O outro lado do clichê
23 23 - Que assim seja
Notas iniciais
Capítulo vinte e três
Que assim seja

"Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho"
(Tomara — Vinícius de Moraes)
"Quer que eu te leve e te busque do trabalho? Prometo que ficarei sem falar o trajeto inteiro. — Evil"
Apesar de ter achado tão legal o quanto se preocupou de eu estar sozinha e topar com aquela pessoa, não poderia aceitar. Fazer isso era quebrar a própria promessa, porque de um jeito ou de outro ele tentaria conversar comigo.
"Eu tenho mãe, mas obrigada. — Audrey"
Já ser final da noite e não receber outra mensagem dele estava me deixando desesperada. Nem sequer estava me chantageando ou insistindo para que voltassemos a nos falar, simplesmente está respeitando minha decisão?
Não me leve a mal, era uma evolução e tanto, mas estava esperando por isso. Era como se ter mandado o e-mail com a nossa foto juntos tinha sido em vão. Como vai ficar então a minha respostada decorada que o surpreenderia? Cadê o "lacrou, miga"?
— Como fui burra! — Gritei para mim mesma.
Essa imagem não significava só a suspensão, mas também a Alexia ficar atrás de mim e a Catherine achar péssimo. E o pior é que agora não podia mais apagar e amanhã estaria espalhado para todos da escola ver.
Se era assim, que assim seja, ouvimos um amém? Quer dizer, pelo jeito era o som de um certo alguém dessa história me ligando.
— Alô. — Comecei. — Por que está me ligando e não mandando mensagem?
— Deve ser porque eu estou agora vendo a foto de duas pessoas se agarrando. — Pela sua voz parecia que ia me matar com qualquer resposta minha. — Quero saber da sua boca: é montagem ou é certeza de que beijou o Evan mesmo depois do que te contei de estar gostando dele?
Então já sabe de tudo? E eu achando que pelo menos teria mais um tempo antes da bomba estourar até amanhã, já tinha de aprendido que comigo o nível é hard de jogar o jogo da vida.
— É verdade, desculpa. — É, eu preferi ser a vadia vilã a ter que contar sobre essa aposta, o que incluia se aproximar dela.
— Que belas amigas eu arranjei, você e a Alexia, duas traíras. — Desabafou e a voz parecia até embargada. Assim era melhor, porque se eu não queria ter amizade com o Evan pelo jeito que começamos a conversar, esconder tudo isso dela também não me fazia menos má. Se seria desta forma, que assim seja. Dessa vez eu ouvi o som da outra linha desligando.
É, não precisaria inventar uma desculpa para ficar longe dessa outra personagem daquele triângulo amoroso, só faltava o Logan que estava sumido esses dias.
Quando cheguei na escola não achei nenhum rastro de papéis ou olhares julgadores para cima de mim, mas como nada é bom que não possa piorar, encontrei com eles por estudar na mesma sala. Escutei a briga entre os dois por sei lá qual motivo, já que nem estava olhando a cena, sendo que por mim até estaria usando fone para não entrar nenhum ruído pelo meu ouvido. Para não me confundir mais preferia deixar de lado algo que me causava curiosidade ao ponto de ser o momento mais divertido da manhã.
— Um dia eles ainda vão casar. — Eu quase ri quando algum colega disse isso atrás de mim. Dependendo do que rolar da aposta, talvez fosse verdade.
— O beijão que deram outro dia não engana. — Talvez Alexia tenha falado daquela vez do boato dela e do Logan, bom que pela sua cara não parecia que ia aprontar algo para mim. — De língua ainda. — Riu e falou alto, chamando atenção de todos da sala e até de quem não devia.
Confesso que antes esses comentários dela me agradavam, mas depois que eu soube tudo o que acontecia de perto e o dia do parque, aquilo só parecia mais cena de inveja ou ciúmes.
— Quer um também é? — Mesmo que o Evan seja de lançar piadas, parecia mais uma alfinetada.
— Não acaba com a graça. — Cutucou em seu braço enquanto dizia isso.
