O ninho

8 Não me perdoe


Notas iniciais
Rodada 8. Tema utilizado: Perdão. . Aviso que esse capítulo tem um bocado de angst, caso alguém não goste, mas também há uma mensagem boa nele e nas notas finais s2

Não faz mais do que uma semana desde que voltei para casa e a vida já se tornou entediante. Passo a maior parte do meu tempo dormindo e assistindo televisão. Quando fico parada, começo a pensar demais sobre coisas que não devia. Parece que todos os meus erros voltaram para me assombrar.

Passei o último mês tentando ser forte, tentando ser uma pessoa diferente. Eu queria viver. Isso foi um erro? Parece que sim porque nunca chorei tanto até isso. Porém, agora, sinto-me seca. Não tenho mais lágrimas, nem força para chorar. Estou cansada disso. Estou cansada de viver.

Minha mente entra em conflito. Tenho medo. Eu não quero morrer! Mas de que adianta viver se minha presença só causa confusão e desconforto para as pessoas?

Quando era mais nova, jurei que não seria uma idosa depressiva, mas contra fatos não há argumentos. Estou velha e inútil. Não aguento mais ser um estorvo. Deus, por favor, se estiver me escutando, me leve logo! Eu não aguento mais sofrer!

Tento chorar, mas novamente não consigo. Nem isso eu consigo. No entanto, sinto uma dor no peito. É agora. Chegou o momento de passar para o outro lado e ganhar a paz eterna que tanto desejo. Estou pronta.

Mas a morte não chega. Continuo vivendo, ou melhor, existindo.

A campainha toca e me forço a levantar para atender. Minhas juntas reclamam a cada movimento. A campainha toca mais uma vez.

— Já vai! — grito.

Assim que abro a porta, tenho uma surpresa.

— Vovó! — Meus dois netinhos gritam em uníssono ao me ver. Logo depois, eles me abraçam.

— Meus queridos, quanto tempo! — digo, devolvendo o abraço. — Que saudade de vocês!

Viro-me para a porta mais uma vez e vejo Susana, minha nora.

— Bom dia, Dona Joana! Tudo bem com a senhora? — ela fala, mas eu não presto muita atenção na pergunta, já que preciso fazer outra.

— Tiago?

— Ele não pôde vir. — Percebo que ela quis dizer que ele não quis vir, mas as crianças não devem saber disso. — Sinto muito.

Isso não deveria me surpreender, mas descubro que eu ainda tinha um pouco de esperança. Tinha.

— Podemos conversar? — Susana pergunta e eu aceno com a cabeça.

— Crianças, adivinhem quem tem seu bolo de cenoura preferido na cozinha?

Ambos meus netos correram para a cozinha, enquanto eu levava Susana para se sentar comigo na sala de estar.

— Você deve ter vindo em busca de uma explicação. Bem, deixe-me começar. Eu…

— Não, pare bem aí! Não quero uma explicação, acredito que você teve seus motivos e, agora, seus arrependimentos.

— Então, por que você está aqui?

— O passado é algo complicado. Ele nos forma como pessoas e constrói muitas memórias. Mas seu passado passou. O futuro é mais importante!

— E que futuro eu tenho? Estou velha para esse tipo de conversa. — Susana ri com meu comentário.

— Claro que não, Dona Joana. Você apenas está jovem há mais tempo. Ser jovem é um estado de espírito. Eu soube o que você fez nesses últimos dias. Não viva sua vida com base em dois dígitos! O modo como você vê sua vida influencia não só a você, mas também a seu filho, a seus netos… Então assegure-se que está vivendo bem! E, pelo amor de Deus, faça as pazes com seu filho! — ela olha para seu relógio e se levanta. — Bom, eu precisava te dizer isso, mas agora eu realmente preciso ir. Até mais, Dona Joana!

Minha nora sai com seus filhos e eu fico refletindo sobre suas palavras. Ela tem razão: Por muito tempo, me culpei por tudo que fiz. Eu sei quem sou, sei que não sou perfeita e tenho uma longa lista de erros, mas, agora, eu me aceito. Eu me perdôo.

Notas finais
Cobrar demais de nós mesmos e não nos perdoar por escolhas do passado são coisas bem comuns, mas devemos sempre lembrar de que isso não é tudo. Por mais que nos sintamos perdidos com nossas escolhas passadas, podemos sempre continuar a lutar. Lembrem-se que podem se perdoar s2