Os seis meses que se seguiram ao nascimento de JJ passaram depressa demais. Meu filho já não era o pequeno recém-nascido que adormecia nos meus braços durante horas. Agora sorria sempre que me via entrar pela porta, esticava os braços na minha direção e balbuciava sons que, na minha cabeça de pai completamente apaixonado, já pareciam verdadeiras conversas. Todos na família o chamavam de Jacob Black Junior quando queriam implicar comigo, mas, dentro de casa, ele havia se tornado apenas Bebê Jake. O apelido surgiu naturalmente e, antes que percebêssemos, até meu sogro o chamava assim.

Apesar da alegria que JJ trouxe para nossas vidas, os últimos dois meses não foram fáceis. Depois da última conversa que tive com Renesmee sobre voltarmos para a fazenda, alguma coisa mudou entre nós. Não brigávamos. Não levantávamos a voz um para o outro. Pelo contrário. Continuávamos dividindo os mesmos momentos, cuidando do nosso filho juntos, jantando com a família Cullen e conversando sobre assuntos comuns. Mas havia uma distância silenciosa entre nós que nenhum dos dois conseguia diminuir.

Eu compreendia o medo dela.

Toda vez que o assunto voltava à fazenda, os olhos de Renesmee perdiam o brilho. Bastava mencionar Washington para que ela se lembrasse da escada, da queda de Lucy, das acusações de Sue e do dia em que quase perdeu nosso filho. Ela dizia que não conseguiria viver no mesmo lugar onde tudo aquilo aconteceu e, principalmente, não suportaria cruzar novamente com Lucy pelos corredores da propriedade.

O problema era que ela também não compreendia minha posição. Mais de uma vez perguntou por que eu simplesmente não demitia Lucy.

À primeira vista, parecia a solução mais simples.

Eu também gostaria que fosse.

Mas conhecia Lucy tempo suficiente para saber que uma decisão precipitada poderia transformar um problema enorme em algo muito pior. Ela ainda sustentava a versão de que Renesmee a havia empurrado. Se eu a expulsasse da fazenda logo depois da perda do bebê, daria a impressão de que estava tentando comprar seu silêncio ou afastá-la antes que denunciasse alguma coisa. Bastava um advogado disposto a explorar aquela situação para transformar a vida da minha esposa em um novo pesadelo.

Nunca consegui explicar isso a Renesmee da maneira certa.

Toda vez que tentava, ela entendia apenas uma coisa, que eu estava protegendo Lucy. E essa era justamente a última coisa que eu queria fazer.

Na verdade, cada decisão que tomei durante aqueles meses tinha apenas um objetivo.

Proteger minha esposa.

Mesmo que ela nunca entendesse isso.

Às vezes eu me perguntava qual teria sido a escolha correta. Se deveria ter enfrentado as consequências e mandado Lucy embora ou se estava certo em agir com cautela. Quanto mais pensava, mais tinha a sensação de estar preso entre dois caminhos igualmente ruins.

Naquela manhã, procurei refúgio onde sempre encontrava algum equilíbrio.

Os estábulos.

Sam e Embry me ajudavam a acompanhar o treinamento de dois cavalos jovens que seriam preparados para as competições da próxima temporada. O sol ainda não havia alcançado o ponto mais alto do céu e uma brisa fria atravessava o campo enquanto observávamos um dos animais completar o percurso de obstáculos pela primeira vez.

Embry abriu um sorriso satisfeito.

— Esse vai dar trabalho para os concorrentes.

Assenti.

— Ele aprende rápido.

Sam cruzou os braços enquanto acompanhava o cavalo diminuir o trote.

— Herdou o temperamento da mãe.

Sorri discretamente.

— Espero que tenha herdado só isso.

Os três rimos.

Conversamos durante alguns minutos sobre alimentação, treinamento e o cronograma das próximas semanas. Era um assunto que normalmente conseguia ocupar completamente minha cabeça, mas, naquela manhã, nem os cavalos estavam conseguindo afastar meus pensamentos.

Sam percebeu antes dos outros.

Olhou para mim por alguns segundos e depois perguntou:

— Você não ouviu uma palavra do que eu acabei de falar, ouviu?

Voltei a atenção para ele.

— Desculpa.

Embry soltou uma risada.

— Acontece.

Balancei a cabeça.

— Minha cabeça anda em outro lugar.

Antes que qualquer um dos dois respondesse, ouvi passos rápidos se aproximando pela estrada de acesso aos estábulos.

Rachel apareceu poucos instantes depois.

Ela sorriu assim que nos encontrou.

— Finalmente achei vocês.

Embry foi o primeiro a brincar.

— Está procurando ajuda para carregar alguma coisa?

Rachel balançou a cabeça.

— Não.

Olhou diretamente para mim.

— Vim procurar o aniversariante.

Demorei alguns segundos para lembrar.

Sorri sem entusiasmo.

— Eu tinha até esquecido.

Ela aproximou-se.

— O que significa que está ficando velho.

Embry concordou imediatamente.

— Faz sentido.

Olhei para os dois.

