quando despertei da cirurgia. JJ parecia gostar, porque quase sempre adormecia antes que a música terminasse.
Eu nunca contava que estava acordada.
Preferia apenas observá-los.
Era impossível não me emocionar ao perceber o cuidado com que Jacob segurava aquele menino tão pequeno. O mesmo homem que passava os dias administrando fazendas, negociando cavalos e resolvendo problemas parecia completamente rendido a um bebê que mal conseguia abrir os olhos.
Na manhã em que Rebecca entrou no quarto com um prontuário nas mãos, imaginei imediatamente que receberíamos alta.
Ela sorriu antes mesmo que eu perguntasse.
— Os exames estão ótimos. Sua recuperação está acontecendo exatamente como esperávamos.
Olhei para Jacob, que sorriu discretamente ao meu lado.
Rebecca fechou o prontuário e continuou.
— Mas eu quero fazer um pedido.
Nós dois voltamos a atenção para ela.
— Nessie ainda passou por uma cirurgia importante e o parto aconteceu antes do previsto. Eu prefiro que vocês não retornem para a fazenda agora.
Jacob assentiu antes mesmo que ela terminasse de explicar.
— Também pensei nisso.
Rebecca concordou.
— Em Seattle ela estará perto do hospital. Se surgir qualquer intercorrência, consigo avaliá-la rapidamente.
Olhei para Jacob.
— E a fazenda?
Ele segurou minha mão.
— A fazenda continua existindo quando voltarmos.
Sorriu com tranquilidade.
— Agora minha prioridade é você e o JJ.
Aquela resposta encerrou qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter.
Dois dias depois, finalmente chegou o momento de deixar o hospital.
Troquei a camisola pelo primeiro vestido que consegui vestir confortavelmente depois da cirurgia. Ainda caminhava devagar, e Jacob insistiu em permanecer ao meu lado durante todo o percurso até a saída. Sempre que eu diminuía o passo, ele esperava pacientemente, segurando minha mão como se não houvesse pressa alguma.
— Está doendo? — perguntou mais de uma vez.
Balancei a cabeça.
— Um pouco.
Ele passou o braço cuidadosamente ao redor da minha cintura.
— Então vamos mais devagar.
Assim que saímos do quarto, encontrei minha mãe alguns metros à frente.
Bella carregava JJ nos braços com um orgulho impossível de esconder. Conversava com ele o tempo inteiro, como se meu filho fosse perfeitamente capaz de responder cada uma das histórias que ela contava. De vez em quando ajeitava a manta sobre seu corpinho, conferia se o gorro estava cobrindo as orelhas e voltava a beijar sua testa sem o menor constrangimento.
Sorri ao observar a cena.
— Acho que alguém está apaixonada.
Minha mãe levantou os olhos imediatamente.
— Eu?
Fez uma expressão inocente que não convenceu ninguém.
— Imagina.
Jacob riu ao meu lado.
— Bella, você já beijou esse menino umas cinquenta vezes desde que saiu do quarto.
Ela olhou para o neto e deu de ombros.
— Ainda acho pouco.
Meu pai, que caminhava logo atrás de nós, apenas sorriu.
— Eu avisei que ela seria uma avó completamente coruja.
Bella nem tentou negar.
Apenas apertou JJ um pouquinho mais contra o peito.
— Depois de esperar tanto por esse menino, ninguém vai me impedir de aproveitar cada minuto.
Olhei para Jacob.
Ele observava minha mãe com um sorriso tranquilo, daqueles que surgiam sem esforço.
Segurei sua mão com mais força.
Saímos do hospital caminhando devagar, cercados pela nossa família. Pela primeira vez em muitos meses, o caminho à nossa frente parecia mais leve. Ainda havia perguntas sem resposta e problemas esperando por nós, mas, naquele instante, enquanto víamos Bella atravessar a porta do hospital completamente encantada com o neto nos braços, decidi que não pensaria em mais nada. Queria apenas viver aqueles primeiros dias da nossa nova vida, agora que finalmente éramos três.
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