O outro lado do clichê
14 14 - "Eu sou uma vadia"
Notas iniciais
Capítulo quatorze
“Eu sou uma vadia”

“Há um momento na vida
De terror definitivo,
De fracasso tremendo,
De sangrar a ferida.
Nada rende,
Não há remendo,
Nem consolo,
Nem saída,
Luta perdida,
A lágrima não significa,
O amor cruza os braços,
A saudade diz que vai
E fica.”
(Ivone Boechat)
E então eu apreciei aquela gostosura, sem nem perceber que logo eu ia experimentar algo que não ia esquecer tão fácil. E quando ia me virar botaram uma venda em meu pescoço, assim como seguraram-me de uma maneira tão apertada que tinha a certeza de que sairia machucada.
— Que a brincadeira comece. Para o carrossel. — e foi o que realmente me deixou assustada.
Ninguém mais estava aqui, só eu, ela e outras duas ou mais pessoas que não sabia ainda quem eram. Parecia estar participando dos “jogos mortais” quando eu senti algo gelado e metálico embaixo de mim.
Por favor, alguém me tira daqui.
Retesei-me pelo medo, mesmo que eu tivesse um pouco de esperança torcesse para que alguém viesse me salvar, pois não sabia o que aconteceria a seguir. As pessoas realmente são um mistério, não podendo saber, apenas olhando, qual a sua futura intenção e grau de maldade. Nem com James foi assim.
— Você tem de ver a sua cara! — gritou uma delas, todavia não sabia quem era pelo tom de voz.
Senti um solavanco puxar todo o meu corpo, principalmente pelo ato surpresa. E eu sabia que o brinquedo começava a se mexer, fazendo-me levantar a mão em desespero, todavia fiquei aliviada ao achar a barra perto de mim, agarrando-me a ela com força.
Era mesmo um carrossel.
— Por que não aproveita para terminar de comer o algodão doce? Temos muito o que fazer ainda nesse parque. — ordenou a Alexia, entregando a comida em minhas mãos.
Aceitei de bom grado, já que esses momentos de terror que passarei serão melhores com uma delícia dessas ao meu lado, quer dizer, em meu estomago. Depois de eu terminar obrigaram-me a devorar outros alimentos do parque, como cachorro quente, maçã do amor e pipoca. Ameaçavam-me para que eu continuasse, porém decidi por não mostrar que estavam realmente me intimidando.
— Por acaso teria também um hambúrguer da lanchonete perto da escola? — quis saber, sorrindo apenas por lembrar do sabor.
E essa minha fala pareceu irrita-las, tanto que senti me pegarem pelos braços, levando-me por entre o parque, sem nem parar por um segundo. A dor no local, pela forma com que me seguravam, dava a sensação de que estavam me rasgando. Será que é essa a intenção delas?
— Onde vão me levar? — quis saber, gaguejando ao imaginar o meu destino.
— Aquela lerdeza estava me entediando, decidi então leva-la para um brinquedo mais radical, sei que irá gostar! Vai ser divertido.... para nós. — as duas últimas palavras foram ditas de maneira baixa pela filha do dono do parque, porém em nada me deixou mais calma ao escutá-las.
Tive de subir os degraus, um por um, sentindo o vento bagunçar meus cabelos. E eu tremia, mas não era apenas pelo frio, que aumentava com a chegada da madrugada. Assim como com a certeza que minha mãe não me encontraria quando abrisse a porta a da casa.
Desculpa, eu não deveria ter aceitado um convite suspeito. Pensei, imaginando o que diria quando estivesse em seu braço, tomando o papel de filha.
— Coloque o cinto. — pediu, mas seu tom não era nada doce. E eu sabia que era Alexia, que falava pelo grupo, sendo que apenas em um único momento ouvi uma delas pronunciar.
Tateei em busca do bendito, querendo, pelo menos, estar segura pelo caminho que terei de superar. No entanto todas as tentativas de encaixar no local certo, ao achar o objeto, foram em vão.
— Vai logo, se não irei ligar mesmo sem pôr! — berrou de maneira maléfica e autoritária. Sabia disso, que cuspia veneno em cada letra, mesmo estando cega.
— Como quer que faça isso sem enxergar? — esbravejei, esperando que compreendesse a minha dificuldade, suspirando pelo silêncio, de alguns segundos, que recebi em resposta.
Pouco depois ouvi passos, que estavam mais altos a cada vez que se aproximava.
— Tem sorte de eu estar de bom humor, pois a ajudarei, mas só dessa vez. — comentou. E sua fala me fez ter certeza que continuarão com essa tortura, ao ponto de me deixar arrepiada.
— Obrigada. — ironizei.
