O outro lado do clichê
6 6 - Minha mãe é pior que uma adolescente
Notas iniciais
Capítulo seis
Minha mãe é pior que uma adolescente

“Me deixa frustrada!
A vida é assim
E você cai, e você rasteja, e você quebra.”
(Complicated – Avril Lavigne)
Guardei o que continha a minha frente na mochila novamente, como as apostilas que tinha pegado para revisar as matérias aprendidas. O lanche chegou justo no momento em que as duas pessoas entraram na sala.
E ainda é um hambúrguer muito gorduroso!
— O Evan está aqui? — alguma fã comentou.
— Ele é um poço de perdição! — exclamou.
— Um Deus grego. — pareceu concordar.
Deixei aquele apetitoso lanche de lado para prestar atenção neles. Enquanto Logan carregava um sorriso meigo, tímido, mas simpático, o outro continha em seus lábios o cafajeste, lançando-o em direção as moças.
Com certeza são completamente opostos um ao outro.
— Como sua mãe está Au? — questionou ao se sentar perto de mim.
As mãos posicionadas na mesa, unidas, enquanto eu só pensava que o sanduiche estava esfriando. Nem sequer abri a embalagem que o cobria para não passar vergonha.
— Muito melhor, mas ficou em casa por causa da ressaca. — respondi.
Sorte a dela era não precisar trabalhar hoje.
— Como a chamou? Parece mais um apelido para cachorro, alguém fiel, mas também que tem sinônimo de vagabundo. Já a Catherine é Cat, de gato. — zombou o Miller.
Olhei o Smith, impulsionando-o a revidar, porém nada ocorreu.
— E você? Não está nem um pouco atrás, Evil. — retruquei com ira.
— É... — finalmente foi interrompido pelo amigo.
— Soube que recebeu um elogio do professor dinossauro. É verdade? — trocou de assunto rapidamente.
Meu rosto ficou em chamas em poucos segundos com essa pergunta. Eu não gostava de me gabar, ao ponto de ficar muito constrangida quando tenho de fazê-lo.
— Sim. — isso foi apenas o que consegui balbuciar.
— Parabéns! Deve ser uma aluna e tanto. — continuou.
É agora que eu morro? Ou é o momento em que um buraco se abre embaixo de mim?
— Eu? Nem tanto. — estava um pouco nervosa.
— Estou cansado de saber que é a queridinha dos professores Drey, apesar de não entender, já que não tira notas boas em todas as matérias. — respondeu o Miller por mim.
Agora eu vou falar poucas e boas para...
— Bom dia, vão querer alguma coisa? Que tal um hambúrguer grande com muito bacon, duas carnes, queijo cheddar, alface, tomate, cebola, molho especial e batata frita que nem ela? — opinou.
Vaca desgraçada! Dedurou-me só para sair por cima.
E ainda teve coragem de piscar para o meu Logan?
Quer dizer, concertando, para a pessoa que não é de ninguém?
— Não sabia que você tinha a síndrome da Magali. — debochou o Evan.
— Mas ao contrário de ti eu sei muito bem que é um baita de um intrometido! — revidei.
Ele me deixa irritada, tanto que sempre tenho de dar patada.
— Você fica melhor com a boca fechada, sabia? — comentou.
Abri o pacote e abocanhei com gosto o lanche. Mirei o Smith e pedi desculpas em silêncio pelo meu comportamento. Eles pediram algo que para mim nem encheria a barriga, mas enquanto não vinha levantei rapidamente e fui para o banheiro.
Enxaguei meu rosto com água pelo nervosismo, por saber que ainda teria de encará-los. Estar com eles, mesmo sabendo que as outras garotas não miravam isso com bons olhos.
— Não se enxerga não? — vi que se referia a mim quando olhei no espelho.
Minha face se tornou vermelha, porém o dela parecia irado, e eu virei em sua direção. Notei-a estar me analisando de cima a baixo, para depois reprovar-me com a cabeça.
Pingos de água caiam ao chão.
— Do que está falando? — fiz-me de desentendida.
