O outro lado do clichê
27 27 - Ele já sabia
Notas iniciais
Capítulo vinte e sete
Ele já sabia

"Eu só quero e espero ter pra sempre você junto a mim
Não me atrevo, tenho medo de dizer que te amo e que te quero assim
Porque (porque)
Porque (porque)"
(Sakura Card Captors — Abertura)
Tranquei a porta do meu quarto e desabei ali mesmo, se eu coloquei as mãos no rosto e chorei até meu sono chegar de tão cansada que fiquei, e depois ir para a cama, foi porque meu coração não parava de bater, o corpo ainda queimava e aquela cena vergonhosa se repetia a toda hora.
— Ele estava duro. — Sussurrei enquanto rolava de um lado para o outro e desarrumava o cobertor.
E o que irei dizer a seguir não seja contado a ninguém, mas se o calor que eu senti lá embaixo e a minha calcinha não estivessem mentindo, eu não estava tão diferente dele assim. Quando tudo se esfriou, era como se a ficha houvesse caído.
— Fui tão babaca. — Falei em voz alta para ver se entrasse na minha cabeça o quanto fui estúpida para não acontecer de novo.
A verdade é que só pensei em mim quando cheguei perto dele e pedi que me tocasse, porém devia era ter colocado o que me falou a frente daquela sensação, mesmo que me consumisse por dentro, porque se fizessem isso comigo teria no mínimo gritado e mandado a pessoa para o inferno.
Ele não era de negar fogo e isso tornava tudo pior.
— Vai se atrasar assim. — Minha mãe estalou os dedos na minha frente para que eu acordasse do meu transe.
Sei lá se eu dormi ou como cheguei aqui, apenas tinha a certeza que deveria estar horrível, pois por qualquer dia mal dormido a olheira gritava. Peguei uma banana e comecei a comer, para que um tempo depois ouvisse uma risada e de canto de olho vi minha mãe me encarar igual uma menina da quinta série quando falam de reprodução humana na classe.
— Não começa. — Agora tenho culpa se essa era a única fruta que tinha sobrado?
Devorei o resto para que parasse de me zoar, mas pelo jeito isso só a fez gargalhar mais. Quando isso vai acabar? Não posso mais trazer garotos aqui sem me fazer passar vergonha?
— Estou quieta. — E precisa soltar algo para saber que estava sendo maliciosa?
Pelo menos dessa vez o Evan não entrou na brincadeira, apenas ficou ali quieto enquanto terminava o seu pão. Só deu tempo de escovar os dentes e corrermos para fora, porque dessa vez ela tinha razão, era bem capaz de eu perder o ônibus. E não foi o que aconteceu? Lá estava o veículo indo embora e nem adiantava mais ir atrás dele.
— Pelo jeito chegar tarde é contagioso. — Foi mais uma alfinetada em forma de brincadeira por quase sempre chegou quando já tinha passado uns minutos da aula.
— Vai demorar muito para o próximo? — Ignorou a minha piada? É isso mesmo?
— 10 minutos. — E foi como se a conversa tinha morrido e eu só pensava se o que eu comentei anteriormente tinha o magoado. — Se corrermos chegamos antes do segundo sinal.
Ainda assim o silêncio continuou em um clima tão constrangedor que minha vontade era correr para a casa e faltar a escola. As vezes eu o olhava e o quando o flagrava fazendo o mesmo desviava com uma cara estranha. O que eu faço? Pensei que estariamos mais próximos depois de ontem, quer dizer, antes de eu fazer a maior burradas de todas.
— Desculpa. — Soltei e ele virou para mim em surpresa. Por quê?
— Do que está falando? — Parecia confuso também.
— Pelo que aconteceu de madrugada. — Quando tive a coragem disso talvez tenha passado um bom tempo, porque era muito difícil para eu ter de tocar nesse assunto.
O ônibus tinha acabado de vir e eu fiquei esperando a sua resposta enquanto estavamos lá dentro e nada vinha, nenhum "a" ou até algum xingamento, qualquer coisa seria melhor do que ficar calado e até certo desprezo em não me olhar uma vez sequer em todo trajeto.
Ao chegarmos perto da escola eu apressei o passo, não porque ia chegar atrasada, mas para que não visse o quanto sua reação mexeu comigo. Tinha estragado tudo e agora achar que nos tratariamos como meros desconhecidos de novo parecia o fim do mundo, se não fosse, para que estaria chorando?
— Audrey, espera. — Sua voz estava tão perto que comecei a correr, já aliviada que o portão estava há poucos passos de distância e podia ir ao banheiro e lavar minha cara, se tudo não fosse estragado por suas mãos em meu braço.
Então notei o quanto ficou chocado quando topou com a minha cara de choro, que tratei de esconder logo por não ter querido de jeito nenhum que percebesse. Como vou explicar algo que nem eu entendia? Eram tantos porques e nenhuma resposta desde muito tempo, acho que quando me flagrei o defendendo que percebi que a minha opinião sobre ele tinha mudado.
Não queria admitir, porém mesmo que achasse repugnante como me chantageou e tudo mais, no fundo queria continuar sendo amigo dele.
