O pai do meu bebê
73 Jacob
A viagem de volta para a fazenda foi a mais longa que já fiz, embora conhecesse cada curva daquela estrada desde menino. As palavras de Lucy não saíam da minha cabeça. Eu revivia aquela conversa no hospital ao mesmo tempo em que lembrava da expressão de Renesmee quando cheguei à mansão. Ela estava ajoelhada ao lado da escada, completamente desesperada, repetindo entre lágrimas que havia tentado segurar Lucy antes da queda. Não havia maldade em seu rosto, apenas culpa por não ter conseguido evitar o acidente. As duas versões não se encaixavam, e quanto mais eu tentava encontrar uma explicação, mais confuso me sentia.
Após uma breve conversa, Renesmee já dormia. A luz do abajur iluminava suavemente seu rosto, e uma das mãos permanecia repousada sobre a barriga, como fazia quase todas as noites. Parei alguns instantes apenas observando aquela cena. Era difícil acreditar que aquela mulher, que conversava com nosso filho antes mesmo de ele nascer e se emocionava cada vez que ele se mexia, pudesse empurrar outra gestante por ciúmes. Aquela imagem simplesmente não combinava com a Renesmee que eu conhecia.
Deitei-me ao seu lado com cuidado para não acordá-la. Ela se aproximou instintivamente durante o sono, apoiando a cabeça sobre meu peito, e eu passei a mão por seus cabelos como fazia todas as noites. Permaneci acordado por horas, olhando para o teto do quarto enquanto ouvia sua respiração tranquila. Em alguns momentos pensei em acordá-la e contar o que Lucy havia dito no hospital. Em outros, concluía que aquilo apenas aumentaria sua angústia sem resolver absolutamente nada. Se havia uma verdade escondida naquela história, eu precisava descobri-la antes de permitir que aquela acusação destruísse a paz que ainda restava dentro daquela casa.
Quando a primeira luz da manhã atravessou as cortinas, eu ainda não havia conseguido dormir. Levantei-me devagar, afastando cuidadosamente o braço de Renesmee para não interromper seu descanso. Ela apenas mudou de posição, abraçando o travesseiro que eu deixara no lugar, e continuou dormindo serenamente. Aproximei-me da cama uma última vez, beijei sua testa com delicadeza e saí do quarto em silêncio.
O cheiro de café recém-passado já tomava conta da casa quando entrei na sala de jantar. Sarah organizava a mesa, como fazia todas as manhãs, e sorriu ao me ver.
— Bom dia, meu filho.
Aproximei-me e retribuí o abraço que ela me deu.
— Bom dia, mãe.
Ela segurou meu rosto por um instante e me observou com atenção.
— Você está exausto.
Sorri sem convicção.
— Acho que meu rosto está me entregando.
Antes que ela dissesse qualquer outra coisa, Billy entrou na sala conduzindo a cadeira de rodas, seguido por Rachel e Embry, que conversavam sobre alguns reparos que precisariam ser feitos na cerca da parte norte da fazenda. A conversa cessou naturalmente quando me viram sentado à mesa.
— Dormiu alguma coisa? — Perguntou Billy enquanto se acomodava.
Balancei a cabeça.
— Muito pouco.
Sarah serviu uma xícara de café e a colocou diante de mim.
— Você passou a noite inteira acordado, não passou?
Peguei a xícara entre as mãos, mas demorei alguns segundos antes de responder.
— Não consegui desligar a cabeça.
Billy percebeu imediatamente que havia algo além do cansaço.
— Aconteceu alguma coisa no hospital?
Olhei para cada um deles antes de falar. Não fazia sentido esconder aquilo da minha família.
— A Lucy conversou comigo quando acordou da cirurgia.
Rachel franziu a testa.
— E como ela está?
— Muito abalada.
Minha voz saiu mais baixa.
— Ela chorou o tempo todo por causa do bebê.
Ninguém interrompeu.
Continuei olhando para o café enquanto completava a frase que vinha pesando desde a noite anterior.
— Depois ela disse que a Renesmee a empurrou da escada.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Embry foi o primeiro a reagir.
— O quê?
Assenti lentamente.
— Foi isso que ela contou.
Sarah fechou os olhos por um instante, claramente tentando controlar a própria indignação.
Billy permaneceu em silêncio, esperando que eu continuasse.
Respirei fundo antes de apoiar os cotovelos sobre a mesa.
— Eu passei a noite inteira pensando nisso, tentando entender o que aconteceu naquela casa. Ouvi a versão da Lucy, mas também vi a Renesmee completamente desesperada, chorando e repetindo que tentou segurá-la. Conheço minha esposa. Sei quem ela é. A Renesmee jamais empurraria uma mulher grávida escada abaixo, ainda mais sabendo o que é carregar um filho que podia ser meu.
Minha voz saiu firme pela primeira vez desde que comecei a falar.
— Aquilo foi um acidente. Eu não sei exatamente como aconteceu, mas tenho absoluta certeza de que não foi da forma como a Lucy descreveu.
Billy assentiu lentamente.
