O outro lado do clichê

16 16 - Um segredo por outro


Notas iniciais
Olá queridos leitores! *-* Quero me desculpar pela demora, muitas coisas ocorrendo. Último dia do ano! Agradeço a todos que comentaram, favoritaram e acompanharam até aqui. FELIZ ANO NOVO, BOAS FESTAS E NATAL ATRASADO. Espero que gostem, pois fiz para vocês.

Capítulo dezesseis

Um segredo por outro

“Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”

(Clarice Lispector)

Não conhecia quem tinha feito essa cicatriz, com o símbolo de cabeça para baixo, estando a ponta no meio das sobrancelhas até a metade da testa, algumas partes fundas e outras tinham um pequeno calombo, pois me acertaram na cabeça de uma forma que desmaiei. Lembrava de poucas coisas, como quando me zoavam por usar vestidos rosas, laços na cabeça e vivia sempre arrumada, não querendo brincar na caixa de areia ou me sujar por conta disso. Só que os instantes em que berrava para faltar as aulas, ocorrendo até o final do pré, acompanhando um tempo da primeira série.

Talvez tenha sido a curiosidade, a maldade ou por não querer me divertir com eles que fizeram isso, mas a consequência em meu psicológico e mente, seguindo até hoje, começaram quando acordei naquela cama de hospital.

— Como você está?

É uma daquelas perguntas em que pode estar rasgada por dentro, porém a possibilidade de dar um sorriso amarelo e responder que sentia-se ótima era grande. Ou apenas poderia confiar na pessoa a sua frente, chorar, e deixar-se ser abraçada até estar cansada.

— Suponho que estando aqui é porque já deve saber como estou. — Desculpa, mas não ia contar toda a verdade, ao contrário de que a secura em minhas palavras e gestos foram nada mais do que a maior confissão que poderia transmitir nesse momento.

Talvez nem deveria ter parado quando vi Logan no estacionamento, parado na frente ao seu carro, bem aquele que minha mãe tinha vomitado, enquanto parecia estar esperando alguém.

Era quase óbvio que poderia me arrepender quando aceitei sua carona, tentativa de consolo e o toque nas costas ao me abraçar. Ainda mais quando beijou meu rosto com carinho antes de me ajudar a sentar e colocar o cinto.

— Catherine me contou que estava cheia de hematomas. — Ela descobriu de que jeito? — Mas só o que sei é sobre seus machucados, não como aconteceu.

— Se pudesse chutar, diria que tinha sido o Evan. — Sussurrei ao pensar apenas na primeira parte, porque era só o que importava. Minha mente tentava a todo o custo apagar o ontem.

Meu corpo foi para a frente, protegendo-me com a mão ao encostar no porta-luvas, antes de me ver parada em um acostamento qualquer. Seu jeito de encostar o carro naquele lugar foi tão brusco e de surpresa que meu coração foi a mil, notando que não encontrava-me tão apaixonada ao ponto de ficar calma ao estar com ele.

Os gritos perto de nós foram o bastante para olhar para o lado e perceber que seu gesto imprudente quase causou um acidente. E era isso que ia alertar ao apontar o dedo e me enfezar antes de abrir a boca, se não notasse o quão perturbado estava.

— Eu vou matar esse cara! — berrou, socando o volante, parecendo uma simulação para quando encontrasse essa tal pessoa. Igual uma água lutando por sua presa.

— Quem? — Considerava-me tão inteligente, porém não era o suficiente para ler entre as entrelinhas e perceber logo quem era.

Afinal humanos não são matemática, Audrey.

— O Miller. — Dentes rangiam um no outro ao falar o sobrenome de alguém que conhecia muito bem nessas últimas semanas.

Um estralo veio na minha cabeça. É óbvio que poderia pensar que tinha sido seu amigo pela maneira que falei. No fim era apenas um mal entendido, como tantos outros.

— Logan, obrigada pela preocupação, mas não foi ele que me bateu. — Peguei em seu braço com as duas mãos, tirando-o daquele estado por mostrar a verdade. Não, quando minha intenção era omitir algo, chama-se meia mentira.

Em contrapartida estava ainda assustada com o que aconteceu e não pude pará-lo quando levantou o moletom do uniforme, encontrando todos os rastros daquela noite. Sua boca se abriu e senti-o tremer quando me tocou, para depois passar as mãos com leveza pela parte descoberta.

— Então confie em mim e conte quem foi o monstro que te marcou assim. — Essa frase deveria estar no plural. — Por acaso seu ex padrasto tem algo a ver?

Percebi com suas palavras que apesar dele saber de tantos detalhes sombrios meus, nem sequer conhecia sobre a pessoa ao meu lado que não fossem ditas por outros.

— Um segredo por outro.

Liguei o som sem nem pedir, anunciando algum ritmo pop. Reconhecia ser de uma cantora famosa, só que não apenas uma canção dela ouviria, enquanto nada escutava nada além das nossas respirações.