— Vem. — Quando o escutei sequei minhas lágrimas e o deixei me levar até onde queria.
Reconhecia que era um dos muitos lugares que vivia se agarrando com uma garota ou outra, só que quando olhei aquele espaço o que senti foi tudo o que contou sobre sempre aceitar um pedido de sexo. E estar ali me fez me odiar mais ainda pelo que aconteceu entre nós dois.
— Preciso ir. — O segundo sinal me alertou que deveria já estar na sala de aula, pelo jeito isso o me deter. Quer que chegue atrasada também que nem ele?
— Por que não ficamos? — Seus olhos me fizeram vacilar por um bom tempo, apenas abria e fechava a boca para tentar negar sem conseguir pronunciar uma palavra. Piorou quando me afastei um pouco e seus dedos fizeram um carinho na minha mão que estava gostando ao ponto de querer mais. — Já está tarde mesmo. — Era verdade, não dava mais de entrar na sala antes do professor.
Encostei na parede em derrota e ficou ali do meu lado, não na frente como fazia para zoar e isso me dava certo medo por saber o quão sério estava. De certa forma tinha esquecido o quanto estava arrependida, só que tudo voltou com o silêncio e meus pensamentos.
— Por que vive fugindo? — Começou. — Eu não entendo, ainda quer um tempo para ficar sozinha? — Era nitido que falar aquilo era difícil para ele, talvez porque não quisesse ouvir o meu "sim" e o nosso afastamento de novo.
Se eu pudesse dizer, talvez a última coisa que queria agora era que voltasse a sentir toda aquela saudade que chegava a doer. Será que foi por isso que eu chorei? Por pensar que iriamos ficar longe um do outro?
— Não é isso. — Tinha tanto para dizer, sobre nunca mais o querer fora da sua vida, sobre saber que era sim sua amiga, mas só isso conseguia soltar agora. Aí, Audrey, por que é tão confusa? — É que você ficou calado a viagem toda, achei que estava chateado comigo. — Sua risada pela que falei me deixou de certa aliviada.
— Que bom que foi por isso. — Quando o encarei foi a minha vez de ficar surpresa, pelo sorriso aberto que veio nessa hora ao ponto de ser com os olhos, os mesmos que estavam sem brilho por dias. — Ia querer que eu falasse sobre o que passou na madrugada em um ônibus? Com todos vendo? — Meu rosto ficou quente e tinha a certeza que estava vermelha só por imaginar como seria falar sobre aquele momento em público, para mim ia responder que concorda e pedir para o deixar em paz.
— O que tinha para contar? — quase completei com "que é tão vergonhoso assim", resolvi deixar para lá.
— Não tem noção do quanto fiquei nervoso pensando que ia brigar comigo, eu que tinha de pedir desculpa. — O choque foi o bastante para me aquietar e notar que também parecia não ter dormido como eu, suas olheiras talvez estavam até pior que as minhas.
— Por quê? Isso é injusto. — Fui eu que fiz aquele pedido, só eu. — Quem começou não foi você.
Chegou mais próximo e então eu senti sua respiração em contato com a minha pele, uma das suas mãos estavam encostando na parede e a outra tocava meu cabelo. De novo aquela sensação que me deixou louca ontem vinha com tudo, que pode ter aumentado quando fez carinho no meu rosto, só que a pior parte era sua boca quase beijando meu pescoço, como se quisesse me provocar ou a minha aprovação.
— Mas quem aceitou fui eu. — Seu rosto abaixou quando terminou e parou com o que estava fazendo. — Como pude fazer aquilo com quem odeia caricias de um homem? Ainda mais de alguém igual a mim. — Por que se deprecia tanto? Eu sentia até raiva por falar mal dele, principalmente depois de ouvir seu segredo.
Mesmo assim ainda estava quente e aquele rastro de formigamento que não sumiria tão cedo. Dessa vez tomei um pouco de coragem e minhas mãos já estavam em seu queixo sem nem perceber, mas se não fizesse isso não pegaria seu olhar de culpa e, quem sabe, até desespero.
— Pedi que me tocasse mesmo sabendo do seu trauma, que não conseguiria negar mesmo sem querer. — Falando em voz alta me fazia entender mais ainda o quanto fui babaca, mais ainda quando me encarava tão de perto. — Se tivesse pensado nisso nada teria acontecido. — É tão vergonhoso.
Ao invés de começar um escândalo ou pelo menos achar que fui a única responsável por tudo, sua cara continuava a mesma, a não ser que agora parecia querer me confessar seus maiores pecados. Não, não poderia ser pior do que admitir que me sentia até excitada por causa dele.
— Tem certeza que eu não queria? — Esse tom rouco e apontar para baixo foi o bastante para lembrar o quanto estava duro naquela noite, me desejava? Só que ainda assim não tirava que errei. — Drey, eu peguei no seu seu seio! — Para de querer se culpar. Espera, quê?
— Como assim? Você sabia? — Fiz um "O" com a boca e seu sorriso agora era mais canalha, de lado, enquanto colocava a outra mão do meu lado, me deixando sem saída.
