Notas iniciais
Capítulo pequeno, para complementar o anterior pois ia ficar longo demais, o que acham que Rachel e Mary vão aprontar na festa? Próximo capitulo vamos saber sobre a pespectiva da Nessie.


Acordei antes mesmo do despertador tocar. Durante alguns segundos permaneci deitado, olhando para o teto do quarto enquanto tentava lembrar quando havia sido a última vez que realmente dormira uma noite inteira. A ansiedade pelo aniversário, a conversa com Mary, o que aconteceu com Embry e, principalmente, a expectativa de reencontrar Renesmee e JJ ocupavam espaço demais na minha cabeça para que o descanso fosse completo.

Peguei o celular sobre o criado-mudo quase por impulso.

Meu primeiro pensamento foi ligar para Nessie.

Queria saber como ela havia passado a noite, se JJ dormira bem, se ela já estava arrumando as malas ou se tinha desistido de vir. Bastava tocar no nome dela para ouvir sua voz e aliviar um pouco aquela inquietação.

Meu dedo chegou a parar sobre o contato.

Então me lembrei da conversa com Rachel e Mary.

Fechei os olhos por um instante.

— Que ideia maluca...

Murmurei para mim mesmo.

Mesmo achando aquilo um absurdo, resolvi fazer um esforço. Em vez de ligar, abri nossa conversa e escrevi apenas uma mensagem.

"Bom dia. Como o Bebê Jake acordou? O jatinho estará esperando vocês às dez horas."

Li a mensagem duas vezes.

Era seca demais para o meu gosto.

Apaguei a primeira versão e acrescentei apenas um coração no final.

Sorri sozinho.

Aquilo já era o máximo de indiferença que eu conseguiria demonstrar.

Guardei o celular no bolso, troquei de roupa e desci para o café da manhã.

Assim que entrei na sala, percebi imediatamente que alguma coisa havia acontecido. Billy permanecia sentado na cabeceira da mesa com a xícara de café praticamente intocada. Sarah estava ao lado dele, segurando as próprias mãos sobre o colo. Embry permanecia de pé perto da janela.

O silêncio entre os três dizia muito mais do que qualquer palavra.

Embry foi o primeiro a me notar.

Nossos olhares se encontraram por alguns segundos.

Aproximei-me devagar.

— Como você está?

Ele soltou um pequeno suspiro.

— Ainda tentando entender tudo.

Sua voz estava rouca, consequência da bebida da noite anterior e, provavelmente, das poucas horas de sono. Ele olhou rapidamente para Billy e depois para Sarah.

— Eu conversei bastante com eles.

Ninguém interrompeu.

Embry passou a mão na barba antes de continuar.

— Acho que preciso de um tempo.

Assenti imediatamente.

— Ninguém vai te pressionar.

Ele fez um leve movimento de cabeça.

— Não estou com raiva de vocês.

Ele olhou para Billy.

— Nem de você.

Depois voltou-se para Sarah.

— Muito menos da senhora.

Vi minha mãe enxugar discretamente uma lágrima.

Embry respirou fundo.

— Só preciso organizar as coisas aqui dentro.

Levantou a mão e apontou para a própria cabeça.

— Porque ainda parece que estou vivendo a vida de outra pessoa.

Aproximei-me dele.

— Quando quiser conversar...

Ele sorriu de maneira cansada.

— Eu sei.

Ficamos alguns segundos em silêncio e então Embry deu um passo à frente e me abraçou.

Foi um abraço rápido, mas sincero.

Antes de se afastar, abriu um pequeno sorriso.

— Feliz aniversário...

Fez uma breve pausa.

— Irmão.

Aquela última palavra teve um peso diferente.

Olhei diretamente para ele.

— Você sempre foi meu irmão.

Coloquei a mão em seu ombro.

— Muito antes de qualquer um descobrir a verdade.

Os olhos dele ficaram marejados.

— Eu sei.

Assentiu devagar.

— E isso nunca vai mudar.

Embry pegou a chave da caminhonete sobre a mesa.

— Vou dar uma volta.

Billy apenas concordou com um movimento de cabeça. Nós o acompanhamos com o olhar até a porta se fechar.

O silêncio voltou a dominar a sala.

Puxei uma cadeira e me sentei diante dos meus pais.

— Como foi a conversa?

Billy demorou alguns segundos antes de responder.

— Difícil- Baixou os olhos para a xícara de café.

— Acho que foi a conversa mais difícil da minha vida.

Sarah soltou um suspiro profundo.

— Quando essa família vai voltar a ter um pouco de paz?

Olhei para os dois.

Durante meses tentei resolver tudo com calma, esperando o momento certo para cada decisão. Mas, sentado naquela mesa, percebi que o momento certo nunca chegaria sozinho.

Levantei-me da cadeira.

— Eu vou cuidar disso.

Billy ergueu a cabeça.

— O que você pretende fazer?