— Vocês combinaram isso?

Rachel riu.

— Na verdade, vim avisar que a mãe está organizando um jantar.

Balancei a cabeça antes mesmo que ela terminasse.

— Não precisa.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

Passei os olhos pelos campos da fazenda antes de responder.

— Não quero festa este ano.

Rachel permaneceu em silêncio.

Respirei fundo.

— Sinceramente... não tenho motivo nenhum para comemorar.

Rachel ficou me observando por alguns segundos antes de abrir um sorriso que denunciava que ela escondia alguma coisa.

— Você vai ter que repetir isso para a visita que acabou de chegar.

Franzi a testa.

— Visita?

Ela assentiu.

— Achei melhor não estragar a surpresa.

Meu coração acelerou por um instante.

A primeira imagem que surgiu na minha cabeça foi Renesmee.

Pensei que talvez ela tivesse mudado de ideia, decidido aparecer de surpresa com JJ ou simplesmente sentido saudade. Cheguei até a imaginar meu filho engatinhando pela sala da fazenda enquanto Bella reclamava que eu o estava enchendo de terra antes mesmo de aprender a andar.

Rachel percebeu exatamente o que eu estava pensando.

Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela sorriu de lado.

— Não cria expectativa.

Respirei fundo.

— Então quem é?

— A Mary acabou de chegar.

Parei por um segundo.

Fazia tempo que não ouvia aquele nome.

Um sorriso espontâneo surgiu no meu rosto.

— A Mary?

Rachel confirmou.

— Disse que resolveu aparecer justamente no dia do seu aniversário.

Balancei a cabeça, ainda sem acreditar.

— Aquela mulher continua aparecendo quando bem entende.

Embry deu uma risada.

— A famosa amiga de infância?

Olhei para ele.

— A própria.

Sam deu um leve empurrão no meu ombro.

— Vai logo antes que ela vá embora.

Olhei novamente para os dois.

— Conseguem terminar por aqui?

Embry fez um gesto em direção aos cavalos.

— Pode deixar. Se algum deles resolver fugir hoje, eu corro atrás.

Sorri pela primeira vez naquela manhã.

— Obrigado.

Retirei as luvas de couro, lavei rapidamente as mãos na torneira próxima aos estábulos e acompanhei Rachel pelo caminho que levava até a casa principal.

Enquanto caminhávamos, tentei lembrar quanto tempo fazia desde a última vez que tinha visto Mary.

Ela sempre fora assim.

Passava meses viajando, desaparecia sem avisar ninguém e, quando menos esperávamos, surgia na fazenda como se tivesse saído dali na semana anterior. Crescemos juntos correndo por aqueles mesmos campos, aprendendo a montar a cavalo e inventando competições absurdas para descobrir quem conseguia atravessar o riacho mais depressa. Durante muitos anos ela foi praticamente mais uma integrante da família Black.

— Ela continua morando em Montana? — perguntei.

Rachel assentiu.

— Pelo que contou para a mãe, sim. Mas parece que resolveu tirar alguns dias de folga.

Subimos os últimos degraus da varanda.

Assim que abri a porta da sala, encontrei Sarah conversando animadamente no sofá.

Sentada ao lado dela estava Mary.

Ela levantou os olhos na mesma hora.

Continuava praticamente igual à última vez que nos vimos. Os cabelos castanhos permaneciam longos, presos em uma trança sobre um dos ombros, e o sorriso era exatamente o mesmo da menina que costumava me desafiar para corridas a cavalo quando éramos crianças.

Cruzei os braços e balancei a cabeça, fingindo indignação.

— Olha só quem resolveu aparecer.

Ela abriu um sorriso ainda maior.

— Eu sabia que você diria isso.

Aproximei-me do sofá.

— Quem é vivo sempre aparece.

Mary levantou-se.

— Demorei um pouco, mas apareci.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela me abraçou com força.

Retribuí o abraço rindo.

— Faz quanto tempo?

Ela afastou-se apenas o suficiente para me olhar.

— Tempo demais.

Sarah observava a cena com um sorriso satisfeito.

— Eu disse que vocês iam começar a conversar exatamente de onde pararam.

Mary concordou.

— Porque com o Jacob nunca existe meio-termo. Ou a gente passa meses sem se ver ou passa horas colocando a conversa em dia.

Olhei para ela com um sorriso sincero.

— Então é melhor você sentar.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Por quê?

Puxei uma poltrona para perto do sofá.

— Porque muita coisa aconteceu desde a última vez que você resolveu dar as caras por aqui.


Saímos da casa sem pressa. O fim da tarde deixava a fazenda com aquele tom dourado que sempre me fazia lembrar da infância. O vento balançava as copas das árvores, alguns cavalos pastavam tranquilamente nos piquetes e, ao longe, era possível ouvir o barulho de um trator trabalhando em uma das plantações.

Mary caminhava ao meu lado observando tudo com atenção.

— Confesso que senti falta deste lugar.

Sorri.

— Você sempre diz isso quando volta.

Ela deu de ombros.

— Porque é verdade. Só não nasci para viver parada.

