O outro lado da moeda : Skye
7 Capítulo 7
Notas iniciais
SKYE
Fora a primeira a entrar no loft, num ar todo animado, a única coisa que carregava era sua mochila e o laptop embaixo do braço. O loft tinha dois andares e uma decoração rústica, envolvendo muita madeira e tons neutros, algumas pinturas também adornavam o local dando-o um ar mais “familiar” e para Skye, aquele era, de longe, o local mais bonito que ela já habitara, sem comparações ao quitinete minúsculo de Miles que tinha mais personagens colecionáveis do que comida nas prateleiras e ai de quem tentasse tocar nos tais brinquedos ... Lembrar-se das crises de ciúmes dele com os bonecos lhe trouxe um sorriso aos lábios, queria com todas suas forças que ele estivesse ali.
Todos pareceram notar a genuína alegria da menina, só havia um problema, quatro quartos e seis pessoas. Se soubesse desse pequeno detalhe antes, talvez não tivesse ficado admirando a vista por tanto tempo, mas aceitou sua derrota no final das contas, e se estabeleceu no sofá, ele era maior que todo seu dormitório, então estava de bom tamanho. Fitz-Simmons foram os outros dois que tiveram que dividir o quarto, o que não pareceu ter gerado nenhuma discussão, eles pareciam diferentes versões de uma mesma pessoa, era a coisa mais louca que já vira.
– Quando sair daqui, vou assaltar a conta bancária de algum senador e comprar uma casa gigante para mim – anunciava aquilo na maior naturalidade do mundo, estirando-se inteira sobre o sofá e recebendo diversos olhares de desaprovação – Os senadores corruptos ?! – tentou tornar aquela declaração menos criminosa, sem muito sucesso.
– Tudo bem, não estamos aqui a passeio. Quero pistas de quem esse “R” possa ser, usem seus brilhantes cérebros e pensem em meios de o localizarem – Coulson decidiu ignorar a garota e ordenou de modo enérgico.
– E por que você também não usa seu brilhante cérebro ? Queria eu ser líder desse jeito ... – retrucou baixo, embora alto o suficiente para o homem ouvir. Ele já havia se habituado aos modos de Skye e simplesmente suspirou, fitando May, em busca de paciência, talvez. A mulher apenas pousou a mão no ombro do mesmo.
– Porque eu, May e Ward iremos a uma reunião importante com Victoria Hand –ele respondeu pacientemente e Fitz-Simmons o encararam com esperança, logo frustradas – Só níveis 7 estão autorizados a se juntarem – ele falou, já prevendo a futura pergunta dos cientistas que calaram-se, resignados. Não pôde evitar de sentir pena deles, apesar de ser mais nova, os julgava seus irmãos mais novos e odiava vê-los cabisbaixos.
– Claro ... Afinal, alguns são mais descartáveis do que outros – sinceramente não queria brigar, mas sentia tanta repulsa daquela hierarquia infundada, daquelas castas que segregavam pessoas. Todos eram agentes, todos mereciam tratamento igualitário. Estava uma verdadeira anarquista, pegou-se pensando.
Coulson não respondeu e Fitz-Simmons tentaram abrandar a situação dizendo que não se importavam e que a hierarquia era importante para manter a ordem e blá blá blá,eles eram tão certinhos que as vezes chegavam a lhe irritar. Skye bem sabia, na vida real, o mundo não é dos que seguem as regras, mas daqueles que são fortes o suficiente para quebrá-las e saírem impunes.
Todos se despediram rapidamente e May lançou um olhar de alerta para Skye, que dizia: “não tente algo estúpido ou vou quebrar sua cara”, sim, já conseguia ler May com perfeição, mas nunca gostava do que subentendia daqueles olhares assustadores. Revirou os olhos e virou de costas, deixando-os partir.
– Vocês sabem o que deveríamos fazer ?! – Skye exclamou, juntando-se a Jemma e Leo, tinha um sorriso cofabulador sobre os lábios e os gênios logo entenderam, Skye queria explorar a cidade, aproveitar aquela chance única de não ter nenhum carcereiro presente – Vamos! Vocês sabem quando teremos outra chance feito essa ? – questionou num ar mimado e cruzou os braços, aborrecida.