— Meu nome é Robert Logan Smith. — Ouvir se apresentar não deveria me causar tanto espanto, porém até hoje apenas os dois últimos existiam para mim. Se não tinha me dado conta desse detalhe tão importante, quais coisas mais tinha para me confessar? — Não é sua culpa, apenas não gosto que me chamem de Robert. — Seu sorriso amarelo deu a entender que existia algo terrível por trás disso.

— Pode Robin? — Falei tão rapidamente que mal pensei.

— Deve. — Essa pequena resposta jamais seria apenas uma confirmação, todavia o fim daquela conversa. Seus braços de encontro a chave para ligar o veículo, o ronco do motor, o toque no volante e a volta a estrada indicavam que eu não era digna de saber seu passado.

As paisagens passando diante dos meus olhos, a percepção de que estaríamos tão perto de casa, me fez fechar as pálpebras com força antes de tentar iniciar outra conversa.

— Não quer saber dos machucados? — Tão baixinho quanto minha vontade de continuar esse assunto.

— Au, você fez bem em me pedir para te revelar algo novo. Eu não estou preparado para te contar uma história dolorosa minha que aconteceu há anos, então te forçar a me dizer uma coisa recente seria injusto. — cantarolou uma parte da música, prestando atenção a sua frente.

Dessa vez nem a parte que é fracassada com relações sociais foi o bastante para frear a intuição de que estava escondendo alguma informação. Se fosse uma oposta, possivelmente ganharia da minha eu do passado que jamais imaginaria que estaria conversando com o Logan ou ter percebido que algo estava errado com ele.

— Tem razão, também percebi que não te conheço o suficiente para confiar. — Essa resposta que dei doeu até em mim, porém prometi a mim mesma que faria esforço para mentir menos.

Tinha estacionado novamente, dessa vez em um local familiar. E bem na hora certa, pois não teria coragem de encara-lo quando disse palavras tão dura para alguém que só mostrou preocupação e carinho para comigo. Quando estava descendo para correr em direção a minha casa, senti-o me puxar, obrigando que o visse por uma última vez.

— Mas ainda vai me deixar te levar para o trabalho? — Parecia normal, mesmo depois do que comentei. Escutei um barulho atrás de nós.

— Não precisa. — Queria, porém jamais dependeria de alguém.

Nesse momento seus braços me agarraram, indo de encontro ao seu peito. Escutei seu coração batendo forte, apesar do tum tum ser mais fraco comparado ao que senti no acidente, passando a mão por suas costas ao perceber que não me largaria tão rápido e pela vergonha. Quando finalmente me soltou pude notar cada detalhe de seu rosto, a seriedade dominava, mas seus olhos mostravam algo diferente que me marcaram.

— Audrey, deixe-me te proteger. — Sussurrou, encostando seus lábios em minha testa, algo tão suave que mal senti.

— Vou te dar uma chance. — Concordei.

Não, nem esperei para ver seu sorriso aumentar, ou talvez me abraçar de novo em mais um ato impensado dele. Nós sequer tínhamos um relacionamento para me tratar desse jeito, tocando-me sem permissão.

Robin tinha defeito: ser muito grudento.

Abri a porta, pulei para fora e caminhei com a cabeça baixa até perto da escadaria. Ao levantar para entrar em casa notei que uma garota encontrava-se nela, pelo jeito que escutava soluços não estava nos seus melhores dias. Era conhecida, pela silhueta arriscaria ser a mais popular da escola.

— Catherine, o que está fazendo aqui? — Apesar de parecer o contrário, fui a mais mansa possível ao questiona-la.

Levantou a cabeça com a pergunta, comprovando o que já imaginava. Enquanto os resquícios de rímel em nada diminuíam a sua beleza, não pude deixar de comparar que eu parecia mais o fofão de tão inchada quando chorava.

— Vim ver se estava bem. — O tom era tão seco quanto o deserto do Saara. — Mas pelo jeito nem precisava, parece ótima.

— Quer entrar? — Dei uma de João sem braço.

— Não tinha esse direito! — Agarrou meu braço antes que pudesse girar a maçaneta, trazendo-me para perto dela.

Ficamos nos encarando por um bom tempo. Deveria dizer que não compreendia todo o seu nervosismo, porém lembranças daquela noite me atingiram. Justo aquela festa em que nos falamos quase pela última vez. Depois disso ela chegou a me tratar como se fosse inferior, dizendo até sobre não ser o tipo do Evil.

— Pelo que sei não estão namorando. — Rebati, esquecendo toda a possibilidade de querer estar mais perto dela ou ter sua amizade.

Até porque eu nem poderia, muito menos por saber que era cumplice de um plano sórdido contra ela. Eu fazia parte do lado negro da força, apenas me metendo em seu caminho por conta de uma chantagem medíocre.

