O primeiro mês de Renesmee na fazenda passou mais rápido do que eu esperava. No início, eu temia que a mudança fosse difícil para ela, que o silêncio do campo e a rotina diferente pesassem demais depois da vida que tinha em Seattle. No entanto, aos poucos, ela foi se adaptando. Aprendeu os caminhos da casa, passou a reconhecer os horários do trabalho, e até começou a se interessar pelos cavalos, sempre observando tudo com uma curiosidade que me fazia enxergar aquele lugar com outros olhos. Havia dias em que eu a encontrava na varanda, olhando o campo com um sorriso leve, como se ainda estivesse tentando acreditar que aquela era agora a vida dela.

Ainda assim, eu sabia que nem tudo era simples. Havia momentos em que ela ficava mais silenciosa, pensativa, provavelmente tentando conciliar os planos que tinha para o futuro com a realidade que se impunha diante dela. Eu fazia o que podia para estar presente, para mostrar que ela não estava sozinha naquele processo, e que aquela fazenda, apesar de tudo, podia ser também um lar para nós dois e para o filho que esperávamos.

Naquela manhã, eu estava no estábulo ao lado de Sam e Quil, cuidando de dois potros que haviam nascido recentemente. Os animais ainda eram inquietos, mas saudáveis, e exigiam atenção constante. Enquanto verificávamos as condições deles, a conversa fluía de maneira natural, passando pelas tarefas do dia e pelos ajustes que ainda precisavam ser feitos na fazenda.

– Esses dois vão dar trabalho – comentou Quil, observando um dos potros que insistia em se afastar. – Mas são fortes.

Assenti, passando a mão pelo pescoço do animal para acalmá-lo.

– Se crescerem bem, vão ser dos melhores que já tivemos aqui – respondi. – Precisamos apenas ter paciência nas primeiras semanas.

Sam, que estava um pouco mais afastado, apoiou-se na cerca e acrescentou:

– A cerca do campo oeste ainda precisa de reforço. Se eles começarem a correr demais, pode dar problema.

– Vou verificar isso ainda hoje – falei, já fazendo um cálculo mental do que precisaria ser feito.

A conversa continuaria naquele ritmo se não fosse pela presença que surgiu na entrada do estábulo. Levantei o olhar e vi Lucy parada ali, com uma expressão que não combinava com uma simples visita. Ela não parecia nervosa, mas havia algo no modo como segurava um envelope que chamou minha atenção imediatamente.

– Jacob, eu preciso falar com você – disse ela, com firmeza. – A sós.

Sam e Quil trocaram um olhar rápido entre si, percebendo o clima que se instalava. Sem precisar de muitas explicações, Quil foi o primeiro a se afastar, limpando as mãos na calça.

– Eu vou dar uma olhada na cerca – disse ele, como desculpa.

Sam apenas assentiu e o acompanhou, deixando-nos sozinhos no estábulo.

Esperei alguns segundos antes de me aproximar de Lucy.

– O que você quer? – perguntei, direto.

Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, estendeu o envelope em minha direção. Peguei o objeto, franzindo a testa ao observar o papel dobrado dentro dele.

– O que é isso?

Lucy respirou fundo antes de responder.

– Eu fiz exames – disse, mantendo o olhar fixo no meu. – Eu estou grávida.

As palavras ficaram suspensas no ar por um instante, como se precisassem de tempo para serem compreendidas. Eu olhei novamente para o envelope em minha mão, depois para ela.

– Lucy… – comecei, tentando organizar o que estava ouvindo. – E o Brad?

Ela não hesitou.

– Eu sei o que você está pensando – respondeu. – Mas isso não muda o que eu tenho para dizer.

A expressão dela permaneceu firme, sem qualquer traço de dúvida.

– Eu estou disposta a fazer um teste de DNA, se você quiser – continuou. – Se você duvidar da paternidade, não tenho problema nenhum em provar.