– Skye, não podemos, agente Coulson nos passou uma missão, esqueceu ? Temos que encontrar o R – Jemma se manifestou,não queria chatear a jovem,mas definitivamente não queria ser repreendida por um superior. Como sempre, certinha demais. Já Fitz parecia meio dividido, tinha certeza que ele era o elo mais fraco daquela relação, mas bastou receber um olhar mais sério de Jemma para abaixar a cabeça e concordar com a britânica.
Revirou os olhos, levantando-se do sofá – Não tente descobrir o IP dele, vai ser quase impossível, o Tor só vai redirecioná-los infinitamente – falava aquilo de modo entediado enquanto voltava com uma garrafa de água, já havia desistindo de tentar convencer aqueles nerds,então juntou-se a causa.
– E se ao invés de tentarmos descobrir o IP, tentarmos hackear o blog do R ? – Fitz questionou e Skye apenas confirmou com a cabeça.
– Podemos tentar – falou e tomou o laptop das mãos do loiro – Mas ele terá que ficar online para funcionar – disse aleatoriamente, compenetrada nos códigos que digitava, os dedos pareciam ter vida própria, não demorou sequer duas horas para montar a base necessária para o programa funcionar, obviamente, pegara “emprestado” alguns programas já prontos e os incorporou ao seu novo bebê, mas ponderou antes de rodá-lo.
– Eu acho que quebrei no mínimo quatro leis federais e vou incluir a 4ª emenda daqui a pouco – falou e olhou para os cientistas que apenas deram de ombro, sem terem certeza do que dizer ou se a garota deveria prosseguir.
– Great ... Nunca pensei que fosse terminar meus dias em outro lugar mesmo, a cadeia será a casa que nunca tive – disse num ar sarcástico e suspirou, rodando o programa mesmo assim. Demoraria algumas horas para reverter o proxy que ao invés de levar “R” para o site, nos levaria para ele, por intermédio de uma ponte-inversa. O problema continuava a residir no fato de que só seriamos capazes de o localizar se ele estivesse online e teríamos que chegar lá antes que ele desconectasse, mas isso não era problema da morena, fizera sua parte e estava faminta.
– Vamos, agora podemos ir comer algo – falou animada e não havia motivos para eles declinarem do convite daquela vez.
– Eu pedi serviço de quarto – Jemma falou meio sem jeito – Não sabia que ainda iria querer sair e estou faminta – ela emendou tentando se justificar e buscou alguma compreensão nos olhos de Skye, não encontrou.
– Aproveitem – disse de forma irônica e pegou sua carteira, torcendo para ter pelo menos vinte pratas. Atravessou a porta a passos rígidos e desceu até a recepção, lá,ao ver o telefone tivera a melhor ideia de todas e até agradeceu por Jemma e Leo terem permanecido no quarto. Aproximou-se de forma gatuna, debruçando-se na bancada.
– Licença – iniciou num tom simpático. A mulher do outro lado retribui o sorriso. Bom sinal. – Eu poderia usar esse telefone ? – questionou ao apontar para um telefone à fio e sem conexão com a internet, afinal, estava impossibilitada de fazer isso sem os seus “captores” saberem cada movimento que dava. E se bem se lembrava, telefones à fio funcionavam através de cabos, redirecionavam o sinal para a central e da central para o destino final, era perfeito!
– Claro – fora a resposta cordial que recebera enquanto a mulher punha o telefone sobre a bancada, tornando mais fácil para a garota.
– Muito obrigada – agradeceu e discou o número de Miles, a cada toque, seu coração dava um pulo, aquilo era torturante. Por que ele estava demorando tanto para atender ?!
– Alô ? – ele falou, sua voz era sonolenta, possivelmente houvesse acabado de acordar, nunca achou a voz dele tão sexy quanto naquele momento.
– Olá, Sr. Nichols aqui é a Nicole, secretária da Srta. Parker – Skye respondeu, tentando soar calma, tinha tantas coisas que gostaria de dizer para ele, mas não poderia, não poderia correr o risco da SHIELD o descobrir, o interrogar ou pior. Miles já havia quebrado tantas leis que poderiam escolher numa extensa lista o crime com o qual gostariam que ele fosse sentenciado. Engoliu um seco, não deixaria aquilo acontecer. – Só gostaria de confirmar sua consulta, sábado às 11:00 horas – prosseguiu e a mulher da recepção encarou-a com estranheza, mas nada falou.