Ele se afastou, mas foi para chegar tão perto dela que parecia que ia rolar algo a mais, só que não, porque sua expressão mostrava que não estava para romance, amor ou lance.
— Não viu nada ainda! — Se o rei desse tipo de brincadeira estava irritado, quem era eu na fila do pão para achar diferente?
Não sei se me confundi, mas era como se estivesse me observando depois dessa fala. Era como se quisesse me dizer algo com o olhar, mas preferi não continuar nessa troca quando virei o rosto. Foco, Audrey, você já estava de novo dando atenção a ele.
— Dia de mousse. — Fiquei tanto tempo pensando que já era recreio? As pessoas correndo foi a resposta a minha pergunta.
Já que isso acontecia de vez em nunca resolvi ir para a fila, que estava grande, porém algo me parou. Era uns papéis colados no armário e duas pessoas ali, eu e Evan, a parede atrás de mim e bem agarrados. Ok, fui quem mandou a foto, mas ver em tamanho grande me deixava envergonhada. Era tão íntimo!
— Esse garoto de novo. — Escutei uma colega falar e tentei me esconder para que não visse que era a que estava com ele. — Quantas pegou? Mais de 100? — Não me surpreenderia.
— Pode ser, mas não peguei como disse, foi o beijo. — Por que onde eu estou esse ser também está? Que raiva! E que história foi essa? Fiquei mais espremida ainda naquele canto para que não me descobrisse. — Não quero essa maldita merda aqui. — Olhava para aquela foto de um jeito que podia assustar qualquer um, mas não mais do que a forma que a arrancou e amassou antes de jogar no lixo.
Depois disso não resisti e sai do meu esconderijo para tirar uma outra imagem da parede, foi só nesse momento que me notou e foi atrás de mim para fazer o mesmo com o restante. Se no começo estava séria, ele não ficando atrás, depois que algumas pessoas foram ajudar o humor melhorou, quando vi estava rindo com ele ao meu lado.
Não precisou palavras, era apenas nós dois e os olhares enquanto as gargalhadas seguiam. Fiquei tanto tempo ali tentando decifrar o que queria me dizer que nem notei quando só ficamos eu e ele. Será que era assim que nos relacionavamos antes daquela chantagem? Não, parecia tão maior.
— Drey, e- — Mesmo que a maneira como meu apelido foi dito parecia tão bonita e o que fosse falar poderia ser algo legal, coloquei a mão na sua boca para que não continuasse.
— Ainda não consigo falar contigo. — Confessei e tentei dar as costas, mas minha mão foi tomada por ele em um sinal de que ainda tinha mais algo.
— E a Alexia? — Era como se estivesse preocupado comigo com apenas essa pergunta, mais, tudo o que fez parecia que estava tentando me preservar.
— Não é problema seu. — Eu precisava me virar sozinha, Evan!
Quando nos afastamos e os periodos foram passando, notei que nada tinha se espalhado mesmo que muitos tivessem visto a foto, nem nos outros dias alguém tinha vindo me importunar. Na verdade era como se não tivessem percebido que era eu a garota. Será que foi a franja, o ângulo ou tinham amadurecido depois de poucas semanas? Porque quando saiu no jornal o pedido de namoro do Logan para mim, o caos surgiu, também quando veio o boato que ele e a Catherine estavam juntos.
E eu estava feliz com isso? Uma parte de mim sim, mas outra parecia chateada por notar que foi tudo em vão. Era como se todos aquele tempo de chantagem foram para nada, já que até a tal aposta era sem importância, pelo menos para o Miller. Falando nele, continuavamos sem nos falar, não estava preparada até então.
— Audrey. — Essa voz era capaz de me amendrontar e me fazer tremer só com meu nome em sua boca. Minha mente dizia para correr, mas continuava ali paralisada naquele estacionamento. — Não vai me dar oi? — Em um passe de mágica e sem perceber já estava na minha frente. Seu tronco estava abaixado para que pudesse ver minha cara, mesmo que estivesse dando mais atenção para o que tinha no chão.
— Alexia? Olá. — Não consegui dizer de maneira calma, pois mais gaguejava que outra coisa. O que menos desejava era isso, mostrar que estava com medo. — O que quer?
