Depois dos parabéns, mal tive tempo de provar o próprio bolo. Entre um abraço e outro, consegui puxar Embry para perto da varanda porque ainda precisava passar algumas orientações sobre a fazenda. Eu não tinha contado a Renesmee o que pretendia fazer, mas minha decisão estava tomada desde a conversa com Mary. Não adiantava continuar exigindo que minha esposa voltasse para uma vida que, naquele momento, não era o que ela queria. Se Nessie precisava ficar em Seattle para terminar Medicina, eu iria para Seattle com ela. A fazenda continuaria sendo minha, eu poderia voltar sempre que fosse necessário, mas não precisava morar ali para acompanhar cada detalhe da administração, principalmente tendo Billy, Sam e Embry em quem confiar.

Embry segurava um copo enquanto me ouvia explicar algumas mudanças que eu queria fazer nos próximos meses.

— O Sam já sabe como quero dividir os novos animais quando chegarem. Você fica responsável pela parte administrativa e pelos contratos, mas qualquer decisão grande vocês me ligam antes de fechar.

Embry arqueou uma sobrancelha.

— Você está falando como se fosse mudar para outro continente.

— Seattle não fica exatamente do outro lado da rua.

— Também não fica do outro lado do mundo.

— Eu sei, mas não quero receber uma ligação dizendo que vocês venderam cinquenta cavalos porque acharam uma boa ideia.

Ele soltou uma risada.

— Você confia muito na gente.

— Confio. Só conheço vocês.

Sam, que estava ao nosso lado, deu um gole na bebida e assentiu.

— Ele tem razão nessa parte.

— Obrigado pelo apoio — Embry respondeu, olhando para ele.

Eu estava prestes a explicar outra coisa quando Mary apareceu e se colocou entre nós com uma expressão impaciente.

— Vocês só podem estar de brincadeira.

Olhei para ela.

— O que foi?

— Tem uma festa acontecendo e vocês estão falando de trabalho.

— Preciso deixar algumas coisas organizadas.

Mary balançou a cabeça. — Você teve o dia inteiro para isso. Além do mais, está tudo pronto.

Parei de falar. — Tudo?

Ela abriu um sorriso. — Tudo. Eu conferi pessoalmente e ficou exatamente como você queria. Então acho que está na hora de parar de bancar o fazendeiro ocupado e colocar seu plano em prática.

Olhei automaticamente na direção de Renesmee. Ela estava sentada perto da varanda com JJ no colo e um prato de bolo diante dela. Mesmo de longe consegui perceber que nosso filho tentava alcançar o prato enquanto ela afastava sua mão.

— E o JJ?

— Eu resolvo.

Rachel surgiu praticamente no mesmo instante, como se estivesse esperando ouvir o nome do sobrinho. — Vou buscar o pequeno Jake e ficar com ele. A Nessie vai ficar sozinha e você terá tempo suficiente para sequestrar sua esposa.

Dei um sorriso — Sequestrar parece um pouco exagerado.

— Considerando que ela não sabe para onde você pretende levá-la, tecnicamente estou certa.

— Não coloca essas ideias na cabeça dela.

Rachel beijou meu rosto. — Relaxa. Vou cuidar do meu sobrinho e você cuida da sua mulher.

Segurei sua mão por um instante antes que se afastasse. — Obrigado.

Ela sorriu. — Depois você me agradece.

Rachel seguiu na direção de Nessie e eu voltei a olhar para Embry e Sam. Os dois estavam com expressões estranhamente sérias. — Que foi?

Sam soltou um suspiro exagerado. — Acho que vou sentir sua falta.

Embry concordou. — Eu também. Quem diria que chegaria o dia em que Jacob Black abandonaria a gente por Seattle.

Revirei os olhos — Eu vou morar em Seattle. Não vou morrer.

Sam colocou a mão no peito. — Para nós é praticamente a mesma coisa.

— Vocês dois são idiotas.

Embry começou a rir. — Quando estiver preso no trânsito e com saudade de cavalo, lembra que escolheu isso.

— Quando eu estiver acordando todos os dias ao lado da minha esposa e do meu filho, prometo lembrar.

Sam levantou o copo. — Nesse caso, não tenho argumento.

