O otimista
1 único
Estávamos longe do litoral, onde Sunny estava atracado. Havíamos descido numa ilha de inverno e que eu achei ser a mais gelada de todas das nossas aventuras. Somado a isso havia inimigos por perto, loucos por nossas cabeças, esse foi o motivo do bando se separar. Não era só Zoro, mas todos nós estávamos perdidos. Zoro disse algo como “é só andar olhando pro mar”, contudo, por mais que andássemos, o mar não surgia de encontro aos nossos olhos. Seguir uma orientação de Zoro só me fazia pensar que era o fim do mundo. Eu resolvi registrar tudo o que estávamos passando no meu diário que havia carregado na mochila, naquela parte da floresta só havia eu e Zoro.
Estava com fome demais, cansado demais, triste demais pra eu praguejar por ter ficado logo com o marimo. Para piorar a situação, eu machuquei o meu pé quando caí num pântano mais cedo e, desde então, Zoro vinha me carregando. Meu orgulho também se foi.
Na verdade, não era hora pra isso... estava muito preocupado com os meus nakamas, principalmente com Usopp, Nami e Chopper, a floresta era escura e uma neblina piorava ainda mais nossas visões. Em certo momento, Zoro achou uma isbá pelo caminho e resolvemos nos alojar aproveitando o calor interno. Antes de entrarmos, Zoro me colocou no chão para verificar se havia alguém na casa, mas logo retornou dizendo que estava vazia. Não havia energia, contávamos somente com a luz da lua na janela aberta. Havia comida da nossa caça, comíamos pedaços de carne crua sem reclamar, Zoro ainda encontrou álcool na dispensa e me deu um pouco de gin, disse ele que iria abaixar minha febre ou ao menos me esquentaria.
Quando ele disse isso, olhei para mim mesmo e vi o quanto estava coberto. Sei que Zoro era um exibido, mas dessa vez não fiquei com raiva por vê-lo com pouca roupa, na verdade, estava preocupado. Boa parte do que vestia, era dele.
— Sua ferida no pé está muito feia.
— A água daquele pântano deve ser de uma substância desconhecida.
Eu encarei Zoro e, ainda que estivesse escuro, vi-o com o nariz e os olhos totalmente vermelhos, imaginei que eu estivesse pior por estar doente e por ter a pele mais clara.
— Seria bom se encontrássemos Chopper logo.
Devolvi-lhe o gin. — Obrigado, não quero mais tomar... acho que vou dormir...
— Não dorme, não! — Zoro me parecia preocupado. — Se você não acordar, eu tô ferrado.
— Eu sou apenas o cozinheiro do bando, quase sumi uma vez e se viraram bem.
Zoro suspirou, mas teve um estalo. — Ah, tive uma ideia! Me dê um dos seus fósforos, vou ligar os candelabros e os lampiões.
Ele fez exatamente o que disse e me cercou com eles. — Assim você fica mais quente. Por mais que nossas roupas sejam de inverno, elas estão úmidas.
Realmente senti mais calor. — Muito obrigado, agora não posso mesmo dormir ou me descuidar, senão posso acabar morrendo queimado.
Zoro riu. — Acho que vou caçar algum coelho e fazemos uma fogueira lá fora.
— Você falando assim, eu fico me sentindo a mulher da casa.
Ele gargalhou e partiu, deixando-me sozinho por alguns minutos.
Zoro cortou lenhas enquanto caçava e foram usadas como matéria-prima para a nossa fogueira. Ficávamos bem próximos ao fogo para aquecer nossas mãos, o coelho sem pele assava e seu cheiro me dava fome. De uma forma estranha, meu apetite voltou, talvez o calor que Zoro ficara o dia todo montando, fez alguma diferença no meu organismo. No entanto, com a luz da fogueira e com Zoro sentado, eu pude notar que a sola de sua bota estava saindo.
— Você tá ficando sem bota!
Ele olhou e estranhou meu tom preocupado. — Ah... sobre isso... — Foi com tanta brutalidade o jeito que arrancou a sola e depois arremessou no fogo que me fez perder o apetite de novo. — Não se preocupe, vou amarrar a minha bandana no lugar.
— Como um pedaço de pano vai te proteger nesse gelo que queima feito essa fogueira?
— Calma, sobrancelhas, dizem por aí que fico mais forte com minha bandana, talvez ela consiga se virar nos trinta. — Eu bufei e fiz menção de me levantar. — Sobrancelhas, vai entrar para escrever no diário?
— Não sei, diferente dos outros dias, hoje estou doente.
— Você deve tá escrevendo um monte de coisa boa, né?
Quando vai haver coisa boa estando ao seu lado, marimo?
— Faz muito frio... mas percebi que essa ilha é muito bonita... não é todo lugar que há neve, às vezes florescem flores — que eu acho que só Robin sabe quais são — e há terras e pântanos com substâncias estranhas e que não congelam. — Riu da minha desgraça. — Pela manhã, o crepúsculo é roxo, muito diferente do que vejo no Sunny que costuma ser cinzento. Mas a melhor coisa que eu vi estando ao seu lado é que você gosta de escrever num diário.
Eu estava besta do quanto o marimo me parecia sensível por ter visto beleza naquilo que eu estava achando um horror. — É só um diário de bordo.
— Eu sei, mas você descreve a ilha?
Pensei e me dei conta que descrevia sim. — Sim... as flores são as Urtigas caso queira saber... — Cocei minha cabeça por ter notado só agora que Zoro estava bem perto de mim, seus olhos eram como centelhas. — Eu também escrevo que o ano novo está chegando, no caso, é hoje, e me pergunto se seremos amigos como estamos sendo nessa ilha.
Zoro se aproximou e beijou no meu rosto, seus lábios foram parar logo abaixo do meu lóbulo e eu senti um arrepio com o ponto molhado como se eu não estivesse perto de um fogo crepitando na madeira em frente de uma casa que não sabíamos de quem era.
— F-feliz ano novo. — Disse envergonhado, levando a mão até onde ele me beijou.
— Feliz ano novo, sobrancelhas.
Diário de bordo:
Noite do feliz ano novo
Espero não morrer por conta desse pé, quero ficar ao lado de Zoro por muitos anos (...)
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