O outro lado da Cicatriz
41 Apenas uma noite agitada em todas as mentes
Notas iniciais
Pov Sophie
Tão logo me aproximei de Belle, a bolsa dela estourou. Estava tudo tão estranho, tão confuso, que ela apenas olhou para baixo, vendo o chão a seus pés ser encharcado. Não havia tempo a perder. Antes mesmo que ela pudesse pensar, eu passei seu braço direito pelo meu pescoço, e Mione foi para o lado esquerdo, e começamos a correr, arrastando ela.
– Licença! Licença! — Hermione pedia, enquanto tentávamos passar pela multidão para sair do pátio de pedra.
– O que está acontecendo? — Rony começou a nos seguir — Hermione, o que está havendo?
– Rony, chame o Eric! — eu pedi.
– Por quê? O que está acontecendo? — ele insistiu.
– Chame logo o Eric! — Hermione pediu.
– Alguém pode por favor me dizer o que está acontecendo aqui?! — Rony enfiou-se na nossa frente, nos forçando a parar.
– A BELLE ESTÁ PARINDO! ENTENDEU AGORA? — Hermione berrou.
– AI MEU MERLIN! EU ESTOU PARINDO? EU ESTOU PARINDO? — Belle se apavorou.
– MARAVILHA! VOCÊ ASSUSTOU A BELLE! — eu gritei.
– Parindo? E como é isso? Vai doer? — Rony continuou.
– NÃO ME DISSERAM QUE IA DOER! — Belle se assustou ainda mais.
– RONALD WEASLEY! CALE ESSA BOCA E CHAME O ERIC AGORA MESMO ANTES QUE EU MESMA TE FAÇA VER O QUE É DOR! — eu berrei.
Ele nem ao menos esperou para ver se era verdade o que eu estava jurando. Saiu correndo das nossas vistas, emaranhando-se na multidão. Hermione segurou a cintura de Belle, e voltamos a correr.
– Você tem um plano? — ela sussurrou.
– Sair das vistas de todos. — eu respondi no mesmo tom.
– Confere! — Hermione disse, olhando para trás.
Caminhávamos pela grama, e a multidão já não podia mais ser ouvida, muito menos vista.
– E o próximo passo? — Mione insistiu.
– Manter a Belle calma enquanto eu penso. — eu continuei.
– CALMA? QUEM NÃO ESTÁ CALMA? EU ESTOU MUITO CALMA! — Belle começou a surtar — ATÉ PARECE QUE DUAS CRIANÇAS VÃO SAIR DE DENTRO DE MIM! E NEM ME CONTARAM QUE IA DOER!
– Calma é forçar um pouco a barra... — Hermione sussurrou.
– Hermione! — ouvimos os gritos do Rony, que nos forçaram a parar.
– Ela já começou a sangrar? — Eric me perguntou. Incrivelmente, ele estava calmo.
– SANGUE? NINGUÉM ME FALOU DE SANGUE! VAI TER SANGUE E DOR! EU NÃO ESTOU PREPARADA PARA ISSO! — Belle se desesperou ainda mais.
– Eric, vou matar você quando isso acabar! — Hermione bufou — Sophie, me lembre de matar ele depois!
– Sophie, por que estamos parados aqui? — Belle olhou para mim, suplicante — O que a gente tem que fazer? O que eu faço?
– Calma, eu... preciso... pensar! ... — eu sussurrei, aflita.
– PELO AMOR DA MINHA TIA AVÓ YORIMA, VOCÊ NÃO TEM TEMPO PRA PENSAAAR!!! — Belle berrou.
E então, ela gritou, sentindo as primeiras contrações. Eric gritou junto com ela porque estava desesperado por vê-la sofrer, Hermione gritou junto porque pela primeira vez na vida não sabia o que fazer, e Rony gritou porque estava assustado com essa gritaria toda.
– Por Merlin, parem de gritar, eu tenho que pensar! — eu gritei, o que não ajudou em nada.
– É melhor ter uma ideia logo, esses bebês estão empurrando! — Belle disse, nervosa.
– Já tenho! — eu senti uma lâmpada se acender sobre minha cabeça. Comecei a empurrar Belle, forçando Hermione a voltar a andar — Vamos para quem pode mais!
– Quem pode mais?! — Rony estranhou — Quem pode mais?