Tremia tanto que sai de perto dela para pegar papel toalha e me secar, talvez assim conseguiria um pouco de tempo para me recuperar. Só que esse meu ato pareceu a irritar bastante, pois pegou em meu braço sem nenhuma delicadeza e o apertou. Fitei-a novamente, agora com mais determinação.
— Sobre ficar andando e conversando com o nosso Evan. — clareou.
É isso mesmo que eu ouvi?
— Não sabia que ele tinha tantas donas assim. — sim, fui ultra sarcástica.
— Você entendeu muito bem! Espero que não ouse sair mais com ele além da escola, pois é de todas. — ameaçou.
Quem ela era para chegar falando desta maneira? Nem sequer a conhecia.
— Desconhecida, qual é o seu nome? — questionei.
— É Olivia. — respondeu de maneira seca.
Tinha de ser um dos meus apelidos?
— Por acaso viu que o Logan também estava lá? Não estava sozinha com o Miller e nem quero estar, pois nem perto de amigos somos. Se desejar ele para você é só chama-lo para sair, tenho certeza que vai aceitar. — comentei.
— Tudo bem. — finalizou com calma.
Seu sorriso se mostrava cruel e malicioso, como se fosse aprontar a qualquer instante. Saiu com sua amiga, que nada tinha falado, antes de mim. Respirei fundo muitas vezes antes de voltar à mesa.
Só que ao chegar tudo aconteceu em câmera lenta. O Smith, que há pouco estava comendo o sanduiche e bebendo aquele refrigerante gelado, levantou-se e foi para fora da lanchonete junto daquelas garotas que estavam comigo há pouco tempo.
E eu? Fiquei ali parada como uma tola.
— Viu? Está apaixonada. — provocou o demônio.
Ele não se cansa? Por acaso tenho cara de alvo?
— E você é um baita de um cego. — rebati.
— É inocente mesmo, não é? — pronunciou ao rolar os olhos.
— Olha quem fala, mulherengo. — em desdenho.
— Vejo-me conversando com a Madre Tereza de Calcutá em pessoa, com essa saia abaixo do joelho e blusa larga.
— E eu o Dom Juan. — foi na mesma moeda.
— Irei na sua casa. — devolveu.
— O quê? — depois de um tempo que minha ficha caiu.
Pensei que íamos continuar brigando, mas o que disse me deixou perplexa.
— Você escutou muito bem, Audrey. Ou deu uma de surda? — quis saber.
— Por que o Logan não volta? — sussurrei, mas infelizmente alguém ouviu.
— Não se preocupe, apesar dele estar se divertindo com as duas no shopping, na sua frente está um gostoso, sarado e maravilhoso garoto. — achando-se, como sempre.
— Antes só do que mal acompanhada. Então tchau.
Peguei a pasta com prontidão e caminhei com agilidade até a porta do local, porém infelizmente fui seguida por aquele diabo de olhos verdes. E o que imaginei ser mentira, sobre ir até meu lar, comecei a achar que era verdade.
— Que foi? — fui rude, confesso.
— Precisamos conversar.
Comecei a rir pelo sentido que essas palavras soaram, como se fosse terminar comigo. Mas o quê? Se nem amigos somos. Será que o nosso acordo? Recuperou um pouco da noção e resolveu deixar aquilo de lado? Eu torcia, do fundo do meu coração, que sim.
— Pois fale. — comentei.
— Porém não aqui, e sim na sua casa. — revidou.
— Entenda: não sou igual as outras! — estava começando a ficar irritada.
— E eu sei bem disso. — confirmou ao me fitar de cima a baixo.
Aquele olhar de reprovação novamente vi em outra pessoa no mesmo dia.
— Acho bom que tenha certeza, porque se quer ir para conversar, nada mais será feito. — limitei.
— Não era você que deveria estar dizendo isso, mas sim eu. Não acha?
Esse ar de superioridade é ridículo.
— Chegamos. — murmurei para acabar com o assunto.
Felizmente moro perto da escola, assim como da lanchonete.
— Filha, onde est-
Parou de repente ao ver que eu estava com um guri ao meu lado.
