Demorei alguns minutos antes de deixar o quarto.

Renesmee estava mais tranquila do que quando havíamos entrado ali, embora eu soubesse que a situação estava longe de ser resolvida. Algumas feridas não desapareciam com uma única conversa. Ainda havia dúvidas, inseguranças e sentimentos que precisariam de tempo para serem colocados no lugar.

Antes de sair, aproximei-me dela novamente. Bella estava sentada ao seu lado na cama, enquanto Esme e Rachel tentavam distraí-la com uma conversa leve. Nessie ergueu os olhos quando me aproximei.

Toquei seu rosto com carinho.

– Eu volto logo.

Ela não respondeu imediatamente, mas assentiu de forma discreta.

Aquilo foi suficiente para mim.

Deixei um beijo em sua testa e saí do quarto.

Ao descer as escadas, percebi que a festa praticamente havia terminado. Os funcionários recolhiam mesas e cadeiras do jardim enquanto os últimos convidados se despediam. Algumas luzes ainda iluminavam o gramado, mas o clima festivo já havia sido substituído pelo cansaço típico do fim de uma celebração.

Encontrei minha mãe próxima à varanda observando a movimentação.

Ela virou o rosto quando me viu.

– E a Renesmee?

– Está melhor – respondi.

Sarah suspirou aliviada.

– Ainda bem.

Parei ao lado dela e observei os funcionários desmontando parte da decoração.

– Obrigado.

Ela arqueou uma sobrancelha.

– Pelo quê?

– Por ter segurado a situação lá fora.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

– Alguém precisava impedir que os convidados imaginassem que os recém-casados estavam se separando antes mesmo do fim da festa.

Apesar de tudo, acabei soltando uma breve risada.

– O que você disse?

– Que a noiva passou mal por causa da gravidez.

Ela deu de ombros.

– Ninguém questionou muito.

Balancei a cabeça.

– Funcionou.

O sorriso desapareceu quando lembrei do motivo daquela confusão toda.

– Onde está a Lucy?

A expressão de Sarah mudou imediatamente.

– Eu a mandei para casa.

Assenti.

– Preciso conversar com ela.

Minha mãe cruzou os braços.

– Jacob, tome cuidado.

– Eu só vou conversar.

– É exatamente isso que me preocupa.

Olhei para ela sem entender.

– Mãe, eu não vou brigar com ninguém.

Sarah suspirou.

– Eu sei. Mas Lucy é muito parecida com a mãe.

Aquilo não era novidade para mim. Eu conhecia bem a história da nossa família. Conhecia os erros do meu pai, as mágoas que Sarah carregou durante anos e os conflitos que existiram entre os Black e os Clearwater.

– Eu sei disso – respondi calmamente.

– Então vá com cautela.

– Vou.

Ela segurou meu braço antes que eu me afastasse.

– Jacob...a única pessoa que realmente importa nesta história está lá em cima.

Olhei para a janela do quarto onde Renesmee estava. Meu peito apertou imediatamente.

– Eu sei.

– Não deixe a raiva ou a culpa fazer você esquecer disso.

Assenti lentamente.

Porque ela tinha razão.

Por mais que eu precisasse descobrir a verdade sobre Lucy e a gravidez, minha prioridade continuava sendo a mesma.

Renesmee.

Minha esposa.

E o filho que ela carregava.

Apertei a mão da minha mãe antes de começar a caminhar.

– Não vou demorar.

– Espero que não.

Desci os degraus da varanda e segui pela propriedade.

A noite estava fria e silenciosa. Ao longe, as luzes da casa dos Clearwater podiam ser vistas entre as árvores.

Enquanto caminhava, uma única pergunta ocupava meus pensamentos.

Lucy realmente acreditava que aquele bebê era meu...

Ou havia muito mais naquela história do que ela estava contando?



A caminhada até a casa dos Clearwater me deu tempo suficiente para organizar os pensamentos, mas não para encontrar respostas. A cada passo, eu me convencia ainda mais de que precisava esclarecer aquela situação antes que ela causasse danos irreparáveis. Renesmee já havia sido machucada demais por segredos e meias verdades. Se eu quisesse reconstruir a confiança dela, precisaria enfrentar aquilo de frente.

A luz da varanda estava acesa quando cheguei. Bati na porta uma única vez e aguardei. Não demorou para que ela fosse aberta.

Sue Clearwater surgiu diante de mim.

No mesmo instante em que me viu, sua expressão endureceu.

– Você tem coragem de aparecer aqui.

Suspirei discretamente.

– Boa noite para você também, Sue.

– Não me venha com educação agora, Jacob Black.

Ela cruzou os braços diante do peito, claramente preparada para uma discussão.