Senti o peso da situação se instalar lentamente. Tudo o que eu vinha tentando manter sob controle parecia começar a se desfazer diante daquela possibilidade.

Lucy deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós.

– Mas, independentemente disso, eu quero que você entenda uma coisa – disse ela, em um tom mais baixo, porém firme. – Assim como o bebê que Renesmee está esperando… o meu também é um Black.

Fiquei em silêncio, encarando-a, enquanto a realidade daquelas palavras começava a tomar forma dentro de mim.

O silêncio que se instalou entre nós pareceu mais pesado do que qualquer palavra que pudesse ser dita naquele momento. Eu mantive o olhar fixo em Lucy por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos antes de responder. Havia muitas implicações naquela afirmação, e nenhuma delas era simples. Ainda assim, não deixei que a tensão se refletisse na minha postura.

– Se esse bebê for um Black – disse, com a voz firme e controlada –, não faltará nada a ele.

Lucy me observou com atenção, como se estivesse avaliando cada nuance da minha resposta. Não havia alívio no olhar dela, nem surpresa. Apenas algo mais profundo, mais difícil de interpretar.

– Eu não esperava menos de você – respondeu ela, em um tom que não era exatamente de satisfação.

Por um instante, pensei que ela diria mais alguma coisa, que tentaria provocar alguma reação maior, mas Lucy apenas assentiu de leve e deu um passo para trás. Antes de se virar, lançou um último olhar em minha direção, um olhar carregado de significado, mas difícil de decifrar.

– Só espero que você esteja preparado para tudo o que vem com isso, Jacob – disse ela. – Porque algumas coisas… não podem ser ignoradas para sempre.

E então se foi.

Fiquei sozinho no estábulo, com o envelope ainda nas mãos. O som distante dos cavalos e do vento passando pela madeira parecia abafado diante do peso daquela situação. Olhei para o papel que estava dentro do envelope e, por alguns segundos, hesitei antes de abri-lo. Quando finalmente o fiz, meus olhos percorreram as linhas do exame com atenção, absorvendo cada informação.

Era real.

Fechei os olhos por um breve instante, passando a mão pelo rosto em um gesto de exaustão. Minha mente já começava a correr à frente, antecipando as consequências daquela revelação.

Como eu diria isso a Renesmee?

A pergunta ecoou com força dentro de mim, trazendo junto uma sensação de inquietação que eu não conseguia afastar.

Dobrei o papel com cuidado e o guardei novamente no envelope, respirando fundo antes de sair do estábulo. O caminho de volta até a casa pareceu mais longo do que de costume. Cada passo vinha acompanhado de pensamentos que se acumulavam, criando um peso silencioso que eu carregava sozinho.

Quando a casa surgiu à frente, meu olhar foi imediatamente para a varanda.

Ela não estava lá.

Franzi a testa, estranhando a ausência. Nos últimos dias, Renesmee costumava me esperar ali, sentada ou apoiada no corrimão, observando o campo. Aquela pequena rotina tinha se tornado algo que eu esperava encontrar ao voltar.

Subi os degraus com um leve pressentimento se formando no peito e entrei na casa.

O ambiente estava mais quieto do que antes. Caminhei alguns passos pela sala até vê-las.

Renesmee estava sentada no sofá, com Sarah ao seu lado.

Algo estava errado.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, me aproximei imediatamente. Foi o suficiente para que ela levantasse o rosto ao me ver. Os olhos dela estavam marejados, e a expressão carregava uma mistura de medo e angústia que me fez esquecer completamente do envelope que ainda estava comigo.

– Nessie… o que aconteceu? – perguntei, já me inclinando na direção dela.

Ela não respondeu com palavras de imediato.

Apenas se levantou e se jogou contra mim, envolvendo meus braços como se precisasse se segurar em algo para não cair. Eu a puxei para perto no mesmo instante, sentindo o corpo dela tremer contra o meu.

