Beco de Gotham, três horas da manhã. Duas sombras estão encostadas na parede e duas em pé no final da escuridão. Entre elas está uma sombra menor, que se encontra de cócoras.

–Entendeu, moleque – disse uma voz grossa.

–Mas eu não quero fazer isto – uma voz medrosa e fina sussurrou.

–Você escutou eu lhe perguntar se você quer. Mas tudo bem, eu vou lhe dar uma opção. É você ou ela.

–Deixe ela em paz – a voz medrosa ficou irritada e o som de dentes trincados surgiram no final da frase.

–Então você irá fazer.

–Tudo bem.

Cinco pessoas saíram do beco, um albino com mais de dois metros de altura, dois morenos baixos e um branco barrigudo com um chapéu de cowboy. Este último arrastava uma menina de longos cabelos pretos que esticava o braço em direção ao beco. Depois que eles saíram, um garoto de 17 anos com olhos espertos, dentes trincados e pernas tremendo saiu do beco.

–Não se preocupe, depois deste serviço, nós estamos livres – disse o rapaz para ninguém.

No dia seguinte, de manhã, em frente ao mesmo beco, pararam dois carros, a menina estava no banco de trás do carro da frente. O garoto saiu do beco e foi em direção ao carro.

–Não, no de trás – disse o branco barrigudo que estava no volante.

–Mas...

–Anda logo.

O rapaz entrou no carro de trás e eles arrancaram.

–Vocês são grandões e fortes, por que precisam tanto de alguém como eu, a ponto de ameaçar minha irmã?

–Garoto, você sempre precisa ter uma carta na manga e eu gosto de ter um coringa – disse o Albino sorrindo e então ele levantou uma carta com um palhaço desenhado.

Os dois carros pararam em frente ao Banco de Gotham e saíram apressados, o garoto foi puxado do carro e a menina foi trancada no outro.

–Tome, Coringa – disse o Albino entregando uma arma para o garoto. – Não tem balas, mas serve para assustar. Vá para trás do guarda da esquerda e coloque esta arma nas costelas do velho.

–Eu, eu...

–Escute aqui garoto, eu não tenho tempo para mi-mi-mi. Se algo der errado por sua causa, eu estouro a cabeça da menininha ali dentro.

–S-s-sim, eu vou fazer.

O assalto saiu conforme planejado, o garoto rendeu o segurança. Os bandidos levaram o dinheiro do caixa e dos clientes que estavam ali e saíram depressa. Entraram no carro e seguiram velozmente pela avenida principal de Gotham. Logo que viraram a primeira esquina a sirene da polícia foi ouvida.

O Albino olhou para o retrovisor e xingou.

–Você, dê um jeito nos caras ai atrás – ele disse para o bandido que estava no banco do passageiro.

O homem colocou o torso para fora do carro e começou a atirar, logo um barulho ensurdecedor foi escutado. O garoto olhou para trás a tempo de ver um carro encapotando.

–Este foi fácil – disse o bandido no meio de uma gargalhada.

Antes do garoto virar para frente, ele viu um carro preto atrás deles. O carro era enorme, com algo parecido com duas barbatanas atrás e vinha em alta velocidade. De repente, um barulho surdo veio de trás do carro, quando o garoto olhou para o seu lado, um arpão havia furado o banco. O garoto deu um salto e se encolheu no canto. O arpão abriu e o carro foi parado bruscamente. O carro preto passou do lado deles e dentro havia o homem mais estranho que o garoto já havia visto. Ele vestia uma roupa preta, usava uma capa e uma máscara também preta. Tudo no homem transmitia medo, inclusive os dois pequenos chifres em sua máscara.

O homem abriu uma tampa de vidro que cobria o banco onde ele estava e saltou em direção ao carro que estava o garoto. O rapaz levantou a mão no ar, pela janela, para segurar o homem que iria ser esmagado no carro. Mas, com uma maestria incrível, o homem que voou como um morcego, segurou entre o teto do carro e a porta e acertou o Albino com os dois pés, o jogando em cima do outro bandido. O carro ficou desgovernado e bateu em um muro. O garoto foi arremessado para frente, mas sem maiores danos. O homem-morcego saltou para trás e caiu dentro do seu carro estranho.

