Meu coração ainda batia descompassado quando ele se aproximou.

— Você tem certeza que está bem? — perguntou o homem, estendendo a mão para mim.

A voz dele era firme, grave, mas havia um cuidado sincero nela. Por um instante, hesitei, olhando para a mão que ele me oferecia.

Levantei o olhar e o encarei.

Ele era alto, de ombros largos, com o rosto parcialmente sombreado pela luz do entardecer. Os cabelos escuros caíam levemente sobre a testa, e os olhos… tinham um brilho castanho quente, daqueles que intimidam e confortam ao mesmo tempo.

— Eu estou bem, eu juro — consegui dizer, pegando a mão dele.

Ele me puxou com firmeza, mas com cuidado, como se tivesse medo de me machucar. Assim que fiquei de pé, ajeitei o cabelo, tentando disfarçar o constrangimento.

Foi então que ouvi vozes conhecidas vindo em disparada atrás de mim.

— Nessie! — Anna e Rafaela chegaram correndo, esbaforidas. Anna, como sempre, mais dramática.

— Meu Deus, o que aconteceu? — Rafa colocou o braço em volta dos meus ombros, me olhando de cima a baixo.

Sorri sem graça.

— Tá tudo bem. O motorista freou a tempo. Foi só um susto.

O homem franziu a testa, ainda visivelmente preocupado.

— Tem certeza? Eu posso levá-la ao hospital. É melhor não arriscar.

— Não precisa — respondi rápido. — Eu realmente estou bem, de verdade.

Anna olhou para ele e, como boa protetora de plantão, ergueu o queixo.

— Ela é nossa prima. Pode ficar tranquilo, nós cuidamos dela.

Ele assentiu, parecendo aliviado, e deu um pequeno sorriso — discreto, mas que fez alguma coisa dentro de mim se revirar.

Virou-se e caminhou até o carro dele, um SUV preto estacionado a poucos metros. Eu não consegui evitar: segui o movimento com os olhos até ele entrar, ligar o motor e ir embora.

A respiração voltou ao normal, mas algo dentro de mim não.

— Tá, agora eu quero saber — disse Anna, cruzando os braços. — Você tá bem mesmo?

— Já disse que sim. Foi só um susto — respondi, ainda um pouco atordoada.

Ela arqueou uma sobrancelha e soltou um sorrisinho.

— Eu não tô perguntando por causa do susto… tô perguntando por causa da forma como você olhou pro bonitão.

Rafaela caiu na risada, e eu senti o rosto queimar.

— Vocês são impossíveis — falei, tentando esconder o sorriso.

Anna ainda riu da minha expressão, me cutucando de leve no ombro.

— Fala sério, Nessie, até eu teria ficado sem reação com aquele homem.

Rafaela entrou na conversa, empolgada.

— Sabe o que você devia ter feito? Pegado o contato dele! Vai que o “senhor olhos de mel” era o amor da sua vida.

Revirei os olhos, tentando não rir.

— Gente, por favor… eu quase fui atropelada! Não estava pensando em pedir o número do motorista.

— “Do motorista” — Anna repetiu, zombando. — Aham, claro. O motorista que parecia modelo de comercial de perfume.

Rafaela gargalhou alto, chamando atenção de quem passava por perto.

— E ela ainda corou! Olha a Nessie ficando vermelha!

Senti minhas bochechas queimarem e tentei encerrar o assunto.

— Vocês são insuportáveis. E pra começar, eu tenho noivo, lembram?

As duas se entreolharam e riram ainda mais.

— É, mas o seu noivo não olha desse jeito pra ninguém — Rafa provocou, piscando.

Abri a boca pra responder, mas o toque do meu celular cortou a conversa. Peguei o aparelho e congelei ao ver o nome na tela: Dra. Rebecca Finau.

O coração disparou. Respirei fundo e atendi.

— Alô?

A voz da médica veio calma, mas séria.

— Oi, Renesmee. Desculpe ligar assim, mas eu precisava falar com você.

— Claro… aconteceu alguma coisa? — perguntei, já sentindo o nervosismo subir.

Rebecca hesitou por um instante.

— Eu conversei com seu pai e também com o… bom, com o homem envolvido no caso. Ele soube de tudo e… — respirou fundo. — Ele quer conhecê-la, Renesmee.

Meu coração pareceu parar por um segundo.

— Conhecer… o pai do bebê? — perguntei, a voz saindo trêmula.

— Sim — respondeu com doçura. — Ele não quer te pressionar, só conversar. Disse que quer te apoiar, seja qual for sua decisão.