– Ela conseguiu… – disse Renesmee, com a voz baixa e falha. – A Heidi conseguiu.

Meu corpo enrijeceu.

– Conseguiu o quê?

Ela apertou mais forte a minha camisa, como se tivesse medo da resposta que já estava dando.

– O juiz marcou a audiência… – continuou, quase sem fôlego. – Ela vai tentar tirar o nosso bebê, Jacob.

Por um segundo, tudo ao meu redor pareceu desaparecer.

A única coisa que restou foi o som da respiração dela contra o meu peito… e a certeza de que aquela luta estava apenas começando.


Eu a segurei com mais firmeza, envolvendo seu corpo contra o meu como se pudesse protegê-la de tudo apenas com aquele gesto. Sentia o tremor dela contra meu peito, a respiração descompassada, e aquilo foi suficiente para acender em mim um instinto que ia além de qualquer razão. Levei uma das mãos até seus cabelos, acariciando com cuidado enquanto inclinava o rosto em direção ao dela.

– Ei… calma – murmurei, com a voz baixa, tentando transmitir segurança. – Eu estou aqui.

Renesmee não respondeu de imediato. Apenas apertou ainda mais a camisa que eu vestia, como se aquele contato fosse a única coisa que a mantinha firme naquele momento.

Foi então que Rachel apareceu ao nosso lado, trazendo um copo d’água. Ela se aproximou com cuidado, mantendo o tom de voz suave.

– Nessie, você precisa se acalmar… pelo bebê – disse, estendendo o copo.

Eu a ajudei a se afastar um pouco de mim, o suficiente para que pudesse segurar o copo. Suas mãos ainda tremiam levemente, mas ela conseguiu levar a água aos lábios e beber alguns goles.

Sarah, que até então permanecia ao lado do sofá, observava tudo com atenção. Havia preocupação evidente em seu olhar, mas também uma serenidade que parecia tentar manter o ambiente sob controle.

– Ela está muito sensível – disse minha mãe, com calma. – A gravidez deixa tudo mais intenso.

Assenti, sem tirar os olhos de Renesmee. Eu podia ver o medo ainda presente no rosto dela, mesmo que agora estivesse um pouco mais contido.

Segurei o queixo dela com cuidado, fazendo com que me olhasse.

– Nessie… olha para mim – pedi.

Ela ergueu os olhos devagar.

– Nenhum juiz vai tirar o nosso filho – falei, com firmeza, deixando claro que não havia espaço para dúvida. – Isso não vai acontecer.

Ela respirou fundo, ainda insegura.

– Mas ela tem dinheiro, influência… e agora tem essa história toda do hospital… – disse, a voz ainda fragilizada.

– E nós temos a verdade – interrompi, sem elevar o tom, mas com convicção. – E temos pessoas que vão lutar com a gente. Você não está sozinha nisso.

Aproximei-a novamente de mim, puxando-a com cuidado para que encostasse a cabeça no meu peito. Minha mão voltou a percorrer seus cabelos, em um gesto lento e constante.

– Eu prometo a você – continuei, mais baixo agora –, nada vai acontecer com você. Nada vai acontecer com o nosso bebê. Eu não vou permitir.

Senti quando ela relaxou um pouco mais contra mim, como se aquelas palavras fossem o que ela precisava ouvir para conseguir respirar de novo.

Por um instante, fechei os olhos.

Mas, mesmo naquele momento, outra preocupação surgiu com força na minha mente.

O envelope.

As palavras de Lucy.

A possibilidade de outro filho.

Abri os olhos novamente, mantendo a expressão serena, sem deixar que nada disso transparecesse. Aquele não era o momento. Renesmee já estava lidando com coisas demais, e eu não seria o responsável por aumentar ainda mais o peso que ela carregava.

Ainda não.

Apertei-a um pouco mais contra mim, reforçando o abraço.

– Vai ficar tudo bem – murmurei novamente, mais para ela do que para mim mesmo.