– Eu ... – ele estava com a voz embargada. Uma lágrima escorreu pelo olho da morena, logo ela, que nunca chorava. – Claro, esperarei ansioso por esse momento – respondeu por fim.
– Fico muito feliz em ouvir isso, em breve nos veremos – falou após uma longa pausa, apenas ouvir a respiração dele era reconfortante. – Até mais, Sr. Nichols.
– Até mais ... Nicole – ele respondeu num ar pesaroso. Skye desligou o telefone, não queria se torturar mais, nem o torturar mais. Só queria o certificar de que ela não fugira, que ainda se importava e que pretendia vê-lo novamente, quando toda aquela confusão terminasse.
Agradecera mais uma vez a gentileza da moça e saíra do prédio, dirigindo-se para as movimentadas ruas de Nova York.
Nunca estivera lá antes, para ser bem sincera não estivera em muitos locais na vida, mas desde que descobrira o mundo fora da bolha na qual fora criada, ansiava por cada pedacinho dele e se para a maioria das pessoas toda aquela grandiosidade era corriqueira, para Skye era motivo de admiração. Parecia uma criança perdida naquela imensidão, mas estava realmente faminta, talvez depois que comesse algo pudesse explorar mais, talvez ir na Times Square! Decidiu se dar aquela tarde de folga, afinal, era completamente contra trabalho escravo.
Fora guiada até uma lanchonete numa não tão movimentada esquina, mas o que lhe convenceu realmente fora o cheiro bom que vinha dali, uma mistura de temperos que Skye não conseguiu decifrar ao certo. Entrou, sentando-se numa das mesas mais reclusas do local e enfim checou sua carteira. Estava com sorte, tinha até mais do que esperava. Uma simpática garçonete se aproximou, entregando-lhe o cardápio, poderia ser impressão sua, mas ou os Nova Yorkinos eram bem simpáticos, ou bem dissimulados, decidiu ficar com a primeira opção, estava de bom humor.
Folheava o cardápio, indecisa do que pedir, salada e suco ou batatas com milkshake ? Era bastante rigorosa com sua alimentação, de fato, não comia carne desde seus sete anos, quando descobriu da onde elas vinham e sempre acreditou que o corpo fosse um templo, não deveriam entrar coisas ruins num templo, mas não queria pensar naquilo, não naquele momento e escolheu as batatas com milkshake de chocolate que não tardaram a serem servidos.
– Soube que estava me procurando – um homem que chegara minutos antes e sentara-se na mesa ao lado da de Skye, falou, num ar misterioso.
Realmente notara-o chegando e se instalando ao seu lado, mas nada em sua postura chamou a atenção da morena, talvez o capuz que ele usasse, encobrindo seu rosto, mas vai saber ? Talvez ele estivesse com frio, até pensou em ignorá-lo, já estava saturada de loucos e tarados, convivera com um bocado deles enquanto morava na sua van – É, soube que está traindo sua mulher, sou detetive nas horas vagas – respondeu sarcástica e continuou a comer, como se nada houvesse acontecido.
– Hm, seu humor é memorável ... Skye – ele respondeu e finalmente teve a atenção da jovem que o olhava de forma descrente.
– R ... – sussurrou, só então ligando os pontos – Nós precisamos da sua ajuda, você tem que vim comigo, eu sei que vai parecer loucura ... – falava com o coração descompensado.
– Não – ele a interrompeu e a garota se calou com a autoridade daquela voz – Eu deixei bem claro que só falaria com os escolhidos, que saberia quem são e os acharia – ele foi enfático. Ainda era impossível ver seu rosto.
Franziu o cenho, sem compreender exatamente a lógica dele – Mas você tá falando comigo ... – deliberou e ele permaneceu em silêncio, o que aumentou ainda mais a surpresa da garota, deu um riso nervoso – Sinto desapontá-lo, mas seu radar de alienígenas quebrou, eu não tenho poderes – falou irônica e riu novamente, já ouvira tantas maluquices naquela semana, adicionaria mais essa a lista.
– Não ainda – ele respondeu calmamente e só então encarou a garota.
