O pai do meu bebê
59 Jacob
Fiquei deitado na cama com Renesmee acomodada sobre meu peito, respirando de forma mais tranquila agora. O corpo dela já não carregava aquela tensão de minutos antes, e o cansaço finalmente tinha vencido o medo. Minha mão se movia devagar pelos cabelos dela, num gesto quase automático, tentando manter aquela calma que ela tanto precisava naquele momento.
Enquanto a observava, uma inquietação crescia dentro de mim. Eu sabia que as coisas estavam saindo do controle, e, pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza de que conseguiria prever todos os problemas que estavam por vir. Ainda assim, uma coisa permanecia firme.
Eu precisava protegê-la.
A ela… e ao nosso filho.
Com cuidado, deslizei o corpo dela do meu peito até o travesseiro, ajeitando-a na cama sem acordá-la. Puxei o cobertor com delicadeza, cobrindo-a, e permaneci alguns segundos observando seu rosto sereno. Inclinei-me e beijei seus cabelos antes de me afastar.
– Eu vou resolver isso… – murmurei baixo.
Saí do quarto em silêncio e desci as escadas. Rachel estava na sala e se virou assim que me viu.
– Ela está bem?
– Está – respondi. – Dormiu.
Rachel assentiu, aliviada, e se afastou um pouco. Meu olhar então foi para meus pais. Billy estava na cadeira de rodas, como sempre, observando tudo com aquele jeito atento, enquanto Sarah permanecia ao lado dele.
Respirei fundo.
– Eu preciso conversar com vocês.
Billy não demorou a responder.
– Então vamos para o escritório.
Ele girou a cadeira com firmeza e seguiu pelo corredor. Sarah veio logo atrás. Entrei por último e fechei a porta. O ambiente ficou mais reservado, mais pesado.
Minha mãe me observava com atenção.
– Você está com um semblante que não me agrada, Jacob. O que aconteceu?
Passei a mão pelo rosto antes de responder.
– A Lucy me procurou hoje.
Billy ergueu levemente o olhar.
– E o que ela queria?
– Ela está grávida.
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo.
Porque Sarah reagiu.
– Eu sabia! – a voz dela saiu carregada de revolta. – Eu sabia que essa moça não dava ponto sem nó!
Fiquei surpreso com a intensidade da reação dela. Aquilo não parecia apenas preocupação.
– Mãe… – comecei.
Mas ela continuou, mais irritada.
– Essa história nunca me enganou. Sempre achei estranho esse comportamento dela, essa aproximação… e agora isso.
– Ela diz que o filho é meu – completei, tentando manter o controle da situação.
Sarah cruzou os braços, claramente indignada.
– Claro que diz. Era exatamente o que eu esperava.
– Ela está disposta a fazer um teste de DNA – falei. – Não está fugindo disso.
Minha mãe deu uma risada seca.
– Teste ou não, eu vou cuidar disso.
Franzi a testa.
– Como assim?
Ela deu um passo à frente, determinada.
– Essa história não vai prejudicar você, nem a sua vida com a Renesmee. Eu mesma vou resolver essa situação.
Algo naquela postura me incomodou.
– Mãe… isso não é uma coisa que você simplesmente resolve.
Antes que ela respondesse, Billy interveio, a voz firme apesar da calma.
– Sarah, calma.
Ela virou o rosto para ele, ainda tensa.
– Calma? Você quer que eu fique calma depois de tudo?
Billy a encarou com seriedade.
– Justamente por causa de tudo… é que você precisa pensar antes de agir.
Houve um breve silêncio.
Sarah respirou fundo, mas ainda estava visivelmente alterada.
– Eu não vou permitir que outra Clearwater faça isso com a nossa família – disse ela, deixando escapar mais do que devia.
Fiquei imóvel por um segundo.
– Outra? – repeti.
Ela pareceu perceber o que tinha dito, mas já era tarde.
Billy desviou o olhar por um instante, como se estivesse avaliando o quanto devia ser dito.
Eu cruzei os braços, sentindo a desconfiança crescer.
– O que isso quer dizer?
Sarah hesitou, o que só aumentou minha inquietação.
– Não é o momento para isso – respondeu ela, tentando encerrar o assunto.
Mas eu não me movi.
– Não, mãe. Eu quero entender.
