O nó no meu estômago apertou quando vi a reportagem passando na TV da sala no apartamento de Rachel e Paul em Seattle. A voz da apresentadora soava limpa, fria, mas cada palavra parecia um soco.

“Erro de inseminação.”

“Hospital Cullen Medical sob investigação.”

“Esposa lesada.”

E então apareceu ela… Heidi.

Bem produzida, lágrimas milimetricamente posicionadas, falando como se tivesse perdido um filho que nunca existiu.

— Eu só queria ser mãe — dizia ela, com aquela postura ensaiada. — Nos tiraram esse direito. Destruíram o nosso sonho.

Paul resmungou atrás de mim.

— Meu Deus… que mulher teatral. Se botar mais drama, vira novela.

Rachel cruzou os braços.

— Ela tá cavando simpatia do público. Estratégia velha.

Sarah colocou a mão na boca, assustada.

— Ela está acusando o hospital… e você, Jacob. Isso pode respingar na Renesmee.

Eu passei a mão no rosto, cansado. E preocupado. Muito preocupado.

— É exatamente isso que me preocupa… — murmurei.

Peguei o celular no mesmo instante. Não pensei. Só disquei o número da Nessie.

Chamou uma vez.

Duas.

Três.

Nada.

A preocupação virou um peso no peito.

Paul olhou para mim e tentou aliviar.

— Calma Jake… ela deve estar se arrumando. É o jantar de vocês. Relaxa, tá tudo certo.

Eu balancei a cabeça. Não consegui concordar.

— Não quando a Heidi abre a boca desse jeito. Nessie é sensível. Tá grávida. E a mídia tá caindo em cima dela sem ela nem saber. — Apertei o celular na mão. — Eu preciso falar com ela.

Sarah se aproximou e tocou meu braço.

— Filho… vocês vão se ver daqui a pouco. Talvez ela só esteja ocupada. Não pense no pior antes da hora.

Mas eu já estava pensando.

Heidi não dava tiro no escuro.

Se ela expôs tudo assim…

Era só questão de tempo até isso chegar aos ouvidos da Nessie.

E ela já tinha sofrido demais.

Rachel pegou a chave do carro.

— Vem, irmão. A gente vai perder a hora. E você vai pirar se continuar plantado aí esperando uma ligação. Vamos logo.

Eu respirei fundo, tentei afastar o pânico e segui minha família para o carro.

Mas, por dentro, a sensação era clara:

Se a Nessie já tinha visto aquela entrevista…

Eu sabia que a noite não ia ser nada fácil.


NARRADO POR JACOB

A estrada seguia larga e cinzenta diante de nós, e mesmo assim eu não tirava os olhos do celular apoiado no meu joelho. Eu tentava ligar para Renesmee pela terceira vez, mas a chamada caía direto na caixa postal. Isso me deixava inquieto. Eu já tinha visto a entrevista nojenta da Heidi na TV, toda chorosa, falando como se fosse vítima. Não queria que Nessie visse aquilo. Ela estava frágil, sensível, e qualquer coisa podia abalar.

Sarah percebia meu silêncio. Ela estava no banco da frente, mexendo no celular, enquanto Billy observava a estrada pela janela.

— Vou ligar pra Rebecca — minha mãe disse. — Ela deve estar na mansão agora.

Concordei com um aceno rápido. Meu peito apertado como se faltasse ar.

Sarah colocou no viva-voz.

— Oi, Rebecca, querida, já chegou? — ela perguntou, meio aflita.

No fundo da chamada, dava para ouvir vozes, talheres, aquele barulho típico de casa cheia.

— Já sim, mãe — Rebecca respondeu. — Cheguei faz uns minutos.

Billy sorriu, aliviado. Eu fiquei esperando a parte que realmente importava.

— E a Renesmee? — minha mãe perguntou. — Jacob está preocupado. Ele viu a entrevista da… bom… daquela pessoa.

Rebecca suspirou.

— Eu também vi. Mas podem ficar tranquilos. A Esme e o Edward já cuidaram disso. Não deixaram nenhuma televisão ligada perto da Nessie. Nem celular. Ela não viu nada.

Eu fechei os olhos por um segundo. O alívio veio forte, quase como se eu tivesse bebido água depois de horas no sol.