E o meu protesto persistiu quando senti algo enrolando na parte da canela, parecia ser uma corda, fazendo-me levantar a perna pelo susto. E essa reação em nada agradou a última parceira sexual do Evan, porque fez o “favor” de me dar um forte tapa no rosto. Ouvi o estralo, assim como experimentei a dor e a ardência que essa ação me proporcionou.
— Garota, isso aqui não é uma brincadeira! Então espero que não me provoque mais, se não conhecerá do que realmente sou capaz. — a ameaça que me fez foi o suficiente para me deixar encolhida.
Machucar-me seriamente? Furar-me? Puxar meu cabelo? Matar-me? Todas essas opções em nada pareciam me agradar.
O pano foi abaixado com brutalidade, parando em meu pescoço, os olhos não estavam mais tapados, porém pude apenas enxergar após um tempo. Fitei o meu lado, procurando pelas outras cumplices, não as achando. Coloquei a mão no bolso, não encontrando o celular. Apenas não sabia se essa constatação era boa.
Os vagões começaram a se mover por entre os trilhos da montanha russa, do qual dava várias voltas, fazendo-me gritar quando fiquei de cabeça para baixo. Em alguns momentos até levantei os braços, aproveitando do brinquedo, não querendo que parasse.
E quando estacionou percebi que lágrimas escorriam por entre minha face, possivelmente prevendo o quanto sofreria nos próximos momentos. E, sim, ao colocar novamente a venda em meu rosto o terror que sentia aumentou. Qual seria minha próxima parada? O trem do horror? Barco viking? Kamikaze?
Não, eu estava era de frente para a lixeira, praticamente vomitando minhas tripas por conta do enjoo. Passar por um brinquedo desses após comer bastante era como pedir por isso, assim como entendi o plano delas de terem me feito devorar todas aquelas guloseimas.
— Por favor, deixem-me aqui, estou mal! — exclamei, implorando para que me soltassem, ao estar sendo levada por elas, de novo, empurrando-me para a próxima sessão. A corda que amarrava meus pés não me deixavam fugir ou revidar.
O mistério era mesmo maquiavélico.
— Temos de continuar, ou veio apenas para aproveitar de dois brinquedos? Mas como vejo que já está cansada vamos apenas em mais um. Pode ser? — questionou, porém sabia que para elas apenas valeria o “sim”, mesmo que a força.
Balancei a cabeça em afirmação, rolando os olhos. Fui puxada, empurrada, e obrigada a entrar em um lugar pequeno, com um banco, sendo prensada na parede, que se encontrava perto de mim, por alguém.
Quando começou a mexer, indo para cima, percebi que era a roda gigante. Se eu pudesse enxergar saberia que estaria presenciando uma linda vista, do lago perto da cidade, assim como as belíssimas montanhas e as casas que rodeavam a paisagem. Poderia também ver algumas pessoas embaixo de mim, se o parque estivesse aberto, comparando-as com formigas.
Meu coração deu um salto quando o enjoo se apoderou, não o vencendo, tendo de vomitar onde estava, torcendo para que não tivesse acertado alguém. Pois sabia que o mau humor era capaz de distorcer um fato, imaginando que um acidente foi feito de propósito.
— Você já se entreteve bastante, não foi? Agora é a nossa vez! — disse a líder do bando, porém sabia que não seria nada leve essa sua maneira de recreação.
Começaram por uma batendo, enquanto a outra rasgava a minha roupa, sentindo-me constrangida por saber que apenas estava com as vestimentas intimas. Só de calcinha e sutiã. Sendo que a cada vez que revidava ou tentava me defender dos golpes, ele vinha com mais força. Por fim desisti, deixando que me surrassem.
Meu cabelo foi puxado, arranharam-me, socos foram dados por entre o corpo, chutes também. Senti o gosto de sangue, possivelmente por ter engolido ao abrir os lábios. Respirei, orei para que parassem, pedi para que algum herói viesse para me ajudar.
O brinquedo parou, e eu sabia que não estávamos nem no final, possivelmente encontrávamos no ponto mais alto. Risadas de deboches eram ouvidas por mim, senti também algo passando pela minha barriga. E, sem se saciarem, tiraram novamente a minha venda.
Vi Alexia e... Bridget?
Foi assim que o trajeto do brinquedo continuou, retornando para o início, abrindo a porta, entrando por ela Roberta. E agora estava tudo certo, era a “gangue do sutiã número 54”!
— Começaram sem mim. — reclamou, dando um sorriso amarelo para elas, que apenas deram de ombros ao se virarem para mim.
Em sua mão estava uma câmara, da qual filmava tudo o que ocorria por mim.
— Não vai perguntar por que estamos aqui? — questionou a Alexia.
Meu rosto estava machucado, assim como minha boca, mas eu tinha medo da resposta. Isso me lembrou da minha infância, quando eu apanhava apenas por não ser boa nos esportes. Mas, depois de dez anos, novamente presenciava algo assim, porém ouvir os motivos sempre foram o pior para mim.
