O outro lado da Cicatriz
38 Meus! Só MEUS.
Notas iniciais
Pov Belle
Quando retornei para o salão comunal, Sophie estava sentada na janela, olhando para fora. Ela tinha um semblante sem expressão, como quando alguém não sabe ou não quer pensar. E no caso dela, eu aposto que eram as duas coisas. Eric estava sentado no sofá, conversando com alguns colegas, mas quando me viu, parou de falar. Ele olhou para Sophie, como se ambos tivessem um segredo, ou apenas esperando uma ordem. Ela respirou fundo, e voltou a olhar para a janela.
– Falando nisso, você precisa melhorar sua rebatida, Kellan, você está deixando o flanco esquerdo desprotegido!– Damian continuou a falar, como se ignorasse completamente aquele clima estranho entre a gente.
– Já falei para parar de pegar no meu pé! – Kellan bufou, zangado.
– Talvez se você comparecesse nos treinos, a gente não pegasse tanto!– Andrew, o irmão gêmeo dele, retrucou.
– Ótima ideia, Andrew! Será que o campo está vazio? – Michael perguntou. — O quê? Treinar agora?
– Kellan assustou-se. — Por quê? Tem coisa melhor pra fazer? – Damian riu, levantando-se
– Anda, molenga! Não quero sua rebatida furada quando formos jogar contra Corvinal no sábado! Vem também, Heinz?
– Claro. – Eric se levantou de súbito, olhando fixamente para mim.
– Vou com vocês. – Sophie se levantou. O quê?! Vão me deixar sozinha?! – Quero dar uma passada no corujal, ver se a Minerva continua lá.
– Vamos então, Dama Cinzenta! – Andrew passou o braço ao redor do pescoço dela, brincando. Kellan tem uma queda, ou deveria dizer, um tombo, pela Sophie, e o irmão dele sabe disso.
– Ainda nessa de Dama Cinzenta?! – ela riu, caminhando com eles.
– Pelo menos, até você contar por que aparece nos treinos só nos dias nublados ou de chuva! – Damian comentou.
– Já disse, gosto de assistir esportes, não de ficar do lado de garotas mimadas e histéricas gritando por jogadores! – Sophie explicou, enquanto eles iam pelas escadarias– Não tem histeria em dia de chuva!
E assim, eu ouvi as vozes deles desaparecerem pelas escadarias, enquanto a porta do salão comunal se fechava. Maravilha, estou sozinha. De novo. Tudo o que eu não queria. Joguei-me no sofá de couro negro, deitando minha cabeça no braço. Na minha mão ainda estava a luva que Sophie me deu. Branca, com manchas de sangue. Não consigo acreditar. Ela contou. Mas, pra quem? Com certeza foi pro Snape, ou ele não a teria acompanhado até aqui. Isso não deveria ter acontecido. Não teria acontecido se ela tivesse fechado o bico. Se ela não tivesse decidido consolar o Draco, e não a mim, a melhor amiga dela! Pensando nisso... também não teria acontecido se eu não tivesse decidido contar para ele... Eu sei, ela me disse que era o certo a se fazer, mas... sabe, no fundo, eu ainda duvido se era a coisa certa a se fazer.
Draco olhava para mim, seus olhos prateados estavam molhados, e muito apavorados, mas ainda assim, ele parecia ter mais certeza naquele momento do que em toda a sua vida. — Meus filhos. – ele sussurrou – Meus filhos. — Jamais serão seus! – eu chorei – São meus filhos! Meus! — Belle. – ele olhou para mim, e um leve sorriso pareceu se formar em seu rosto – Nossos filhos.
– Não! – eu solucei – Jamais serão seus filhos! São meus! Meus e só meus! Eu fechei os olhos e comecei a imaginar tudo o que aconteceria. As crianças nascendo... Uma linda menina... e um garoto que chora muito... Sophie sorri... “São lindos esses meus afilhados...” ela segura a menininha em seus braços. “Nossos afilhados, você quer dizer.” Hermione retruca, acalmando o bebê chorão, e ambas riem na minha frente... Mamãe está aqui, me olhando e sorrindo... Draco então chega... “São meus filhos!” ele grita... Então, ele pega os bebês e começa a correr... Eu grito com toda a força de meus pulmões... Mas a dor do parto ainda é grande... Não consigo me mover... Tudo dói... Draco corre com meus bebês, desaparecendo na floresta. Eu finalmente consigo me levantar, e mancando, eu o sigo. “Maldito!!! São meus filhos!!!” eu esbravejo. Então, eu me emaranho por entre as árvores, até chegar a um lugar com uma névoa fina. E na clareira, um ao lado do outro, Harry e Sophie... de mãos dadas. Mortos. — Não! Não! – eu me levantei, gritando – Não!
O desespero é tanto, e a dor da morte deles se materializa. Comecei a sentir fortes contrações. Não, são só sete meses... eles vão morrer... Olho para baixo, e vejo sangue molhar minhas calças. Eles estão sufocando! Estão morrendo! Não! Meus filhos não!
– Socorro!! – eu comecei a gritar, chorando – Alguém! Socorro! Ai! Não! Meus filhos não! Socorroooo!!!!
– Belle! – eu ouvi uma voz falar na minha frente – Meu Merlin! — Por favor! – eu sussurrei, cega pela dor – Meus filhos!
***
Meu filhos.... Meus filhos....
Eu abri meus olhos. Minha cabeça rodava, e eu me sentia muito tonta. Consegui identificar olhando ao redor, macas e armações brancas. A enfermaria. Não sinto dor. Não sinto medo. Não sinto nada. Apenas vejo a minha barriga. Senti um dos bebês se mexer. Eles estavam bem, estavam dormindo.