Olhei pela janela em direção aos campos da fazenda. Minha resposta saiu firme, sem qualquer hesitação.

— Vou fazer o que já deveria ter feito há meses.


Saí da fazenda logo depois do café. Durante todo o caminho até a propriedade dos Clearwater, tentei organizar o que diria a Lucy. Passei meses adiando aquela conversa porque acreditava que agir com cautela era a melhor maneira de proteger Renesmee. Depois do que aconteceu com Embry, compreendi que meu silêncio apenas permitia que os problemas crescessem. Havia chegado a hora de colocar um fim naquela situação, mesmo que isso significasse criar um novo conflito.

Estacionei a caminhonete diante da casa pouco antes das oito da manhã.

Harry Clearwater estava alguns metros adiante, consertando uma cerca de madeira. Assim que ouviu o barulho do motor, apoiou o martelo sobre um dos mourões e voltou o rosto na minha direção.

Desci da caminhonete e caminhei até ele.

— Bom dia, Harry.

Ele estendeu a mão e apertou a minha.

— Bom dia, Jake.

Depois sorriu discretamente.

— O que o filho do Billy Black faz tão cedo na minha casa?

Respirei fundo antes de responder.

— Vim conversar com a Lucy.

Harry me observou por alguns segundos.

Parecia já saber exatamente qual era o motivo da visita.

Soltou um suspiro cansado e passou a mão na nuca.

— Eu imaginei que você apareceria.

Assenti em silêncio.

Ele apontou para a casa.

— Vamos entrar.

Acompanhei Harry até a varanda. Assim que atravessamos a porta, encontrei Lucy na sala. Ela segurava uma toalha de prato nas mãos e parecia terminar de enxugar alguns copos que estavam sobre a mesa.

Ao me ver, ficou completamente imóvel.

O susto em seu rosto era evidente.

— Jacob...

Harry falou antes que qualquer um de nós dissesse mais alguma coisa.

— O Jake veio conversar com você.

Lucy deixou a toalha sobre a mesa sem desviar os olhos de mim.

Naquele instante ouvi passos vindos do corredor.

Sue apareceu logo em seguida.

Assim que percebeu minha presença, cruzou os braços.

— Eu sabia que você viria.

Seu tom de voz carregava o mesmo ressentimento das últimas vezes que nos encontramos.

Ela caminhou até ficar ao lado da filha.

— Só acho curioso o tempo que você levou.

Continuei em silêncio.

Sue não esperava resposta.

— Quando sua esposa empurrou a minha filha da escada e quase matou meu neto, você não apareceu aqui para saber como ela estava.

Senti a irritação subir de uma vez.

Durante meses ouvi acusações, provocações e mentiras tentando manter a calma por causa de Renesmee.

Naquela manhã, porém, eu já não tinha disposição para aquilo.

Ergui a voz pela primeira vez.

— Chega!

O silêncio tomou conta da sala.

Até Harry voltou o rosto para mim, surpreso com meu tom, olhei diretamente para Sue.

— Eu não vim discutir o que aconteceu naquele dia.

Depois voltei minha atenção para Lucy.

— Vim comunicar uma decisão.

Ela permaneceu imóvel e eu respirei fundo.

— Quero você fora das minhas terras até amanhã de manhã.

Lucy piscou lentamente, como se tivesse dificuldade para acreditar no que acabara de ouvir.

Sue foi a primeira a reagir.

— Você não pode fazer isso.

Olhei novamente para ela.

— Posso.

Minha voz voltou a ficar controlada.

— A casa onde Lucy mora pertence à fazenda Black. O contrato de trabalho dela termina hoje.

Lucy finalmente encontrou a própria voz.

— Você está me demitindo?

Assenti.

— Estou.

Ela deu uma pequena risada, incrédula.

— Depois de tudo...

Balancei a cabeça.

— Depois de tudo o que aconteceu, eu ainda tentei evitar essa decisão. Fiz isso porque não queria criar mais problemas para a minha esposa.

Dei um passo na direção dela.

— Mas ontem você ultrapassou qualquer limite quando revelou um segredo que não lhe pertencia e destruiu a vida de uma pessoa apenas para me atingir.

Lucy sustentou meu olhar.

— Eu só contei a verdade.

— Não.

Minha resposta saiu imediata.

— Você usou a verdade como arma.

O silêncio voltou a dominar a sala.

Harry permaneceu parado ao lado da porta, observando tudo sem interferir. Sue respirava com dificuldade, claramente tentando controlar a própria raiva.

Mantive os olhos fixos em Lucy.

— Até amanhã de manhã você terá tempo suficiente para retirar seus pertences da casa.

Ela apertou os lábios.

— E se eu me recusar?

Não desviei o olhar.

— Então o advogado da fazenda tratará do restante.

A expressão dela mudou pela primeira vez.

Já não havia ironia, apenas a certeza de que eu não voltaria atrás naquela decisão.