— Isso nunca foi novidade.

Ela riu.

— Ainda bem que você lembra.

Seguimos andando pela estrada de terra que levava aos estábulos. De vez em quando algum funcionário nos cumprimentava ao passar, e Mary respondia como se ainda morasse ali. Era curioso como algumas pessoas nunca deixavam de pertencer àquele lugar.

Ela respirou fundo antes de voltar a falar.

— Mas realmente muita coisa aconteceu desde a última vez que nos vimos.

Assenti.

— Aconteceu.

— Soube do seu divórcio com a Heidi.

Olhei para a cerca de madeira à nossa frente.

— Aquilo já era esperado.

Mary concordou lentamente.

— Para falar a verdade, eu sabia que isso aconteceria cedo ou tarde.

Voltei o olhar para ela.

— Sabia?

— Sabia.

Ela respondeu com absoluta naturalidade.

— O casamento de vocês estava desgastado havia muito tempo. Todo mundo percebia isso, menos vocês dois.

Dei uma pequena risada.

— Acho que você tem razão.

Continuei caminhando em silêncio durante alguns metros antes de completar:

— Às vezes penso que simplesmente não nasci para casamento.

Mary arqueou uma sobrancelha.

— E por que está dizendo isso?

Respirei fundo.

— Porque, do jeito que as coisas andam... talvez eu esteja caminhando para outro divórcio.

Ela parou de andar.

Esperei alguns passos até perceber que ela não estava mais ao meu lado.

Virei-me.

Mary cruzou os braços e balançou a cabeça em reprovação.

— Não fala uma besteira dessas.

— Não é besteira.

Ela voltou a caminhar, agora um pouco mais devagar.

— É, sim.

Olhou diretamente para mim.

— Pelo que você acabou de me contar, sua esposa não deixou de amar você.

Permaneci em silêncio.

— Ela só não quer voltar para a fazenda.

— Não é tão simples.

— Então me explica.

Passei a mão na nuca.

— Eu quero meu filho crescendo aqui. Quero que ele aprenda a montar a cavalo, que corra por esses campos, que tenha a infância que eu tive.

Mary ouviu tudo sem interromper.

Quando terminei, ela demorou alguns segundos antes de responder.

— E a Renesmee?

Franzi a testa.

— O que tem ela?

— Você já parou para pensar no que ela queria antes da vida dela virar de cabeça para baixo?

A pergunta me fez diminuir o passo.

Mary continuou falando com calma.

— Eu não conheço a sua esposa. Nunca conversei com ela. Tudo o que sei foi o que você acabou de me contar.

Ela olhou para os campos ao redor.

— Mas uma coisa ficou muito clara.

Esperei que continuasse.

— Ela é muito jovem.

Assenti discretamente.

— E, de uma hora para outra, a vida dela mudou completamente.

Não consegui responder.

— Ela descobriu uma gravidez inesperada, mudou de cidade, foi morar na sua fazenda, casou, enfrentou um processo judicial, sofreu acusações horríveis, quase perdeu o filho e agora tem um bebê de seis meses.

Ela voltou a me encarar.

— Você percebe que praticamente todas essas mudanças aconteceram porque ela decidiu acompanhar você?

As palavras dela ficaram ecoando na minha cabeça.

Nunca tinha parado para organizar os acontecimentos daquela forma.

Mary sorriu de maneira compreensiva.

— Não estou dizendo que você fez alguma coisa errada.

Ela colocou a mão no meu braço.

— Só acho que a Renesmee já cedeu muitas vezes.

Olhei novamente para os piquetes.

O vento fazia a grama se mover lentamente.

— Ela gosta daqui.

— Eu acredito.

Mary respondeu.

— Mas gostar da fazenda e conseguir morar nela depois de tudo o que aconteceu são coisas completamente diferentes.

Ficamos alguns instantes em silêncio.

Por fim, olhei para ela.

— O que exatamente você está sugerindo?

Mary sorriu.

— Que você pare de pensar apenas como fazendeiro.

Esperei.

— E passe a pensar como marido.

Franzi a testa.

Ela deu de ombros.

— Você administra empresas, fazendas e investimentos em vários lugares. Tem condições de trabalhar de qualquer cidade durante boa parte da semana.

Assenti.

— Tenho.

Ela abriu um sorriso.

— Então compra uma casa em Seattle.

Parei de caminhar.

Mary continuou falando com a mesma tranquilidade.

— Continua vindo para a fazenda quando for necessário, supervisiona o trabalho, passa alguns dias aqui, mas leva sua família para um lugar onde a Renesmee consiga respirar sem lembrar daquele acidente todos os dias.

Olhei para ela sem dizer nada.

— Às vezes a gente passa tanto tempo tentando convencer quem ama a dar mais um passo que esquece de perguntar se não chegou a nossa vez de caminhar também.

Ela sorriu de lado.

— Compra uma casa em Seattle, Jacob.

Depois deu um leve empurrão no meu ombro, exatamente como fazia quando éramos adolescentes.

— E vai ser feliz com a sua esposa e com o seu filho.