– Você me deu um susto!... – ouvi aquela voz infernal do meu lado.
Draco estava sentado, olhando para mim. Tinha o rosto machucado, e uma faixa cobria sua mão.
– Você está péssimo. – eu tentei não demonstrar preocupação nenhuma, embora a própria afirmação já dissesse que eu queria saber se ele estava bem. – Tudo isso foi o Potter?
– Como se sente? – ele segurou minha mão carinhosamente.
– Não precisa se preocupar comigo. – eu puxei minha mão com fúria. Ele abaixou sua cabeça, meio constrangido. Eu fiquei arrependida, mas só um pouquinho. – Agradeço por ter me salvado. Estou bem, meus filhos também, mas é só. Acabou sua participação nesse conto. São meus filhos.
– São nossos, Belle. – ele sussurrou – São tão meus quanto seus.
– Você não os está gerando, não está preocupado pensando como vai cuidar de dois bebês se nunca teve nem sequer irmãos, não acorda de madrugada com a cama molhada porque o menino chutou sua bexiga e fez todas as garotas do quarto acordarem para te ajudar a chegar ao banheiro, não está sentindo vontade de comer marulas e graviolas, enjoos de vomitar as tripas, nem está preocupando todos ao seu redor! Eu estou! – eu retruquei – São meus filhos! Meus! Eu estou sonhando com eles, sofrendo por eles, chorando por eles, sorrindo por eles! Até hoje você nem sabia que eles existiam! São meus filhos! Toda a sua participação nessa história foi fazê-los, e ainda muito mal! Quer saber? Eu te odeio. Eu te odeio!
– Eu não te culpo por isso. – ele sussurrou, assustando-me. – Eu entendo tudo isso, ou melhor, eu não entendo nada disso. Não sei como é, como tem sido, nem como será. Não tenho estado com você para saber. Não acredito que vou dizer isso, mas, eu quero ser apenas o pai deles. Não precisam nem ter meu sobrenome. Não precisam saber que sou o pai deles. Mas estou feliz que você tenha me contado. Não, não vou ter muita utilidade nesse conto, mas quero apenas que me tenha por ajuda, caso um dia precise.
Eu olhava para ele, atônita. O que diabos ele quer dizer com isso tudo?
– Seus filhos já tem uma pai, Bella. – ele era o único que me chamava assim – E se quer saber, Eric é a melhor opção, estou feliz que seja ele a cuidar de você.
– Não é um Malfoy que estou ouvindo. – eu sussurrei, tentando esconder o sorriso forte que se abria em meu rosto – Você está sendo nobre demais para um Malfoy. E isso é um elogio.
Ele sorriu. Pensou em segurar minha mão, mas desistiu.
– Vou deixar você descansar.
Assim que Draco saiu da enfermaria, entraram Minerva McGonagal e Severo Snape.
– Belle Scolfh... – Snape falou, naquele seu tom de voz habitual – Parece que resolveu passar uma temporada na enfermaria, assim como sua amiga.
– Isso não é engraçado, Severo! – McGonagal o repreendeu.
– De fato, não é. – ele continuou – Diga-me, Srta Scolfh, o que de tão trágico te fez ficar neste estado?
– Não foi nada. Eu tive apenas uma pequena hemorragia, mas o Draco falou com a Madame Pomfrey e ela disse que meus bebês estão bem, então eu acho que...
– Bebês? – McGonagal se assustou – O quê? Como aconteceu? Nunca houve uma aluna que ficasse em período de gestação durante os anos letivos em toda a história de Hogwarts!
– Sabe muito bem como aconteceu. – eu disse, zangada – Ou será que terei que explicar para a senhora?
– Isso não é engraçado, mocinha! Menos 50 pontos para Sonserina! – ela reclamou.
– Por mim, que a casa se exploda, desde que meus filhos estejam bem. – eu resmunguei, acariciando meu ventre.
– Não seja tão dura. – Snape me repreendeu. – Pelo que vejo está perto do parto, portanto, não pode ficar fazendo muito esforço. Gêmeos, eu suponho.
– Sim, um menino e uma menina. – eu sussurrei.
– Quanta certeza... — Minerva comentou.
– Eu sempre soube que seriam. A gravidez toda. – eu sussurrei, sorrindo.
– Bom, a senhorita deve saber que terei que reportar seu... estado, ao diretor. – ela continuou.
– Não querendo ser rude, mas eu achava que todos já sabiam da minha gravidez. – eu comentei.
– Bom.... ahn... – ela gaguejou. As portas da enfermaria se abriram. Sophie e Eric entraram, correndo em minha direção.
– Belle! – Eric gritou, desesperado – Eu sumo por cinco minutos e você resolve morrer?!
Ele sentou ao lado de minha cama, segurando minha mão com força. Ele beijou incessantemente meu rosto, como se precisasse de mim para viver. Talvez precise.
– O que aconteceu? Como? Está bem? E os bebês? Como estão seus filhos? – ele perguntou, afoito, quase atropelando as perguntas uma na outra. Eu sorri. Peguei sua mão, e a pousei sobre minha barriga, bem onde estava um dos pés de um dos bebês.
– Nossos filhos. – eu disse, vendo as lágrimas se formarem em seus olhos, e sentindo meus próprios serem inundados – Nossos filhos.
E jamais tive tanta certeza em toda a minha vida. Nossos filhos. E estavam bem. E para sempre seriam nossos filhos.
– Srta Sullen? – a voz de Snape me despertou de meu felizes para sempre momentâneo – Você está bem?
Ela estava escorada em uma das armações, quase caindo no chão. Ela olhava para frente, sem olhar para um ponto definido.
– Estou cega! – ela gritou, alarmada. – Belle, acho que está acontecendo de novo! Não vejo nada!
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