Notas iniciais
Espero que gostem e me digam o que acharam.Boa leitura.

Abri o álbum de fotografias e tirei de lá a única memória que me restava, uma foto em que eu sorria como se fosse o dia mais feliz de minha vida – o que de fato foi – e ele passando os braços pelos meus ombros.

Já fazia três anos desde que o havia visto pela última vez. Eu havia recebido seu recado para encontrá-lo no lago pelo meu irmão, melhor amigo dele.

–Onde vai Liv? – perguntou minha mãe entrando no quarto.

Suspirei e deixei as roupas caírem no armário antes de me virar para encará-la.

–Mãe... eu sei o que vai dizer mas...

–Olivia! – ela me interrompeu e se sentou em minha cama, me puxando junto com ela – Quantas vezes vou ter que dizer que não quero você andando com Octavian?

–Mãe! O que há de errado? Nós nos gostamos e além do mais...

–Além do mais o que? Aquele garoto é mau – dessa vez ela gritou – e se você não terminar com esse garoto hoje mesmo vou lhe mandar para morar com seu pai no Japão!

Senti as lágrimas brotando e antes que pudesse impedi-las elas começaram a cair em cascatas.

–Liv... você pode não compreender mas sei do que estou falando, é para seu próprio bem, querida – minha mãe se virou e fechou a porta.

Minha mãe e meu pai eram um caso engraçado, ele japonês e ela americana. Se conheceram há mais ou menos uns 20 anos numa viagem a Austrália e dois anos depois meu irmão Sam nasceu, mamãe e papai decidiram se mudar para os Estados Unidos, perto dos meus avós para que eles pudessem ver os netos crescerem, não adiantou muito já que os avós paternos ficaram no Japão.

Eles se divorciaram quando eu tinha 5 anos e papai voltou pro Japão.

Sam é muito parecido com papai, tanto na aparência quanto na personalidade, ambos são calmos e orgulhosos mas sabem ser autoritários quando querem.

Quando Sam tinha dois anos eu nasci. Herdei a aparência de minha mãe, cabelos loiros e olhos azuis, mas um temperamento diversificado, às vezes sou calma como papai e outras vezes explosiva como mamãe.

Limpei as lágrimas e me levantei, decidida a dar um jeito naquela situação. Eu não poderia enfrentar minha mãe, se fizesse isso ficaria longe dele da mesma maneira. Eu iria terminar com Octavian, era o único jeito.

Vesti um vestido branco e verde rapidamente, lavei o rosto e saí do quarto.

Eu estava decidida a ser forte até ver Sam na sala vendo TV.

–O que você tem? – Ele perguntou se levantou e veio em minha direção me abraçando.

–Nada, – falei tentando segurar as lágrimas sem sucesso – não tenho nada.

–Fala.

Olhei seus olhos castanhos me encarando. Sam conseguia ser ainda mais calmo que papai.

–Briguei com a mamãe – eu disse limpando os olhos – volto logo.

Andei até o fim do bairro quase correndo. Antes de entrar na floresta chequei minha bolsa. Eu tinha que ter certeza de que estava lá. Um colar com correntinha de prata e dois pingentes, o primeiro, o par da corrente, um pássaro sobre o sol – presente de 6 meses de namoro. O segundo um anel de plástico azul que Octavian havia me dado quando éramos crianças, eu tinha 8 anos e ele 10. Foi uma coisa boba mas eu guardei os dois juntos na caixinha.

Andei por cerca de quinze minutos antes de chegar ao lago e encontra-lo sentado na margem olhando a água.

–Oi – falei me sentando ao seu lado.

–Oi, Liv – disse ele sem se virar pra mim.

Pensei no tempo que passamos juntos. Ele foi morar com um parente ainda criança e nos víamos apenas algumas poucas semanas nas férias, até ele voltar no ano passado e começarmos a namorar.

–Por que me chamou aqui? – falei engolindo o choro.

–Preciso... eu preciso te contar uma coisa Liv. Uma coisa muito séria. Você provavelmente não vai acreditar em mim mas não posso... não posso partir sem antes...

–Do que você está falando? Partir... partir pra onde? Pra onde você vai? – me aproximei dele, as lágrimas escorregando lentamente pelas minhas bochechas.

Ele tentou desviar o rosto, mas vi a única lágrima solitária que escorria pelo seu rosto.

–Octavian... o que você está dizendo...

–Liv – ele me interrompeu – apenas escute. Lembra-se dos deuses gregos e romanos que vimos nos livros que te dei?

Assenti.

–Eles estão vivos, Liv. E eu sou descendente de um deles, Febo. O deus romano do sol e da profecia.

Tentei dizer que ele estava brincando, uma brincadeira estúpida, que aquilo era loucura mas ele me calou com o olhar.

–Eu... eu tive alguns pequenos vislumbres do futuro, segundos na verdade. Não quero te assustar, por favor. Você estava lá Liv, foi horrível. Não podemos continuar juntos, preciso ir pro acampamento e você precisa seguir sua vida. Longe de mim.

–Octavian, pare. Não achei graça, quer que eu acredite que você descende de... de um deus? Por favor! Qual é a próxima? Você é o papai noel? – falei me levantando.

–Liv – ele se levantou e ficou de frente pra mim – Gostaria muito que fosse uma brincadeira mas não é. Eu te amo Olivia. Só estou tentando proteger você. Protegê-la de mim.