– Minha filha conhece você há anos. Muito antes dessa garota da cidade aparecer por aqui. Lucy sempre esteve ao seu redor e, quando finalmente você prestou atenção nela, a usou e descartou como se não significasse nada.

Mantive a postura, embora as acusações começassem a me incomodar.

– Não foi isso que aconteceu.

– Não? – rebateu ela imediatamente. – Então explique por que minha filha está grávida e você está casado com outra mulher.

Antes que eu pudesse responder, outra voz surgiu atrás dela.

– Sue.

Harry Clearwater apareceu no corredor.

Apesar da idade e dos problemas de saúde que enfrentava, ainda havia firmeza em sua presença. Ele observou a esposa por alguns segundos antes de falar.

– Deixe os dois resolverem isso.

– Harry...

– São adultos – interrompeu ele calmamente. – E essa conversa deveria acontecer entre eles.

Sue abriu a boca para argumentar, mas acabou se contendo. Ficou evidente que não concordava nem um pouco com aquela decisão.

Foi nesse momento que Lucy apareceu.

Ela vinha do corredor e parou ao lado do pai.

– O que está acontecendo?

Seu olhar alternou entre os pais e eu.

Harry foi o primeiro a responder.

– Jacob veio conversar.

Lucy permaneceu em silêncio por um instante antes de assentir.

– Tudo bem.

Então voltou-se para os pais.

– Vocês podem nos deixar a sós?

Sue claramente queria permanecer ali, mas um olhar firme da filha foi suficiente para fazê-la desistir. Resmungando algo que não consegui compreender completamente, ela se afastou junto com Harry.

Quando ficamos sozinhos, um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente.

Lucy foi a primeira a quebrá-lo.

– Sua esposa está bem?

A pergunta me pegou de surpresa.

– Está.

Ela assentiu lentamente.

– Ainda bem.

Seu olhar desceu por um instante para a própria barriga.

– Eu também estou grávida, Jacob. E apesar do que sua família possa pensar, não desejo mal algum à Renesmee nem ao bebê dela.

A sinceridade na voz dela me fez hesitar por um momento.

– Eu acredito nisso.

Lucy arqueou uma sobrancelha, como se não esperasse aquela resposta.

Respirei fundo antes de continuar.

– Mas preciso te pedir uma coisa.

– O quê?

– Evite cruzar com a Renesmee por enquanto.

A expressão dela mudou imediatamente.

– Evitar?

– Pelo menos até você fazer os exames que a Rebecca vai solicitar.

Um sorriso surgiu lentamente em seus lábios.

Mas não era um sorriso divertido.

Era amargo.

Irrônico.

– Então é isso.

– Lucy...

Ela balançou a cabeça.

– Não. Agora eu entendi.

A risada que escapou em seguida não tinha qualquer traço de humor.

– Você duvida do bebê que foi feito de forma natural...

As palavras dela saíram carregadas de ressentimento.

– ...mas acredita sem questionar em um bebê concebido dentro de um laboratório.

Aquilo me atingiu mais do que eu gostaria de admitir.

– Não é isso.

– Não?

Ela deu um passo na minha direção.

– Porque é exatamente assim que parece.

Sua voz não estava alterada.

E talvez por isso tenha sido ainda mais difícil ouvi-la.

– Você olha para o filho da Renesmee e vê uma certeza. Olha para o meu e vê um problema que precisa ser investigado.

Fechei os olhos por um instante, tentando manter a calma.

– Eu não estou chamando seu filho de problema.

– Mas está questionando se ele existe da forma que eu estou dizendo.

– Estou tentando descobrir a verdade.

– E eu estou dizendo a verdade.

O silêncio que se seguiu pareceu se alongar entre nós.

Lucy manteve o olhar fixo no meu e percebi que por trás da firmeza dela havia algo mais.

Mágoa.

Não apenas pela situação atual. Mas por algo que vinha sendo acumulado há muito tempo.

E comecei a suspeitar que aquela conversa seria muito mais complicada do que eu havia imaginado.


As palavras de Lucy ficaram pairando entre nós depois daquela acusação. Eu conseguia enxergar a mágoa por trás da ironia, mas aquilo não mudava o fato de que precisávamos lidar com a realidade. Quanto mais aquela situação se arrastasse, mais pessoas acabariam machucadas.

Passei a mão pelo rosto, tentando manter a calma.

– Eu não estou dizendo que você está mentindo.

– Mas está agindo como se eu estivesse – respondeu ela imediatamente.

Lucy cruzou os braços diante do peito e se afastou alguns passos, caminhando até a janela da sala. A luz amarelada iluminava parcialmente seu rosto, mas mesmo dali eu conseguia perceber a tensão em seus ombros.