Hermione sustentou Belle por alguns segundos, forçando-me a caminhar mais apressadamente. Eu estendi a mão direita para frente e estalei os dedos. Um portal se abriu. Hermione duvidou um pouco a princípio, mas eu continuei empurrando, e ela atravessou comigo. Eric veio logo atrás, e Rony junto com ele. Então eu estalei novamente os dedos, fechando o portal.
Eric segurou Belle, fazendo Hermione se afastar. Era a sala de entrada, com o grande lustre, a escada central, e o carpete vermelho. A esquerda da escada estava a porta de vidro que dava para a piscina, e a direita, as portas duplas de madeira que davam acesso para a sala de estar com sofás glamourosos, a cozinha e o escritório. Que graças a Merlin, estavam abertas. Corremos direto para lá.
– Que lugar lindo... — ouvi Hermione suspirar.
– Rápido, Huski! — eu deitei Belle em um dos sofás — Olha no escritório, vou ver se acho alguém lá em cima!
Eric abriu as portas do escritório do pai de Belle, mas Mr Paul Scolfh não estava lá. Ele então correu para a cozinha, procurando Julliette. Ela também não estava lá. Eu por minha vez, subi as escadas, três degraus por vez, as vezes quatro.
– MISS SCOLFH!!! — eu gritava, em desespero — MISS ANNE SCOLFH!
– Sophie! — eu ouvi ela responder — Que surpresa maravilhosa!
Ela saiu de seu quarto e veio andando em minha direção, com aquele sorriso cativante e acolhedor no rosto. Tinha os cabelos negros soltos e meio cacheados, e ainda vestia seu pijama roxo de seda.
– Querida, o que foi? Por que está chorando? Por que não está na escola? — ela se aproximou de mim, seus olhos verdes e brilhantes estavam preocupados. Belle tem os olhos dela.
– Eu não sei o que fazer! A noite hoje está confusa! A escola está de luto porque comensais da morte a invadiram e Dumbledore acabou de ser morto, — eu disparei uma torrente de informações — mas isso não vem ao caso, o fato é que estou com três adolescentes histéricos na sala de estar e sua filha está em trabalho de parto e eu não sabia mais o que fazer então eu vim pra cá e.....
– A BELLE O QUÊ?! — ela me empurrou, descendo a escada desesperadamente.
Tão logo ela entrou na sala, ajoelhou-se do lado do sofá, olhando sua filha. Belle se contorcia, as contrações pareciam ficar mais fortes.
– Pronto, querida, eu estou aqui! — Anne disse, segurando a mão dela.
– Mamãe.... tá... doendo!.... — Belle gemia.
– Tudo bem, tudo bem, vamos te levar para um hospital! — ela respondeu.
– Me leva para Princeton! Eu quero a Dra Cuddy! — Belle gemeu.
– Querida, a Dra Cuddy é diretora, e eu não acho que... — Anne questionou.
– EU QUERO A DRA CUDDY! — Belle gritou.
– Tá bem! Tá bem! — Anne disse — Eric, me ajude aqui!
Era segurou Belle de um lado, e Eric do outro, levantando-a. Belle gemia tanto que nem tocava os pés no chão. Eu estalei os dedos, abrindo o portal, e eles passaram, fazendo-nos passar logo em seguida. Entramos direto na recepção, e eu logo tratei de falar com a recepcionista.
– Moça, por favor, minha amiga está em trabalho de parto! — eu gritei.
– Aham. Sente-se e preencha a ficha. — ela me estendeu uma prancheta.
– Não, a senhora não entendeu! — eu continuei — Minha amiga está em trabalho de parto! A bolsa já se rompeu!
– Aham, preencha a ficha. — ela insistiu, com sua voz calma e contínua.
– Tudo bem, eu mesma explico! — Belle gritou — EU ESTOU PARINDO! E SÃO GÊMEOS!
A moça ergueu o rosto por cima do balcão.
– Certo, preencha a ficha.
– Abby, se importa de me fazer os protocolos? — uma moça de cabelos castanhos se aproximou da bancada. Usava jaleco e tinha olhos grandes. Dedução rápida: médica = ajuda.
– Pelo amor de Merlin, doutora! A senhora precisa ajudar minha amiga! — eu chorei, segurando-a pelos pulsos.