— Tudo bem, se não vai falar começarei eu. Roberta soube que você pretende contar ao namorado dela sobre o caso deles. Isso é muito cruel da sua parte, sabia? — perguntou, encarando-me, mas nessa hora não gravavam vídeo.
Claro, não seria nada bom se descobrissem a traição.
— Eu apenas estava brincando com ele, nunca ia contar. — sussurrei, o tom baixo por conta da fraqueza que sentia.
A surra que levei realmente tinha me nocauteado.
— E eu quero também saber por que está andando com a Catherine, em? Você não a merece, é podre, feia, nojenta. Apenas eu sou a melhor amiga dela, está entendendo? — a filha do dono do parque continuou, apertando os dois lados do meu rosto com uma mão, fazendo-me gritar por conta da dor.
— Precisa de mais para me magoar Alexia, eu não me importo com isso. Eu sou mesmo feia, podre, sei disso. E conhecer a realidade ou ter baixa autoestima não te deixa fraco, mas sim preparado! — disse, sorrindo pouco, mostrando que nada disso me afetava.
Mesmo que, no fundo, as palavras tinham mexido comigo.
Fitei a Bridget, preparada para a sua explicação.
— E eu estou aqui apenas pela comida. — respondeu, parecendo ler minha mente.
Uma luz chegou em meu rosto, e era a da filmadora, sendo que poderia ver como estava pela tela, já que colocou a câmara frontal em minha direção. Notei que meu rosto todo machucado, com cortes na bochecha, rosto, e o queixo arranhado, desfigurado, porém não conseguia ver meus olhos claramente, já que a franja enorme sumia.
— Diga, eu sou uma fofoqueira e mereço o que está acontecendo comigo. — pediu a amiga colorida do diabo de olhos verdes.
Repeti o que pediu, porém de uma forma irônica. A câmara foi passando pelo meu corpo, tanto que eu vi o rastro de hematomas que se encontravam neles. Estavam ainda vermelhos, porém tinha a certeza que em um outro dia ficariam roxos.
“Tem que pôr gelo, se não pode inchar!” Lembrei do que sempre minha mãe dizia quando me via assim, quando era mais nova, mesmo que não soubesse o motivo. Nem quando apanhava no jardim de infância, ou no começo com o James.
— Eu sou uma verdadeira puta, além de enganar o coitado do Logan, ainda transo com o Evan quando bem quero. — Nesses momentos ela pausava a filmagem, não mostrando que essa fala vinha de outra pessoa.
Elas mostravam o que eu tinha de falar, ao escrever em um papel, ao perceber que eu demorava muito para falar, já que me esquecia do que tinham pedido. Além da pressão, ameaça, ainda tinha medo do final, fazendo-me ficar nervosa ao ponto de não raciocinar direito.
E o choro, que estava guardado desde quando subimos no brinquedo, veio com força total. Principalmente quando a câmera ligou novamente, deixando-me mais agitada ainda.
— Não mereço namorar contigo, pois sou uma traíra. Por isso estou aqui fazendo esse vídeo, praticamente nua, apenas para mostrar a você, Logan, e a todos, que eu de santinha não tenho nada. — balbuciei, as lágrimas correndo pelo meu rosto.
— Animo garota, assim ninguém vai notar que está falando a verdade! E acho que eu tenho uma ideia para resolver isso. — declarou a rainha delas, pegando algo em sua bolsa, que até o momento nem sabia que existia.
Quando vi o objeto peguei em minha mão, assim como, praticamente ao mesmo tempo, liguei o modo de vídeo. Em uns movimentos levantei a tesoura e cortei parte da minha franja, fazendo os fios caírem por entre meu rosto. Os olhos agora apareciam, sendo de um castanho esverdeado, dos quais se mostravam receosos.
— Meu nome é Audrey Campbell, e eu sou uma vadia! — gritei, forçando-me a isso, aparecendo não apenas minha face, mas dando a eles a certeza de quem eu era.
Desliguei a câmara e devolvi para a dona, assim como o utensilio cortante. O meu rosto estava vermelho, arfava pelo cansaço e constrangimento. E, depois disso, elas não falaram mais nada, levando-me em direção a entrada do parque, para depois desamarrar a corda que me impedia de andar.
— Espero que tenha aprendido a lição e se afaste deles, se não nunca mais conseguirá é vê-los. — intimidou, retirando-se após essa fala.
Todas elas se distanciaram, deixando-me ali sem roupa, telefone e com os escritos “sou vadia, me comam” na barriga, escrito com um batom. E por isso me desesperei enquanto limpava essa frase, notando que dificilmente saia.
Tenho que achar um orelhão e ir para a casa, e o mais rápido possível!
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