— Eu penso exatamente da mesma maneira.
Sarah respirou fundo e segurou minha mão sobre a mesa.
— Então descubra o que realmente aconteceu, meu filho. Porque, enquanto isso não vier à tona, essa acusação vai destruir duas famíliasO silêncio que tomou conta da mesa depois das minhas palavras durou apenas alguns segundos. Billy parecia refletir sobre tudo o que havia acabado de ouvir, enquanto Sarah mantinha a mão sobre a minha, como se tentasse transmitir um pouco da tranquilidade que eu mesmo não conseguia encontrar. Rachel e Embry também estavam visivelmente preocupados. Todos conheciam Renesmee o suficiente para saber que aquela acusação não combinava com a mulher que vivia naquela casa, mas também entendiam que a perda de um bebê tornava qualquer situação ainda mais delicada.
Billy apoiou os braços na cadeira de rodas e falou com a serenidade de quem já havia enfrentado muitos conflitos na vida.
— Antes de qualquer julgamento, precisamos descobrir exatamente o que aconteceu naquela escada. A Lucy acabou de passar por um trauma enorme e a Renesmee também. Nenhum de nós estava presente para afirmar qualquer coisa.
Assenti lentamente.
— É exatamente isso que está me tirando o sono. Eu confio na Renesmee, mas preciso entender por que a Lucy acredita nessa versão. Alguma coisa aconteceu ali que ainda não conseguimos enxergar.
Sarah abriu a boca para responder, mas a conversa foi interrompida pelo barulho da porta principal sendo aberta com violência.
Todos voltamos o rosto na mesma direção.
Sue entrou na sala sem pedir licença, caminhando com passos rápidos e o rosto completamente tomado pela revolta.
Sarah levantou-se imediatamente.
— Você perdeu o juízo? O que pensa que está fazendo entrando na minha casa desse jeito?
Sue sequer olhou para ela.
— Vim pedir justiça.
A tensão tomou conta da sala em poucos segundos.
— Justiça? — Sarah respondeu, indignada. — Justiça não se faz invadindo a casa dos outros.
Foi então que Sue finalmente voltou os olhos para mim.
Seu semblante era o de uma mãe consumida pela dor.
— A mulher que você trouxe para dentro desta família é uma criminosa.
Levantei-me imediatamente.
— Cuidado com o que diz.
Ela continuou como se não tivesse me ouvido.
Falava da perda do neto, do sofrimento de Lucy e da convicção de que tudo aquilo havia acontecido porque Renesmee não aceitava a possibilidade de eu ter outro filho. Cada palavra saía carregada de revolta, como se aquela conclusão já fosse uma verdade absoluta em sua cabeça.
Senti minha indignação crescer.
— Chega, Sue.
Minha voz saiu firme.
Ela finalmente se calou por um instante.
— Você não vai ofender a minha esposa dentro da nossa casa.
Sue deu um passo à frente.
— Sua esposa acabou com a vida da minha filha!
Balancei a cabeça.
— Isso ainda não foi provado.
— A Lucy contou tudo!
— E a Renesmee também me contou o que aconteceu.
Ela tentou responder, mas fui mais rápido.
— Você pode estar sofrendo pela sua filha, e eu respeito essa dor, mas não vou permitir que transforme acusações em sentença.
Nesse momento, ouvi passos apressados atrás dela.
Leah entrou na mansão claramente ofegante.
— Mãe!
Ela segurou o braço de Sue com delicadeza.
— Vamos embora.
Sue tentou se desvencilhar.
— Não antes de...
— Já basta.
Olhei diretamente para ela.
— Eu não vou repetir outra vez. Você precisa sair da minha casa.
Meu tom era firme, mas procurei manter o respeito.
— Podemos conversar quando todos estiverem mais calmos. Agora, não.
Leah insistia para que a mãe fosse embora, explicando que aquela discussão não resolveria absolutamente nada, mas Sue parecia incapaz de ouvir qualquer pessoa.
Foi então que percebi um movimento no alto da escada.
Virei o rosto.
Renesmee estava parada no último degrau.
Ainda vestia o robe sobre a camisola e tinha uma expressão confusa, como alguém que havia acordado há poucos minutos sem entender o motivo de toda aquela confusão. Seus olhos passaram rapidamente por cada pessoa na sala até encontrarem os meus.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Sue também a viu.
A reação foi imediata.
Toda a dor que ela tentava conter transformou-se novamente em revolta. Ela apontou na direção de Renesmee e voltou a acusá-la, afirmando que ela era responsável pela tragédia que havia destruído a vida de Lucy. Sua voz ecoava pela sala enquanto Leah tentava contê-la, segurando-a pelos ombros e pedindo, quase em desespero, que ela fosse embora.
Olhei para Renesmee e senti meu coração apertar.
Ela permanecia imóvel no pé da escada, completamente pálida. Seus olhos começaram a se encher de lágrimas, não por medo daquelas palavras, mas pelo choque de descobrir, naquele instante, que Lucy havia despertado atribuindo a ela a responsabilidade por tudo o que havia acontecido.