– Mas o que está...?! — ela me olhou.
Belle gritou com a contração, e todos gritamos juntos. Era muito louco de se ver, desesperador.
– ABBY! TRAZ UMA MACA! — a médica gritou, e se aproximou de Belle — Tudo bem, querida, eu sou a Dra Cameron, vou cuidar de você! ABBY, A DROGA DA MACA!
Tudo aconteceu tão depressa... alguns enfermeiros apareceram com uma maca de rodinhas. Belle foi deitada na maca, e se contorcia muito, gritando.
– Sophia! Tá doendo! — ela apertava minha mão.
– Eu sei... eu sei... — era tudo o que eu conseguia dizer.
Os enfermeiros começaram a levar ela. Belle segurava forte a minha mão e a da Mione, forçando-nos a correr com a maca. Anne Scolfh e Eric corriam junto conosco, e Rony corria atrás de nós para não ficar sozinho. Passamos por três portas duplas, tranquilizando ela. Então dois dos enfermeiros empurraram a maca para dentro de uma sala meio escura, e o resto começou a nos empurrar para fora.
– Esperem na recepção. — um deles disse.
Dra Cameron retornou da sala, correndo para nós.
– Podemos permitir duas pessoas com ela, no caso, a mãe e mais um. — ela disse.
– Sophie, vai com ela! — Hermione pediu.
Ir com a Belle para o nascimento de seus filhos. Seria tão bom, tão lindo. Eu ia me sentir muito importante. Mas não posso fazer isso.
– Eu quero muito... — sorri — mas o Eric disse que estaria com a Belle quando chegasse a hora.
Eric me olhou com seus olhos negros e brilhantes.
– Obrigado! — ele me abraçou, emocionado.
Então a Dra Cameron levou os dois, e os enfermeiros nos guiaram até a recepção. Era bem confortável, tinha sofá e poltronas cinzas meio esverdeadas, e uma mesinha de centro redonda com revistas. Rony e Mione sentaram juntos no sofá, e logo estavam abraçados e chorando.
***
Foi uma noite longa, com muitas horas exaustivas de lágrimas, gritos, gemidos, dor, desespero, e seja lá o que Belle estivesse sentindo.
– Fazer força? Como fazer força?! — eu ouvia os gritos da Belle — Esses bebês estão me rasgando no meio!
E logo ela gritava denovo. E eu ouvia os médicos falando, mas as coisas que eles diziam não eram tão nítidas quanto os gritos dela.
– Será que a Belle vai ficar bem? — Rony sussurrou.
– Claro que vai, Ron! Que pergunta! — Hermione retrucou.
– É que ela está gritando tanto... — ele continuou.
– Mas ela vai ficar bem! — Hermione disse — Não é, Sophie?
– Vou tomar um café. — eu me levantei.
Caminhei pelo corredor até a recepção, e da recepção para o refeitório. Ele era grande, escuro, e cheio de mesas. Escolhi uma e sentei. Queria ficar sozinha. Queria que tudo estivesse bem. Mas nada estava, e talvez nunca fosse ficar. Dumbledore morreu. O homem que sempre protegia Hogwarts não pode mais fazer nada. Harry estava sofrendo. E tudo o que eu podia fazer era sentar em um refeitório de hospital e escutar os gritos de dor da Belle, que finalmente estavam abafados. Pela primeira vez no dia, senti frio. A sensação mais louca, para um dia louco, no meio de muita loucura. Acho que não vou tomar café.
Um homem entrou no refeitório. Ele tinha cabelos castanhos e jaleco. Eu fechei meus olhos, esperando que ele viesse falar comigo, como qualquer médico normal faria.
– Pensei que tivesse ido para casa. — eu ouvi a voz dele, em tom de acusação.
– Eu fui, mas não tinha nada de bom passando na tv. — outra voz respondeu.
Era um homem de meia idade, magro, de feições rabugentas. E tinha uma muleta.
– No seu escritório pega o canal de novelas, House. — o primeiro médico respondeu.
– É, mas não sou o tipo de velha chata que assiste novela enquanto faz tricô. — o tal House retrucou — E além disso, eu não aguentava ficar lá com os gritos da grávida histérica na sala de parto. Estava quase indo eu mesmo fazer aqueles bebês nascerem!