– Desde que contei sobre a gravidez, ninguém perguntou como eu estou. Ninguém perguntou se eu preciso de alguma coisa. A única preocupação de todos é saber se o bebê é realmente seu.

– Porque isso importa.

Ela soltou uma risada sem humor.

– Claro que importa.

Virei o rosto na direção dela.

– Lucy, se esse bebê for meu, eu vou assumir minhas responsabilidades.

– Responsabilidades.

Ela repetiu a palavra como se fosse algo amargo.

– É engraçado ouvir isso agora.

– O que isso significa?

Lucy se virou para mim.

– Significa que você já escolheu sua família, Jacob. E eu não estou nela.

Aquelas palavras me incomodaram mais do que eu gostaria de admitir.

– Isso não tem nada a ver com a Renesmee.

– Tem tudo a ver com ela.

– Não.

– Tem, sim.

A voz dela finalmente se elevou.

– Porque se eu não estivesse grávida, você não estaria aqui esta noite.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

Eu não tinha como negar aquilo.

Lucy percebeu.

– Viu?

Ela balançou a cabeça lentamente.

– Eu fui conveniente por uma noite e inconveniente pelo resto do tempo.

– Não foi assim.

– Foi exatamente assim.

A discussão começava a sair do controle, e eu sentia a paciência escapar pouco a pouco.

– Então o que você quer que eu faça? – perguntei. – Que eu simplesmente aceite tudo sem questionar? Que eu ignore qualquer exame e apenas assuma uma paternidade sem confirmação?

– Eu quero que você pare de me tratar como uma mentirosa.

– Eu não estou te tratando como uma mentirosa.

– Está me tratando como alguém que precisa provar cada palavra que diz.

Respirei fundo.

– Porque existem muitas coisas em jogo.

– Para você.

Ela apontou para si mesma.

– Porque para mim a única coisa em jogo é meu filho.

Aquela frase me fez endurecer.

– Nosso filho, se os exames confirmarem.

Foi a pior coisa que eu poderia ter dito.

Lucy ficou imóvel por um instante.

Então um sorriso frio surgiu em seus lábios.

– Ah, agora é nosso filho?

Balancei a cabeça.

– Não foi isso que eu quis dizer.

– Não?

Ela se aproximou alguns passos.

– Porque há cinco minutos você estava exigindo exames.

– E continuo exigindo.

– Claro que continua.

Lucy soltou uma risada amarga.

– Sabe de uma coisa, Jacob? Não se preocupe mais.

Franzi a testa.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que vou embora.

Demorei um segundo para entender.

– Embora?

– Da fazenda.

A resposta veio firme.

– Vou embora de Washington se for necessário.

Meu estômago se contraiu imediatamente.

– Lucy, não seja absurda.

– Absurda?

Ela apontou para a própria barriga.

– Eu estou grávida, sendo julgada pela cidade inteira e vendo sua família me tratar como uma ameaça ao casamento de vocês. Talvez ir embora seja a única decisão sensata que tomei nos últimos meses.

– E o bebê?

– O bebê vai comigo.

Dei um passo na direção dela.

– Se essa criança for minha, você não vai me afastar dela.

Lucy me encarou por alguns segundos.

A tristeza em seu olhar apareceu pela primeira vez sem ser escondida pela ironia.

– Você não tem dúvida disso?

A pergunta saiu baixa.

Mais dolorosa do que agressiva.

– Porque até agora parecia apenas um problema que precisava ser resolvido.

– Lucy...

– Não.

Ela ergueu a mão interrompendo-me.

– Chega.

Pela primeira vez desde que cheguei ali, ela parecia cansada.

Profundamente cansada.

– Você fez sua escolha, Jacob. Eu espero sinceramente que você e a Renesmee sejam felizes.

– Isso não é uma escolha entre vocês duas.

– Talvez para você não seja.

Ela abriu a porta da frente.

O gesto foi claro.

Definitivo.

– Vá embora.

– Lucy...

– Vá embora.

Sua voz falhou pela primeira vez.

– Porque, neste momento, eu realmente não quero olhar para você.

Fiquei imóvel por alguns segundos. Havia muitas coisas que eu queria dizer, mas percebi que nenhuma delas seria ouvida.

A discussão não levaria a lugar algum naquela noite.

Então caminhei até a porta.

Antes de sair, ainda voltei o olhar para ela.

Lucy permanecia parada no meio da sala, com os braços cruzados sobre a barriga, como se estivesse tentando proteger a si mesma e ao bebê de tudo o que estava acontecendo.

Naquele momento, tive a estranha sensação de que a situação estava muito mais longe de uma solução do que eu havia imaginado quando deixei a fazenda.