— Jura que está realmente perguntando isso para mim? — A minha cara deveria parecer um tomate, mas não só de constrangimento, também de raiva. Então quer dizer que continuou mesmo assim? — Tá, por um segundo achei que era outra coisa, mas não foi difícil notar no que estava tocando.
— Você abriu os olhos? — Quase não saiu essa pergunta pelo quanto estava alterada, já ele até soltou o ar com força por isso, como se tivesse sido idiota o que tinha acabado de soltar.
— Sabia que também dá de transar no escuro? — A sua ironia tirou toda o clima de constrangimento e até o meu corpo deu uma certa esfriada. E sinceramente? Agradecia por isso, mesmo que ainda tremesse pela nossa conversa.
— Entendi, é impossível falar sério contigo, tchau.
Até tinha passado por baixo para escapar dele, só que nada dá para ser como quero, porque o guardinha apareceu e eu voltei correndo. Me choquei com seu corpo e o senti me abraçando e levando para mais longe dali. Por que fazem isso comigo?
— Eu falei sério, você que sai fora quando nem terminamos. — Ele me encarava e eu de volta, talvez por um tempo até longo. Era como se assim pudesse ler tudo o que estava na minha mente. — Do que tem medo?
Talvez do seu rosto tão perto de mim? Sua respiração ofegante? A forma como me olhava? Ou cair a ficha de que suas mãos apertando em minhas costas mexiam comigo?
— Evan, o assunto acabou. — Olha a desculpa.
O que mais me confortaria nesse momento era que me soltasse e não falasse nada, só que seria pedir mais.
— Do que você tem tanto medo? — Apesar de ter agarrado meus braços, o que mais me prendia era o quanto queria saber a minha resposta. Sua insistência e espera foi tanta que não dava mais para adiar.
— Eu estou confusa. — Esse era o enigma que queria solucionar desde sempre, falando desse jeito parecia que ele também ficou do mesmo jeito.
— Pelo quê? — Quando me soltou fui de novo para a parede, mas me seguiu e me encarou de frente. Nem agora facilita?
— Sobre você. — Sua cara ainda era de confusão, suspirei e comecei a andar de um lado ao outro antes de continuar. — Por que eu te defendi para a Catherine? Por que fico tão irritada as vezes quando fico do seu lado? Por que eu não consigo te odiar nenhum pouco? Por que eu senti tanto sua falta? Por que eu quero ser sua amiga? Por que chorei? Por que eu ainda quero tanto que me toque como na madrugada? Por que não ligo mais para a Catherine e o Logan? Por que agora parece que só me importo contigo? — Umas partes eu disse mais rápido que as outras, principalmente quando envolvia nós dois, era tão constrangedor, mas quando comecei a falar tudo foi saindo junto.
— Audrey, eu não sei o que dizer. — Sua expressão de pena me fez nem querer ouvir o resto e correr para fora dali, pelo menos já estava perto do segundo tempo e tinha de pegar autorização na secretaria.
Quase em seguida o Miller estava do meu lado e o clima não era dos melhores, aquele silêncio parecia me atingir em cheio. Por que o jeito que reagiu a todas as minhas perguntas me magoou tanto? Ainda mais de algo que nem sabia o motivo.
— Deixo passar porque dá de ver que não estão bem. — Minha cara está tão ruim assim para achar que estou doente? Pelo menos serviu para conseguir voltar a aula.
A nossa chegada a classe ao mesmo tempo levantou uns murmurinhos e de canto de olho observei que certa pessoa não tinha gostado nada disso, a Cat. E não foi nada legal ser fulminada por ela toda hora, nem no intervalo parecia que ia me deixar em paz, pois me seguia.
Já eu estava tentando fugir de todos e no fim topei com o Evan e uma garota da nossa idade, o que no começo me deixou incomodada desapareceu, pois ela o encurralava na parede e, apesar de disfarçar, dava de ver que não estava confortável. Então se não dava de escapar, ia era terminar com isso de uma vez.
— Precisamos conversar. — Inventei uma desculpa e peguei em seu braço, levava-o para fora dali mesmo com protestos da outra.
— O que foi? — Sussurrou.
— A Catherine tá ali. — Um "quê?" em seu testa apareceu. — Pediu para me avisar quando ela estiver por perto, lembra?
— Não existe mais esse acordo. — Me ajuda a te ajudar, Evan!
— Como assim? Contou para ela da aposta? — Será que perdi isso?
— Não, estou falando sobre nós.
— Por que não aproveita? Pelo jeito ela quer falar contigo. — Comentei com certo receio enquanto apontava para a sua direção.
— Tudo bem, mas depois continuamos de onde paramos. — Vi-o correndo até a sua "amiga" e "rival" de tanto tempo, senti como se tivesse o entregado de bandeja e isso não me deixou contente.
Você é uma idiota, Audrey, se toda essa coisa acabasse sua consciência estaria limpa, não teria mais nada a esconder, só que por outro lado saber que essa história poderia terminar em final feliz e os dois juntos não me descia.
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