O garoto abriu a porta depressa e saiu, seus olhos seguiram o carro da frente que estava com a sua irmã e depois foram para o carro preto. Do carro preto saiu um pequeno foguete que voou e acertou o carro da frente em questão de segundo. O garoto levantou a mão, como se pudesse fazer algo, enquanto o carro virava uma bola de fome.

–Minha... irmã – sussurrou o garoto.

Naquele momento, a mente do garoto o deixou, ele escutava o que as pessoas diziam, mas seu cérebro não processava.

“...quem é o garoto?”.

“...estava com os bandidos... arma... segurança...”.

“Juiz... você será sentenciado a um ano no reformatório”.

“Você é meu Coringa... Coringa... Coringa.”.

“Doutor, o que pode ser?”.

“Não consigo diagnosticar. Infelizmente, a loucura é como a gravidade, é necessário apenas um empurrão.”.

“Não pode ser um plano? Plano... Plano...Plano”.

O rapaz acordou em uma cama, olhou para um lado e para o outro. As paredes estavam revestidas de algo macio. Suas mãos estavam presas a cama e um pequeno tubo estava ligado a sua veia. Quando ele olhou para frente, o quarto em que ele estava tinha uma porta de aço. Um par de olhos apareceu em uma pequena grade, os olhos se arregalaram e sumiram. Logo em seguida a porta se abriu e um policial entrou no quarto.

–Olha só, a nossa bela adormecida acordou.

O garoto apenas olhou para ele. O sorriso do policial era insuportável. A boca do garoto fez um arco para baixo, suas sobrancelhas se juntaram e ele tentou se soltar com um arranco. O policial deu um passo para trás e seu sorriso mudou para um tom de nervosismo.

–Ainda não sabemos nada de você. Gostaria que respondesse algumas perguntas. Qual o seu nome?

–Coringa – o garoto disse em uma voz rouca, que a muito não usava.

–Isto não é um nome. Qual o seu nome real?

–Coringa.

O policial suspirou.

–Ok. O que você fazia com aqueles homens?

O Coringa apenas olhou para o lado, na sua mente ele tentou alcançar a memória de que aquele homem estava falando, mas ela estava em branco.

–Tudo bem. Você não quer responder, isto só vai piorar as coisas. Provavelmente teremos uma análise de suas condições amanhã e se você continuar a não responder as perguntas, ao invés de lhe soltarmos, iremos aumentar a sua pena. O que você irá fazer quando sair daqui?

–O Plano.

–Plano? Que plano?

–Preciso matar o morcego.

–Morcego? Como assim?

Novamente, Coringa tentou alcançar o que era o Plano em sua mente, mas não existia nada. Ele sabia o que precisava fazer, mas não sabia como colocar aquilo em palavras. O policial desistiu e foi embora.

Quando o Coringa acordou no outro dia, com um barulho na porta, ele estava desamarrado e o soro havia sumido. Ele olhou para o chão e havia um pequeno prato de comida. Ele foi até o prato e começou a comer com urgência.

Um mês depois, o Coringa saiu do reformatório. Um pouco perdido, mas com tudo o que precisava em sua cabeça. Ele seguiu até o centro de Gotham pegando caronas e andando por quase dois quilômetros. Quando ele chegou ao seu destino, os becos onde ele vivia com a sua irmã, ele procurou por um velho conhecido.

–Ei, Tatuador – ele disse assim que viu um cara sentado no degrau das escadas de um prédio velho.

–E ai, meu velho...

–Coringa – ele interrompeu.

–Ah, é assim que você se chama agora? O que manda?

–Há muito tempo eu não sorrio, me faça sorrir.

–Como assim?

–Quero uma tatuagem de um grande sorriso em volta da boca.