— Por que não me disse que teríamos visita? Poderia ter feito almoço, agora tenho de ir ao supermercado. — declarou.
— Vá! — animei-me rapidamente,
Desde que meu pai morreu que eu não comia algo descente.
— E deixá-los sozinhos?
— Ficaremos no quarto. — tentei tranquiliza-la.
— Isso foi a pior coisa que poderia ter dito. — balbuciou o Evan em meu ouvido.
— Tudo bem. — respondeu com um sorriso.
Mãe diferente, esquemas distintos.
Quando estava indo em direção a escada, com o garoto seguindo-me, ela me chamou de novo. Fui em sua direção ao suspirar e me deparei com algo em sua mão.
— Sou muito nova para ser avó.
Então eu notei, vi, toquei e fui obrigada a levar comigo o preservativo. Ao notar o que era o meu colega de escola debochou de mim, tanto que deixou-me muito vermelha pela irritação.
— Dá para parar? — implorei.
— Só se você deitar comigo. — provocou.
Ele estava mesmo na minha cama? Colocando seu corpo em minha colcha? Isso é ou não desrespeitoso? Por favor, afirmem que sim. Algo assim não pode ser normal, principalmente quando não é convidado.
— Nunca. — neguei com determinação.
Virei-me de costas para dar mais ênfase no que eu falei, porém logo senti braços me enlaçando e levantando-me do chão. Sabe o que ocorreu a seguir? Algo inimaginável.
Simplesmente me jogou, como uma boneca de pano, na cama. Encontrava-me em cima dele e trancafiada pelo aperto em meu corpo, não deixando-me sair. Tentei a todo o custo, mas ele não deixava. O que me faz crer que academia não serve apenas para bater foto no espelho.
— Desista. — murmurou, tentando, em vão, fazer uma voz sexy.
— Como? Se não me deixa sair? — saiu de maneira sufocada pelo cansaço.
Pareceu ficar um tempo imóvel, depois, como um milagre, me empurrou em direção ao lado que ficava encostado a parede. Fitei-a por um tempo, achando-a mais interessante que outra coisa, porém fui interrompida por ele.
— Admita que gosta do Logan. É tão fácil. — estava tão perto que seu hálito quente era sentido em minha nuca.
Sim, deixou-me arrepiada, no entanto não significa atração.
Troquei a posição, conseguindo-o olhar cara a cara agora. Fiquei o analisando por alguns segundos, não dando o braço a torcer quanto a fazê-lo mudar de ideia sobre aquilo, porém parecia irredutível.
Em sua face havia covinha em apenas um lado, seus olhos tinham tons desiguais de verde. Tinha um sinal fraco na bochecha, assim como sua boca era bem vermelha e um pouco carnuda. Vê-lo tão de perto fez-me ficar tão constrangida ao ponto de sacudir minha cabeça e tentar voltar ao que estávamos conversando.
— Eu não o amo, ok?
— E... por acaso os atrapalhei?
Essa era a minha mãe em um momento completamente surpreendente, com aquele ar cansado, cabelo em um coque e uma bandeja em suas mãos. Percebi que trazia consigo dois sanduiches naturais e sucos de limão.
— Nós... — fui cortada sem dó, nem piedade.
Como um fatality em jogo de luta.
— Você tem 16 anos sabia? Nunca trouxe um garoto para a casa e quando o faz eu impeço a sua primeira transa? Está mais do que na hora de perder a virgindade, porém saber que pude ter atrapalhado é horrível. Sinto-me culpada. — estava realmente triste.
— Voltando: não estávamos fazendo absolutamente nada.
— Se quiser ir para a cama com ela, tem a minha autorização. E, você, espero que aproveite, pois não é sempre que se tem dois gatos aos seus pés. — piscou para mim ao sair daqui, não antes de deixar aquela comida para nós e fechar a porta.
— Ela é louca. — sussurrei para ele.
— Você é uma Madre Tereza de Calcutá mesmo! — gargalhava alto.