Seus olhos eram de uns azuis celestiais e pareciam ter pontos luminosos, como estrelas. Sentiu ele dentro da sua cabeça, vasculhando todas suas memórias, lutava para sair daquele domínio mas não tinha forças o suficiente para fazê-lo, uma dor de cabeça insuportável a acometeu e sua fala demorou um pouco mais para retornar – O que você fez ? – questionou um pouco mais alto do que deveria e ele apenas riu, sádico.
– Eu vi, eu vi tudo. Sua mãe, o garoto ... – ele iniciou, como se estivesse tendo um ótimo divertimento.
– O que tem eles ? – falou entre-dentes, a cabeça ainda latejava dolorosamente mas mesmo assim se precipitou para frente, na tentativa de alcançá-lo. Ele apenas pôs a mão sobre a cabeça da morena e essa caiu, inconsciente.
Aquela brincadeira de lhe levarem a inconsciência, com um tiro ou com magia, já estava ficando chata. Queria pelo menos uma luta honesta.
Não conseguia abrir os olhos, não ainda, aquela sensação ... Lembrava-lhe da primeira e pior ressaca que tivera na vida. Respirou, canalizando a dor ao seu favor e abriu os olhos, suas mãos estavam livres. Bom sinal. Estava apenas encostada num muro gosmento (o que Skye achou de extremo mau gosto), no meio de um beco deserto. Mau sinal. R estava parado a sua frente, de costas para ela, usava um sobretudo preto que ia até metade das suas pernas e um sapato social bem engraxado, não poderia ser mais caricato.
– Ótima conversa, deveríamos ter mais dessas – falou baixo, qualquer movimento que fazia doía, embora isso não tenha a impedido de ficar de pé, mesmo que apoiada na parede.
– Precisamos de privacidade para o que eu vou lhe dizer – ele iniciou, num tom quase teatral – Pessoas com poderes estão sendo caçadas e estudadas, iguais ratos de laboratório, aquelas que têm habilidades extraordinárias estão sofrendo lavagem cerebral e sendo utilizadas como armas – ele falava e havia fúria em sua voz – Eu estou tentando juntar o maior número de aliados para resgatá-los, mas o número ainda não é o suficiente e sinto que estamos ficando sem tempo – ele pausou, como se tentasse se acalmar.
– Bem ... Disso eu não sabia – falou e umedeceu os lábios – Mas sei que HYDRA está em busca dos obeliscos, só não sei como eles irão rastrear os descendentes, talvez eles tenham alguém com o mesmo dom que você – sugeriu e o homem riu, com desdém.
– Ninguém tem o mesmo poder que o meu, somos únicos – aquele ar superior, como odiava o ar superior daquele ancião.
– De qualquer forma, eles têm que ter alguém com poderes parecidos com os seus, de que outra forma os rastrearia ? – retorquiu e calou-se, ele parecia saber qual era a pergunta seguinte pois virou-se na direção de Skye – Meus pais ... – comentou e encarou aqueles olhos estrelados, que,pelo menos daquela vez, não invadiam sua mente.
– Sua mãe estava sendo caçada, ela não queria que descobrissem sobre você, por isso te deu para adoção, aos dois anos – ele enfim disse a história, mesmo que resumidamente.
– E meu pai ? – questionou e seu ar era quase suplicante.
– Eu não o vi – ele respondeu, quebrando todas as esperanças da menina.
– Você sabe aonde estão mantendo-os ?! Eu trabalho ... – prosseguiu tentando focar-se na missão e não no pesar que sentia.
– Trabalha para SHIELD, que nos põe em índex’s, como você acha que HYDRA achou sua primeira cobaia ?! Dados foram vazados por essa organização corrupta e medíocre – ele falava, o ódio crescente novamente – Eles irão matar todos nossos semelhantes – ele completou em pura cólera.
Nossos semelhantes ... aquilo de alguma forma fez Skye sentir-se parte de algo maior, mesmo que ela ainda não acreditasse completamente naquilo. – Então venham conosco, vocês protegem os escolhidos e nós derrubamos HYDRA. Win, win – disse de forma persuasiva e ele pareceu considerar aquela ideia.
– Eu irei encontrá-la quando tiver a resposta – e dito isso, ele a fez desacordar novamente. Mas não sem antes deixar-lhe um presentinho, o pesadelo mais constante que Skye tinha, ele ainda o deu um tom mais real. Para R,a garota teria que lidar com os próprios monstros, antes de enfrentar os reais.
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