— Ela está bem? — perguntei, incapaz de esconder meu nervosismo.

— Está ótima, Jake — Rebecca respondeu com um tom leve que só usava quando queria me acalmar. — Está animada, linda no vestido azul, e só fala de você desde que começou a se arrumar.

Senti meu rosto esquentar, mas não com vergonha. Era… outra coisa. Um orgulho estranho, quente. Um sentimento que crescia dentro de mim dia após dia.

— Obrigado, Rebecca — falei baixo. — De verdade.

— Só venham logo, ok? — ela brincou. — Edward está andando pela mansão como um gerente de fábrica antes da inspeção. E Bella está quase chorando a cada cinco minutos.

Sarah riu baixinho.

— Essas coisas deixam qualquer mãe emotiva.

— Então nos vemos daqui a pouco — Rebecca disse, e a ligação caiu.

Fiquei alguns segundos segurando o celular, olhando a tela escura.

— Está mais calmo? — Billy perguntou, direto.

Assenti.

— Estou.

Porque agora eu sabia.

Nessie estava bem.

Protegida.

E me esperando.

Apertei o volante com mais firmeza e acelerei.


A entrada da mansão Cullen parecia ainda maior com todos aqueles flashes. Assim que passei pelo portão e vi a linha de fotógrafos grudados nas grades, reclamei baixinho. Nada me irrita mais do que gente invadindo a privacidade dos outros, ainda mais agora… com Nessie grávida… e frágil… e no meio de um escândalo que ela jamais pediu.

Estacionei perto da entrada principal. Minha mãe ajeitou o casaco, meu pai deu aquele suspiro cansado, e Rachel e Paul pararam atrás de nós. Antes mesmo de abrir a porta, senti a tensão me apertar o peito.

Quando descemos, Edward e Bella já estavam ali. Elegantes. Atentos. O tipo de casal que transmite respeito sem precisar forçar nada.

Bella veio primeiro e cumprimentou minha mãe com um abraço caloroso.

– Seja muito bem-vinda, Sarah – disse ela, com aquele sorriso gentil.

Minha mãe, claro, derreteu.

– Bella, querida, é um prazer enorme finalmente te conhecer. Tenho acompanhado tudo… e quero que saiba que vamos cuidar bem da sua menina.

Edward apertou a mão do meu pai.

– Billy, é uma honra receber vocês – disse ele. – O Jacob fala muito da família.

Meu pai riu pela metade.

– Espero que só as partes boas – respondeu.

– As melhores – Edward devolveu.

Rachel abraçou Bella como se já fossem amigas de infância. Paul fez o que Paul faz sempre: elogiou a casa, o jardim, o céu, qualquer coisa para puxar assunto.

Foi então que Rebecca e Solomon apareceram na porta.

– Mãe! Pai! – Rebecca correu para abraçar os dois. – Estava morrendo de saudade de vocês.

Sarah beijou a testa da filha.

– Ainda bem que chegou cedo, Rebecca. Seu irmão estava ansioso.

Rebecca olhou para mim por cima do ombro dela.

– O que foi agora? – perguntou.

– Depois te explico – respondi.

O clima estava leve, confortável… mas meu pensamento só tinha um destino.

Eu precisava ver Renesmee.

Olhei para Edward.

– E… Nessie? Onde ela está?

Ele apontou para dentro da casa.

– Na sala. Acho que ela está esperando por você.

Meu coração bateu forte. Não sei por quê, mas toda vez que vou encontrá-la parece a primeira.

Deixei minha família conversando com os Cullen e entrei.

A sala estava iluminada suavemente. Conversas espalhadas, risos, música ambiente…

E então eu a vi.

Renesmee estava de pé, no centro da sala, com um vestido azul que acompanhava o corpo dela do jeitinho certo. A barriga já aparecia um pouco, deixando tudo ainda mais real… mais bonito… mais meu.

Ela virou na minha direção.

E foi só isso.

Um olhar.

Pronto.

Meu coração desabou no peito como se tivesse esquecido como se comporta.

A mulher que vai ser mãe do meu filho. A mulher que eu escolhi. A mulher que, sem perceber, virou tudo que eu queria.

Respirei fundo.

E caminhei até ela.