Olhei de um para o outro, percebendo claramente que havia algo ali que eu não sabia e pela forma como reagiram era algo antigo e importante demais para ser ignorado.
Mantive o olhar fixo em meu pai por alguns instantes. O silêncio no escritório tornou-se denso, quase sufocante. Minha mãe permanecia de pé, com os braços cruzados, a expressão rígida, como sempre ficava quando algo do passado ameaçava vir à tona.
— Pai, eu preciso que o senhor seja claro — falei, controlando o tom, mas sem esconder a firmeza.
Billy respirou fundo, passando a mão pelo rosto antes de começar.
— Sue e sua mãe são primas. Crescemos próximos, sempre houve convivência entre as famílias.
Lancei um olhar rápido para minha mãe. Ela não desviou.
— Sue nutria sentimentos por mim — ele continuou. — Sentimentos que iam além da amizade.
Senti um desconforto crescente, mas permaneci em silêncio.
— Em uma ocasião… sua mãe havia viajado. Eu bebi mais do que devia. Tomei uma decisão da qual me arrependo até hoje.
Minha mandíbula se contraiu.
— Que decisão?
Ele me encarou diretamente.
— Eu me envolvi com a Sue.
As palavras ecoaram no ambiente. Minha mãe soltou um riso breve, sem qualquer traço de leveza.
— E o senhor só está dizendo isso agora? — perguntei, tentando manter o controle.
— Eu descobri depois — minha mãe respondeu, a voz firme. — Meses depois.
Billy assentiu.
— Sue apareceu dizendo que estava grávida.
Senti meu coração acelerar.
— Grávida…?
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos.
— E a criança? O que aconteceu com o bebê?
Minha mãe fechou os olhos por um instante, como se ainda carregasse o peso daquela lembrança.
— Assim que nasceu, eu entreguei a criança ao seu pai.
As palavras me atingiram com força.
— Entregou…?
Ela voltou a me encarar.
— Eu perdoei o seu pai. Fiz isso por você, pelas suas irmãs, pela nossa família. Mas não seria capaz de criar o filho de outra mulher dentro da minha casa como se nada tivesse acontecido.
Senti um aperto no peito, mais intenso do que eu esperava.
— Então essa criança…?
Billy segurou com força os braços da cadeira, como se buscasse firmeza.
— Cresceu próxima de nós. Sem saber da verdade.
Meu coração disparou.
— Quem é?
Houve um breve silêncio. Um instante apenas, mas suficiente para tudo dentro de mim entrar em alerta.
— Quem é essa criança?
Minha mãe respondeu antes que ele pudesse hesitar novamente.
— Embry.
O nome pareceu ecoar dentro de mim.
Fiquei imóvel, tentando assimilar o que acabara de ouvir.
Embry.
Meu amigo. Meu companheiro de matilha.
Filho… do meu pai.
Soltei o ar lentamente, passando a mão pelo rosto.
— Isso… isso não faz sentido…
Mas fazia. E era justamente isso que tornava tudo ainda mais difícil de aceitar.
Voltei a encarar meu pai.
— Ele sabe?
Billy negou com a cabeça.
— Não.
Respirei fundo, sentindo o peso da situação se ampliar.
— E até quando pretendiam manter isso em segredo?
Minha mãe respondeu, agora em um tom mais baixo.
— Até que não fosse mais possível esconder.
Fechei os olhos por um breve momento.
Lucy, a gravidez… tudo se tornava ainda mais complexo.
Quando tornei a abrir os olhos, já não era apenas surpresa que eu sentia.
Era responsabilidade.
E a certeza de que aquela verdade mudaria tudo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, tentando organizar tudo o que tinha acabado de ouvir, mas a sensação de inquietação foi mais forte. Passei a mão no rosto, respirando fundo, e então as palavras simplesmente saíram, carregadas de incredulidade e frustração.
— Então o Embry cresceu a vida inteira acreditando que foi acolhido por caridade… quando, na verdade, ele é um Black?
Minha voz não saiu alta, mas veio pesada, firme, difícil de conter. Olhei diretamente para o meu pai, esperando alguma resposta que aliviasse aquilo, mas tudo o que encontrei foi um olhar cansado, cheio de culpa. Aquilo só aumentou o aperto no meu peito, porque de repente várias lembranças começaram a fazer sentido. Embry sempre teve aquele jeito de quem não queria incomodar, de quem parecia pedir permissão até para existir dentro da própria casa, e agora eu entendia o motivo.