Nós três rimos e Embry bateu em meu ombro antes de seguir com Sam até um grupo de amigos que conversava perto da banda. Observei os dois se afastarem e então olhei para Mary.

— Antes de ir, preciso falar com você.

Ela apontou para o próprio peito. — Comigo?

— É.

Olhei ao redor. Havia gente demais por perto e eu preferia não ter aquela conversa no meio da festa. — Vamos andar um pouco.

Mary me acompanhou pela lateral da casa e seguimos por um dos caminhos do jardim. Quanto mais nos afastávamos da música, mais baixo ficava o som das conversas. Caminhamos até uma parte mais tranquila, próxima às árvores que cercavam a propriedade, e parei quando tive certeza de que ninguém ficaria nos interrompendo.

Mary me encarou. — Essa cara séria está me preocupando.

Sorri. — Não é nada ruim.

Ela esperou.

Passei a mão pela nuca antes de continuar. — Eu só queria agradecer.

— Pelo quê?

— Por tudo.

Mary fez uma careta. — Nossa, agora parece despedida.

— Para de brincar e deixa eu falar.

Ela riu e fez um gesto para que eu continuasse.

— Você apareceu aqui justamente quando eu estava conseguindo estragar meu casamento por pura teimosia. Eu passei meses tentando convencer a Nessie de que ela precisava voltar para a fazenda sem parar para ouvir o que ela realmente queria. Você precisou chegar depois de anos longe para me fazer perceber que eu estava cobrando dela mais uma renúncia.

Mary me observou com atenção. — Você teria percebido sozinho.

— Talvez. Mas não sei quanto tempo levaria.

Ela sorriu.

— Então me agradece sendo feliz com sua esposa. Já está ótimo para mim.

Balancei a cabeça. — Ainda assim, obrigado por me ajudar com tudo hoje. Principalmente com o que preparei para ela.

— Isso eu aceito. Mary apontou o dedo para mim. — Porque você me fez trabalhar bastante.

Ri alto — Eu pago suas horas extras.

— Não quero dinheiro. Quero distância da sua esposa por alguns dias.

Franzi a testa.— O quê?

Mary começou a rir. — É melhor você conversar logo com a Renesmee antes que aquela mulher me dê uma surra.

Não consegui segurar a risada. — A Nessie não vai te bater.

— Você não viu como ela olhou para mim durante a dança.

— Ela estava olhando?

Mary arregalou os olhos. — Jacob, se olhar matasse, sua festa teria virado meu velório.

Comecei a rir ainda mais. — Você está exagerando.

— Não estou. E tem mais.

Ela parecia se divertir demais com aquilo.

— Hoje eu fui buscar sua esposa no quarto porque você pediu.

— Eu sei.

— Sabe o que ela estava fazendo quando entrei?

Balancei a cabeça. Mary aproximou-se um pouco, como se fosse contar um grande segredo. — Trocando a fralda do JJ e me xingando.

Minha risada morreu por um instante. — Como é?

— Ela estava tão concentrada falando mal de mim que nem percebeu quando entrei.

Tentei manter a expressão séria, mas foi impossível. — O que ela disse?

Mary cruzou os braços. — Eu acredito que a palavra exata foi oferecida.

Soltei uma gargalhada tão alta que precisei passar a mão pelo rosto. — Ela te chamou de oferecida?

— Chamou. Mary também começou a rir. — E quando percebeu que eu estava atrás dela ficou vermelha até a raiz do cabelo.

Continuei rindo enquanto imaginava a cena. Conhecia Renesmee o suficiente para saber que ela devia ter desejado desaparecer.

— Não ri. A situação é séria.

— Você está rindo também.

— Porque foi engraçado. Mas eu gosto do meu rosto como ele está e pretendo continuar com todos os dentes.

Balancei a cabeça. — Nessie está com ciúmes.

Mary me deu um olhar óbvio. — Finalmente o gênio percebeu.

Respirei fundo, ainda sorrindo. — Desculpa por isso.

— Não precisa pedir desculpa. Para falar a verdade, gostei dela.

— Mesmo depois de ser chamada de oferecida?

— Principalmente depois disso.

Nós dois rimos novamente, Mary então abriu os braços. — Agora vai atrás da sua esposa e resolve a sua vida.

Aproximei-me e a abracei.— Obrigado, irmã.