– O nascimento de uma criança é algo muito bonito... — o médico afirmou.
– Bonito? Me diga você, Wilson, acha bonito uma pessoa sentir a dor de ser atropelada lentamente por um caminhão? — House retrucou — Eu não acho.
– Eu acho! — ouvi uma voz de mulher — E se tivesse um pouco de amor pelo seu trabalho, saberia que deve ser gentil com os pacientes.
– Gosto do meu trabalho! — House pegou sua bengala e saiu do refeitório — Só não gosto dos pacientes.
– Eu....ahn... — vi eles se aproximarem de mim — Sinto muito por isso. Dra. Lisa Cuddy, diretora-chefe do hospital.
– Dr James Wilson, oncologista. — ele disse, apertando minha mão.
– Sophie Sullen, amiga da grávida histérica. – eu suspirei.
– Eu lamento muitíssimo por isso, — Dr Wilson se desculpou – o Dr House é um médico brilhante, um profissional muito conceituado. Mas como pessoa...
– Digamos apenas que ele não é uma pessoa muito fácil de se lidar. – Dra. Cuddy se aproximou de mim, e me estendeu um copo de papel – Café?
– Obrigada. – eu peguei o copo da mão dela – Mas talvez seja melhor deixar ele longe dos pacientes. Assim, ninguém tem que aguentar esse mal humor.
– Eu já faço isso, mas não é fácil. – Dra Cuddy riu – É uma via de mão dupla: ele quer ter contato com os pacientes, e os pacientes pedem para conhecê-lo. Não tem jeito.
– Então ele deve ser o melhor na área dele. – eu falei, apenas para ver como reagiam.
– É, é sim... – eles sussurraram, mantendo sorrisos em seus rostos.
Não estava gostando dessa conversa, nem um pouquinho. Eu tive um dia péssimo, Belle estava tendo um dia pior. Um daqueles dias terríveis com mais de 24 horas, que mais parecem emendar um no outro e nunca terminam. E, mais uma vez, estava falhando em me manter calma.
– Acho melhor eu voltar. – eu me levantei.
– Srta Sullen, se precisar de alguma coisa... – Dra Cuddy começou – Somos médicos, estamos aqui para isso.
– Sim, claro. – eu segurei aquele copo com firmeza – Mas agora, quem precisa de cuidados não sou eu. É a Belle.
– De qualquer forma, mande me chamar. – Dr Wilson insistiu.
– Aham. – eu caminhei para a porta, mas algo me ocorreu – Dra Cuddy?
– Sim? – ela respondeu.
– Por que não coloca o Dr House na televisão? – que ideia idiota, Sophie! Por que está dizendo isso? – Daria um bom seriado.
– Não acho que alguém pagaria para assistir ele. – Dr Wilson riu.
– Daria muita audiência, isso eu garanto, a história dele é boa. – eu ri – Palavra de jornalista. E isso ainda divulgaria o hospital.
E eu voltei para a sala de espera, deixando eles pensarem um pouco. Meu Merlin, nem aqui meu faro de jornalista me deixa em paz! Na sala de espera, Hermione e Rony estavam sentados e abraçados. Ela parecia cochilar, pensando bem, ele também. Eu normalmente não me incomodaria, mas hoje não é um dia normal, então eu basicamente não suportava olhar para eles.
– Desculpa, Sophie... – Hermione sussurrou – Acabei pegando no sono.
– Quer café? – eu ofereci o copo para ela – Eu nem sei por que peguei, não gosto de café.
– Obrigada... – ela apenas disse.
Anne apareceu. Usava roupas azuis de hospital, e tirava a redinha dos cabelos negros. Assim que eu a vi, dei um salto e corri na direção dela.
– Como está a Belle????
– Calma, Sophie! – ela sorriu – Está dormindo por causa da anestesia. Quer ver os gêmeos?
Ouvir a palavra gêmeos fez meu sorriso aparecer num instante. Os bebês da minha melhor amiga. Eles já nasceram, e ela estava bem. Anne nos guiou até um corredor. Na parede tinha um vidro enorme, que dava para o berçário. Eric estava parado ali, sorrindo, quase grudado no vidro. Ele usava as mesmas roupas que Anne. Assim que me viu, me abraçou forte. E pela primeira vez, tudo estava bem. E tudo ia ficar bem.
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