Bufei e me virei de costas pra ele.

Eu não estava entendendo mais nada. Se ele queria terminar comigo por que não fazia isso normalmente? De qualquer jeito eu terminaria com ele, era isso ou ficar afastada, em outro continente. Mas isso era bem pior que uma facada.

Senti algo em minhas costas e fechei os olhos. Pude senti-lo me puxando até estarmos nos beijando. Foi o beijo mais calmo e desesperado ao mesmo tempo em todo o tempo em que estivemos juntos.

Ele me abraçou e eu retribuí o abraço.

–Liv, você precisa ir. Nunca se esqueça: eu te amo – Octavian beijou o topo da minha cabeça.

De repente minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos na grama.

–Eu acredito em você – falei com a voz aguda em meio as lágrimas.

Dei-lhe um último beijo antes de me lembrar da caixinha que havia trazido.

–O que é isso? – ele perguntou surpreso.

–Queria que ficasse com isso. Antes de sair de casa minha mãe exigiu que eu terminasse com você, então trouxe isso – fechei sua mão sobre a caixa – era isso ou o Japão. Pensei que aqui poderia ao menos ficar perto de você mas...

Ele me envolveu em um abraço.

–Adeus, Octavian, eu te amo – falei soluçando e segui para casa.

Quando cheguei naquele dia Sam ainda estava na sala e ao me ver perguntou o que havia acontecido, por que eu estava inconsolável. Mas eu não disse nada, não pela próxima semana, a qual passei trancada em meu quarto.

Ao meu lembrar desse episódio apenas três anos atrás lágrimas brotaram em meus olhos. Desde este dia não consigo tirá-lo da cabeça, ele partiu logo após nos despedirmos.

Olhei pela janela, já era noite. Eu estava atrasada.

Peguei minha bolsa e corri para o carro – presente do meu pai pelo meu aniversário de dezoito anos. Só ao jogar a bolsa no banco do passageiro eu percebi que havia trazido a foto comigo. Guardei no porta-luvas e acelerei.

Dirigi por várias ruas na velocidade máxima – permitida, é claro. Eu estava pensando no trabalho que teria organizando os papéis naquela noite quando ouvi uma buzina ensurdecedora.

A última coisa de que me lembro é uma pancada forte, um clarão e um último pensamento: eu te amo Liv. Então tudo ficou preto.

–--

Eu sabia, Eu não deveria ter voltado, as profecias não mentem. Porém a saudade foi maior.

Aguardei na sala de espera do hospital andando em círculos quando o médico finalmente aparece.

Antes de tudo eu deveria explicar como cheguei aqui. Saí do acampamento Júpiter obrigado por causa de Reyna, que praticamente me expulsou de lá. Vim direto ver Liv, mas quando cheguei em sua casa e cumprimentei Sam ele disse que ela havia acabado de sair. Ele me indicou o caminho e tentei segui-la.

Mas no momento em que a encontrei e pensei em apertar a buzina outro carro, vindo da direção contrária, fez isso.

Então esse mesmo carro bateu em cheio no carro de Liv. Chamei uma ambulância o mais rápido possível.

E aqui estamos.

–Qual seu nome mesmo? – perguntou o médico num tom de piedade.

–Octavian.

–Olhe, Octavian, a batida foi forte. Eu poderia explicar melhor, mas acho que não está interessado. Olivia está em coma profundo. É um milagre ela ter sobrevivido, mas isso pode durar semanas, meses ou... a vida inteira. Não podemos saber, lamento garoto.

O médico saiu e fiquei encarando o nada por alguns minutos antes de começar a chutar tudo que havia pela frente. Uma enfermeira me deu um calmante forte e pediu que eu me acalmasse.

Quando ela saiu esperei uns minutos antes de me levantar. Eu pretendia procurar o quarto de Liv mas uma conversa num quarto me deteve.

–Cara, se souberem disso no acampamento meio-sangue estamos encrencados... – disse alguém dentro do quarto.

–A culpa não foi minha! – disse um segundo garoto – Você teve sorte de sair só com esse braço quebrado, olha pra mim! E a garota do outro carro... Olivia não é?

Senti o colar que havia dado a ela esquentar no bolso da calça, desde o dia em que ela me mandou levá-lo guardei-o comigo sempre, mesmo durante as batalhas.

–Imagina o que diriam: o filho de Ares mata garota em estrada de...

–Cala a boca, ela não morreu!

Eu estava pronto para entrar no quarto e bater a cabeça daqueles garotos na parede até morrerem, mas alguém me puxou pra trás. Uma outra enfermeira.

O calmante finalmente teve efeito e adormeci. Um sono leve, minha cabeça trabalhava em todos os fatos.

Então lembrei do que o garoto dissera: filho de Ares. Eles realmente existiam. Gregos. Semideuses gregos.

Horas mais tarde me deixaram ver Liv – nem a família havia tido permissão — apenas por alguns segundos por uma fresta da porta. Graças a uma das enfermeiras que era muito boa por sinal.

–Me vingarei deles Liv – falei ignorando a lágrima que caiu pela segunda vez na frente dela – Me vingarei de todos os gregos por você.

Senti a enfermeira me tocar no ombro. Era hora de ir.

–Eu te amo, Liv.

Notas finais
Bom gente, espero que tenham gostado. Sei que é difícil pra maioria, inclusive pra mim, imaginar o Octavian como o mocinho mas eu me esforcei. Mereço review??
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!