O país secreto.
23 O outro lado de Amélia
Notas iniciais
Três deles estão vivos. Uma parte de mim está explodindo de felicidade, entretanto a outra ainda chora. De acordo com meus cálculos, Will ainda está lá, na casa do monstro. Will e Amélia. Os outros estão aprisionados no castelo do vilão. Alguns podem até mesmo estarem mortos. Não gosto de pensar assim, mas não resta nenhuma outra alternativa menos dolorosa. Ou morreram, ou estão sendo torturados, ou manipulados. Todas são horríveis.
Larm me estende o esquilo nojento, chamado jumbro, e a faca de Doquo. Apanho-os, relutante. Estamos na caverna há uns vinte minutos. Hellena e Stive conversam animadamente com nosso avô. Depois de Hellena interrogá-lo, dizer coisas nada educadas e deixar Stive morrendo de vergonha, ela finalmente cedeu. Hellena não costuma confiar muito nas pessoas. E acho que ela sabia, desde o início, que Arismir não valia nada.
Liam parece triste, jogado em um canto, segurando alguma coisa, que me parece uma corrente.
–Você vai limpar a caça hoje.- Diz Larm.- Não quero mandar Doquo fazer isso. Ele parece bem feliz.
Olho para o jumbro em minha mão direita e depois para a faca, na esquerda.
–Não achei que se importasse com a felicidade alheia.
–Por que não?- Ele dá de ombros.- Ele é o rei. Merece um minutinho de paz.
–E eu?- Digo.- Sou a princesa, afinal.
–Não importa.- Ele diz, impaciente.- Limpa logo que eu estou com fome.
Giro os olhos e saio da caverna. Poderia ter limpado ali dentro mesmo, mas prefiro fazê-lo ao ar livre. Já do lado de fora, corto a barriga do bicho e, distraidamente, retiro com a mão todas suas entranhas. Alguns minutos depois, quando termino o trabalho, sorrio satisfeita.
–Há um mês atrás você não faria isso nem sob tortura.- Uma voz me sobressalta. Viro o pescoço rapidamente.
–Ah, é você.- Digo, secamente, ao perceber que se trata de Liam, e volto minha atenção para a carne.- Nós temos que nos adaptar, uma hora.
Vejo-o sentar-se ao meu lado.
–Eu não gosto disso.- Ele diz.- Sou indefeso. Estou no meio do mato. Cercado de gente estranha.
–Obrigado.- Digo, sorrindo.- Igualmente.
Ele ri.
–Na verdade, eu não estava me referindo a você- Ele diz.- Mas serve também.
Seu sorriso some. Posso ver em seus olhos o quanto está preocupado. Ele puxa do bolso o que olhava na caverna. Não é uma corrente, como pensei. É um lindo colar feminino prateado. O pingente é um coração, um daqueles estojinhos que se guardam fotos.
–O que...- Começo a perguntar, mas ele me interrompe.
–Stive não foi o único que viu alguém ser torturado.- Ele diz, com uma tristeza evidente.- Não sei por que fizeram isso. Eu sou normal. Acho que só fizeram por maldade.
–Eles... torturaram sua irmã?- Pergunto, temendo a resposta.
–Sim.- Ele leva o indicador à cabeça.- Mentalmente. Como se ela já não tivesse sido suficientemente torturada a vida toda...
–Não entendo...
Ele remexe no pingente do colar.
–Eles querem matá-la.- Liam diz, com a voz sofrida.- Mas não o fizeram ainda porque... querem que ela sofra. Eu acho que seu irmão gosta dela, não é?
–Will? Sempre gostou. Eu sempre soube.- Digo. Em outra ocasião eu teria sorrido, mas o que está acontecendo é bem mais sério.
–Então querem torturá-la para torturar seu irmão também.
Ele ergue o colar no ar e o olha atentamente.
–Quando ela me deu isso- Ele diz- Estava desesperada. Ela sabia que ia morrer. Me deu ordens para não abrir o estojinho. Apenas uma pessoa poderia fazê-lo.
Ele me estendeu o colar.
–Você.- Ele diz, para minha surpresa.-Ela mandou te entregar.
Por que Amélia Bennett me daria um presente? Não sou sua melhor amiga e nem nada do tipo. O que ele disse, me surpreendeu muito. Olho do colar a ele, sem entender nada.
–Mas...
–Não recuse, por favor.- Ele pede.- Amélia sabe que você não gosta dela. Mas ela te admira muito, Emma. Pode acreditar.
–Liam, eu...
–Emma, tem uma coisa que você precisa saber.- Ele me interrompe pela segunda vez.- Você sabe como veio parar aqui?
Na verdade, eu nunca tinha parado para pensar a respeito. Para mim, Arismir me mandou por um portal para morrer a míngua na floresta. Mas não faz muito sentido. Ele sabe que Larm está por aqui. Que ele poderia me encontrar e me salvar, como fez.