— Eu sabia que essa garota era familiar. — Disse, colocando na minha frente uma cópia daquela imagem de nós dois nos beijando. — Foi dificil, mas eu descobri que é você. — Agora aprendi que não se deve reclamar que ter mandado foi em vão, muito menos se a última pessoa que queria resolveu o mistério.
— O que importa? — Não adiantaria para quem já estava convencida, confirmar ou negar era o mesmo que nada. Tudo ali acabaria em guerra.
— Para mim sim, achei que tinhamos um trato, lembra? — Aquele de não ficar com o Evan de novo? Já sei.
— Isso foi tirado antes. — Apesar de estar tremendo eu fui seca, admito.
Pelo jeito a minha resposta não a agradou em nada, porque me pegou pela mão e me arrastou para um lugar mais isolado, talvez que nem camêra tivesse. Isso me deu tanto pavor quanto quando estava com James.
— Mentirosa! — Logo me soltou só para me jogar, por estar de shorts meu joelho foi de encontro as pedrinhas, nem precisava me levantar para saber que tinha me machucado, mas ao me por de pé o sangue confirmava minhas suspeitas.
— A franja ainda era grande, não vê? — Não sei se fui corajosa ou burra, mas tentei a enfrentar. De novo me agarrou, dessa no braço, tão forte que eu tinha certeza que ficaria uma marca.
— E por que então resolveu expor agora? — Neguei com a cabeça, mas sua cara não mudou. — Não me faça de idiota, eu tenho fontes no jornal. Para que fez isso? Foi para mostrar que o Evan é apenas seu?
— Ninguém sabe que sou eu. — Falei com a maior calma possível, quem sabe assim ficasse menos alterada.
— Mas poderiam, você é mesmo uma vadia. — É, nada do que eu fizesse ia mudar seu humor. Ela só queria descontar a raiva em alguém.
— Então somos iguais. — Eu sei, fui ousada demais, mas acho que vão entender. — Você e a Roberta pegaram o Evan e são amigas não? Por que comigo é diferente? — Sua resposta foi um tapa bem dado na minha cara, se tivesse um anel talvez teria um corte ali.
— Ela não roubou a Catherine de mim! — Desabafou o que já tinha dito para mim naquela roda gigante. Era mais do que uma paixão incubada pelo galinha ou ter recebido pedido de namoro, era também ter me aproximado da sua "amiga".
— E que culpa eu tenho? Se for por isso, nem falo mais com ela. — Quem sabe o que poderia ter acontecido depois? Pela sua cara o terror só estava no inicio e ia provar disso logo, se não ouvissemos passos se aproximando.
Era o diretor e Logan? Eu sei, ele é sempre o meu salvador, mas por que me sentia tão decepcionada? Era algo não entendia enquanto me escorava na parede e via a Alexia ser levada por eles.
Também me chamaram para ir junto e lá estava eu, ela, o Smith e aquele homem na mesma sala. Vi que na mão dele havia um celular, que logo foi virado para nós e um vídeo apareceu na tela, era justo do momento que passei antes até a chegada deles. Quando terminou via que ninguém tinha coragem de dar um piu, só sobrou para o adulto dali.
— Tenho também outra coisa interessante aqui, mas não posso mostrar. — Pelo jeito que me olhava ao falar eu entendi, a minha cara ficou vermelha num instante e agradeci pela decisão. — Robert, está liberado. — Só ouvi a porta se fechando atrás de mim. Espero que não tenha ficado chateado pela forma que o chamou. — Tem algo para me falar? — Apontava para a pessoa do meu lado.
— Apenas me dê 2 dias de suspensão e acabamos com isso logo. — Sua cara mostrava que estava de saco cheio de tudo, acredita que ainda mascava goma mesmo sendo contra as regras?
— Por mim daqui ia direto para a delegacia, mas isso não depende de mim. — De novo me deu um recado enquanto passava o sermão. — Só que se quer tanto assim sair, vai ficar uma semana em casa enquanto eu vejo o que fazer contigo. — Decidiu e a cada palavra a boca dela se abria mais.