— Obrigada. — resolvi por não rebater e me concentrar naquele manjar dos Deuses.
Eu sei, não faz nem três horas que eu comi da outra vez. E não, esse lanche maravilhoso não esperará até esse tempo, e nem eu. Minha boca chegava a salivar só de imaginar como seria saborear essa delicia.
Sabe quanto tempo que eu não tomava um suco natural e provava um lanche feito pela minha mãe (mesmo que não tenha sido cozinhado)? Mais de dois anos.
— Nunca vi alguém com tanta fome em menos de duas horas, ainda mais após comer um hambúrguer daqueles. Agora o que eu quero saber é: por quê? — declarou.
Se eu dissesse que fazia tempo que me alimentava de algo diferente, além de suco industrial e bolacha de sal, me levaria a falar sobre a morte do meu pai ou sobre o comportamento de quem “cuida” de mim.
— Passo. — sussurrei.
— Por que não vai me contar? Não somos amigos por acaso? — questionou.
Respira. Inspira.
Ele é um idiota ao falar assim.
— Sem brincadeiras. — foi apenas o que falei.
— Mais sério impossível. Por qual motivo não seria?
— Evan, não se faça de desentendido. É claro que ninguém ia querer ter alguma amizade com uma pessoa como eu, apenas se eu pagasse. — confessei.
— Alguém como eu? Você tem baixa autoestima, Drey? É só se arrumar um pouco, cortar essa franja, mudar sua roupa e será outra pessoa. Acredite, muitas pessoas terão mais interesse em conhecer sobre ti. — aconselhou.
Minha boca ficou aberta neste instante, em total descrença.
— Por que está sendo legal comigo? Quer algo em troca? — desanimada.
— Por sua causa. — respondeu.
— Seja mais específico.
— Você é genial, magnifica, Audrey!
— Pensei que ia querer me matar com aquela mensagem que mandou. — declarou.
Referia-me a: “Irá me explicar isso direitinho Campbell”.
— É claro que no começo fiquei muito irritado, mas depois notei que foi um plano e tanto. Virar amiga da Catherine, ganhar sua confiança, para depois me contar tudo o que ela te segredou. É isso que irá fazer, né? — a mente dele é uma máquina do mau.
— Não posso. — neguei.
— Mas vai sim! — exclamou.
— Não. — continuei.
E no instante seguinte suas mãos se posicionaram em pontos específicos do meu corpo, fazendo sentir a tortura que é a cosquinha. Que faz gargalhar automaticamente enquanto vê seu folego acabar a cada instante, ao ponto de ficar vermelho e tossir.
— Audy, é tão pequeno assim para estar rindo desse jeito? Tamanho não é documento filha. — gritou a minha progenitora do lado de fora.
E se eu estava gargalhando por conta de uma coisa, após isso ele me acompanhou e ficamos deste jeito por muito tempo. Até ele me olhar e ficar sério novamente, dizendo algo que me deixou, no mínimo, curiosa demais.
— Tenho certeza que irá concordar. Por isso pense na proposta com carinho e me responda até semana que vem, tudo bem?
— Sobre o que minha mãe disse? — brinquei.
— Não, sobre a Cat. — finalizou.
Após essas palavras ele foi embora sem nem se despedir. Como se o encanto tivesse acabado. E eu fiquei ali sem saber o que fazer. Por que afirmava que eu ia aceitar, sendo que falei claramente que não ia?
Peguei a minha mochila e fiquei revisando aquelas matérias, mesmo que já fosse sexta-feira. E dentro do caderno eu vi algo que me deixou muito, muito, irritada. Era nada menos que uma foto minha beijando o Evan e uma frase era citada atrás.
“Sabe o que fazer não? Até porque ia ser péssimo para ti que todos soubessem do que ocorreu naquele dia após as aulas, não é?
Espero que a resposta seja “sim”, mulher das cavernas.
— Evan M.”
Aquele M com certeza era de macabro, maléfico, maquiavélico e mau. Tudo que julgava ser ruim, menos Miller.
Esse não dá ponto sem nó, não mesmo!
O que será de mim? O quê?
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