–Um portal.- Respondo, olhando-o nos olhos.
Ele se levanta e caminha para algum lugar atrás de mim. Depois, se abaixa e coloca o colar em meu pescoço, jogando meus cabelos para o ombro esquerdo e pendendo o fecho do objeto.
–Sim, um portal.- Ele confirma. Posso sentir sua respiração na minha nuca enquanto fala.- Mas não para cá.
–O que quer dizer?
Ele termina de prender o colar ao meu pescoço- o pingente se escondendo no decote do vestido- e se senta novamente ao meu lado.
–Arismir não queria te mandar para cá.- Ele diz.- Não tinha sentido ele fazer isso.
–Disso eu sei.- Digo, esfregando minhas mãos ensaguentadas na grama, a fim de limpá-las um pouco.
–Ele queria te mandar para o castelo.- Meus olhos encontram o seus.- Mas você têm uma resistência a portais admirável.
–Quem te disse essas coisas?- Pergunto, boquiaberta.
–Will.- Ele responde.- Alguém já te disse que ele pode ler mentes?
Então foi por isso... Arismir queria me mandar para o castelo. Mas minha resistência não deixou. Pego o jumbro e a faca e pulo no buraco, que é a entrada, da caverna. Entrego a faca ensaguentada a Doquo e o jumbro a Larm. Vejo Liam pular na caverna também.
Pego a garrafa d'água e lavo minhas mãos. Quando elas estão bem limpas, retiro o pingente do decote e o agarro com firmeza.
Julguei Amélia errado minha vida toda. Ela pensa em mim. Me admira. E eu só sabia xingá-la. Sou uma pessoa horrível. Ela vai morrer achando que a odeio. Eu sempre faço as escolhas erradas, sempre penso de forma errada, sempre ajo de maneira errada, sempre acredito no que é errado...
Traduzindo: Eu sou uma pessoa errada.
Enquanto acendo a fogueira, não faço outra coisa senão me xingar. Confesso que o ato de Amélia mexeu muito comigo. Se estivéssemos em posições diferentes, eu nunca faria isso. Sou egoísta demais.
Hellena deve ter percebido que estou muito pensativa, pois, quando estamos comendo o jumbro, ela se senta ao meu lado e me enche de perguntas.
–Você estava conversando com Liam?- Pergunta ela, olhando para mim.
–Sim.- Respondo, distraidamente.
–Ele falou alguma coisa que você não gostou?
–Não.
–Emma, o que você tem?- Ela puxa meu queixo, forçando-me a olhá-la nos olhos.-Você não é assim. Até agora, não reclamou uma só vez. Não tagarelou, não choramingou...
–Eu não sou tão chata assim.- Forço um sorriso.
–Você não faz ideia.- Ela me solta. Seus olhos pousam no colar em meu pescoço. Ela parece não entender.
–Onde arranjou o colar?- Pergunta.-Nunca percebi que o usava antes...
–Eu não usava.- Aperto o pingente entre o indicador e o polegar.- Ganhei hoje.
Sua boca se abre lentamente, até ficar escancarada.
–O Liam te deu isso?- Ela gira o pescoço até encontrar Liam, sentado num canto, comendo silenciosamente.- Que esquisito.
–Não foi exatamente ele.- Digo, baixinho.- Foi Amélia.
Ela volta seus olhos rapidamente para mim.
–A nojentinha sem sentimentos?
–Não diga isso.
–Você concordaria comigo há um mês atrás.- Ela diz. Não respondo.
É verdade. Eu concordaria e ainda diria algo pior. Amélia é o tipo de garota que guarda tudo para si. Ela parece tão rígida, amargurada e cheia de si ao mesmo tempo, mas nunca pode-se saber o que se passa em seu coração. Ela era insuportável, e talvez esse fosse o único meio que ela encontrava de extravasar sua raiva. Amélia não tinha amigos, pelo menos não de verdade. Na escola, ela andava com duas garotas. Falsas. Volúveis. Invejosas. Artificiais. Elas falavam horrores de Amélia pela escola toda. E o pai dela... nunca se sabe o que acontecia. Uma vez, Amélia chegou na escola com graves hematomas. Mas ela garantiu que havia caído da escada, que não deveríamos nos preocupar com isso. Um dia depois, Liam apareceu na escola com o olho roxo e fervilhando de ódio. Stive me contou que ele tentara defendera a irmã. Vanessa, a mãe, tentava amenizar a história de todos os ângulos. Mas não sou tão burra.
O pai de Amélia sumiu do mapa, ano passado.
Mesmo sabendo de tudo isso, eu continuava a odiá-la. Todos continuavam.
Agora ela está sendo torturada. Como se já não tivesse sido torturada o suficiente sua vida toda.
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