— Tem prova! — Enfrentou.
— Pensasse nisso antes de ameaçar e dar um tapa na Audrey, vai ter que pagar para fazer segunda chamada. — Dessa vez pareceu aceitar. — E mais, quando voltar vai ficar uns dias na detenção pelo chiclete. — Não vou dizer "toma" que ainda tinha a minha vez.
— Que saco! — Ia se levantar e sair da sala, mas pelo jeito aquilo ainda não tinha terminado.
— Não vai pedir desculpa? — Perguntou quando estava para abrir a sala.
— Quê? — Apontou para a minha direção. — Desculpa, mas ninguém mandou ter espalhado aquelas fotos. — Claro que não desperdiçaria a oportunidade de me ferrar, porque era disso que estava falando, ainda tinha de saber o que decidiria.
Então a maravilhosa saiu como se não fosse nada, deixando nós dois sozinhos. O silêncio ficou no ambiente enquanto eu pensava quantos dias pegaria de suspensão por quebrar uma regra ou mais, já ele parecia calcular por que assunto ia começar.
— Você vai fazer denuncia? Porque se sim, é melhor ir assim mesmo. — Perguntou de maneira séria.
— Eu não sei. — Fui sincera, já que jamais imaginaria que isso tudo aconteceria hoje.
— Isso não pode ficar impune. Eu posso dar suspensão e até expulsar, mas e depois? Ela vai para uma escola diferente e talvez outra passe pelo mesmo. — Ele suspirou antes de continuar. — Você assistiu o vídeo? O que elas fizeram contigo foi uma das coisas mais crueis que eu já vi.
— Não tenho a filmagem.
Então quando eu confirmei que queria ver virou para mim seu celular. Talvez ter passado aquilo na mente tenha sido terrível, mas rever aquilo como telespectadora foi pior. A angustia estampada na minha cara, o olhar de choro enquanto dizia aquelas mentiras. Se tivessem cortado certo para não aparecer a voz, será que achariam isso de mim? Nem queria imaginar.
— E então? — Perguntou de novo quando toda aquela tortura acabou.
— Eu irei sim. — Ia sair dali, só que fez com a mão para que continuasse sentada.
— Sobre o beijo na escola, vou dar 2 dias de suspensão, aproveite para descansar e ver sobre a denúncia. — Ok, já imaginava que seria isso, não tinha nem mais esperança de que sairia sem castigo. É uma mancha no meu currículo que talvez me impedisse de ir para o exterior fazer faculdade, mas quem sabe dê para ir a outro Estado né?
Quando abri a porta dei de cara com o Evan, tinha o mesmo olhar daquele os outros dias, como se tinha tanto para dizer, mas havia preocupação nele. Também tinha certeza que estava se segurando para não dizer alguma gracinha. Sei lá quando virei tão íntima dele para achar tudo isso, mas era isso que me passava. Se eu ia embora, pelo jeito era a sua vez de encarar o diretor.
— Au? — O Logan estava ali do lado da secretaria, quanto tempo será que ficou me esperando naquele lugar? Parei quando disse meu apelido e queria rir, talvez saber que não gostava dele me tornava mais critica, só que parecia mesmo que estava me chamando de cachorra como o Miller comentava. — Quer ajuda?
Não sei se foi a adrenalina, mas apenas ao perguntar a dor veio com tudo no meu joelho. Quem sabe estar aqui poderia ser bom.
— Obrigada, por hoje também. — Me apoei nele e fomos caminhando até o estacionamento. Nesse meio eu fiquei pensando em uma coisa, se naquele vídeo apareciam os dois chegando, quem estava filmando? — Só estavam você e o diretor ali? — Minha pergunta o deixou tenso de algum jeito.
— Sim, por quê? — Está mentindo?
— Nada.
Apesar de eu não insistir para me contar quem é, isso me deixou chateada, porque estava na cara que o Evan tinha a ver. Só quem parecia estar preocupado e queria me acompanhar era ele, não fazia sentido que tivesse sido outra pessoa. Mas por quê?
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