Assim que Leah conseguiu conduzir Sue para fora da mansão, a casa mergulhou em um silêncio pesado. Ainda era possível ouvir a voz dela do lado de fora, tomada pela revolta, até que o barulho de um carro se afastando fez tudo voltar ao silêncio. Ninguém na sala parecia saber o que dizer. Sarah respirava fundo, tentando controlar a própria indignação, enquanto Billy permanecia imóvel, observando Renesmee com uma preocupação que refletia exatamente o que eu sentia.
Voltei o olhar para ela.
Renesmee havia descido os últimos degraus sem que eu percebesse. Agora estava sentada no sofá, completamente abatida. As lágrimas escorriam sem que ela sequer tentasse enxugá-las. Ela mantinha as duas mãos sobre a barriga, como se buscasse proteger nosso filho de toda aquela violência que havia invadido nossa casa. Ver a mulher que eu amava naquele estado fez meu peito apertar de um jeito que eu jamais conseguiria descrever.
Aproximei-me devagar e me ajoelhei diante dela. Não queria assustá-la ainda mais. Segurei delicadamente suas mãos, que estavam frias e trêmulas, esperando que ela levantasse os olhos para mim.
Quando finalmente nossos olhares se encontraram, vi um sofrimento que nunca havia visto em seu rosto.
— Jake...
Sua voz saiu embargada.
— Eu nunca empurrei a Lucy.
As palavras vieram acompanhadas de um choro que ela já não conseguia controlar.
— Eu juro... eu tentei segurá-la... eu corri para ajudá-la... mas minha mão escorregou. Eu faria qualquer coisa para voltar naquele momento... qualquer coisa... mas eu nunca faria mal a ela... nunca.
Cada frase parecia partir seu coração um pouco mais.
Balancei a cabeça antes mesmo que ela terminasse de falar.
— Eu sei.
Ela continuou me olhando, como se precisasse ter certeza de que eu realmente acreditava nela.
Aproximei-me mais e segurei seu rosto entre as mãos.
— Escuta o que eu vou te dizer.
Esperei até que ela voltasse a fixar os olhos nos meus.
— Você não precisa me apresentar prova nenhuma para eu saber que está dizendo a verdade.
As lágrimas continuavam escorrendo pelo rosto dela.
— Eu conheço você, Renesmee. Conheço o seu coração. Sei da mulher que você é e sei que jamais machucaria outra pessoa daquela maneira.
Ela fechou os olhos e deixou escapar um soluço, como se aquelas palavras aliviassem um peso que vinha carregando desde a tarde anterior.
Encostei minha testa na dela por um instante.
— Eu acredito em você.
Senti suas mãos apertarem as minhas com força.
— Eu estava com tanto medo de você pensar...
— Nem termine essa frase.
Interrompi-a com delicadeza.
— Isso nunca passou pela minha cabeça.
Ela respirou profundamente, mas, de repente, levou uma das mãos ao peito.
Seu rosto perdeu um pouco da cor.
Franzi a testa imediatamente.
— Nessie?
Ela fechou os olhos.
— Estou... um pouco tonta...
Levantei-me no mesmo instante.
— Mãe.
Sarah aproximou-se rapidamente.
— O que foi?
Olhei para ela sem conseguir esconder minha preocupação.
— Liga para a Rebecca. Agora.
Billy também percebeu que alguma coisa não estava bem.
— Ela está passando mal?
Antes que alguém respondesse, Renesmee apoiou a mão sobre a barriga e respirou fundo novamente.
Meu coração disparou.
Aproximei-me dela outra vez.
— Amor, olha para mim.
Ela abriu os olhos lentamente.
— Acho que foi só o nervoso...
— Mesmo assim, a Rebecca precisa vir.
Sarah já caminhava em direção ao telefone.
Rachel também se levantou.
— Vou avisar que é urgente.
Não esperei mais.
Passei um braço por trás das costas de Renesmee e outro sob suas pernas.
— Jake...
— Você não vai discutir comigo agora.
Ela tentou protestar de leve.
— Eu consigo subir.
Sorri sem conseguir esconder a preocupação.
— Eu sei que consegue.
Ajustei-a melhor em meus braços.
— Mas hoje eu prefiro carregar vocês dois.
Ela encostou a cabeça no meu ombro, cansada demais para insistir.
Subi a escada devagar, sentindo seus braços envolverem meu pescoço enquanto ela permanecia em silêncio. A cada passo, minha única preocupação era fazê-la chegar ao quarto sem qualquer esforço. Naquele momento, pouco importavam as acusações de Sue ou a mentira que Lucy havia contado no hospital.
Tudo o que importava era proteger minha esposa e o nosso filho.
Enquanto atravessava o corredor em direção ao quarto, fiz uma promessa silenciosa a mim mesmo.
Eu descobriria a verdade sobre aquela queda.
E, quando isso acontecesse, ninguém mais pisaria na dignidade de Renesmee da forma como haviam feito naquela manhã.
Fale com o autor