O país secreto.
16 O traiçoeiro.
Notas iniciais
Os dias estão se passando muito rapidamente e sinto que logo teremos que partir em busca dos nossos parentes. O treinamento têm sido divertido, e já domino muito bem meu dom. Às vezes, até me usam para acender fogueiras que são montadas no jardim da casa. Nós fazemos aqui, como fazíamos lá em casa, mais ou menos como um clube. Uma fogueira é acesa e conversa jogada fora. O poder de Hellena é incrível, impressionante! Ela consegue congelar praticamente tudo, e o mais bizarro é sua aparência quando põe em prática suas habilidades. Os lábios roxos, sugerem um frio muito intenso, e os cabelos passam de louros a brancos. Will, possui um dom que eu particularmente odeio. Ele é capaz de ler mentes. Não como Birc, que invade e controla nossos pensamentos. Ele escuta nossos pensamentos como se estivesse ouvindo rádio. Isso incomoda muito. Dianna não controla suas previsões, elas vêm do nada, e quase sempre são do nosso mundo, do qual viemos. É ótimo saber o que está havendo por lá. Stive é capaz de controlar objetos com a mente, mas ainda não domina a prática. Ele apenas consegue mover coisas pequenas, como uma caneta, por exemplo. Myafa têm se mostrado muito prestativa, e por vezes a julgo como uma fofa. Ela cora com facilidade e é bem tímida. Seu irmão, Birc, por outro lado, quer nos controlar o tempo todo, como se fosse o patrão e nós os empregados. Mas já que ele é tão baixinho quanto Hellena, os meninos não o respeitam tanto. Porém, como ele consegue controlar mentes, consegue controlar-nos também.
Hoje, acho que já se passaram pelo menos três semanas desde que chegamos aqui. Estamos todos em volta da fogueira, e conversamos muito sobre assuntos variados. Estou entre Dianna e Stive.
–Sabe, eu venho tendo umas visões estranhas ultimamente.- Diz Dianna, com o olhar fixado nas chamas.
–Realmente.- Diz Will, e suponho que ele já sabe do que se trata.
–É um rapaz.- Ela franze as sobrancelhas. Todos nós prestamos atenção a cada palavra.- Ele parece jovem. Mais ou menos da idade de Stive. Quase sempre em minhas visões, ele está na floresta.
Meus olhos se arregalam ao lembrar do rapaz que me flagrou enquanto eu tomava banho no lago.
–E ele toca harpa.- Completa Dianna.- Toca belamente.
–Eu o conheci.- Digo.- Mas não entendo. Por que você o vê em suas previsões?
–Não sei.- Ela dá de ombros.- Mas na visão mais recente, ele se aliava a nós.
Se aliava a nós... Como assim? Isso quer dizer o verei novamente? Não sei por que, mas não quero o reencontrar. Quero que ele fique longe de nós, bem longe. Mas eu sei que as visões de Dianna vão se realizar. Se ela previu é porque acontecerá de fato. Olho todos em volta em busca de uma expressão surpresa, mas todos parecem desinteressados no assunto.
–É só negarmos a aliança.- Stive dá de ombros.
De repente o semblante de Dianna muda. Seria outra visão? Não sei. Só sei que seus olhos estão inundando, até que transbordam e as lágrimas descem por seu rosto. Olho para Will, mas ele esconde o rosto com as mãos. Uma coisa é certa: Dianna teve uma visão, e Will leu seu pensamento, e agora sabe o que ela previu.
Estou preocupada, como todos os outros. Myafa não para de olhar de Dianna à Will sem entender absolutamente nada e Birc optou por não invadir o pensamento dela e esperar ela contar. Troco olhares com Stive, que dá de ombros sem entender.
–Você teve uma visão, não foi?- Pergunta Hellena.
Dianna assente e morde o lábio inferior, preocupada.
–Você vai contar o que viu?- Pergunta Amélia.
Ela assente mais uma vez e seca as lágrimas com as mãos o mais rápido possível, então olha para cada um de nós.
–Dessa vez- Ela soluça.- Não foi apenas uma visão.
Will passa as mãos por entre os cabelos.
–Foi algo a mais.- Ela diz, chorosa.- Algo mais parecido com uma profecia.
–Videntes também preveem profecias?- Pergunta Stive, mas dou um tapa em seu braço para que ele não a interrompa.
–Deve ser possível.- Birc dá de ombros.
–Acontece que essa profecia é mais séria do que imaginamos. Ela diz que de onze, apenas seis voltarão para casa.
–O que?- Digo, sentindo as lágrimas irromperem de meus olhos.- Cinco de nós morrerão?
Ela assente vagarosamente com mais lágrimas descendo de seus olhos.
–Meus irmãos podem morrer, Emma.- Ela se vira e me abraça.- Meus primos... Nós.
Todos parecem estar desesperado, mas não presto muita atenção. Abraço Dianna o mais forte que consigo.
–Isso... isso não vai acontecer.- Digo, choramingando.- Sua visão pode estar confusa, nós...
–Emma, um vidente não costuma errar suas previsões...- Birc começa mas eu o interrompo, soltando Dianna.
–É mentira!- Grito.- Ninguém vai morrer! Todos vamos voltar!
Todo mundo me olhava assustado mais minha crise de ódio não passou.
–A culpa foi minha, Emma...- Stive diz com a cabeça baixa e vejo-o chorar.
–Não, não foi!- Brado.- Foi culpa nossa! De todo mundo! E...
Debruço no colo de Dianna e começo a chorar.
–Minha... irmã pode morrer?- Pergunta Hellena com a voz mais doce que já havia ouvido dela. Ela chora.
–Todos podem.- Diz Birc.
Saio dali. A noite é um breu, e as casas estão escondidas pela escuridão. Eu vou para dentro da casa de Arismir e vejo o velho sentado na poltrona da cozinha. Chego até ele, caminhando mais devagar e controlando minhas lágrimas.
–Eu não disse que isso daqui seria um paraíso.- Ele diz, erguendo seus olhos totalmente prateados para mim.- Paraísos não existem. Achei que pudesse saber.
–Eu sei.- Digo.- Nunca achei que estivesse em um.
–Você parece sábia.- Ele balança a cabeça, como se estivesse impressionado com minha sabedoria.- Diga-me, você seria sábia a ponto de deixar seus parentes para trás e fugir? Fugir da morte certa?
–Não.- Sacudo a cabeça.- Não temo a morte.
–E aguentaria ver seus amados primos e irmãos morrerem?
–Senhor, para por favor.- Peço.
–É isso, Emma.- Ele diz.- É fugir ou vê-los morrer.
–Mas eu não vou fugir.- Digo.- Prefiro morrer com dignidade.
–Que atitude mais comovente.- Ele me parabeniza.
Confesso que estou começando a me assustar com Arismir. Ele até agora me pareceu um bom amigo, que me ofereceu casa, cama e comida. Mas vendo-o falar assim, me assusta e muito.
–Vou te dar mais uma chance.- Ele faz um rápido movimento com as mãos e um portal surge. Uma bola de luz, semelhante a que me sugara naquela noite.- Você quer fugir?
–Não.- Digo recuando.
–Ora, Emma, sei de um lugar onde você se daria muito bem.- Ele sorri estranhamente.
–Mas eu não quero.- Seguro em um móvel antes de a esfera começar a me sugar.
Mas a força é três vezes maior, de modo que meus pés desprendem do chão e fico flutuando. Minhas mãos começam a suar e sei que não aguentarei por muito tempo. Então acontece: Minhas mãos se desprendem e voo em direção ao portal.
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