Ela apertou meus ombros. — Irmãos servem para isso.

Ficamos abraçados apenas alguns segundos antes de nos afastarmos. Eu ainda sorria por causa da história que ela tinha acabado de contar quando percebi que Mary não estava mais olhando para mim.

Seu olhar havia parado em algum ponto atrás do meu ombro.

Virei o rosto e vi Renesmee parada a poucos metros de nós.

Meu coração disparou imediatamente.

Pela expressão dela, não fazia ideia de quanto tinha ouvido, mas certamente tinha visto o abraço. Seus olhos passaram rapidamente de Mary para mim antes que ela levantasse o copo que segurava, como se precisasse justificar a própria presença.

— Nessie?

Ela piscou algumas vezes. — Oi.

Franzi a testa e me virei completamente para ela. — Está tudo bem?

— Está. Eu só vim...Ela olhou para o copo em sua mão.— Procurar água.

Mary abaixou o rosto para esconder um sorriso e eu precisei morder a parte interna da bochecha para não rir também, porque o copo de Nessie estava praticamente cheio.

Ela percebeu no mesmo instante. — Quer dizer, eu já peguei. Só estava andando um pouco.

— Entendi.

Renesmee assentiu depressa. — Então eu vou voltar para a festa.

Ela virou-se antes que eu conseguisse responder. Vi seus primeiros passos apressados e não pensei duas vezes. Alcancei sua mão e envolvi seus dedos com os meus, fazendo-a parar.

— Espera.

Segurei a mão de Nessie antes que ela conseguisse se afastar, e ela parou no mesmo instante, embora tenha demorado alguns segundos para olhar para mim. Mary percebeu a situação antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa e, quando nossos olhos se encontraram, abriu aquele sorriso discreto de quem sabia exatamente o que estava acontecendo.

— Acho que essa é a minha deixa — ela disse, apontando para a festa. — Vou ver se a Rachel ainda está com o pequeno Jake.

Nessie permaneceu em silêncio enquanto Mary passava por nós. Esperei até que ela se afastasse pelo caminho iluminado e então soltei devagar a mão da minha esposa. Renesmee ajeitou os cabelos atrás da orelha e olhou para qualquer lugar que não fosse para mim, apertando o copo entre os dedos enquanto eu tentava entender como uma mulher que enfrentara um tribunal inteiro para defender nosso filho podia ficar tão visivelmente desconcertada por ter me encontrado abraçando uma velha amiga.

— Nessie...

— Eu não queria atrapalhar.

O jeito como ela falou me fez franzir a testa. — Atrapalhar o quê?

Ela finalmente me olhou.— Vocês.

Foi então que entendi. Não era apenas ciúme por causa da dança. Pela expressão dela, Renesmee tinha interpretado aquele abraço de uma maneira completamente diferente. Dei um passo em sua direção, mas ela imediatamente continuou.

— Não precisa explicar, Jacob. Eu entendi.

— Não, você não entendeu.

— Entendi sim.

— Nessie, eu e a Mary...

— Eu sei que vocês tiveram alguma coisa.

Parei.

— Quem contou?

— Isso importa?

Ela soltou uma risada nervosa e desviou os olhos. — A Rachel me contou que a Mary foi seu primeiro amor. Que vocês cresceram juntos e que todo mundo achava que iam se casar. Também me contou que ela foi embora porque não queria ficar presa à fazenda.

Passei a mão pelo rosto.

Agora eu começava a entender por que minha esposa tinha passado o dia inteiro olhando para Mary como se quisesse enterrá-la em algum lugar dos meus campos. — A Rachel também contou que isso aconteceu muitos anos atrás?

— Não faz diferença.

— Faz bastante diferença.

— Jacob, eu vi vocês.

Ela falou mais rápido e, quando tentei interromper, simplesmente continuou. — Eu vi vocês dançando. Passei o dia vendo ela tocar em você, andar atrás de você, chamar você de Jake como se...

— Como praticamente todo mundo me chama?

— Não me interrompe.

Quase ri. — Você não está me deixando falar.

— Porque eu já sei o que você vai dizer.

— Duvido muito.

Renesmee respirou fundo e finalmente deixou escapar aquilo que parecia estar prendendo desde que chegou. — Talvez eu tenha esperado demais.