— O senhor deixou ele acreditar nisso esse tempo todo… — completei, negando levemente com a cabeça, ainda tentando aceitar.
Billy respirou fundo antes de responder, como se cada palavra exigisse esforço.
— Não foi simples, Jacob. Nunca foi.
Soltei uma pequena risada sem humor, mais por nervoso do que por qualquer outra coisa. Passei a mão pelos cabelos, andando alguns passos pelo escritório, tentando dissipar a tensão que crescia dentro de mim.
— Simples não é… mas justo também não é — falei, mais baixo, porém com um peso evidente. — Ele é meu amigo. Cresceu ao meu lado. Sempre se sentiu deslocado, como se não tivesse um lugar de verdade… e vocês sabiam quem ele era o tempo todo.
Minha mãe se aproximou um pouco, o olhar ainda firme, mas agora com um traço de algo mais humano, quase como arrependimento. Eu percebia que aquilo não era leve para ela também, e isso foi suficiente para frear a raiva que começava a crescer em mim. Eu queria me revoltar, queria apontar o erro, mas algo dentro de mim travou.
Respirei fundo mais uma vez, fechando os olhos por um instante antes de encará-los novamente.
— Eu queria estar com raiva de vocês — admiti, com a voz mais controlada. — Queria mesmo. Mas… não estou em posição de julgar ninguém agora.
A frase saiu sincera, talvez mais do que eu gostaria de admitir. Lucy, a gravidez, tudo aquilo estava na minha cabeça ao mesmo tempo, e eu sabia que não tinha moral para agir como se estivesse acima de qualquer erro. O silêncio que veio depois não foi tenso como antes, foi mais pesado de outro jeito, como se todos estivéssemos cansados demais para continuar lutando contra o passado.
Minha mãe então tomou a palavra, cruzando os braços novamente, mas sem a rigidez de antes. O tom dela era direto, quase prático.
— Então faça o que é certo agora, Jacob.
Ergui o olhar, já sabendo, no fundo, para onde aquela conversa estava indo.
— A senhora está falando da Nessie…
— Estou — ela respondeu sem hesitar. — Ela precisa saber sobre a Lucy, e precisa saber por você. Antes que a própria Lucy conte.
As palavras dela bateram direto, sem espaço para fuga. Meu estômago apertou na mesma hora, e eu desviei o olhar, encarando o chão por alguns segundos, como se ali eu pudesse encontrar uma saída mais fácil. Mas não havia.
— Eu só queria… — comecei, mas parei no meio da frase. Não tinha justificativa que sustentasse o silêncio. Era só medo disfarçado de proteção.
Billy falou então, com a voz mais baixa, carregada de experiência.
— Esconder só piora as coisas, filho. Eu sei disso melhor do que ninguém.
Olhei para ele, e dessa vez não vi só meu pai. Vi alguém que já tinha feito exatamente o que eu estava prestes a fazer, e que carregava as consequências até hoje. Aquilo foi o suficiente para me fazer respirar fundo novamente e encarar a situação com mais clareza.
Minha mãe se aproximou mais um passo, o olhar firme, mas agora com um toque de cuidado.
— Renesmee está ao seu lado. Grávida. Sensível. Ela merece ouvir a verdade vindo de você, não de outra pessoa.
Fechei os olhos por um instante, sentindo o peso da decisão se firmar dentro de mim. Eu queria proteger a Nessie, queria evitar que ela sofresse mais, mas naquele momento ficou claro que esconder não era proteção. Era só adiamento, e um adiamento que podia machucar ainda mais.
Quando abri os olhos novamente, a decisão já estava tomada.
— Eu vou contar — falei, com a voz firme, mesmo sentindo o peso daquilo.
Passei a mão no rosto, soltando o ar devagar.
— Só não sei como ela vai reagir.
Minha mãe respondeu com calma, sem suavizar a realidade.
— Isso você não pode controlar. Mas a verdade… essa você deve a ela.
Assenti lentamente, absorvendo cada palavra. Pela primeira vez desde que entrei naquele escritório, entendi que o problema maior não era o passado dos meus pais, nem os erros que eles carregavam.
Era o que eu faria agora, com tudo o que estava nas minhas mãos.
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