–Tem certeza?

–Sim.

Dias depois, em um beco escuro, Coringa está cercado por cinco homens.

–O que você quer aqui, palhaço.

–Quero falar com o seu chefe.

–Não é assim que funciona.

Coringa tira uma arma da sua manga direita e atira nos quatro homens em questão de segundos.

–Eu gostaria de falar com o seu chefe – ele disse para o quinto homem.

–Sim, senhor. Eu o levarei até ele.

Pouco minutos depois, Coringa estava sentado de frente para um homem imensamente gordo, careca e com um terno branco.

–Eu não me lembro de ter chamado um palhaço – disse o homem.

–Quero lhe propor um acordo.

–Não faço acordos com qualquer idiota. Tirem este sujeito daqui.

Um homem grande segurou no ombro do Coringa e em seguida começou a tremer. Ele começou a rir descontrolavelmente, depois caiu no chão e continuou a rir até que sua boca começou a espumar e três segundos depois ele estava morto. Seis capangas que estavam na sala tiraram as suas armas e apontaram para o Coringa, que se manteve sentado no mesmo lugar.

–Esperem – disse o homem gordo. – Não sei como você fez isto, mas você ganhou a minha atenção. Qual o acordo que você quer me propor.

–Um plano.

–Qual plano?

–Um plano para acabar com o morcego de Gotham.

–Há-há-há – gargalhou o homem. – Eu estou mesmo com problemas com o morcego, parece que ele está indo além da conta. Estou tendo muito prejuízo com este animal. Você terá tudo o que precisar. Qual o seu nome?

–Coringa.

–Coringa, um bom nome. Todos me chamam de o Rei do Crime, mas para os amigos sou Wilson Fish.

Um televisor está ligado em uma sala escura e uma repórter está mostrando um prédio destruído.

“Mais uma obra do conhecido Coringa, chamado nos tabloides de “O palhaço do inferno”. Este é o oitavo banco que ele assalta no período de dois dias. Apesar deste não poder ser chamado de assalto, ele explodiu o prédio inteiro, acabando com tudo o que tinha dentro. Ainda não se sabe o número de vítimas. Nem sabemos a razão desta devastação, tudo o que ele deixou foi este desenho enorme na rua, em frente ao prédio demolido.”.

A repórter mostrou a rua, onde estava desenhado um morcego gigante com um sorriso macabro vermelho indo de uma ponta a outra das asas. O televisor foi estourado por um pequeno morcego de ferro e um vulto saltou pela janela.

Coringa estava uma área descampada quando o homem-morcego chegou. Sem dizer uma palavra os dois começaram a lutar. O homem-morcego estava levando vantagem. A maioria dos seus socos produziam machucados por causa dos fincos em sua luva, coisa que não acontecia com os golpes fracos do Coringa. Com o corpo sangrando o Coringa olhou para os olhos do homem-morcego.

–Olho por olho.

Então ele apertou um botão de um dispositivo que saiu de sua manga. Uma rede de aço saiu de dentro da terra e prendeu o homem morcego. Ele tentou se soltar, mas foi em vão, estava muito bem preso. Então de dentro da terra apareceram vários canos e começaram a esguichar um líquido perto de onde eles estavam.

–O que é isto?

–Gasolina.

–Por que você está fazendo isto?

–Uma garotinha um dia me disse que tinha medo de morcego. Eu nunca entendi o porquê dela ter tanto medo de um animal tão pequeno, até o dia em que ela morreu por causa deste animal. Um lugar fechado, com fogo por todos os lados, vamos deixar por conta do destino, você terá uma chance, coisa que ela não teve.

–Espere, Coringa.

Coringa caminhou devagar, abaixou, encostou um dedo no outro produzindo uma faísca, abaixou a mão e fez a mesma coisa em cima da poça de gasolina. O fogo caminhou até a rede de aço e uma bola de fogo se formou.

O Coringa se levantou e continuou a caminhar sem olhar para trás...

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!