Olhei para o chão, tentando absorver. O som do trânsito, das risadas das minhas primas, tudo desapareceu.

— Dra. Rebecca, eu… — engoli em seco. — Eu não sei se consigo agora. Preciso de mais tempo.

— Tudo bem — ela respondeu com calma. — Ninguém vai forçar nada. Me avisa quando estiver pronta, tá?

— Tá… obrigada. — Encerrei a ligação e fiquei parada, o celular ainda nas mãos.

— Quem era? — Anna perguntou, curiosa. — Você ficou pálida.

Forjei um sorriso, o mais convincente que consegui.

— Ah, nada demais. Coisa boba da faculdade.

Rafaela arqueou uma sobrancelha.

— Coisa boba? Você quase derrubou o celular.

— É sério, meninas. Vamos pra casa — respondi, tentando disfarçar o tremor na voz. — Tô cansada.

As duas se entreolharam, desconfiadas, mas não insistiram. Caminhei em silêncio entre elas, o vento frio batendo no meu rosto, e só um pensamento martelando dentro da minha cabeça.

Conhecer o pai do meu bebê.


O quarto estava em meia-luz, só com a luminária acesa ao lado da cama. Eu encarava o teto há tanto tempo que já conseguia desenhar formas nas sombras. O celular, ainda sobre a mesinha, parecia pesar uma tonelada.

O pai do meu bebê quer me conhecer.

Fechei os olhos, tentando entender o que isso significava. Parte de mim sentia curiosidade, outra parte medo. E a maior de todas… uma estranha sensação de proteção.

Eu não sabia se queria dividir algo tão íntimo com um homem que eu nunca vi. Algo que, de alguma forma, já era meu.

O som de três batidas leves na porta me tirou do transe.

— Filha? — a voz do meu pai soou contida, quase hesitante. — Posso entrar?

Demorei um pouco pra responder.

— Pode.

A porta se abriu devagar. Ele entrou com passos cuidadosos, como se tivesse medo de invadir algo frágil demais.

Usava uma camisa simples, sem o jaleco, o que o fazia parecer menos o médico e mais… o homem que eu chamava de pai.

— Eu… — começou ele, parando perto da escrivaninha. — Eu posso sentar?

Assenti, e ele se acomodou na poltrona em frente à cama. O silêncio entre nós era denso, cheio de coisas não ditas.

Por fim, ele respirou fundo e falou com a voz embargada:

— Eu sei que não tenho sido o melhor pai nesses últimos dias. E não tem desculpa pra isso. Eu deixei o medo falar mais alto que o amor.

Fiquei quieta, observando-o. Ele abaixou os olhos, mexendo nas mãos, nervoso — um gesto raro vindo de Edward Cullen.

— Quando descobri sobre a gravidez, tudo em mim desmoronou — continuou. — Eu só conseguia pensar em como te proteger, mas acabei te ferindo. — Ele levantou o olhar, e o vi lutar contra as próprias emoções. — Eu fiquei cego, Nessie. Com medo do que as pessoas diriam, do que aconteceria com sua carreira, com seu futuro… e esqueci da única coisa que realmente importava: você.

As palavras dele me atingiram em cheio. Por um instante, não consegui dizer nada.

— Pai… — murmurei, a voz fraca. — Eu não queria te decepcionar.

Ele negou com a cabeça, rápido.

— Não, meu amor. Eu é que te decepcionei. — Se inclinou pra frente, os olhos brilhando. — Eu devia ter te abraçado quando você mais precisava, não gritado. Devia ter te ouvido.

O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente. Não doía.

Suspirei e olhei pra ele, as lágrimas já escorrendo.

— Eu tô perdida, pai. Eu não sei o que fazer. Não sei se quero conhecer esse homem. Tenho medo… medo de que ele tire algo de mim.

Edward se levantou e veio até a cama. Sentou-se ao meu lado e segurou minha mão com delicadeza.

— Ele não vai tirar nada de você. — Sua voz era firme, mas suave. — E se ele for um bom homem, vai entender que essa criança já tem uma mãe incrível. E que nada vai mudar isso.

Deixei escapar um soluço e encostei a cabeça no ombro dele.

— Eu tô com medo, pai.

Ele me envolveu num abraço apertado, o tipo de abraço que cura rachaduras antigas.

— Eu sei, meu amor. E pode ter certeza… você não vai passar por isso sozinha.

Ficamos assim, em silêncio, o som da chuva fina batendo na janela.

Por um instante, tudo o que existia era o calor do abraço do meu pai e o coração do meu bebê batendo dentro de mim.