— Você é minha inimiga por acaso? — “Sim!”, todavia joguei para longe meus pensamentos e neguei com a cabeça. — Então jamais deveria tê-lo beijado quando eu fiz antes, mesmo que não tivéssemos compromisso.

— Primeiro, não fizemos do que acabou de dizer. Segundo, se isso é tão importante assim, por que com o Evan é diferente? — Essa era aquela questão que poderia tirar tudo dela, apesar da dúvida já estar plantada.

Se ela já estiver apaixonada por outro, o meu parceiro de crime tem que suar muito para conseguir conquista-la. O que não é ruim, pelo contrário, quero mais é que com a demora dela se declarar desista dessa ideia besta de aposta.

— Como assim?

— A Alexia transou com ele, mesmo depois de vocês dois terem se agarrado no meio da escola inteira. — Resolvi por esquecer que poderia estar ferrando com aquela garota, pois não pensou no que sentiria em cada tapa dado em mim. — Era segredo?

A sua cara de indiferença respondia a pergunta antes mesmo de abrir a boca. Sentei ao seu lado no degrau da escada quando cansei de continuar em pé, apenas esperando pela explicação.

— Caras como ele, Audrey, não valorizam as mulheres, por que eu deveria? — Tinha total razão, no entanto algo me dizia que tinha outro motivo além desse.

— Quer dizer que apenas não quer que eu e o Logan fiquemos juntos por ele ser legal e por isso merece respeito? — Se dependesse de mim ficaríamos naquele jogo de perguntas o dia inteiro.

— E por ser minha amiga, claro. — Completou.

— O que não deve saber é que para exigir isso de alguém, jamais pode fazer a mesma coisa. Ou por acaso é adepta do faça o que digo, mas não repita meu exemplo? — Surpreendentemente estava defendendo a última pessoa que merecia isso, o Miller.

Olhou-me de um jeito que jamais vi ser direcionado a mim, contudo tantas vezes tinha visto ao brigar com o seu rival na classe. Toda a sua feição era voltada para a raiva e descrença.

— Eu não sou igual vocês! — Gritou.

— Fala tanto de respeito, mas beijou o Robin sem nem perguntar se queria. Pior, esse seu joguinho na festa só serviu para quase acabar com uma amizade entre ele e o Evan. — O dia seguinte, quando vi o quanto os dois se gostavam e fizeram as pazes, mesmo depois de terem brigado, foi o bastante para mostrar que eram amigos de verdade e o quão ruim seria ver aquilo destruído.

Apesar de tudo em mim gritar que não era para trata-la daquela maneira, justamente por todo o mal que ia fazer a ela no futuro, meu instinto de contra-atacar quando me xingam diretamente foi maior. Talvez essa minha reação tenha sido mais acida por tantas patadas que eu o Evan trocávamos.

— Quem é Robin?

— Apelido para Robert. — Fui inocente na resposta, eu juro.

Seu rosto se tornou vermelho e o punho fechou, levantou-se tão rápido que nem pude acompanha-la. Segurou sua bolsa, talvez para impedir que fizesse um ato impensado, como me dar um soco.

— Preciso ir embora. — Foi baixo, porém ainda dava para escutar o quão mexida estava pelo que disse.

— Espere, que-

Deu um tapa em minha mão quando tentei impedi-la de sair, quando se virou para dizer suas últimas palavras notei que seus olhos estavam marejados. Eram lágrimas prontas para sair, porém não foi apenas isso que botou para fora ao se pronunciar.

— Não pense que nossa conversa está terminada, mas foi o suficiente para perceber o quanto podemos nos decepcionar com os outros. Por isso agora prefiro estar com alguém que realmente é importante e precisa de mim. — Desabafou, assim deixando-a que sumisse de vista.

Pelo resto da tarde eu repeti em minha mente cada parte da nossa conversa, suas palavras, gestos e como a deixei no final, era algo que jamais esqueceria. No meio dessa troca de farpas, uma coisa que comentou tinha chamado a atenção.

“Eu não sou igual vocês”.

Se pareço-me tanto com o Evan Miller, será que me tornei um monstro?

— Eu ouvi. — Essa é a voz que vai me ferrar.

Quando esse dia se tornou tão longo? Por que ainda não estou na cama e dormindo? Era o que queria quando me chamou.

Notas finais
O que acharam? A gif não é minha. Se tiver erros de português podem me avisar. Quem quer comentar? Realmente vai me deixar bem contente, de coração, até porque saber a opinião de vocês sobre a fic me faz compreender mais o que desejam e estão achando. Além de que adoro criar intimidade com meus leitores, se quiserem mandar MP, podem ficar a vontade. E se por acaso sentirem que essa história merece uma recomendação, como a diva da Miih Lima fez, pode ter certeza que essa autora vai amar demais! Beijos e até a próxima.