Meu sorriso desapareceu. — Esperado demais para quê?

Ela baixou os olhos.— Para perceber o que estava fazendo com a gente.

Dessa vez não tentei interromper.

Nessie apertou os dedos ao redor do copo antes de continuar, e sua voz perdeu um pouco da irritação. — Eu passei seis meses em Seattle vivendo como se fosse normal meu marido morar aqui e eu morar lá. Toda vez que você tentava conversar comigo sobre voltar, eu ficava irritada porque parecia que você não entendia que eu queria retomar a faculdade, queria voltar aos meus planos, queria ser mais do que alguém que passaria o resto da vida dentro dessa fazenda. Só que eu também não tentei entender você.

— Nessie...

— Deixa eu terminar. Ela respirou fundo. — Você vinha para Seattle sempre que podia. Ligava todos os dias para saber do JJ, perguntava de mim, tentava ficar perto e eu me acostumei com isso. Eu sabia que você voltaria. Sabia que continuaria me procurando e acho que, em algum momento, comecei a tratar isso como uma certeza.

Seus olhos encontraram os meus novamente. — Eu não fui sua esposa nesses últimos meses, Jacob.

— Não fala isso.

— Mas é verdade. Eu te abandonei aqui.

— Você não me abandonou.

— Abandonei sim.

A voz dela começou a ficar embargada. — Eu peguei nosso filho e fiquei em Seattle enquanto você continuou aqui sozinho. E agora a Mary voltou e eu passei o dia inteiro vendo vocês juntos e percebi que talvez você tenha cansado de esperar por mim. Talvez ela tenha chegado justamente quando você precisava de alguém e eu...

— Renesmee.

— E eu não posso nem culpar você porque fui eu que...

Ela continuaria falando, e eu tinha certeza de que continuaria por vários minutos se deixasse, parei de tentar explicar. Dei um passo à frente, segurei seu rosto entre minhas mãos e a puxei para mim.

Nessie mal teve tempo de respirar antes que meus lábios encontrassem os dela.

Durante o primeiro segundo, senti seu corpo ficar tenso pela surpresa, mas logo seus dedos se fecharam na frente da minha camisa e ela correspondeu ao beijo. Fechei os olhos e a trouxe ainda mais para perto, passando uma das mãos por sua cintura enquanto a outra permanecia em seu rosto. Fazia tempo demais que não a beijava daquele jeito, sem pressa, sem uma despedida esperando algumas horas depois, sem o peso de uma discussão entre nós. Senti o gosto doce do bolo em seus lábios e sorri contra sua boca quando ela se ergueu um pouco na ponta dos pés para se aproximar mais.

Nessie soltou o copo em algum lugar sobre o banco ao nosso lado e passou os braços ao redor do meu pescoço. O beijo se tornou mais demorado, carregado de toda a saudade que os dois fingiam controlar havia meses. Minha mão deslizou por suas costas e a apertei contra meu corpo, sentindo seu coração acelerado quase no mesmo ritmo do meu. Quando tentei me afastar por um instante para respirar, ela voltou a me beijar e aquilo acabou arrancando uma risada baixa de mim.

Só então nos afastamos.

Mantive meu rosto perto do dela e encostei minha testa na sua. Nessie ainda segurava minha camisa e respirava um pouco mais rápido enquanto eu acariciava sua bochecha com o polegar.

— Agora você vai me deixar falar?

Ela fechou os olhos, claramente envergonhada. — Talvez.

Sorri.— Eu amo você.

Seus olhos se abriram.— Jake...

— Não. Agora é minha vez.

Ela ficou quieta.

— Eu amo você, Renesmee. Não existe Mary, Lucy, Heidi ou qualquer outra mulher nesse mundo que mude isso. A Mary é minha amiga. É praticamente minha irmã e aquele abraço que você viu foi porque eu estava agradecendo a ela por ter me ajudado com uma coisa.

Nessie franziu levemente a testa.v— Que coisa?

Sorri e passei os dedos por seus cabelos.— Você vai descobrir.

— Jacob...

— Confia em mim.

Ela continuou me olhando, ainda confusa.

Peguei sua mão e entrelacei nossos dedos.— Vem comigo.

— Para onde?

Dei um passo para trás sem soltar sua mão.

— Só vem comigo, amor.